9 de junho de 2018

Capítulo 2

— DEVO COBRIR A peruca de Maria com purpurina rosa ou dourada?
Coloco um ovo de Páscoa em frente à tela do computador, para Margot poder olhar. Pintei a casca de azul-turquesa pálido e fiz uma decoupagem com um contorno de Maria Antonieta.
— Ponha mais perto — diz Margot, estreitando os olhos para a câmera.
Ela está de pijama, com uma máscara de hidratação grudada no rosto. O cabelo cresceu até um pouco abaixo dos ombros, o que quer dizer que ela provavelmente vai cortar em breve. Tenho a sensação de que Margot sempre vai cortar o cabelo curto agora. Combina com ela.
É noite na Escócia, mas aqui ainda está claro. Cinco horas e quase seis mil quilômetros nos separam. Ela está no alojamento; eu estou sentada à mesa da cozinha, cercada de ovos de Páscoa e tigelas de corante e pedrinhas e adesivos e penas brancas que guardei de quando fiz decorações de Natal alguns anos atrás. Estou com o laptop em cima de uma pilha de livros de culinária. Margot está me fazendo companhia enquanto termino de decorar os ovos.
— Acho que vou contorná-la com pérolas, se isso ajudar na sua decisão — digo.
— Então voto em purpurina rosa — afirma Margot, ajeitando a máscara no rosto. — Rosa vai dar mais destaque.
— Era o que eu estava pensando.
Começo a aplicar glitter com um pincel de sombra velho. Ontem à noite eu passei horas soprando as gemas para fora das cascas. Era para ser uma atividade divertida para Kitty e eu fazermos juntas, como antigamente, mas ela pulou fora quando foi convidada para ir à casa de Madeline Klinger. Um convite de Madeline Klinger é uma ocasião rara e importante, então é claro que eu não podia me ressentir com Kitty por isso.
— Falta pouco para você saber, não é?
— Ainda este mês.
Eu começo a enfileirar as pérolas. Parte de mim queria poder acabar com isso logo, mas a outra parte fica feliz em não saber o resultado, em ter esperança.
— Você vai ser aceita — diz Margot, e parece uma proclamação.
Todo mundo ao meu redor acha que minha entrada na UVA é algo certo. Peter, Kitty, Margot, meu pai. Minha orientadora, a sra. Duvall. Eu nunca ousaria falar em voz alta, com medo de dar azar, mas talvez eu também ache. Eu me dediquei: aumentei minha pontuação no exame de admissão em duzentos pontos. Minhas notas estão quase tão boas quanto as de Margot, e ela foi aceita. Já fiz tudo que deveria fazer, mas vai ser suficiente? A essa altura, só posso esperar e torcer. E torcer e torcer.
Estou colando um lacinho branco com cola quente no topo do ovo quando paro e olho para minha irmã com desconfiança.
— Espere aí. Se eu entrar, você vai tentar me convencer a ir estudar em outro lugar, para eu poder abrir minhas asas e tudo mais?
Margot ri, e a máscara escorrega um pouco no rosto. Ela a ajeita.
— Não. Confio em você para saber o que é melhor. — Ela está falando sério, dá para perceber. Suas palavras tornam tudo verdade. Eu também confio em mim. Confio que, quando a hora chegar, vou saber o que é melhor. E, para mim, a UVA é melhor. Eu sei. — Meu único conselho é para você fazer seus próprios amigos. Peter vai fazer um monte de novos amigos por causa do lacrosse, e os amigos dele não vão ser necessariamente o tipo de amizade que você escolheria. Então, faça seus próprios amigos. Encontre seu grupo. A UVA é grande.
— Pode deixar.
— E não deixe de entrar para a associação oriental. A única coisa que sinto que perdi ao vir estudar em um país diferente é fazer parte de um grupo ásio-americano. É bem importante entrar para a faculdade e encontrar sua identidade racial. Como Tim.
— Que Tim?
— Tim Monahan, da minha turma.
— Ah, esse Tim.
Tim Monahan é coreano, mas foi adotado por uma família da região. Não tem tantos descendentes de orientais na nossa escola, então todo mundo meio que se conhece.
— Ele nunca andava com os orientais na escola, depois foi estudar na Virginia Tech e conheceu um monte de gente coreana, e agora acho que ele é presidente de uma fraternidade oriental.
— Uau!
— Acho ótimo essa coisa de fraternidade não ser comum no Reino Unido. Você não vai entrar para uma irmandade, vai? — E Margot acrescenta rapidamente: — Sem julgamentos!
— Ainda não pensei nisso.
— Mas Peter provavelmente vai entrar em uma fraternidade.
— Ele não comentou nada sobre isso ainda… — Embora ele não tenha mencionado, consigo facilmente visualizar Peter em uma fraternidade.
— Eu ouvi falar que é difícil quando seu namorado está em uma, e você, não. Tem alguma coisa sobre não se misturar, que é mais fácil se você for amiga das garotas da irmandade correspondente. Não sei. A coisa toda me parece meio boba, mas pode valer a pena. Ouvi dizer que garotas de irmandade gostam de artesanato.
Ela arqueia as sobrancelhas para mim.
— Falando nisso. — Eu levanto o ovo para mostrar a ela. — Ta-dá!
Margot chega mais perto da câmera para olhar.
— Você devia entrar no ramo de decoração de ovos! Quero ver os outros.
Eu levanto a caixa. Tenho uma dúzia de ovos decorados, rosa-claro com decoração rendada em rosa néon, azul brilhante e amarelo-limão, lilás com flores de lavanda secas. Fiquei feliz em ter uma desculpa para usar as flores. Comprei um saco meses atrás para fazer um crème brûlée de lavanda, e está ocupando espaço na despensa desde então.
— O que você vai fazer com eles? — quer saber Margot.
— Vou levar para Belleview, para poderem exibir na recepção. Lá sempre está com cara de hospital, uma coisa horrível.
Margot se recosta no travesseiro.
— Como está todo mundo em Belleview?
— Bem. Ando tão ocupada com os formulários das faculdades e com as coisas do último ano que não estou conseguido ir lá com frequência. Agora que não trabalho mais lá oficialmente, é bem mais difícil encontrar tempo. — Eu giro o ovo na mão. — Acho que vou dar este para Stormy. É a cara dela. — Coloco o ovo de Maria Antonieta na caixa para secar, pego um ovo lilás e começo a colar pedrinhas da cor de bala. — Vou tentar visitá-los mais de agora em diante.
— É difícil — concorda Margot. — Quando eu for para casa no recesso de primavera, vamos lá juntas. Quero apresentar Ravi a Stormy.
Ravi é namorado de Margot há seis meses. Os pais dele são da Índia, mas ele nasceu em Londres, então tem um sotaque todo pomposo. Quando eu o conheci pelo Skype, eu falei: “Você fala que nem o príncipe William.” Ele riu e respondeu: “Ótimo.” Ele é dois anos mais velho que Margot, e talvez por ser mais velho, ou talvez por ser inglês, parece sofisticado e não é nem um pouco como Josh. Não de uma forma esnobe, mas definitivamente diferente. Com mais cultura, talvez, por crescer em uma cidade tão grande, ir ao teatro sempre que quer e conhecer dignitários e tal, porque a mãe dele é diplomata. Quando falei isso para Margot, ela riu e disse que é porque eu ainda não o conhecia pessoalmente, e que Ravi é nerd e nem um pouco parecido com o príncipe William. “Não deixe o sotaque enganar você”, disse ela. Margot vai trazer Ravi no recesso de primavera, então acho que vou descobrir logo, logo. O plano é Ravi ficar duas noites na nossa casa e pegar um voo para o Texas para visitar parentes. Margot vai ficar aqui em casa pelo resto da semana.
— Mal posso esperar para conhecê-lo de verdade — digo, e ela abre um sorriso.
— Você vai adorar o Ravi.
Tenho certeza de que vou. Gosto de todo mundo de quem minha irmã gosta, mas o bom mesmo é que, agora que Margot conheceu Peter melhor, ela vê como ele é especial. Quando Ravi estiver aqui, nós quatro vamos poder sair juntos, um verdadeiro encontro duplo.
Minha irmã e eu estamos apaixonadas ao mesmo tempo e temos uma coisa que podemos compartilhar. Isso é maravilhoso!

2 comentários:

  1. Aaii q bom 💜 agr ela n tá mais sobrando 😰 "Ravi Chackrabathi" já gostei dele

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  2. Ainda tinha esperanças da Margot e o JOSH voltarem...Mas pleo visto, ambos tomaram caminhos diferentes e estão felizes. O q realmente importa é isso. :)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!