3 de junho de 2018

Capítulo 32

Não me obrigue a fazer isso
Eu sou doida, olha
Que eu faço... Ei! Não! Para!

AH, NÃO, TU não farás isso, zumbiu uma voz na minha cabeça.
Meu nobre gesto foi arruinado quando me dei conta de que, mais uma vez, eu tinha puxado a Flecha de Dodona por engano. Ela tremeu violentamente na minha mão, sem dúvida me fazendo parecer ainda mais apavorado do que eu já estava. Ainda assim, eu a segurei com firmeza.
Calígula estreitou os olhos.
— Você não faria isso. Jamais se sacrificaria, não tem essa capacidade!
— Solte todos eles agora. — Eu pressionei a flecha no peito com ainda mais força, o suficiente para cortar a pele. — Ou você nunca vai ser o deus do Sol.
A flecha zumbiu com fúria: MATA A TI MESMO COM OUTRO PROJÉTIL, PATIFE. ARMA COMUM DE MATAR EU NÃO SOU!
— Medeia! — gritou Calígula. — Se ele se matar dessa forma, você ainda consegue fazer sua magia?
— Você sabe que não — reclamou ela. — É um ritual complicado! Não podemos permitir que ele tenha uma morte descuidada assim antes que eu esteja preparada.
— Bom, isso é um tanto irritante. — Calígula suspirou. — Olha, Apolo, você não pode esperar que essa história tenha um final feliz. Eu não sou Cômodo. Não estou de brincadeira. Seja um bom menino e deixe Medeia matar você do jeito correto. Depois, prometo que vou dar a seus amiguinhos um fim indolor. É minha melhor oferta.
Algo me dizia que Calígula seria um péssimo vendedor.
Ao meu lado, Piper tremia no chão, desorientada, as sinapses cerebrais provavelmente corroídas pelas muitas pancadas que levara. Clave se embrulhara nas próprias orelhas. Jason continuou meditando dentro da coluna de detritos giratórios, embora eu não conseguisse imaginá-lo atingindo o nirvana naquelas circunstâncias.
Meg gritava e gesticulava para mim, talvez me dizendo para deixar de ser ridículo e baixar a flecha. Pela primeira vez, eu não conseguia ouvir as ordens dela, mas isso não me trouxe qualquer tipo de felicidade.
Os guardas do imperador se mantiveram em suas posições, segurando as lanças. Incitatus mastigava sua aveia tranquilamente, como se estivesse assistindo a um filme.
— Última chance — anunciou Calígula.
Em algum lugar atrás de mim, no alto da rampa, uma voz gritou:
— Meu lorde!
— O que foi, Flange? — perguntou o imperador. — Estou um pouco ocupado aqui.
— N-notícias, meu lorde.
— Depois.
— Lorde, é sobre o ataque no norte.
Fui tomado por uma onda de esperança. O ataque ao Acampamento Júpiter estava marcado para aquela noite. Minha audição não era tão boa como a de um pandos, mas a urgência histérica na voz de Flange deixava claro que ele não tinha boas notícias para o imperador.
A expressão de Calígula se transformou.
— Venha aqui, então. E não toque no idiota com a flecha.
pandos passou por mim e sussurrou alguma coisa no ouvido do imperador. Calígula poderia até se considerar um ótimo ator, mas não se saiu muito bem ao tentar esconder a repulsa.
— Que decepcionante. — Ele jogou os anéis de ouro de Meg no chão como se fossem pedrinhas sem valor. — Flange, sua espada, por favor.
— Eu… — Desajeitado, o pandos pegou sua khanda e a entregou ao imperador. — S-sim, senhor.
Calígula examinou a serra afiada da arma e, muito educado, a devolveu ao dono, cravando-a na barriga do pobre orelhudo. Aos berros, Flange se transformou em cinzas.
O imperador se virou para mim.
— Onde nós estávamos?
— Seu ataque ao norte — respondi. — Deu errado, é?
Não foi muito esperto da minha parte provocá-lo, mas foi mais forte do que eu. Assim como Meg McCaffrey, eu só queria ferir Calígula, destruir tudo que ele tinha até virar pó.
Ele ignorou minha pergunta.
— Já vi que vou ter que botar a mão na massa. Tudo bem. Era de se pensar que um acampamento de semideuses romanos obedeceria às ordens de um imperador romano, mas não.
— A Décima Segunda Legião tem um longo histórico de apoio aos bons imperadores — falei. — E de deposição dos ruins.
O olho esquerdo de Calígula tremeu.
— Coro, cadê você?
Um dos pandai que escovavam Incitatus parou o que estava fazendo na mesma hora.
— Sim, lorde?
— Convoque seus homens — disse Calígula. — Avise a todos que vamos encerrar a formação imediatamente e velejar para o norte. Temos que resolver algumas pendências na Baía.
— Mas, senhor… — Coro olhou para mim, como se avaliando se eu oferecia alguma ameaça e se deveria deixar o imperador sozinho comigo. — Sim, senhor.
O restante dos pandai saiu, e não havia mais ninguém para segurar o balde de ouro com aveia de Incitatus.
— Ei, Cezão — disse o corcel. — Você não está botando a carruagem na frente dos cavalos? Antes de partirmos para a guerra, você tem que concluir o serviço com Lester.
— Ah, eu vou fazer isso — prometeu Calígula. — Agora, Lester, nós dois sabemos que você não vai…
Ele avançou numa velocidade surpreendente e tentou pegar a flecha, mas eu já tinha pensado em tudo. Antes que ele conseguisse roubar a flecha, eu a enfiei no peito. Rá! Isso era para Calígula aprender a não me subestimar!
Queridos leitores, é preciso muita força de vontade para ferir a si mesmo de propósito. Não falo nem do tipo bom de força de vontade, e sim do tipo burro e descuidado que vocês nunca devem almejar ter, mesmo que para salvar seus amigos.
Quando me perfurei, fiquei chocado com a dor que senti. Por que se matar tinha que doer tanto? Meu tutano virou lava. Meus pulmões se encheram de areia quente e molhada. Com a camisa encharcada de sangue, caí de joelhos, ofegante e tonto. O mundo girou à minha volta como se a sala do trono tivesse se transformado numa grande prisão de ventus.
VILANIA!, a voz da Flecha de Dodona zumbiu na minha mente (e agora também no meu peito). NÃO CREIO QUE TU ME EMPALASTE AQUI! Ó CARNE VIL E MONSTRUOSA!
Uma parte distante do meu cérebro considerou aquela reclamação injusta, uma vez que era eu quem estava à beira da morte, mas eu estava fraco demais para discutir.
Calígula correu e segurou a flecha, mas Medeia gritou:
— Pare!
Ela disparou pela sala e se ajoelhou ao meu lado.
— Puxar a flecha pode piorar as coisas! — brigou ela.
— Ele enfiou uma flecha no peito — disse Calígula. — Como pode ficar pior?
— Tolo — murmurou ela. Eu não sabia se o comentário tinha sido dirigido a mim ou a Calígula. — Eu não quero que ele tenha uma hemorragia. — Ela tirou uma bolsinha de seda preta do cinto, pegou um frasco de vidro lá dentro e entregou a bolsa a Calígula. — Segure isso.
Ela então derramou o conteúdo do frasco no ferimento.
FRIO!, reclamou a Flecha de Dodona. FRIO! FRIO!
Eu não senti nada. O ferimento queimava, a dor lancinante se transformando em um latejar constante que se espalhava por todo o corpo. Eu podia estar errado, mas achei que não era um bom sinal.
Incitatus se aproximou.
— Nossa, ele fez isso mesmo. Por essa eu não esperava.
Medeia examinou a ferida e em seguida soltou um palavrão em cólquida antigo que difamava o passado amoroso de minha mãe.
— Esse idiota não é capaz nem de se matar direito — resmungou a feiticeira. — De alguma forma, ele errou o coração.
FUI EU, BRUXA!, entoou a flecha no meu peito. TU ACHAS QUE EU ME DISPORIA A SER FINCADA NO REPUGNANTE CORAÇÃO DE LESTER? EU DESVIEI E ESCAPEI DE TAMANHA HUMILHAÇÃO!
Por favor, depois me lembrem de agradecer à Flecha de Dodona. Ou espatifá-la.
O que fizer mais sentido no momento.
Medeia se virou para o imperador.
— Frasco vermelho, agora!
Calígula fez cara feia, nada feliz em ter que bancar o enfermeiro.
— Olha, eu nunca mexo na bolsa de uma mulher. Na de uma feiticeira, então, nem pensar.
Provavelmente esse fora o indício mais claro até o momento de que o homem era bastante são.
— Se você quer ser o deus do Sol — rosnou Medeia —, é melhor fazer o que estou mandando!
Calígula pegou o frasco.
Medeia derramou o conteúdo gosmento na mão direita. Com a esquerda, segurou a Flecha de Dodona e a arrancou do meu peito.
Eu urrei de dor. Minha visão escureceu. Meu peito parecia ter sido perfurado por uma britadeira. Quando recobrei os sentidos, o ferimento estava coberto por uma substância vermelha parecida com cera de depilação. A dor era excruciante, insuportável, mas pelo menos eu conseguia respirar.
Se eu não estivesse tão sofrido, teria aberto um sorrisão vitorioso. Eu tinha conhecimento dos poderes de cura de Medeia. A feiticeira era quase tão habilidosa quanto meu filho Esculápio, embora seu cuidado com os pacientes não fosse tão bom, e suas curas tendessem a envolver magia negra, ingredientes macabros e lágrimas de criancinhas.
É claro que eu não achava que Calígula libertaria meus amigos, mas torcia para que, distraída pela minha morte iminente, Medeia perdesse o controle dos venti. E foi o que aconteceu.
Aquela cena ficará para sempre gravada na minha mente: Incitatus olhando para mim, o focinho pontilhado de aveia; a feiticeira Medeia examinando meu ferimento, as mãos grudentas de sangue e cera mágica; Calígula de pé ao meu lado, a calça e os sapatos brancos esplêndidos salpicados com meu sangue; e Piper e Clave no chão, a presença deles momentaneamente esquecida por nossos captores. Até Meg parecia imóvel na sua prisão rodopiante, horrorizada com o que eu fizera.
Aquele foi o último momento antes de tudo dar errado, antes de nossa grande tragédia se desenrolar, quando Jason Grace esticou os braços, e as jaulas de vento explodiram.

4 comentários:

  1. TUDO DAR ERRADO? GRANDE TRAGÉDIA?! ERA AGORA QUE DEVIA TUDO DAR CERTO..
    Ahhh meu coração... errou o dele mas pode acertar o meu!!!!

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  2. Laíres de Deus câmara campos9 de junho de 2018 10:00

    vós podeis explicar-me... o que aconteceu aqui?! digamos que o ato de desviar do coração de Apolo foi até um gesto nobre da parte da flecha. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  3. Só eu que penso nesses pandai com as orelhas do tamanho da do jar jar binks

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    1. Daniela Tagarela Nascida do Toró7 de julho de 2018 18:11

      Eu também kkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!