9 de junho de 2018

Capítulo 29

É A ÚLTIMA vez que vamos subir essa escadaria juntos, Peter pulando de dois em dois degraus, e eu correndo atrás, ofegante, tentando acompanhar. É o último dia de aula para os alunos do último ano, o último dia da minha vida de estudante de ensino médio.
Quando chegamos no alto da escada, eu digo:
— Acho que subir a escada de dois em dois degraus é coisa de quem gosta de se gabar. Já reparou que só garotos fazem isso?
— As garotas talvez fizessem a mesma coisa se fossem tão altas quanto os garotos.
— Chelsea, amiga de Margot, tem um metro e oitenta, e acho que ela não faz isso.
— O que você está querendo dizer? Que os garotos gostam de se gabar?
— Provavelmente. Você não acha?
— Provavelmente — admite ele.
O sinal toca, e as pessoas começam a seguir para as salas de aula.
— Vamos matar o primeiro tempo? Quer comer panqueca? — Ele ergue uma das sobrancelhas de forma provocadora e me puxa para perto pelas alças da mochila. — Vamos lá, você sabe que quer.
— De jeito nenhum. É o último dia de aula. Quero me despedir do sr. Lopez.
Peter grunhe.
— Você é tão certinha.
— Você já sabia disso quando começou a namorar comigo.
— Verdade.
Antes de nos separarmos no corredor, eu estico os braços e espero com expectativa. Peter me olha com curiosidade.
— Meu anuário!
— Ah, droga! Esqueci de novo.
— Peter! É o último dia de aula! Só peguei metade das assinaturas!
— Desculpa — diz ele, passando a mão pelo cabelo e deixando-o todo desgrenhado. — Você quer que eu volte para buscar? Posso ir agora. — Ele parece lamentar de verdade, mas estou irritada mesmo assim.
Como não respondo nada imediatamente, Peter se vira para a escada, mas eu o faço parar.
— Não, não vá. Tudo bem. Vou levar na formatura.
— Tem certeza? — pergunta ele.
— Tenho.
Nós nem vamos ter aula o dia todo. Não quero que ele tenha que voltar correndo para casa só para buscar meu anuário.
As aulas são tranquilas; na verdade, passamos boa parte do tempo andando por aí nos despedindo de professores, do pessoal da secretaria, da enfermeira. Várias dessas pessoas estarão na formatura, mas não todas. Distribuo os cookies que fiz na noite anterior. Recebemos as últimas notas; são todas boas e não preciso me preocupar.
Levo uma eternidade para esvaziar meu armário. Encontro bilhetes aleatórios de Peter que guardei, que coloco na mesma hora na bolsa para botar no scrapbook. Uma barrinha de cereal velha. Elásticos pretos de cabelo cheios de poeira, o que é irônico, porque a gente nunca encontra um elástico quando precisa.
— Fico triste de jogar essas coisas fora, até a barrinha de cereal velha — digo para Lucas, que está sentado no chão me fazendo companhia. — Ela ficou no fundo do meu armário por meses. É como uma velha amiga. Vamos dividir, para comemorar este dia?
— Eca. Deve estar mofada. — Com segurança, ele diz: — Depois da formatura, acho que não vou ver mais nenhuma dessas pessoas.
Eu olho para ele com mágoa.
— Ei! E eu?
— Você é diferente. Você vai me visitar em Nova York.
— Ah! Sim, por favor.
— Sarah Lawrence fica perto da cidade. Vou poder ir aos musicais da Broadway sempre que quiser. Tem até um aplicativo para compra de ingressos só para estudantes.
Ele fica com um olhar sonhador.
— Você tem tanta sorte!
— Eu levo você. E vamos a um bar gay também. Vai ser incrível.
— Obrigada!
— Mas o restante das pessoas é indiferente para mim.
— Nós ainda temos a Semana na Praia — lembro, e ele assente.
— Pelo resto das nossas vidas, sempre vamos ter a Semana na Praia — diz ele com deboche, e jogo um elástico de cabelo nele.
Lucas pode debochar de mim por ser nostálgica quanto quiser. Eu sei que esses dias são especiais. O ensino médio vai ser uma época da qual vamos nos lembrar pelo resto da vida.

* * *

Depois da aula, Peter e eu vamos para a casa dele, porque a minha está uma zona por causa do casamento, e a mãe de Peter tem o clube do livro depois do trabalho e Owen tem treino do futebol, então vamos ficar com a casa só para nós. Parece que o único lugar onde ficamos sozinhos de verdade é no carro dele, e momentos assim são raros e dignos de nota. É meu último trajeto de carro da escola para casa, e é Peter K. quem está dirigindo. É adequado terminar o ensino médio do jeito que o passei, no banco do carona do carro de Peter.
Quando vamos para o quarto dele, eu me sento na cama, que está arrumada, com o edredom esticado. Os travesseiros parecem até afofados. O edredom é novo, provavelmente para a faculdade. É uma estampa xadrez vermelha, creme e azul-marinho, e tenho certeza de que foi a mãe dele que escolheu.
— Sua mãe faz sua cama, não faz? — pergunto, me recostando nos travesseiros.
— Faz — responde ele, sem um pingo de vergonha.
Ele se senta na cama, e eu chego para o lado para dar espaço.
A luz do fim da tarde entra pelas cortinas claras e deixa o quarto com um filtro meio sonhador. Se fosse escolher um nome, seria “verão no subúrbio”. Peter fica lindo nessa luz. Fica lindo em qualquer luz, mas principalmente nessa. Tiro uma foto dele em pensamento, guardo esse momento na memória. Qualquer irritação que eu tenha sentido por ele ter esquecido meu anuário some quando ele chega perto de mim, apoia a cabeça no meu peito e diz:
— Consigo sentir seu coração batendo.
Eu começo a mexer no cabelo dele, pois sei que Peter gosta. É tão macio para um garoto. Adoro o cheiro do xampu dele, do sabonete, de tudo.
Ele olha para mim e passa o dedo pelo meu lábio.
— Gosto mais dessa parte — diz ele. Em seguida, roça os lábios nos meus, me provocando.
Ele morde meu lábio inferior. Gosto de todos os nossos beijos, mas talvez mais desse. Ele logo começa a me beijar com urgência, como se estivesse desesperado, as mãos no meu cabelo, e eu penso não, esses são os melhores.
Entre beijos, ele pergunta:
— Por que você só quer me beijar quando estamos na minha casa?
— Eu… não sei. Acho que nunca pensei nisso antes.
É verdade que só ficamos dando uns amassos na casa de Peter. É estranho ser romântica na mesma cama em que durmo desde que eu era pequena. Mas, quando estou na cama de Peter, ou no carro dele, eu esqueço tudo e só me perco no momento.
Estamos nos beijando de novo — Peter sem camisa, eu ainda com a minha — quando o telefone toca no andar de baixo e Peter diz que deve ser o encanador querendo confirmar o dia em que virá fazer o conserto. Ele veste a camisa e desce para atender, e eu vejo meu anuário na mesa dele.
Eu me levanto da cama, pego o anuário e viro. Ainda está vazio. Quando Peter sobe, estou sentada na cama de novo e não menciono o anuário, não pergunto por que ele ainda não escreveu nada. Não sei por quê. Digo que preciso ir porque Margot chega da Escócia hoje e eu quero abastecer a geladeira com as comidas favoritas dela.
O sorriso de Peter diminui.
— Não quer ficar mais um pouco? Posso levar você no mercado.
— Também preciso fazer uma faxina no andar de cima — digo, me levantando.
Ele segura minha blusa e tenta me puxar para a cama.
— Só mais cinco minutos.
Eu me deito ao lado dele e Peter se aconchega, mas eu ainda estou pensando no anuário. Estou trabalhando no scrapbook dele há meses; o mínimo que ele pode fazer é escrever uma bela mensagem no meu anuário.
— É um bom treino para a faculdade — murmura ele, me puxando para perto e me abraçando. — As camas são pequenas na UVA. Como são na UNC?
De costas para ele, eu digo:
— Não sei. Não cheguei a ver os alojamentos.
Ele aninha a cabeça no espaço entre meu pescoço e meu ombro.
— Foi um teste — diz ele, e consigo sentir seu sorriso no meu pescoço. — Queria saber se você visitou o quarto de um cara qualquer da UNC com Chris. Parabéns, você passou.
Não consigo evitar uma gargalhada. Mas meu sorriso some, e eu decido fazer meu próprio teste.
— Pode me lembrar de levar meu anuário quando eu for embora?
Ele enrijece por um segundo, mas responde com tranquilidade:
— Tenho que procurar. Está em algum lugar aqui no quarto. Se eu não encontrar, levo mais tarde pra você.
Eu me afasto dele e me sento. Confuso, Peter olha para mim.
— Eu vi meu anuário na sua mesa, Peter. Sei que você ainda não escreveu nada!
Peter se senta e suspira, passando a mão pelo cabelo. Os olhos encontram os meus e desviam para baixo de novo.
— Eu não sei o que escrever. Sei que você quer uma mensagem linda e romântica, mas não sei o que dizer. Tentei algumas vezes, mas eu… eu empaco. Você sabe que não sou bom nessas coisas.
— Não ligo para o que você vai escrever, desde que seja de coração. Só seja fofo. Seja você — digo com carinho. Eu chego mais perto e passo os braços pelo pescoço dele. — Tudo bem?
Peter assente, e eu dou um beijinho nele, e ele se aproxima e me beija com vontade, e eu paro de me importar com meu anuário idiota. Estou ciente de cada respiração, de cada movimento. Decoro tudo, guardo no coração.
Quando nos separamos, ele olha para mim e diz:
— Eu fui na casa do meu pai ontem.
Eu arregalo os olhos.
— Sério?
— É. Ele convidou Owen e eu para jantar, e eu não queria ir, mas Owen me pediu para ir com ele, e eu não podia dizer não.
Eu me deito de novo e apoio a cabeça no peito dele.
— Como foi?
— Tudo bem, eu acho. A casa dele é legal. — Eu não falo nada; só espero ele continuar. Parece demorar muito tempo até ele dizer: — Sabe aquele filme velho que você me fez ver, em que o garoto pobre estava de pé do lado de fora com o nariz encostado no vidro? Foi assim que eu me senti.
“Aquele filme velho” é A Fantástica Fábrica de Chocolate, quando Charlie fica olhando as crianças enlouquecidas na loja de doces, mas não pode entrar porque não tem dinheiro. A ideia de que Peter — tão bonito, confiante e tranquilo — esteja se sentindo assim me dá vontade de chorar. Talvez eu não devesse ter insistido tanto para ele retomar contato com o pai.
— Ele pendurou uma cesta de basquete para os filhos. Eu pedi uma tantas vezes, mas ele nunca pendurou. Os filhos dele nem são atléticos. Acho que Everett nunca segurou uma bola de basquete na vida.
— Owen se divertiu?
Ele assente, contrariado.
— Sim, ele, Clayton e Everett jogaram videogame. Meu pai fez hambúrguer e bife. Até colocou um maldito avental de chef. Acho que ele nunca ajudou minha mãe na cozinha durante todo o tempo em que foram casados. — Peter faz uma pausa. — Mas não lavou a louça, então acho que isso não mudou muito. Mesmo assim, deu para perceber que ele e Gayle estavam se esforçando. Ela fez um bolo. Mas não estava tão bom quanto os seus.
— Bolo de quê? — pergunto.
— Bolo de chocolate com calda de chocolate. Estava meio seco. — Peter hesita, mas continua: — Eu o convidei para a formatura.
— Convidou? — Meu coração se infla.
— Ele ficou me perguntando sobre a escola, e… Sei lá. Pensei no que você disse e convidei. — Ele dá de ombros, como se não ligasse muito se o pai ia aparecer ou não. É puro fingimento. Peter se importa. Claro que se importa. — Então você vai conhecê-lo.
Eu me aproximo mais dele.
— Estou muito orgulhosa de você, Peter.
Ele dá uma risadinha.
— Por quê?
— Por dar uma chance ao seu pai, apesar de ele não merecer. — Eu o encaro nos olhos e digo: — Você é uma boa pessoa, Peter K.
E o sorriso que surge no rosto dele me faz amá-lo ainda mais.

9 comentários:

  1. Pq EXATAMENTE q o Peter n "perdoa" o pai msm??

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    Respostas
    1. Mandy Nerd K-Otaku29 de junho de 2018 21:05

      Por que nos anos em que o pai e a mãe do Peter foram casados o ele foi um péssimo marido e um péssimo pai. Agora que se casou de novo,ele virou o "homem" perfeito. Por isso o Peter fica comparando,reparou?

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  2. Manoo, por favor me digam que eu não fui a única a ler -* Everest * em vez de -* Everett *

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  3. Cara, eu entendo o Peter. Minha mãe está para se casar com um homem que abomino, por ser um desses crentes intransigentes da vida, e eu, há anos sequer olho pra uma igreja, e ele tem uma filha de 8 anos de idade. Minha mãe até a carrega, faz mil e uma coisas para agradá-la, tá toda contente por, finalmente, ter a família evangélica com a qual tanto sonhou. Não me liga faz bem uns 2 meses. O que mais me doeu foi vê-la chamar outra garota de "minha princesa", como ela costumava fazer comigo. Mesmo já sendo adulta, doeu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!