3 de junho de 2018

Capítulo 31

Vou te dar meu coração
Ei! Que faca é essa?
Era só uma metáfora!

EU CONSEGUIA LISTAR inúmeras qualidades de Calígula, mas amigo não era uma delas.
Ainda assim, Incitatus pareceu perfeitamente à vontade na presença do imperador. Ele trotou para estibordo, onde dois pandai escovaram seu pelo enquanto um terceiro se ajoelhou diante dele, trazendo um balde de ouro cheio de aveia.
Jason Grace se debateu no túnel de vento e detritos que o cercava, tentando se soltar, e olhou aflito para Piper, gritando alguma coisa que não consegui ouvir. Na outra coluna de vento, Meg flutuava, braços e pernas cruzados, fazendo cara feia enquanto ignorava os estilhaços de metal cortando seu rosto. Parecia um gênio irritado.
Calígula desceu do pequeno palanque que abrigava o trono e se aproximou fazendo uma dancinha animada, talvez efeito daquela roupa de capitão. Ele parou a alguns metros diante de mim e exibiu dois anéis de ouro na palma da mão: as espadas de Meg.
— Ah, essa deve ser a adorável Piper McLean. — Ele franziu a testa, como se só então percebesse que a garota estava inconsciente. — Minha nossa, o que aconteceu com ela? Não tenho como zombar de ninguém nesse estado. Ritmo!
O pretor estalou os dedos, e dois guardas correram e levantaram Piper. Um deles passou um pequeno frasco aberto debaixo do nariz dela — deviam ser sais aromáticos, ou algum equivalente mágico horrendo de Medeia.
Piper ergueu a cabeça. Seu corpo estremeceu, e ela se desvencilhou dos pandai.
— Eu estou bem. — Ela piscou, olhando em volta. Reparou em Jason e Meg nas colunas de vento e olhou para Calígula de cara feia. Tentou sacar a adaga, mas parecia que seus dedos não estavam funcionando. — Eu vou matar você.
Calígula riu.
— Ah, meu bem, isso seria uma graça. Mas vamos deixar para nos matar depois, está bem? Tenho outras prioridades no momento.
Ele abriu um sorriso enorme para mim.
— Ah, Lester. Que presente de Júpiter!
Ele andou ao meu redor, passando as pontas dos dedos por meus ombros como se quisesse verificar se tinha poeira. Eu deveria ter atacado, mas Calígula irradiava uma confiança tão tranquila, uma aura tão poderosa, que minha mente ficou confusa.
— Não sobrou muito da sua divindade, não é mesmo? Mas não precisa se preocupar, Medeia vai conseguir extrair alguma coisa daí. Então pode deixar que eu me vingo de Zeus por você. Encare como um prêmio de consolação.
— Eu… eu não quero vingança.
— Claro que quer! Vai ser maravilhoso, espere só para ver. Bem, na verdade você não vai poder ver nada, porque vai estar morto, mas pode confiar: você se orgulharia da minha vingança.
— César — interveio Medeia, do outro lado da plataforma —, será que dá para começarmos daqui a pouquinho?
Ela se esforçou para esconder, mas notei a tensão em sua voz. Como tínhamos visto naquele estacionamento maléfico, até os poderes de Medeia tinham limites.
Manter Meg e Jason em tornados gêmeos devia exigir muito de sua força, e ela não tinha como manter as prisões de ventus fazer a tal magia para tirar minha divindade. Se eu arranjasse um jeito de explorar essa fraqueza…
Uma leve irritação perpassou o rosto de Calígula.
— É claro, Medeia. Só um instantinho. Primeiro tenho que parabenizar meus servos leais… — Ele se virou para os pandai que tinham vindo com a gente lá do iate dos sapatos. — Qual de vocês é Compasso?
Compasso fez uma mesura, estendendo as orelhas pelo mosaico do piso.
— S-sou eu, senhor.
— Ah, você sempre me serviu muito bem, não foi?
— Sim, senhor!
— Até hoje.
Pela cara do pandos, ele parecia estar tentando engolir um nó na garganta do tamanho de um ukulele.
— Eles… eles nos enganaram, meu senhor! Tocaram uma música horrível!
— Ah, entendi. E como você pretende resolver isso? Como posso ter certeza da sua lealdade?
— Eu… eu lhe ofereço meu coração, senhor! Agora e sempre! Meus homens e eu somos…
Ele tapou a boca com as mãos enormes.
Calígula abriu um sorriso frio.
— Rá... Ritmo?
O comandante dos pandai deu um passo à frente.
— Senhor?
— Você ouviu o Compasso, não ouviu?
— Ouvi sim, senhor. O coração dele é seu. E o dos homens dele também.
— Muito bem, então. — Calígula os mandou sair da sala com um leve aceno. — Pode levá-los lá para fora e pegar o que é meu.
Os guardas marcharam, levando Compasso e seus dois tenentes.
— Não! — gritava Compasso. — Não, eu… eu não quis dizer…
Os três condenados choraram e se debateram, mas não adiantou: os pandai de armaduras douradas os arrastaram para fora.
Ritmo apontou para Clave, que tremia e choramingava ao lado de Piper.
— E esse, meu senhor?
Calígula estreitou os olhos, pensativo.
— Por que esse tem pelo branco mesmo?
— Porque ele ainda é jovem, lorde — explicou Ritmo, sem o menor toque de solidariedade na voz. — No nosso povo, o pelo escurece com a idade.
— Entendi. — Calígula acariciou o rosto de Clave com as costas da mão; o jovem pandos choramingou ainda mais alto. — Deixe-o aí. É um mocinho bem divertido e parece inofensivo. Agora vá, comandante. Depois traga os corações.
Ritmo fez uma reverência e saiu.
Meu coração martelava, agitado, prestes a sair pela boca. Eu tentava me convencer de que as coisas não estavam tão ruins assim. Metade da guarda do imperador e o comandante tinham acabado de sair, e Medeia tinha que controlar dois venti. Com isso, restavam apenas seis pandai de elite, um cavalo assassino e um imperador imortal. Era o melhor momento para executar meu plano perfeito e genial…
Quer dizer, se eu tivesse um.
Calígula parou ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros, como se fôssemos velhos amigos.
— Viu só, Apolo? Eu não sou doido. Não sou cruel. Só levo a sério o que as pessoas falam. Se você me prometer sua vida, seu coração, sua riqueza… Bem, qualquer promessa tem que ser sincera, não acha?
Meus olhos lacrimejavam, mas eu estava com medo demais para piscar.
— Veja sua amiga Piper, por exemplo. Ela só queria passar um tempo com o pai e se ressentia muito da carreira dele. Então sabe o que eu fiz? Acabei com a carreira dele! Se a menina tivesse simplesmente ido com o pai para Oklahoma, como planejado, ela teria o que queria! Mas você acha que ouvi algum agradecimento? Claro que não! Em vez disso, ela vem aqui me matar.
— E vou conseguir — interveio Piper, com a voz um pouco mais firme. — Pode acreditar.
— É disso que estou falando — observou Calígula. — As pessoas nunca demonstram gratidão.
Ele deu tapinhas no meu peito, e senti uma dor aguda reverberando nas costelas machucadas.
— E Jason Grace? Ele quer ser sacerdote ou coisa do tipo, quer construir santuários para os deuses. Então, olha que ótimo: eu sou um deus. Não tenho problema nenhum com isso! Aí ele vem aqui e destrói meus iates com um monte de raios. Isso lá é jeito de um sacerdote se comportar? Não mesmo!
Ele foi até as colunas de vento, o que deixou suas costas expostas, só que nem Piper nem eu fizemos menção de atacar. Nem mesmo agora, recontando a história para vocês, eu consigo explicar por quê. Eu me sentia tão impotente, como se estivesse preso em uma visão de algo que acontecera séculos antes.
Pela primeira vez, sentia como seria se o Triunvirato controlasse todos os Oráculos. Além de prever o futuro, eles dariam ao destino a forma que quisessem. Cada palavra deles se tornaria um destino inexorável.
— E essa aqui. — Calígula examinou Meg McCaffrey. — O pai dela chegou a jurar que não descansaria até reencarnar as nascidas do sangue, as esposas de prata! Dá para acreditar?
Nascidas do sangue. Esposas de prata. Essas palavras abalaram meu sistema nervoso. Sentia que deveria saber o que significavam, que deveria entender como aquilo se relacionava às sete sementes verdes que Meg tinha plantado na encosta da colina. Como sempre, meu cérebro humano gritou em protesto enquanto eu tentava arrancar a informação das profundezas. Eu quase conseguia ver a mensagem irritante de arquivo não encontrado piscando na minha mente.
Calígula sorriu.
— Bom, é claro que acreditei na palavra do dr. McCaffrey! Tive que queimar a fortaleza dele até não sobrar nada. Mas, sinceramente, fui generoso e permiti que ele e a filha continuassem vivos. A pequena Meg teve uma vida maravilhosa com meu sobrinho, Nero. Se ela tivesse cumprido as promessas que fez a ele… — O imperador fez que não com o dedo, encarando a menina.
Do outro lado da sala, Incitatus ergueu o rosto do balde de ouro com aveia e arrotou.
— Ei, Cezão? Esse discurso está ótimo e tal, mas não seria melhor matar logo os dois nos redemoinhos, para Medeia poder se concentrar na tarefa de esfolar Lester vivo? Quero muito ver isso.
— Sim, por favor — concordou Medeia, cerrando os dentes, já exausta.
— NÃO! — gritou Piper, com a voz trêmula. — Calígula, solte os meus amigos.
Ela tentou usar o charme, só que mal conseguia ficar de pé.
Calígula riu.
— Ah, minha querida, a própria Medeia me treinou para resistir ao charme. Você vai ter que fazer melhor do que isso se…
— Incitatus — chamou Piper, com a voz um pouco mais firme —, dê um coice na cabeça da Medeia.
Incitatus inspirou, inflando as narinas.
— Acho que vou dar um coice na cabeça da Medeia.
— Não vai, não! — berrou a feiticeira, numa explosão intensa de charme. — Calígula, silencie essa garota.
O imperador foi até Piper.
— Me desculpe, querida.
Ele golpeou a boca de Piper com tanta força que o corpo dela girou trezentos e sessenta graus antes de desabar no chão.
— AHHH! — Incitatus relinchou de prazer. — Essa foi boa!
Eu surtei.
Nunca tinha sentido tanta raiva. Nem mesmo quando destruí toda a família dos nióbidas, que me insultou. Nem mesmo quando lutei contra Hércules na câmara de Delfos. Nem mesmo quando exterminei os Ciclopes que forjavam os raios assassinos do meu pai.
Bem naquele momento, decidi que Piper McLean não morreria naquela noite. Parti para cima de Calígula, determinado a agarrar seu pescoço. Queria estrangular aquele imperador maldito, queria pelo menos arrancar aquele sorriso arrogante do rosto dele.
Tinha certeza de que meu poder divino voltaria. Tinha certeza de que, com a minha fúria, eu deixaria o imperador romano em pedacinhos.
Mas Calígula só me empurrou sem nem mesmo se dignar a me olhar.
— Ora, Lester, por favor. Você está me dando vergonha alheia.
Piper continuou estendida no chão, tremendo como se estivesse com frio.
Clave estava agachado ali perto, num esforço vão de cobrir as orelhas enormes. Com certeza estava arrependido de ter decidido seguir seu sonho de se tornar um grande músico.
Encarei os ciclones gêmeos, torcendo para Jason e Meg terem conseguido escapar. Não tinham. Mas, estranhamente, como se tivessem feito um acordo tácito, eles pareciam ter trocado de papel. Jason não parecia mais furioso, mesmo após ter visto Piper sendo golpeada. Em vez disso, ele flutuava, paralisado, numa raiva imóvel, os olhos fechados, o rosto duro como pedra. Meg, por sua vez, atacava a jaula de ventus com unhas e dentes, gritando coisas que eu não conseguia ouvir. Suas roupas estavam em farrapos, e o rosto já exibia dezenas de cortes sangrentos, mas ela não parecia ligar: chutava e socava e tacava pacotes de sementes no redemoinho, provocando explosões festivas de amores-perfeitos e narcisos em meio aos destroços.
Medeia, parada perto do platô, estava pálida e suada. Neutralizar o charme de Piper devia ter lhe custado caro, mas isso não servia de consolo.
Ritmo e os guardas logo estariam de volta com os corações dos inimigos do imperador.
Um pensamento frio me dominou. Os corações dos inimigos dele.
Senti como se eu tivesse levado um tapa. O imperador precisava de mim vivo, ao menos por enquanto. O que significava que minha única vantagem…
Eu devia estar exalando felicidade, porque Calígula caiu na gargalhada.
— Apolo, você está com uma cara! Parece que alguém pisou na sua lira favorita! — Ele estalou a língua. — Acha que sua vida está ruim? Eu cresci refém no palácio do tio Tibério. Tem alguma ideia de como aquele homem era péssimo? Eu acordava todo dia só esperando ser assassinado, como aconteceu com o resto da minha família. Acabei desenvolvendo talento para a atuação. Eu me tornava o que Tibério precisasse que eu fosse. E eu sobrevivi. Mas você? Sua vida foi maravilhosa do começo ao fim! Você é mole demais para ser mortal.
Ele se virou para Medeia.
— Muito bem, feiticeira! Pode aumentar a velocidade dos liquidificadores e fazer vitamina dos prisioneiros. Daí lidamos com Apolo.
Medeia sorriu.
— Com prazer.
— Espere! — gritei, tirando uma flecha da aljava.
Os guardas do imperador que ainda estavam por lá ergueram as lanças, mas Calígula gritou:
— NÃO ATAQUEM!
Não tentei puxar o arco, não parti para cima de Calígula. Só apertei a ponta da flecha no peito.
O sorriso de Calígula sumiu. Ele me encarou, sem conseguir disfarçar o desprezo que sentia.
— Lester… o que você está fazendo?
— Solte meus amigos — exigi. — Todos. Aí pode ficar comigo.
Os olhos do imperador reluziram, brilhando como os de uma estrige.
— E se eu não soltar?
Reuni coragem, fazendo uma ameaça que nunca imaginei que faria, não em meus quatro mil anos de vida.
— Eu vou me matar.

7 comentários:

  1. pqp apolo assim vc me mata aaaaaaaaaaa

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  2. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 19:48

    Droga de Calígula

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  3. Caraca... Caraca. FUJAM PARA AS MONTANHAS! Droga, essa era a hora que um resquicio da força antiga dele devia surgir...

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  4. eu realmente gosto muito mais do Lester do que do Apolo,dsclp aí

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  5. Motherfucking Princess13 de junho de 2018 18:53

    Chupa, seu sociopata ridikulo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!