26 de junho de 2018

Capítulo 31

Na manhã seguinte, Helen chegou de helicóptero para buscar Gansey e Adam. Quando eles decolaram, Adam apoiou a cabeça nas mãos, os olhos vidrados de terror, e Gansey, costumeiramente fã de voar, tentou ser compreensivo. Sua cabeça era uma confusão de carros em chamas, rodas de Camaro antigas e a desconstrução de tudo que Blue havia lhe dito.
Lá embaixo, ele ainda podia ver Ronan deitado no teto do BMW, observando-os decolar. Parecia ridículo deixar Henrietta, o epicentro do universo, para ir à casa de seus pais.
Quando alçaram voo, passando sobre o telhado da Monmouth, Gansey viu de relance uma última imagem de Ronan lhe mandando sarcasticamente um beijo antes de virar a cabeça.
No entanto, o resto do voo não deixou tempo para introspecção. Helen deu a Gansey seu telefone e passou o voo inteiro ditando textos através dos fones de ouvido. Era impossível para Gansey ponderar o que eles fariam a respeito de Cabeswater quando a voz de Helen soava diretamente em sua cabeça: “Diga a ela que os centros de mesa estão na garagem. A vaga mais distante da casa. É claro que não onde o Adenauer está estacionado! Eu tenho cara de idiota? Não digite isso. O que ela está dizendo agora? As taças de champanhe extras estão sendo entregues pela Chelsea. Diga a ela que, se o queijo não está na geladeira, eu não sei onde está. Você não tem o celular da Beech? É claro que eu sei o que é vegano! Diga a ela que eles precisam usar azeite em vez de manteiga. Porque vacas fazem manteiga e italianos fazem azeite! Ótimo! Diga que vou pegar alguns petiscos veganos. Veganos também votam! Não digite isso”.
Se Gansey já não tivesse adivinhado o teor da festa, durante o voo teria recolhido todos os indícios de que precisava. É claro, não seria apenas a festa daquela noite. Haveria também o chá na manhã seguinte e o discurso no clube do livro um dia depois.
Adam parecia prestes a vomitar. Gansey queria muito lhe dizer que tudo ia ficar bem, mas não tinha como ser discreto usando fones de ouvido. Adam ficaria mortificado se Helen soubesse como ele estava nervoso.
Quarenta e cinco minutos mais tarde, Helen pousou o helicóptero no campo de pouso e transferiu a si mesma, a bagagem de mão, os garotos e seus ternos embrulhados para seu Audi prata.
Gansey se sentia vagamente perturbado por estar de volta ao norte da Virgínia. Como se ele nunca tivesse partido. O sol parecia mais inclemente sobre as traseiras de todos os carros limpos e novos, e o ar que passava pelas ventilações cheirava a descarga e a alguém preparando algo na cozinha. Vários arquipélagos de lojas transpassavam mares de asfalto. Parecia que havia luzes de freio por toda parte, mas nada realmente imóvel.
Em busca dos aperitivos, Helen conseguiu encontrar uma vaga para parar o carro nos fundos do estacionamento da Whole Foods. Ela se virou e encarou Gansey e Adam.
— Vocês querem vir junto e me ajudar?
Eles a olharam fixamente.
— Estou chocada. Vou deixar o motor ligado — ela disse.
Tão logo ela bateu a porta, Gansey se virou no banco do passageiro para encarar Adam no banco de trás, descansando o rosto contra o couro frio do apoio de cabeça.
— Como você está?
Adam havia se fundido ao longo do comprimento do banco de trás. Ele disse:
— Rezando que eu não tenha crescido do ano passado pra cá.
Gansey tinha ido com Adam tirar as medidas para um terno no inverno anterior. Ele disse:
— Eu experimentei o meu antes de partirmos. Não acho que você tenha ficado mais alto. Só se passaram alguns meses.
Adam fechou os olhos.
— Você vai se sair bem.
— Nem fale nisso. Não posso... — Adam deslizou mais ainda no banco. Ele estava deitado agora, as pernas apoiadas na porta do outro lado. — Fale de outra coisa.
— O que mais tem para falar?
Blue.
Ele não disse nada. Corta essa, Gansey.
Adam perguntou:
— Malory? Ele te deu um retorno?
Ele não tinha dado. Gansey discou o número de Malory. Ele ouviu o toque duplo, baixinho, de um telefone no Reino Unido, e então Malory atendeu:
— O quê?
Ele parecia confuso que seu telefone tivesse aceitado uma chamada. Havia um ruído tremendo, indefinido, ao fundo.
— É o Gansey. Liguei em uma hora ruim?
— Não, não, não. Não, não.
Gansey colocou o telefone no viva-voz e o largou sobre o painel do carro.
— Você por acaso pensou em mais alguma coisa? Não? Bem, nós temos um novo problema.
— Qual é o problema?
Gansey contou para ele.
— Deixe-me pensar um pouco — disse Malory. Uma comoção zunia na linha. Um guincho pavoroso se fez ouvir.
— Mas que diabos é esse barulho?
— Pássaros, Gansey, o rei dos pássaros.
Gansey trocou um olhar com Adam.
— Uma águia?
— Não blasfeme. Pombos! É o campeonato regional hoje. Eu costumava exibi-los, sabia? Não tenho tempo ultimamente, mas eu ainda adoro a visão de um pombo ornamental voorburg de qualidade.
— Uma exposição de pombos — disse Gansey.
— Se você pudesse ver, Gansey!
Do outro lado da linha, um alto-falante ressoou.
A boca de Adam se curvou, e Gansey sugeriu:
— Pombos ornamentais voorburg.
— Tem muito mais para ver aqui — respondeu Malory. — Muito mais do que os voorburgs.
— Me diga o que você está vendo nesse instante.
Malory estalou os lábios — ele era realmente a pessoa mais difícil do mundo para se falar ao telefone — e considerou.
— Estou vendo... Qual será a raça deste? Um tumbler do oeste da Inglaterra. Acho que é. Sim. Um exemplar adorável. Você precisa ver as penas nas patas dele. Bem ao lado dele há um pombo do campo thuringen pequenino, terrível. Eu nunca tive um, mas estou bastante convicto de que não deveriam ter aquele pescoço de cavalo horroroso. Não faço ideia do que seja esse aqui. Vamos ler a ficha. Ringbeater da Anatólia. É claro. Ah, e esse é um homer beleza alemã.
— Ah, são os meus favoritos — disse Gansey. — Sou fã de um belo homer beleza alemã.
— Gansey, não brinque comigo — disse Malory severamente. — Essas coisas parecem malditos papagaios-do-mar.
O corpo de Adam tremeu em convulsões silenciosas de riso.
Gansey levou um momento para recuperar o fôlego antes de perguntar:
— E o que é esse barulho aí no fundo?
— Deixe-me dar uma olhada — respondeu Malory. Houve um estalido, e então sua voz, bem mais alta que antes, disse: — Eles estão leiloando alguns pássaros.
— De que tipo? Por favor, não vá me dizer que são homers beleza alemã.
Adam, completamente descontrolado, mordeu a mão. Mesmo assim, pequenos arquejos ainda escaparam.
— Pouters pigmeus — respondeu Malory. — Exuberantes!
Gansey pronunciou Blue em silêncio para Adam, que soltou um gemido de riso desamparado.
— Você nunca me levou a nenhuma exposição de pombos quando eu estava aí — disse Gansey de maneira reprovadora.
— Nós tínhamos outras coisas para fazer, Gansey! — disse Malory. — Como agora. Eis o que eu penso sobre a linha ley. Acho que a sua floresta é como uma aparição, se eu tivesse que dar um palpite sobre essas coisas. Sem uma fonte sólida de energia, uma aparição só pode oscilar.
— Mas nós despertamos a linha ley — respondeu Gansey. — Ela é tão forte às vezes que estoura os transformadores aqui.
— Ah, mas você disse que a eletricidade cai também, não é?
Gansey concordou relutantemente. E agora ele estava pensando em Noah desaparecendo na Dollar City.
— Então você vê que a sua floresta pode ser deixada à míngua, assim como pode ser alimentada em excesso. Por Deus, homem, tome cuidado com essa coisa! Desculpe! Você devia estar mesmo! Eu também lamentaria se tivesse de assumir a propriedade dessa monstruosidade! Esse pescoço de salsicha... Dê licença você! — Houve um tumulto, e então Malory disse: — Desculpe, Gansey. Tem cada um! Acho que você precisa encontrar uma maneira de estabilizar a linha. As altas de tensão eu esperaria, mas certamente não as interrupções.
— Alguma sugestão?
— Eu pensei em várias possibilidades agora mesmo — disse Malory. — Eu gostaria de ver essa sua linha. Você se importaria se um dia...?
— Você é bem-vindo a qualquer momento — disse Gansey, e ele estava sendo sincero. Apesar de todos os defeitos, Malory ainda era o aliado mais antigo de Gansey.
Ele havia conquistado isso.
— Excelente, excelente. Agora, se você me dá licença — disse Malory — acabei de ver um par de croppers escudo.
Eles se despediram. Gansey virou os olhos para Adam, que se parecia mais consigo mesmo agora do que parecera nos últimos tempos. Silenciosamente, ele prometeu que faria o que estivesse a seu alcance para mantê-lo daquele jeito.
— Bem. Não sei dizer até que ponto isso ajudou.
— Ficamos sabendo que homers beleza alemã parecem malditos papagaios-do-mar — disse Adam.


A primeiríssima coisa que Ronan fez depois que Gansey partiu foi pegar as chaves do Camaro. Ele não tinha outro plano imediato a não ser ver se elas realmente se encaixavam na ignição.
No sol do verão, o Pig brilhava como uma joia na grama alta e no cascalho. Ronan colocou a mão sobre o painel traseiro e escorregou a palma ligeiramente sobre o teto.
Até isso parecia proibido; havia tanto de Gansey naquele carro que parecia que, em algum lugar, Gansey seria capaz de sentir essa pequena transgressão. Quando Ronan levantou a mão, ela estava coberta de verde. Ele ficou encantado com os detalhes do momento. Era algo de que ele precisava se lembrar, quando sonhasse. Aquele sentimento do instante: o coração palpitando, o pólen grudando na ponta dos dedos, o suor de julho fazendo brotar suor em seu peito, o cheiro da gasolina e da churrasqueira de outra pessoa. Cada folha de grama era distinguida detalhadamente. Se Ronan pudesse sonhar como se sentia naquele momento, poderia tirar qualquer coisa do sonho.
Poderia tirar aquele maldito carro inteiro.
Ele colocou a chave na porta.
Ela encaixou.
Ele a virou.
A tranca abriu.
Um sorriso estava surgindo em sua boca, embora não houvesse ninguém para vê-lo.
Especialmente porque não havia ninguém para vê-lo.
Ronan afundou no banco do motorista. O vinil estava infernalmente quente no sol, mas ele apenas guardou aquela informação. Era mais uma sensação que tornava o momento real em vez de um sonho. Lentamente, ele correu um dedo em torno da direção fina e pousou a palma sobre o câmbio liso.
O coração de Gansey pararia se ele visse Ronan Lynch ali.
A não ser que a chave não funcionasse na ignição.
Ronan colocou os pés na embreagem e no freio, inseriu a chave e a virou.
O motor rugiu para a vida.
Ronan abriu um largo sorriso.
Bem na hora, seu telefone vibrou e uma mensagem entrou. Ele o escorregou para fora do bolso. Kavinsky. minhas rodas novas vão te deixar maluco, te vejo às 11 da noite.


Uma hora mais tarde, Noah abriu a porta da Indústria Monmouth para Blue. O sol havia tornado o espaço vasto e bolorento e adorável. O ar quente, preso, tinha cheiro de madeira antiga, hortelã e dez mil páginas sobre Glendower. Embora Gansey tivesse saído apenas por algumas horas, subitamente parecia mais tempo, como se aquilo fosse tudo que tivesse sobrado dele.
— Onde está o Ronan? — ela sussurrou, enquanto Noah fechava a porta.
— Se metendo em confusão — ele sussurrou de volta. Era estranho estar ali sem mais ninguém: falar parecia algo um pouco proibido. — Nada que a gente possa fazer a respeito.
— Tem certeza? — Blue murmurou. — Eu posso fazer um monte de coisas.
— Não quanto a isso.
Ela hesitou junto à porta. Parecia uma invasão sem Gansey e Ronan ali. O que ela queria era de alguma forma enfiar a Indústria Monmouth inteira em sua cabeça e mantê-la ali. Ela sentia um desejo ansioso.
Noah estendeu a mão. Ela a aceitou — estava fria como um osso, como sempre —, e juntos eles se viraram para a sala enorme. Noah respirou fundo, como se eles estivessem se preparando para explorar a mata em vez de avançar mais para dentro da Indústria Monmouth.
Ela parecia maior com apenas os dois ali. O teto tomado de teias de aranha se elevava para o alto, grãos de poeira formando mobiles acima. Eles viraram a cabeça de lado e leram os títulos dos livros em voz alta. Blue espiou Henrietta pelo telescópio. Noah audaciosamente recolocou no lugar um dos telhados em miniatura da maquete da cidade de Gansey. Eles viram o que havia dentro da geladeira enfiada no banheiro. Blue escolheu um refrigerante. Noah pegou uma colher plástica. Ele a mordia enquanto Blue alimentava Motosserra com um hambúrguer que sobrara. Eles fecharam a porta de Ronan — se Gansey ainda habitava o resto do apartamento, a presença de Ronan ainda estava entranhada resolutamente em seu quarto. Noah mostrou a Blue o quarto dele. Eles pularam sobre a cama perfeitamente arrumada e então jogaram uma partida ruim de sinuca. Noah se jogou no sofá novo, enquanto Blue persuadia o velho toca-discos a tocar um LP sofisticado demais para interessar a qualquer um deles. Eles abriram todas as gavetas na mesa da sala principal. Um dos autoinjetores de adrenalina rolou no interior da gaveta mais alta no momento em que Blue pegava uma caneta chique. Ela copiou a letra pesada de Gansey em um recibo do Nino’s, enquanto Noah colocava um suéter de mauricinho que encontrara enfiado debaixo da mesa. Ela mastigou uma folha de hortelã e bafejou no rosto de Noah.
Curvando-se, eles avançaram lateralmente ao longo da foto aérea impressa que Gansey havia espalhado por todo o quarto. Ele havia feito anotações enigmáticas para si mesmo por toda a margem. Algumas eram coordenadas. Algumas eram explicações da topografia. Algumas eram letras dos Beatles.
Por fim, eles observaram a cama de Gansey, que era apenas um colchão mal arrumado sobre uma caixa de molas, numa armação de metal. Ele ficava em um quadrado de luz do sol no meio do quarto, virado em ângulo, como se tivesse sido jogado contra o prédio. Sem discussão, eles se deitaram encolhidos sobre o cobertor, cada um pegando um travesseiro de Gansey. Parecia algo ilícito e preguiçoso. Com o rosto perto do de Blue, Noah piscou os olhos cheios de sono para ela. Blue levou um punhado da ponta do lençol até o nariz. Cheirava a hortelã e relva, o que era o mesmo que dizer: a Gansey.
Enquanto eles cozinhavam ao sol, ela se deixou pensar: Eu tenho uma queda por Richard Gansey.
De certa maneira, era mais fácil que fingir que não. Ela não podia fazer nada a respeito, é claro, mas se deixar pensar naquilo era como furar uma bolha.
É claro, a verdade oposta era também bastante óbvia.
Eu não tenho uma queda por Adam Parrish.
Ela suspirou.
Noah disse com a voz abafada:
— Às vezes finjo que sou como ele.
— Qual parte?
Ele considerou.
— Vivo.
Blue passou um braço sobre o pescoço frio de Noah. Não havia realmente nada para dizer que tomasse estar morto melhor.
Por alguns minutos sonolentos, eles ficaram em silêncio, aninhados nos travesseiros, e então Noah disse:
— Fiquei sabendo que você não quer beijar o Adam.
Ela virou o rosto para o travesseiro, as faces quentes.
— Bom, eu não estou nem aí — disse Noah. Com certo prazer, ele conjeturou: — Ele cheira mal, é isso?
Blue se virou para ele.
— Ele não cheira mal. Desde pequena, toda médium que eu conheço me diz que, se eu beijar meu verdadeiro amor, ele vai morrer.
Noah franziu o cenho, ou pelo menos a metade dele que não estava enterrada no travesseiro. Ela nunca vira o nariz dele tão torto como agora.
— O Adam é o seu verdadeiro amor?
— Não — disse Blue. Ela se sobressaltou com a rapidez da resposta. Ela não conseguia deixar de ver o lado afundado da caixa que ele chutara. — Quer dizer, não sei. Eu simplesmente não beijo ninguém, para não ter erro.
Estar morto tornava Noah uma pessoa com a mente mais aberta que a maioria das pessoas, então ele não se incomodou com a dúvida dela.
— A questão é quando ou se.
— Como assim?
— Tipo, se você beijar o seu verdadeiro amor, ele vai morrer — ele disse — ou quando você beijar o seu verdadeiro amor, ele vai morrer?
— Não vejo diferença.
Ele esfregou o lado do rosto sobre o travesseiro.
— Humm, fofo — observou, então acrescentou: — Numa situação, a culpa é sua. Na outra, você simplesmente está ali quando acontece. Tipo, quando você o beija, bum!, um urso acerta ele. Totalmente não sua culpa. Você não precisa se sentir mal com isso. O urso não é seu.
— Acho que é se. Elas todas dizem se.
— Que droga. Então você nunca vai beijar ninguém?
— Parece que não.
Noah esfregou a mancha sobre o rosto. Ela não saiu. Nunca saía. Ele disse:
— Eu sei de alguém que você poderia beijar.
— Quem? — Ela percebeu os olhos divertidos dele. — Ah, espere.
Ele deu de ombros. Noah talvez fosse a única pessoa que Blue conhecia que podia preservar a integridade de um menear de ombros mesmo deitado.
— Não é tipo... como se você fosse me matar. Quer dizer, se você tiver curiosidade.
Ela não achava que tinha curiosidade. Não havia sido uma opção, afinal. Não poder beijar ninguém parecia muito com ser pobre. Ela procurava não pensar muito sobre as coisas que não podia ter.
Mas agora...
— Tudo bem — ela disse.
— O quê?
— Eu disse tudo bem.
Ele corou. Ou melhor, como estava morto, ficou com uma cor normal.
— Hum. — Noah se apoiou em um cotovelo. — Bom... — Ela desenterrou o rosto do travesseiro. — Só, tipo...
Ele se inclinou na direção dela. Blue sentiu um frêmito por meio segundo. Não, mais como um quarto de segundo. Porque depois disso ela sentiu o franzir firme demais dos lábios tensos dele. A boca de Noah se misturou à dela até encontrar os dentes. A coisa toda foi ao mesmo tempo viscosa, coceguenta e hilária.
Os dois expiraram com um riso envergonhado. Noah disse:
— Blé!
Blue considerou limpar a boca, mas achou que seria grosseiro. Tudo aquilo fora um tanto decepcionante.
— Bem... — ela disse.
— Espere — respondeu Noah —, espere espere espere. — Ele tirou um fio de cabelo de Blue da boca. — Eu não estava pronto.
Ele balançou as mãos como se os lábios de Blue fossem um evento esportivo e ter uma câimbra fosse uma possibilidade muito real.
— Vai — disse Blue.
Dessa vez, eles chegaram a apenas uma respiração dos lábios um do outro quando ambos começaram a rir. Ela eliminou a distância e foi recompensada com outro beijo que parecia muito com beijar uma máquina de lavar louça.
— Estou fazendo algo errado? — ela sugeriu.
— Às vezes é melhor com a língua — ele respondeu vagamente.
Eles olharam um para o outro.
Blue semicerrou os olhos:
— Você tem certeza que já fez isso antes?
— Ei! — ele protestou. — É esquisito para mim porque é você.
— Bom, é esquisito para mim porque é você.
— A gente pode parar.
— Talvez a gente deva mesmo.
Noah se ergueu mais sobre o ombro e mirou o teto vagamente. Finalmente, baixou o olhar de volta para ela.
— Você já viu, tipo, nos filmes. Os beijos, certo? Seus lábios precisam estar, tipo, querendo ser beijados.
Blue tocou a própria boca.
— O que eles estão fazendo agora?
— Tipo, se preparando para o pior.
Ela apertou e soltou os lábios. Blue entendeu o que ele queria dizer.
— Então imagine um desses — sugeriu Noah.
Blue suspirou e procurou na memória até encontrar um que servisse. Não era um beijo de filme, no entanto. Era o beijo que a árvore dos sonhos havia mostrado a ela em Cabeswater. O primeiro e único beijo dela e de Gansey, um pouco antes de ele morrer.
Ela pensou na linda boca dele quando ele sorria. Nos olhos afetuosos quando ele ria. Blue fechou os olhos.
Apoiando um cotovelo do outro lado da cabeça dela, Noah se aproximou e a beijou mais uma vez. Dessa vez, foi mais um pensamento que um sentimento, um calor suave que começou na boca e se propagou pelo resto do corpo dela.
Uma mão fria escorregou por trás do pescoço de Blue, e ele a beijou de novo, os lábios abertos. Não era apenas um toque, uma ação. Era a simplificação de ambos: eles não eram mais Noah Czerny e Blue Sargent. Agora eram apenas ele e ela. Nem isso. Apenas o tempo que sustentavam entre si.
Ah, pensou Blue. Então é isso que eu não posso ter.
Não poder beijar quem quer que ela estivesse apaixonada não parecia muito diferente de não ter um celular quando todo mundo na escola tinha. Não parecia muito diferente de saber que ela não ia estudar ecologia em uma faculdade no exterior, ou ir para o exterior e ponto-final. Não parecia muito diferente de saber que Cabeswater seria a única coisa extraordinária em sua vida.
O que era o mesmo que dizer que era insuportável, mas ela tinha de suportar de qualquer jeito.
Porque não havia nada terrível a respeito de beijar Noah Czerny, fora ele ser frio. Blue deixou que ele a beijasse, e o beijou de volta até que ele se afastou, se apoiando em um cotovelo e desajeitadamente secando algumas lágrimas dela com o dorso da mão. Sua mancha havia ficado bastante escura, e ele estava tão frio que Blue teve um arrepio.
Ela abriu um sorriso úmido para ele.
— Foi muito bom.
Ele deu de ombros, os olhos tristes, os ombros voltados para dentro. Noah estava desaparecendo. A questão não era que ela pudesse ver através dele. A questão era que ela tinha dificuldade de lembrar como ele era, mesmo enquanto olhava para ele. Quando ele virou a cabeça, Blue o viu engolir. Ele murmurou:
— Eu convidaria você para sair, se estivesse vivo.
Nada era justo.
— Eu aceitaria.
Ela só teve tempo de vê-lo sorrir ligeiramente. E então ele desapareceu.
Blue rolou de costas no meio da cama subitamente vazia. Acima dela, as vigas brilhavam com o sol de verão. Ela tocou a própria boca. Parecia do mesmo jeito de sempre. Não parecia que ela tinha dado seu primeiro e último beijo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!