3 de junho de 2018

Capítulo 3

Eu odeio essas estriges
Vou até repetir:
Eu odeio essas estriges

— ELAS ESTÃO CHEGANDO! — gritou Meg.
Olha, francamente: quando eu queria que ela me contasse mais sobre alguma coisa importante, ela calava a boca. Aí, quando estávamos em perigo, a garota gastava o fôlego gritando obviedades.
Grover acelerou o passo, numa demonstração de força heroica, enquanto subia a ladeira carregando minha carcaça inerte presa às costas.
Virado para trás, eu tinha uma visão perfeita das estriges saindo das sombras, os olhos amarelos brilhando como moedas de ouro em um lago lamacento. Eram o quê... doze? Talvez mais? Considerando a dificuldade que tivemos quando era uma só, nossas chances contra um bando inteiro não pareciam nada boas, ainda mais enfileirados, três alvos suculentos em uma superfície estreita e escorregadia.
Eu duvidava que Meg pudesse ajudar todos os pássaros a cometerem suicídio batendo de cara na parede.
— Medronheiro! — gritei. — A flecha disse alguma coisa sobre usar medronheiro contra as estriges.
— Isso é uma planta. — Grover inspirou, ofegante. — Acho que já conheci um medronheiro.
— Flecha, o que é um medronheiro? — perguntei.
NÃO SEI, ORA, NÃO É PORQUE NASCI NUM BOSQUE QUE SOU JARDINEIRA!
Irritado, enfiei a flecha de volta na aljava.
— Apolo, me dê cobertura.
Meg me entregou uma das espadas e remexeu no cinto de jardinagem, observando, nervosa, as estriges que se aproximavam.
Eu não tinha entendido muito bem como Meg esperava que eu desse cobertura para ela. Nunca fui bom com espadas, mesmo quando não estava grudado nas costas de um sátiro, de frente para criaturas que me amaldiçoariam se eu as matasse.
— Grover! Será que conseguimos descobrir que tipo de planta é um medronheiro? — perguntou Meg.
Ela abriu um pacote aleatório e jogou o conteúdo pela rampa, que caiu lá embaixo. As sementes explodiram como pipoca, gerando inhames do tamanho de granadas com caules verdes folhosos. As plantas caíram entre o bando de estriges, acertando algumas, que soltaram guinchos assustados, mas não pararam.
— Isso aí são tubérculos — comentou Grover, ofegante. — Acho que o medronheiro é uma planta frutífera.
Meg abriu um segundo pacote de sementes e despejou uma explosão de arbustos pontilhados de frutinhas verdes. As estriges simplesmente desviaram.
— Uva? — perguntou Grover.
— Groselha.
— Tem certeza? Pelo formato das folhas…
— Grover! — intervi. — O assunto agora é botânica de guerrilha! O que é isso…? NO CHÃO, AGORA!
Bem, gentis leitores, vocês serão os juízes. Eu estava perguntando O que é isso no chão? Claro que não. Mesmo Meg tendo reclamado muito depois, eu estava só tentando avisar que uma estrige estava voando direto para a cabeça dela.
Mas Meg não entendeu o aviso — o que não foi culpa minha.
Eu golpeei com a espada que tinha na mão, tentando proteger minha jovem amiga. Só minha péssima mira e os reflexos rápidos de Meg me impediram de decapitá-la.
— Pare com isso! — gritou ela, afastando a estrige com a outra espada.
— Você me mandou dar cobertura! — protestei.
— Mas não era isso que eu… — Ela soltou um grito de dor, tropeçando quando um corte sangrento se abriu na coxa direita.
De repente fomos envolvidos por um redemoinho de garras, bicos e asas negras. Meg sacudia a espada loucamente. Uma estrige avançou em minha direção, as garras prestes a arrancar meus olhos, mas Grover fez o inesperado: gritou.
O que tem de tão surpreendente nisso? , vocês podem estar se perguntando. Um ataque de aves devoradoras de entranhas é um momento perfeito para gritar.
Verdade. Mas o que saiu da boca do sátiro não foi um grito comum.
O som reverberou pela câmara como uma bomba explodindo, fazendo as estriges debandarem, sacudindo a estrutura de pedra e me enchendo de um medo gélido e irracional.
Eu teria saído correndo se não estivesse acoplado às costas do sátiro; teria me jogado daquela rampa só para me afastar daquele som. Mas só larguei a espada e tapei os ouvidos. Meg, caída, sangrando e sem dúvida já meio paralisada pelo veneno de estrige, se encolheu e escondeu a cabeça entre os braços.
As estriges saíram voando de volta para a escuridão.
Meu coração estava disparado. Meu corpo vibrava com adrenalina. Tive que respirar fundo várias vezes antes de conseguir falar:
— Grover, você conjurou pânico?
Eu não conseguia ver o rosto dele, mas senti seu corpo tremendo. O sátiro se deitou na rampa e rolou o corpo de lado, e acabei de cara para a parede.
— Não era minha intenção. — Grover estava rouco. — Não faço isso há anos.
— P-pânico? — perguntou Meg.
— O grito de Pã, o deus perdido — expliquei.
Eu ficava bem triste só de dizer aquele nome. Ah, vivi bons momentos com o deus da natureza, dançando e cabriolando pela floresta! As cabriolas de Pã eram de outro nível. Mas os humanos destruíram boa parte da floresta, e ele sumiu no nada. Ah, vocês, humanos... É por sua causa que os deuses não podem ter um segundo de felicidade.
— Nunca vi ninguém além de Pã usando esse poder. Como você conseguiu?
Grover soltou um misto de gemido e suspiro.
— É uma longa história.
Meg grunhiu.
— Bem, pelo menos isso afastou os pássaros.
Ouvi tecido sendo rasgado. Ela devia estar fazendo uma atadura para a perna.
— Você está paralisada? — perguntei.
— Sim, mas só da cintura para baixo — murmurou ela.
Grover se remexeu do outro lado da amarra de fita adesiva.
— Eu estou bem, mas exausto. Os pássaros daqui a pouco voltam, e eu não tenho como carregar vocês dois lá para cima.
Eu não duvidei. O grito de Pã mandava quase qualquer coisa correndo para longe, mas a mágica exigia muito de quem a fazia. Pã sempre tirava uma soneca de três dias depois que o usava.
Dava para ouvir as estriges lá embaixo, percorrendo o Labirinto. Os gritos já pareciam estar mudando de um Fujam! apavorado para um Por que estamos fugindo? confuso.
Tentei mexer os pés. Para minha surpresa, notei que sentia os dedos.
— Alguém pode me soltar? Acho que o veneno está perdendo o efeito.
Meg, ainda deitada, usou uma espada para cortar a fita adesiva. Nós três sentamos juntos e nos recostamos na parede. Três iscas de estrige suadas, tristes e patéticas, só aguardando a morte. Lá embaixo, a algazarra das aves malignas foi ficando mais alta. Elas logo voltariam, mais furiosas que nunca. Sob o brilho suave das espadas de Meg, agora dava para ver onde acabava o túnel: cerca de quinze metros acima, a rampa terminava em um teto de tijolos abobadado.
— Nada de saída — lamentou Grover. — Eu tinha tanta certeza… Esse poço se parece tanto com…
Ele balançou a cabeça, como se fosse difícil demais dizer o que esperava encontrar.
— Eu não vou morrer aqui — resmungou Meg.
Mas a cara dela dizia outra coisa. Meg estava com os dedos ensanguentados e os joelhos, ralados, e o vestido verde de que ela tanto gostava, um presente da mãe de Percy Jackson, parecia ter sido todo arranhado por um tigre dente-de-sabre. A perna direita da legging fora arrancada e usada para estancar o sangramento do corte na coxa, mas o tecido já estava encharcado.
Ainda assim, havia um brilho de desafio em seus olhos. As pedrinhas nas pontas dos óculos de gatinho continuavam a reluzir. Eu já tinha aprendido a nunca duvidar de Meg McCaffrey, não enquanto as pedrinhas de seus óculos ainda brilhassem.
Ela remexeu no pacote de sementes, estreitando os olhos para tentar ler os rótulos.
— Rosa. Narciso. Abóbora. Cenoura.
— Não… — Grover deu um tapa na testa. — O medronheiro é tipo… uma árvore com flores. Argh, eu devia saber isso.
Eu me solidarizava com os problemas de memória dele. Eu devia saber de muitas coisas: a fraqueza das estriges; a saída secreta mais próxima do Labirinto; o celular de Zeus, para poder ligar e suplicar pela minha vida. Mas eu não me lembrava de nada. Minhas pernas tinham começado a tremer, o que talvez fosse um indicativo de que eu logo voltaria a andar, mas nem isso me animou. Não tinha para onde ir, e minha única escolha era morrer na parte mais alta ou mais baixa daquela câmara.
Meg continuou mexendo nos pacotes de sementes.
— Nabo, glicínia, acerola, morango…
— Morango! — Grover berrou tão alto que achei que seria mais um grito de pânico. — É isso! O medronheiro é uma árvore de morangos!
Meg franziu a testa.
— Mas morango não dá em árvore. É uma planta do gênero Fragaria, da família da rosa.
— Sim, sim, eu sei! — Grover gesticulava com nervosismo, como se não conseguisse dizer as palavras depressa o bastante. — E o medronheiro é da família da urze, mas…
— Do que vocês estão falando? — Até parecia que estavam usando a internet da Flecha de Dodona para entrar no tudosobreplantas.com.br. — Nós estamos prestes a morrer, e vocês ficam discutindo os gêneros das plantas?
— Uma Fragaria deve funcionar! — insistiu Grover. — A fruta do medronheiro parece um morango, por isso sempre falam que é uma árvore de morangos. Eu já conheci uma dríade de medronheiro, e discutimos muito sobre isso. Além do mais, eu sou especialista em plantio de morangos. Eu e todos os sátiros do Acampamento Meio-Sangue!
Meg encarou o pacotinho de sementes, em dúvida.
— Ai, não sei.
Umas dez estriges surgiram na boca do túnel, lá embaixo, gritando em um coral de fúria arrancadora de intestinos.
— TENTEM A FRANGARIA! — gritei.
— Fragaria — corrigiu Meg.
— NÃO IMPORTA!
Em vez de jogar as sementes de morango lá para baixo, Meg abriu o pacotinho e o despejou bem devagar — bem devagar mesmo — na beirada da rampa.
— Anda logo. — Peguei o arco com dificuldade. — Temos uns trinta segundos.
— Espera!
Meg espalhou as últimas sementes.
— Quinze segundos!
— Espera. — Meg jogou o pacote de lado e estendeu as mãos sobre as sementes, como se estivesse prestes a tocar teclado (o que, diga-se de passagem, ela não sabe fazer nem um pouco, apesar dos meus esforços para lhe ensinar). — Tudo bem. Agora vai.
Grover pegou a flauta e começou uma versão frenética de “Strawberry Fields Forever”, mas num compasso três vezes mais rápido. Deixei o arco de lado, peguei o ukulele e me juntei a ele na música. Não sabia se isso ajudaria, mas, se iam me deixar em pedacinhos, pelo menos morreria tocando Beatles.
O bando de estriges estava prestes a nos atacar, então as sementes explodiram como fogos de artifício. Caules verdes se estenderam na direção do buraco, ancorando as raízes na parede mais distante, formando uma fileira de vinhas que lembravam as cordas de um alaúde gigante. As estriges podiam muito bem ter passado voando pelas aberturas, mas elas ficaram loucas, tentando desviar das plantas, batendo umas nas outras em pleno ar.
As vinhas se adensaram, as folhas se desdobraram, flores brancas floresceram e morangos amadureceram, enchendo o ar com sua doce fragrância. A câmara tremeu. Cada vez que uma daquelas plantas tocava na pedra, os tijolos rachavam e se dissolviam, abrindo espaço para os morangos criarem raízes.
Meg ergueu as mãos do teclado imaginário.
— O Labirinto está… ajudando?
— Não sei! — respondi, tocando um fá menor com sétima muito intenso. — Mas não pare!
Os morangos se espalharam numa velocidade incrível, se abrindo em uma maré verde. Eu já estava pensando em como seria ainda mais impressionante se houvesse um pouco de sol ali... então o teto abobadado rachou como uma casca de ovo.
Raios brilhantes penetraram a escuridão, e escombros caíram, derrubando os pássaros e abrindo caminho pelas vinhas de morango — que, ao contrário das estriges, logo surgiam novamente. Ainda bem. Assim que entraram em contato com a luz do sol, as estriges gritaram e se dissolveram em pó.
Grover baixou a flauta. Eu botei o ukulele no chão. Olhamos, maravilhados, enquanto as plantas continuavam a crescer, se entrelaçando até formar uma cama elástica de morangos em toda a área abaixo de nós.
O teto tinha se desintegrado, revelando um céu azul brilhante. O ar quente descia como o bafo de um forno aberto.
Grover virou o rosto para a luz e farejou algo, e lágrimas escorreram por suas bochechas.
— Você se machucou? — perguntei.
O sátiro olhou para mim. Seu sofrimento era ainda mais difícil de encarar do que a luz do sol.
— Cheiro de morangos frescos — explicou. — Como no Acampamento Meio-Sangue. Faz tanto tempo…
Senti uma pontada desconhecida no peito. Dei um tapinha no joelho de Grover. Eu não tinha passado muito tempo no Acampamento Meio-Sangue, onde os semideuses gregos eram treinados, mas compreendia. Fiquei pensando em como meus filhos, Kayla, Will e Austin, estavam se saindo por lá. Eu ainda me lembrava de ficar sentado ao redor da fogueira com eles cantando “Minha mãe era um Minotauro” enquanto comíamos espetos de marshmallows derretidos. Camaradagem perfeita assim é rara, mesmo na vida imortal.
Meg se encostou na parede. Estava pálida, com a respiração pesada.
Remexi os bolsos e encontrei um quadradinho de ambrosia em um guardanapo. Não estava guardando aquilo para mim. Naquele estado mortal, comer o alimento dos deuses podia me fazer entrar em combustão espontânea.
Só que, como eu já tinha descoberto, Meg nem sempre estava disposta a comer ambrosia.
— Coma isso — falei, colocando o guardanapo na mão dela. — Vai ajudar a passar a paralisia.
Ela trincou os dentes, como se fosse gritar EU NÃO QUERO!, mas decidiu que gostava da ideia de voltar a mexer as pernas. Então começou a mordiscar a ambrosia.
— O que tem lá em cima? — perguntou, franzindo a testa para o céu azul.
Grover limpou uma lágrima do rosto.
— Chegamos. O Labirinto nos trouxe direto para a base.
— A base?
Fiquei feliz da vida em saber que tínhamos uma base. Seria um lugar seguro, com camas macias e talvez uma máquina de café expresso.
— É. — Grover engoliu em seco, ansioso. — Isso se tiver sobrado alguma coisa. Veremos.

7 comentários:

  1. "NO CHÃO, AGORA!" "TENTEM A FRANGARIA!" kkkkkkk

    E realmente, se for pra morrer, que seja tocando Beatles.

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  2. gentney, que csa mais linda os capitulos...

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  3. Damon Herondale, filho de Zeus5 de junho de 2018 18:48

    Realmente existe um site tudosobreplantas.com.br

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  4. Não acredito que cê foi pesquisar

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  5. Por que será que o labirinto tá ajudando? DESCONFIO.


    Que saudade eu tava do Grover <3

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  6. TENTEM A FRANGARIA! — gritei.
    — Fragaria — corrigiu Meg.
    — NÃO IMPORTA!
    Kkkkk😸

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