3 de junho de 2018

Capítulo 30

Nunca vou deixar você
O amor vai nos unir
Mas cola também funciona

ALGUNS DOS MEUS melhores amigos são cavalos mágicos.
Árion, o corcel mais veloz do mundo, é meu primo, embora raramente apareça nos jantares de família. O famoso cavalo alado Pégaso também é meu primo, mas de segundo grau, acho, porque a mãe dele era uma górgona. Não sei bem como isso funciona. E, claro, os cavalos do Sol eram os meus favoritos, embora, felizmente, nenhum deles falasse.
Mas Incitatus? Eu não ia muito com a cara dele.
Ele era um animal bem bonito: alto e musculoso, o pelo brilhando como uma nuvem iluminada pelo Sol. A cauda branca sedosa balançava de um lado para outro como se desafiando qualquer mosca, semideus ou outras pestes a se aproximarem da traseira dele. Ele não usava rédea nem sela, embora ferraduras douradas cintilassem em seus cascos.
A pedância dele me irritava. A voz aborrecida fazia com que eu me sentisse pequeno e insignificante. Mas o que eu realmente odiava eram os olhos. Olhos de cavalo não deveriam ser tão frios e inteligentes.
— Suba — disse ele. — Meu garoto está esperando.
— Seu garoto?
Ele mostrou os dentes brancos como mármore.
— Você sabe de quem estou falando. Cezão. Calígula. O Novo Sol que vai comer você no café da manhã.
Afundei ainda mais nas almofadas do sofá. Meu coração disparou. Incitatus se movia muito rápido, eu já tinha visto. Minhas chances contra ele eram nulas. Eu jamais conseguiria disparar uma flecha ou dedilhar uma melodia antes de receber um coice na cara.
Seria o momento perfeito para ser surpreendido por uma onda de força divina, para que eu pudesse jogar aquele cavalo prepotente pela janela, mas não senti nem um pingo de energia imortal no meu corpo.
Receber qualquer tipo de ajuda estava fora de cogitação. Piper soltou um gemido e mexeu um pouco os dedos. Estava, no máximo, semiconsciente. Clave choramingou e tentou se encolher todo para fugir da violência dos sapatos alados.
Eu me levantei do sofá, fechei as mãos e me obriguei a encarar Incitatus.
— Eu ainda sou o deus Apolo — avisei. — Já enfrentei dois imperadores. Venci os dois. Não me teste, cavalo.
Incitatus resfolegou.
— Aham, Lester, senta lá. Você está ficando mais fraco. Não tem mais quase nada. Estamos de olho em você. Agora pare com essa ladainha.
— E como você vai me forçar a ir com você? — perguntei. — Você não pode me pegar e me jogar no seu lombo. Você não tem mãos! Não tem polegares! Esse foi seu erro fatal!
— Ah, bom, sempre dá para chutar a sua cara. Ou… — Incitatus relinchou, emitindo o mesmo som de alguém chamando um cachorro.
Compasso e dois guardas apareceram.
— Chamou, lorde Corcel?
O cavalo sorriu para mim.
— Eu não preciso de polegares quando tenho servos. É verdade que são servos ridículos que tive que libertar com os dentes das próprias abraçadeiras…
— Lorde Corcel — protestou Compasso. — Foi aquele ukulele! Nós não conseguimos…
— Coloquem os dois aqui em cima logo — ordenou Incitatus —, antes que eu fique de mau humor.
Compasso e seus companheiros obedeceram. Eles me forçaram a subir atrás de Piper e amarraram minhas mãos de novo, pelo menos na frente, para eu conseguir me equilibrar. Finalmente, colocaram Clave de pé. Guardaram os sapatos alados fisicamente abusivos em uma caixa, prenderam as mãos do jovem pandos e o fizeram marchar à frente do nosso lamentável grupo. Seguimos até o convés e refizemos o caminho pela ponte flutuante de superiates, e eu tinha que me abaixar toda vez que passávamos por alguma porta.
Incitatus trotou em um ritmo tranquilo. Sempre que cruzávamos com mercenários ou tripulantes, eles se ajoelhavam e faziam reverência. Eu queria acreditar que eles estavam me homenageando, mas desconfiava que estivessem homenageando a capacidade do cavalo de afundar a cabeça deles se não demonstrassem respeito.
Clave tropeçou. Os outros pandai o levantaram e o empurraram à frente. Piper toda hora escorregava do lombo do corcel, mesmo eu fazendo de tudo para mantê-la no lugar. Em determinado momento, ela murmurou: “Ia-aa”. Isso podia significar Obrigada ou Desamarra ou Por que minha boca está com gosto de ferradura? A adaga dela, Katoptris, estava ao meu alcance. Olhei para o cabo, me perguntando se conseguiria puxá-la com rapidez suficiente para me soltar ou para enfiá-la no pescoço do cavalo.
— Eu não faria isso, se fosse você — disse Incitatus.
Estremeci.
— O quê?
— Usar a faca. Seria uma decisão ruim.
— Você… você lê mentes?
O cavalo riu com deboche.
— Não preciso ler mentes. Sabe o quanto dá para deduzir pela linguagem corporal de uma pessoa que está montada em você?
— Eu… Eu não posso afirmar que já tenha passado por essa experiência.
— Bom, percebi o que você estava planejando. Portanto, não faça isso. Eu teria que jogar você longe. Você e sua namorada provavelmente bateriam com a cabeça e morreriam…
— Ela não é minha namorada!
— … sem falar que o Cezão ficaria irritado. Ele quer que você morra de um jeito específico.
— Ah. — Meu estômago ficou tão dolorido quanto minhas costelas. Eu me perguntei se havia um termo especial para definir o enjoo de quem monta um cavalo em cima de um barco. — Então, quando você disse que Calígula ia me comer no café da manhã…
— Ah, eu não quis dizer literalmente.
— Graças aos deuses.
— Eu quis dizer que a feiticeira Medeia vai acorrentar você e esfolar sua forma humana para extrair quaisquer restos que ainda existam da sua essência divina. Depois, Calígula vai consumir sua essência, junto com a de Hélio, e vai se tornar o novo deus do Sol.
— Ah. — Achei que fosse desmaiar. Eu supunha que ainda restava alguma essência divina dentro de mim, uma pequena fagulha da minha antiga grandiosidade que me permitia lembrar quem eu era e o que um dia já fora capaz de fazer. Eu não queria que esses últimos vestígios de divindade fossem sugados de mim, principalmente se o processo envolvesse me esfolar. A ideia embrulhou meu estômago. Será que Piper ficaria muito chateada se eu vomitasse nela?
— Você… Você me parece ser um cavalo sensato, Incitatus. Por que está ajudando uma pessoa volátil e traiçoeira como Calígula?
Incitatus relinchou.
— Volátil é a vovozinha. O garoto me escuta. Precisa de mim. Não importa se os outros o consideram violento e imprevisível. Eu consigo mantê-lo sob controle, usá-lo para conseguir executar meus planos. Estou apostando no cavalo certo.
Ele não pareceu ver a ironia de um cavalo apostando no cavalo certo. Fiquei surpreso ao saber que Incitatus tinha planos próprios. A maioria dos planos equinos eram bem simples: comer, correr, correr mais um pouco, receber uma boa escovada. Repetir na ordem desejada.
— Calígula sabe que você está, hum, se aproveitando dele?
— É claro! — disse o cavalo. — O garoto não é burro. Quando ele conseguir o que quiser, bem… cada um vai seguir o seu caminho. Eu pretendo aniquilar a raça humana e instituir um governo formado por cavalos, para cavalos.
— Você… o quê?
— Você acha que um governo equino é mais incoerente do que um mundo governado por deuses olimpianos?
— Eu nunca tinha pensado nisso.
— E nem pensaria, não é? Você, com sua arrogância bípede! Você não passa sua vida com humanos que só querem montar em você ou que você puxe as carroças deles. Ah, estou gastando saliva. Você não vai existir por tempo suficiente para ver a revolução.
Ah, leitores, mal consigo expressar meu pavor. Não pela ideia de uma revolução equina, mas por pensar que minha vida estava prestes a terminar! Sim, eu sei que os mortais também têm que lidar com a morte, mas é pior para um deus, acreditem! Eu tinha passado milênios sabendo que era imune ao grande ciclo da vida. E de repente descubro… hahaha, não é bem assim! Eu ia ser esfolado e consumido por um homem que recebia conselhos de um cavalo falante e militante da causa cavalesca!
Conforme seguíamos pela série de superiates, víamos mais e mais sinais da batalha recente. O barco vinte parecia ter sido acertado inúmeras vezes por um raio. Estava caindo aos pedaços, todo chamuscado e tomado por fumaça, os conveses superiores enegrecidos cobertos de espuma de extintor de incêndio. O barco dezoito tinha sido convertido em um centro de triagem. Havia feridos por todos os lados, gemendo por causa de cabeças amassadas, membros quebrados, narizes sangrando e virilhas doloridas. Muitos dos ferimentos eram na altura do joelho para baixo, o alvo preferido dos chutes de Meg McCaffrey. Um bando de estriges girava acima, aos berros, mortas de fome. Talvez estivessem só de guarda, mas tive a impressão de que estavam esperando para ver quem ali não sobreviveria.
O barco quatorze era o golpe de misericórdia de Meg McCaffrey. O iate todo havia sido tomado por hera japonesa, inclusive a tripulação, que estava presa às paredes por uma teia densa de trepadeiras. Um grupo de horticultores, sem dúvida vindo do jardim botânico no barco dezesseis, tentava libertar os colegas usando cortadores e aparadores de grama.
Fiquei emocionado ao ver que nossos amigos tinham chegado tão longe e provocado tanto estrago. Talvez Clave tivesse se enganado — eles não tinham sido capturados coisa nenhuma. Dois semideuses como Jason e Meg teriam conseguido escapar se fossem encurralados. Bom, pelo menos eu estava contando com isso, já que precisava que eles me salvassem.
Mas e se eles não aparecessem? Esquadrinhei meu cérebro em busca de ideias inteligentes e planos intrincados, mas descobri que minha mente era um computador velho e lento com pouca memória. Consegui elaborar a fase 1 do meu grande plano: eu fugiria e depois libertaria meus amigos. Eu estava me dedicando à fase 2 — como faço isso? — quando meu tempo se esgotou. Incitatus atravessou a ponte até o convés do Júlia Drusila XII, percorreu uma série de portas duplas douradas e nos carregou por uma rampa até o interior do barco, que continha um único salão enorme, a câmara de audiências de Calígula.
Entrar naquele espaço era como ser engolido por um monstro marinho.
Tenho certeza de que o efeito era intencional. O imperador queria que todos sentissem pânico e impotência ao chegar ali. Você foi abocanhado, o salão parecia dizer. Agora, vai ser digerido.
Não havia janelas. As paredes de quinze metros gritavam com afrescos espalhafatosos de batalhas, vulcões, tempestades, festas loucas — imagens que representavam a loucura do poder, a ausência de limites, o domínio sobre a natureza.
O piso era um estudo similar do caos: mosaicos intrincados e assustadores de deuses sendo devorados por vários monstros. Acima, o teto era pintado de preto, e pendurado nele havia candelabros dourados, esqueletos em gaiolas e espadas penduradas pelos mais finos cordões, prontas para empalar qualquer um que passasse embaixo.
Eu me vi pendendo para o lado, tentando me equilibrar em cima do Incitatus, mas era impossível. Não era seguro olhar para nenhum canto da câmara, e o balanço do iate não ajudava.
Montando guarda ao longo da sala do trono havia doze pandai, seis a bombordo e seis a estibordo. Eles seguravam lanças com pontas douradas e usavam cota de malha dourada da cabeça aos pés, inclusive abas enormes de metal sobre as orelhas, que, ao serem acertadas, deviam provocar um zumbido terrível.
Na extremidade do salão, onde o casco do navio se estreitava até formar uma ponta, ficava o púlpito do imperador, encostado na parede, como o de qualquer governante paranoico que se preze. À frente dele havia duas colunas de vento e destroços que não consegui compreender; algum tipo de arte performática de ventus?
À direita do imperador havia outro pandos vestido com um traje completo de comandante pretor; supus que fosse Ritmo, o capitão da guarda. À esquerda do imperador estava Medeia, os olhos brilhando, vitoriosos.
Calígula não tinha mudado nada: continuava pequeno e magro, bonito apesar dos olhos muito separados, das orelhas muito proeminentes (mas não em comparação aos pandai), do sorriso muito amarelo. Ele usava uma calça branca, mocassins brancos, uma camisa listrada azul e branca, um blazer azul e um quepe de capitão. Tive um flashback horrível de 1975, quando cometi o erro de abençoar Captain e Tennille com seu sucesso “Love Will Keep Us Together”. Se Calígula era o capitão, isso tornava Medeia Tennille, o que parecia errado em muitos níveis. Tentei afastar o pensamento.
Conforme nossa procissão se aproximava do trono, Calígula se inclinava para a frente e esfregava as mãos, como se o próximo prato do jantar tivesse acabado de ser servido.
— Momento perfeito! — disse ele. — Estou tendo uma conversa fascinante com seus amigos.
Meus amigos?
Só então meu cérebro conseguiu registrar o que havia dentro das colunas de vento. Em uma pairava Jason Grace. Na outra, Meg McCaffrey. Os dois lutavam para se libertar, sem sucesso, gritando sem emitir som algum. Suas prisões em forma de tornado giravam com detritos cintilantes, pedacinhos de bronze celestial e ouro imperial que cortavam as roupas e pele deles, destruindo-os aos poucos.
Calígula se levantou, os olhos castanhos plácidos fixos em mim.
— Incitatus, esse não pode ser ele, pode?
— É sim, amigão — disse o cavalo. — Deixe-me apresentar essa forma lamentável do deus Apolo, também conhecida como Lester Papadopoulos.
O corcel se ajoelhou nas patas da frente e lançou seus passageiros no chão.

7 comentários:

  1. Eita... agora a coisa tá feia. Notem que o Jason não desmaiou nenhuma vez até onde sabemos, quem passou por isso dois Piper. Até o golpe na cabeça foi ela quem levou. Eles tão trocados!

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  2. Cada vez a história fica mais cruel O_O"

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  3. no meu palpite jason ira morrer

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  4. Damon Herondale, filho de Zeus26 de junho de 2018 23:17

    Odeio Calígula
    Mais do q odeio Hera e patos

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  5. O Jason controla o vento e está preso no VENTO,tá bom kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!