26 de junho de 2018

Capítulo 2

Declan Lynch, o mais velho dos irmãos Lynch, nunca estava sozinho. Ele nunca estava com seus irmãos, mas nunca estava sozinho. Ele era uma máquina de movimento perpétuo movida pela energia dos outros: aqui se inclinando sobre a mesa de um amigo em uma pizzaria, ali levado para um quarto com a palma da mão de uma garota em sua boca, acolá rindo sobre o capô da Mercedes de um homem mais velho. A congregação era tão natural que era impossível dizer se Declan era o ímã atraindo ou as limalhas atraídas.
O Homem Cinzento estava passando por uma dificuldade nada desprezível de encontrar uma oportunidade para falar com ele. Ele teve de perambular pelo campus da Academia Aglionby pela maior parte do dia.
A espera não foi inteiramente desagradável. O Homem Cinzento se viu bastante encantado com a escola sombreada por carvalhos. O campus tinha uma dignidade maltrapilha, alcançada apenas por meio da antiguidade e da afluência. Os dormitórios estavam mais vazios do que estariam durante o período escolar, mas não estavam vazios. Ainda havia os filhos de CEOs que haviam viajado para países do terceiro mundo para se deixar fotografar, os filhos de músicos punk em turnê com coisas mais pesadas para levar consigo do que sua prole acidental de dezessete anos, e os filhos de homens que estavam mortos e nunca mais voltariam para buscá-los.
Esses filhos do verão, poucos que eram, não eram de todo silenciosos.
O dormitório de Declan Lynch não era tão bonito quanto os outros prédios, mas ainda assim tinha a beleza que o dinheiro podia comprar. Era um resquício dos anos 70, uma década tecnicolor pela qual o Homem Cinzento tinha grande carinho. A porta da frente era para ser acessível somente com um código, mas alguém a tinha deixado aberta com um calço de borracha. O Homem Cinzento deu uma risadinha desaprovadora. Uma porta trancada não o teria deixado na rua, é claro, mas era o conceito que contava.
Na realidade, o Homem Cinzento não estava certo de que acreditasse nisso. Era a proeza que contava.
Do lado de dentro, o dormitório oferecia as boas-vindas no tom neutro de um hotel decente. Vindo de trás de uma das portas fechadas, um hip-hop colombiano vociferava algo sedutor e violento. Não era o tipo de música do Homem Cinzento, mas ele podia entender o apelo. Ele olhou de relance para a porta. Os quartos dos dormitórios da Aglionby não eram numerados. Em vez disso, cada porta trazia um atributo que a administração esperava que seus estudantes levassem consigo da escola. Nessa porta estava inscrito Compaixão. Não era a que o Homem Cinzento estava procurando.
Ele seguiu na direção oposta, lendo portas (Perseverança, Generosidade, Lealdade), até chegar à porta de Declan Lynch. Efervescência. O Homem Cinzento havia sido chamado de efervescente uma vez em um artigo. Ele estava positivamente convicto de que a razão disso eram seus dentes muito retos. Até os dentes pareciam ser um pré-requisito para a efervescência. Ele se perguntou se Declan Lynch tinha bons dentes.
Não havia ruído algum atrás da porta. Ele tentou a maçaneta. Trancada. Bom garoto, pensou.
Mais adiante no corredor, a música ribombava como o apocalipse. O Homem Cinzento conferiu o relógio. A locadora de carros fechava em uma hora, e, se ele desprezava alguma coisa, era o transporte público. Aquilo teria que ser rápido. Ele chutou a porta.
Declan Lynch estava sentado em uma das duas camas dentro do quarto. Ele era muito bonito, com um cabelo negro basto e um nariz romano bastante distinto.
E tinha dentes excelentes.
— O que é isso? — disse.
Como resposta, o Homem Cinzento levantou Declan da cama e o jogou contra a janela adjacente. O som foi curiosamente abafado; a parte mais alta foi a respiração do garoto irrompendo dele quando suas costas se chocaram contra o peitoril. Mas então ele estava de pé outra vez e lutando. Ele não era um mau boxeador, e o Homem Cinzento podia dizer que ele esperava que essa surpresa lhe desse uma vantagem.
Mas o Homem Cinzento sabia antes de ter chegado que Niall Lynch havia ensinado seus filhos a boxear. A única coisa que o pai do Homem Cinzento lhe tinha ensinado era como pronunciar trebuchet.
Por um momento, eles lutaram. Declan era habilidoso, mas o Homem Cinzento era mais. Ele jogou o garoto de um lado para o outro no dormitório e usou o ombro de Declan para varrer certificados, cartões de crédito e chaves do carro da cômoda. A batida de sua cabeça contra uma gaveta foi indistinguível do som oco do fundo do corredor.
Declan golpeou e errou. O Homem Cinzento chutou as pernas de Declan por baixo, atirou-o contra a parede, perto do móvel, e então avançou em sua direção para mais um round, parando apenas para pegar um capacete que havia rolado no meio do chão.
Com um súbito ímpeto de velocidade, Declan usou a cômoda para ficar de pé, então tirou uma arma de uma gaveta.
Ele a apontou para o Homem Cinzento.
— Pare — disse simplesmente e tirou a trava de segurança.
O Homem Cinzento não esperava por isso.
Ele parou.
Várias emoções diferentes lutaram por precedência no rosto de Declan, mas choque não era uma delas. Estava claro que a arma não era para a possibilidade de um ataque; era para a eventualidade de um.
O Homem Cinzento considerou como seria viver daquele jeito, sempre esperando que sua porta fosse chutada. Não deve ser agradável, ele pensou. Provavelmente, nem um pouco agradável.
Ele não achou que Declan Lynch hesitaria em atirar nele. Não havia hesitação em sua postura. Sua mão tremia um pouco, mas o Homem Cinzento achou que era de um machucado, não de medo.
O Homem Cinzento considerou a situação por um momento, então jogou o capacete.
O garoto disparou um tiro, mas não foi nada além de barulho. O capacete bateu em seus dedos, e, enquanto ele ainda estava atordoado, o Homem Cinzento deu um passo para frente e arrancou a arma de sua mão dormente. Ele se demorou um instante para colocar a trava de segurança de novo.
Então o Homem Cinzento bateu a arma contra a face de Declan. Ele fez isso algumas vezes, apenas para não deixar dúvidas quanto ao seu recado.
Finalmente, deixou que Declan caísse de joelhos. O garoto se mantinha consciente com bastante valentia. Com o sapato, o Homem Cinzento o pressionou até o chão, então o virou lentamente de costas. Os olhos de Declan estavam focados no ventilador do teto. Corria sangue de seu nariz.
O Homem Cinzento se ajoelhou e pressionou o cano da arma no estômago de Declan, que subia e descia ansiosamente enquanto buscava o ar. Deslizando a arma até o rim direito do garoto, ele disse informalmente:
— Se eu atirasse neste ponto, você levaria vinte minutos para morrer, e não faria a menor diferença o que os paramédicos fizessem. Onde está o Greywaren?
Declan não disse nada. O Homem Cinzento lhe deu um tempo para considerar a resposta. Ferimentos na cabeça tendiam a deixar os pensamentos mais lentos.
Vendo que Declan permanecia calado, ele levou o cano da arma até a coxa de Declan.
O garoto arfou com a pressão exercida.
— Aqui, você morreria em cinco minutos. É claro, não preciso atirar em você para isso. A ponta do seu guarda-chuva ali do lado funcionaria do mesmo jeito. Você apagaria em cinco minutos, desejando que fossem três.
Declan fechou os olhos. Um deles, de qualquer maneira. O esquerdo já estava inchado quase a ponto de estar fechado.
— Eu não sei — ele disse por fim, com a voz cheia de sono. — Eu não sei o que é isso.
— Mentiras são para os seus políticos — disse o Homem Cinzento, sem veemência. Ele só queria que Declan soubesse que ele sabia sobre a sua vida, sobre o seu estágio. Ele queria que Declan soubesse que ele fizera a sua pesquisa. — Eu sei onde estão os seus irmãos agora mesmo. Sei onde a sua mãe mora. Sei o nome da sua namorada. Você está me entendendo?
— Eu não sei onde está. — Declan hesitou. — Essa é a verdade. Eu não sei onde está. Eu só sei que ele existe.
— Este é o plano — disse o Homem Cinzento, pondo-se de pé. — Você vai encontrar essa coisa para mim e, quando encontrar, vai me dar. E então eu te deixo em paz.
— Como eu faço para te encontrar?
— Acho que você não compreendeu. Eu sou a sua sombra. Eu sou a saliva que você engole. Eu sou a tosse que te mantém acordado à noite.
Declan perguntou:
— Você matou o meu pai?
— Niall Lynch. — O Homem Cinzento experimentou as palavras saindo da boca. Em sua opinião, Niall Lynch era um pai bastante relapso, deixando-se ser morto e permitindo que seus filhos vivessem em um lugar onde largavam as portas de segurança escoradas e abertas. O mundo, ele achava, estava cheio de maus pais. — Ele me fez essa pergunta também.
Declan Lynch expirou irregularmente: metade de uma respiração, e então a outra metade. Agora, o Homem Cinzento podia perceber, ele finalmente estava com medo.
— Tudo bem — disse Declan. — Eu vou encontrar. Então você vai nos deixar em paz. Todos vocês.
O Homem Cinzento colocou a pistola de volta na gaveta e a fechou. Conferiu o relógio. Tinha vinte minutos para pegar o carro alugado. Ele poderia fazer um upgrade para um carro de tamanho médio. Ele odiava carros compactos quase tanto quanto o transporte público.
— Sim.
— Tudo bem — disse Declan de novo.
O Homem Cinzento saiu do quarto e fechou parcialmente a porta. Não dava para fechá-la direito; ele tinha quebrado uma das dobradiças quando entrara. Ele tinha certeza de que havia recursos em algum lugar para cobrir os danos.
Então fez uma pausa e observou através da fresta da porta.
Havia mais para aprender de Declan Lynch hoje.
Por vários minutos, nada aconteceu. Declan ficou deitado ali, sangrando, vergado. Em seguida, os dedos da mão direita avançaram como um caranguejo pelo chão até onde o celular havia caído. No entanto, ele não ligou imediatamente para a emergência. Com uma lentidão agonizante — seu ombro muito provavelmente estava deslocado —, digitou outro número. Imediatamente, um telefone tocou na cama ao lado. Era a cama do irmão mais novo de Declan, Matthew, como o Homem Cinzento já sabia. O toque era uma canção da banda Iglu & Hartly que o Homem Cinzento conhecia, mas não podia aceitar.
O Homem Cinzento já sabia onde estava Matthew Lynch: flutuando em um barco no rio com alguns garotos locais. Assim como o irmão mais velho, ele nunca ficava satisfeito em estar sozinho.
Declan deixou o telefone do irmão mais novo tocar por mais tempo do que precisava, os olhos fechados. Finalmente, encerrou a ligação e ligou para outro número. Ainda não era a emergência. Quem quer que fosse a pessoa, não atendeu. E quem quer que fosse a pessoa, deixou a expressão tensa de Declan ainda mais fechada. O Homem Cinzento podia ouvir o som baixinho do telefone tocando e tocando, então uma mensagem breve do correio de voz que ele não pôde captar.
Declan Lynch fechou os olhos e suspirou.
— Ronan, em que maldito lugar você se meteu?

Um comentário:

  1. O que dizer desse Homem Cinzento que mal conheço e considero pacas?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!