9 de junho de 2018

Capítulo 31

NO DIA DA minha formatura, acordo cedo e fico na cama ouvindo os sons da casa despertando. Ouço papai no andar de baixo fazendo café; Margot está no chuveiro; Kitty ainda deve estar dormindo. Trina também. As duas gostam de dormir até mais tarde.
Vou sentir saudade desses sons de casa quando eu for embora. Uma parte de mim já está com saudade. A outra está tão, tão animada de dar esse novo passo, e eu nunca achei que fosse estar, não depois de as coisas não terem saído como eu esperava.

* * *

De presente de formatura, Margot me dá um kit de faculdade. Tem uma máscara de dormir de cetim rosa com meu nome bordado em azul-claro. Um pen drive no formato de um batom dourado. Protetores de ouvido que parecem amendoins, chinelos cor-de-rosa peludinhos, uma nécessaire de náilon com desenhos de laços. Adoro tudo.
Kitty faz um cartão bonito. É uma colagem de fotos nossas, mas ela usou algum aplicativo para transformar as fotos em desenho, como em um livro de colorir. Ela coloriu todas com lápis de cor. Dentro, escreveu: Parabéns. Se divirta na faculdade. P.S.: Vou sentir muita saudade.
Lágrimas surgem nos meus olhos, e abraço Kitty com força por tanto tempo que ela diz:
— Tá bom, tá bom. Chega.
Mas consigo ver que ela fica feliz.
— Vou emoldurar — declaro.
O presente que ganho de Trina é um jogo de chá vintage, creme com brotos de rosa cor-derosa e detalhes dourados.
— Era da minha mãe — diz ela, e sinto vontade de chorar de tanto que adorei.
Quando a abraço, eu sussurro no ouvido dela:
— É o meu presente favorito.
Ela pisca para mim. Piscar é um dos talentos de Trina. Ela é ótima nisso, muito natural.
Papai toma alguns goles de café e pigarreia.
— Lara Jean, meu presente de formatura vai ter que ser compartilhado com Margot e Kitty.
— O que é, o que é? — insiste Kitty.
— Shh, o presente é meu — digo, olhando para papai com expectativa.
Papai abre um sorriso.
— Vou mandar as três para a Coreia com a vovó este verão. Feliz formatura, Lara Jean!
Kitty grita e Margot abre um sorriso e eu estou em choque. Estamos falando de ir à Coreia há anos. Mamãe sempre quis nos levar.
— Quando, quando? — pergunta Kitty.
— Mês que vem — diz Trina, sorrindo para ela. — Seu pai e eu vamos viajar em lua de mel e vocês vão para a Coreia.
Mês que vem?
— Ah, vocês não vêm? — Kitty faz beicinho. Margot, por outro lado, está radiante. Ravi vai visitar a família na Índia durante o verão, e ela não tem planos.
— Nós queríamos ir, mas não posso ficar tanto tempo longe do hospital — diz papai, chateado.
— Por quanto tempo? — pergunto. — Por quanto tempo vamos ficar lá?
— Durante todo o mês de julho — diz papai, tomando o resto do café. — Sua avó e eu já organizamos tudo. Vocês vão ficar com sua tia-avó em Seul, vão fazer aulas de coreano algumas vezes por semana e também vão fazer um passeio pelo país. Jeju, Busan, tudo. E, Lara Jean, tem uma coisa especial para você: uma aula de doces coreanos! Não se preocupe, vai ser em inglês.
Kitty começa a fazer uma dancinha na cadeira.
Margot se vira para mim com os olhos brilhando.
— Você sempre quis saber como fazer bolos cremosos coreanos! Nós vamos comprar máscaras faciais e papéis de carta e coisas fofas todos os dias. Quando voltarmos, vamos poder ver programas coreanos sem legenda!
— Mal posso esperar — respondo, e Margot, Kitty e papai começam a discutir a logística da viagem, mas Trina olha para mim com atenção. Mantenho o sorriso no rosto.
Um mês inteiro. Quando eu voltar, já vai estar quase na hora de ir para a faculdade, e Peter e eu vamos ter passado o verão separados.

* * *

Na formatura, todas as garotas vão de vestido branco. Tudo branco. Estou usando o vestido de Margot de dois anos antes, sem mangas com poás e uma saia reta até os joelhos. Trina fez bainha para mim porque sou mais baixa. Margot usou tênis All Star, mas estou usando sandálias brancas de couro de tiras e alguns furinhos.
No carro, eu estico a saia e digo para Kitty:
— Você também pode usar este vestido na sua formatura de ensino médio, gatinha. E tirar uma foto ao lado do carvalho, como nós. Seria um tríptico lindo.
Eu me pergunto que sapatos Kitty vai usar. Ela tem a mesma chance de usar saltos quanto de usar tênis ou patins brancos.
Kitty faz uma cara de limão azedo.
— Não quero usar o mesmo vestido que você e Margot. Eu quero meu vestido. Além do mais, vai estar muito fora de moda quando chegar a época. — Ela faz uma pausa. — O que é um tríptico?
— São, hã, três peças de arte que se juntam e formam uma. — Furtivamente, eu digito “tríptico” no celular para ter certeza de estar dizendo a coisa certa. — Tipo três painéis um do lado do outro. Feitos para serem apreciados juntos.
— Você está lendo no celular.
— Só estava confirmando.
Eu ajeito o vestido de novo e verifico se o capelo está na bolsa. Vou me formar no ensino médio hoje. Parece que essa coisa toda — crescer — aconteceu muito rápido. No banco do motorista, Trina procura uma vaga, e Margot está ao lado dela digitando no celular. Kitty, ao meu lado, olha pela janela. Papai foi em outro carro para poder buscar nossa avó materna. A mãe de papai, Nana, está na Flórida com o namorado e não vai poder vir. Eu só queria que minha mãe estivesse aqui. São tantos momentos importantes que ela perde e sempre vai perder.
Mas tenho que acreditar que ela sabe, que de alguma forma ainda vê. Porém, eu também queria poder ganhar um abraço da minha mãe na minha formatura.

* * *

Durante todo o discurso do orador da turma, fico procurando a família de Peter na plateia. Queria saber se o pai dele está sentado ao lado do irmão dele e da mãe ou separadamente. Eu me pergunto se também vou conhecer os dois meios-irmãos de Peter. Já encontrei minha família, é difícil não ver. Cada vez que olho na direção deles, todos acenam como loucos. Além do mais, Trina está usando um chapéu de aba larga. A pessoa sentada atrás dela não deve conseguir ver nada. Margot precisou de muito autocontrole para não revirar os olhos quando Trina desceu a escada usando o chapéu. Até Kitty disse que era “meio exagerado”, mas Trina me perguntou o que eu achei, e eu respondi que adorei, e gostei mesmo.
Nosso diretor chama meu nome, “Lara Jean Song Covey”, mas ele pronuncia Laura em vez de Lara, o que me faz hesitar por um segundo.
Quando recebo meu diploma e aperto a mão dele, eu sussurro:
— É Lara, não Laura.
Meu plano era mandar um beijo para a minha família ao atravessar o palco, mas fico tão nervosa que esqueço. No meio dos aplausos, escuto os gritos de Kitty, o assobio de papai.
Quando é a vez de Peter, eu bato palmas e grito como louca, e é claro que todo mundo faz o mesmo. Até os professores o aplaudem. É tão óbvio quando os professores têm favoritos. Não que eu possa culpá-los por amarem Peter. Todos amam.
Depois que somos declarados formados e jogamos nossos capelos para o alto, Peter passa no meio da multidão para me encontrar. Conforme anda pelas pessoas, ele sorri, faz piadas, diz oi para alguns, mas sinto que tem alguma coisa errada. O olhar dele está sem brilho, até na hora que ele me puxa para um abraço.
— Oi — diz Peter, me dando um beijo leve nos lábios. — Somos oficialmente universitários agora.
Olhando ao redor, eu ajeito a beca e digo:
— Não vi sua mãe nem Owen na plateia. Seu pai está com eles? Seus irmãos estão aqui? Devo ir lá agora ou depois de tirar fotos com a minha família?
Peter balança a cabeça. Ele não olha para mim.
— Meu pai não pôde vir.
— O quê? Por quê?
— Teve algum tipo de emergência. Sei lá.
Estou perplexa. O pai dele parecia tão sincero quando o vi no jogo de lacrosse.
— Espero que tenha sido uma emergência de verdade para ele perder a formatura de ensino médio do próprio filho.
— Tudo bem. — Peter dá de ombros como se não se importasse. Mas sei que não é verdade. O maxilar dele está tão tenso que ele poderia quebrar os dentes.
Por cima do ombro dele, vejo minha família se aproximando no meio da multidão. Não dá para não ver o chapéu de Trina, mesmo no meio de tanta gente. Meu pai está carregando um buquê enorme de rosas de várias cores. Vovó usa um terno cor de cranberry, e o cabelo tem um permanente recente.
Sinto tanta pressa, anseio tanto ter mais tempo com Peter, para consolá-lo, ficar ao lado dele. Eu seguro a mão dele.
— Sinto muito — digo, e quero dizer mais, claro que quero, mas minha família chega, e todo mundo me abraça. Peter diz oi para minha avó e tira algumas fotos conosco antes de fugir para ficar com a mãe e o irmão. Eu o chamo, mas Peter está muito longe e não se vira.
Depois que tiramos fotos, papai, Trina, vovó, Kitty, Margot e eu vamos almoçar em um restaurante japonês. Pedimos pratos e mais pratos de sashimi e sushi, e eu coloco um babador de papel para o molho de soja não respingar no vestido branco. Trina se senta ao lado da vovó e tagarela no ouvido dela sobre todo tipo de coisa, e só consigo ouvir vovó pensando Caramba, essa garota fala muito! Mas ela está tentando, e é isso que vovó aprecia. Estou me esforçando para ser festiva e tentando aproveitar o momento, pois esse almoço é em minha homenagem, mas só consigo pensar em Peter e em quanto estou chateada por ele.
Na hora do sorvete de mochi de sobremesa, vovó nos conta sobre os lugares aonde quer nos levar na Coreia: os templos budistas, as feiras a céu aberto, a clínica de estética onde ela vai tirar os sinais com laser. Ela aponta para um sinal pequenininho na bochecha de Kitty.
— Vamos cuidar disso aí.
Papai parece alarmado, e Trina pergunta rapidamente:
— Ela não é muito nova?
Vovó balança a mão.
— Ela vai ficar bem.
— Quantos anos a gente tem que ter para fazer plástica no nariz na Coreia? — pergunta Kitty.
Papai quase engasga com a cerveja.
Vovó olha para ela de forma ameaçadora.
— Você nunca, em hipótese alguma, pode mudar seu nariz. Você tem um nariz da sorte.
Kitty toca no nariz com cautela.
— Tenho?
— De muita sorte — afirma vovó. — Se você mudar seu nariz, vai perder sua sorte. Nunca faça isso.
Eu toco no meu nariz. Vovó nunca disse que meu nariz dava sorte.
— Margot, você pode fazer óculos novos na Coreia — diz vovó. — Os óculos são baratos lá. Tem tudo que está na moda.
— Legal — diz Margot, mergulhando um pedaço de atum no molho de soja. — Sempre quis uma armação vermelha.
Vovó se vira para mim.
— E você, Lara Jean? Está animada para a aula de culinária?
— Muito animada.
Por baixo da mesa, mando uma mensagem para Peter.
Você está bem?
Estamos quase terminando o almoço.
Pode ir lá para casa quando quiser.

* * *

No caminho do restaurante até em casa, estamos só eu e papai no carro, porque Trina, Margot e Kitty foram levar vovó em casa. Quando Margot disse que viria conosco, a vovó insistiu para que fosse com elas. Ela sabe que Margot não gosta muito de Trina; sei que só está tentando fazer as duas se aproximarem um pouco. Vovó não perde uma.
No caminho, papai olha para mim do banco do motorista com olhos marejados e diz:
— Sua mãe teria sentido tanto orgulho de você hoje, Lara Jean. Você sabe quanto ela se preocupava com seus estudos. Ela queria que você tivesse todas as oportunidades.
Eu passo o dedo na borla do capelo que está no meu colo.
— Você acha que mamãe ficou triste por não ter chegado a fazer o mestrado? Não acho que ela tenha se arrependido de ter tido Kitty nem nada. Mas você acha que ela queria que as coisas tivessem sido diferentes?
Ele é pego de surpresa pela minha pergunta. Olhando para mim, diz:
— Bem, não. Kitty foi uma surpresa muito feliz. Não estou falando por falar. Nós sempre quisemos uma família grande. E ela planejava voltar para o mestrado depois que Kitty estivesse na creche em tempo integral. Ela nunca desistiu desse plano.
— Não?
— Não mesmo. Ela ia terminar o mestrado. Na verdade, ia fazer uma aula naquele outono. Sua mãe só… não teve tempo. — A voz de papai engasga um pouco. — Nós só tivemos dezoito anos juntos. Tivemos o tempo que você tem de vida, Lara Jean.
Um nó se forma na minha garganta. Se parar para pensar, dezoito anos com a pessoa que você ama não é muito tempo.
— Papai, podemos parar no mercado? Quero comprar papel fotográfico.
Peter e eu tiramos uma foto juntos usando a beca hoje de manhã, antes da cerimônia. Vai ficar na última página do scrapbook, nosso último capítulo do ensino médio.

11 comentários:

  1. Pq eu n tenho essa sorte?!!! TBM QUERO IR PRA COREIAAA!!!! :(

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  2. Já está batendo aquela saudade...Esse clima de despedida...:(

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  3. Como que a mãe dela morreu?

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    1. Ela bateu a cabeça,teve um momento lucido e foi dormir e ñ acordou mais...

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  4. Se eles eram casados a 18 anos, e Margot tem 20 anos, Lara Jean 18 e Kitty 11, quando eles tiveram Margot, ainda não eram casados né?! Ele quis dizer que são casados a 18 anos? Mais estao juntos a mais tempo?

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    1. não, mano. eles não se casaram há dezoito anos. ele disse que dezoito anos foi o tempo que eles passaram juntos. a mãe dela já morreu faz tempo. não está contando o tempo que ele passou sem ela, depois que ela morreu. tipo, a lara jean começou a namorar o peter no segundo ano, e agora tá terminando o terceiro. então eles passaram uns dois anos juntos. o pai e a mãe da lara jean passaram 18 anos juntos.

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  5. A mãe dela morreu bem antes de ela ter 18 anos, por isso o pai fala que só ficou 18 anos com ela, ele não conta com o tempo de depois que ela morreu.

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  6. Essa viagem pr Coreia... vai dar treta

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    1. Foi o que pensei também.
      Um mês longe de Peter e depois vão para a faculdade.
      Sei lá...🤐

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Boa leitura, E SEM SPOILER!