26 de junho de 2018

Capítulo 29


— Você não está dormindo — disse Persephone enquanto acordava Blue — então pode nos ajudar?
Blue abriu os olhos. Seus lábios estavam colados um no outro. Um ventilador no canto do quarto girava, secando o suor na parte de trás de seus joelhos. Persephone se ajoelhou na beirada da cama, envolvendo o rosto de Blue em uma nuvem de cabelo claro e frisado. Ela cheirava a rosas e fita adesiva. O céu na rua estava negro e azul.
— Eu estava dormindo.
Em sua voz pequenina, Persephone salientou:
— Mas agora não está mais.
Não havia absolutamente sentido algum em discutir com ela; era como brigar com um gato. Também, não era estritamente uma mentira. Espreguiçando-se irritada, ela chutou Persephone para fora da cama e jogou para o lado o lençol.
Juntas, elas desceram silenciosamente os degraus à meia-noite para o brilho embolorado da cozinha. Maura e Calla já estavam lá, curvadas sobre a mesa, como uma dupla de conspiradoras. A luminária falsa da Tiffany acima delas pintava a parte de trás da cabeça delas de roxo e laranja. A noite forçava a entrada pela porta de vidro às suas costas, e Blue podia ver a silhueta familiar e reconfortante da faia no jardim.
Ao som dos passos de Blue, Maura ergueu o olhar.
— Ah, que bom.
Blue lançou um olhar pesado para a mãe.
— Dá tempo de eu fazer um chá?
Maura assentiu com a mão para Blue ir em frente. Quando a garota se juntou a elas na mesa com sua xícara, todas as três voltaram a atenção para um único objeto, uma cabeça loira, uma morena e uma negra. Três pessoas, mas uma entidade.
Blue se arrepiou um pouco quando se sentou.
— Ah, chá de hortelã — disse Calla sugestivamente, arruinando o clima.
Revirando os olhos, Blue perguntou:
— Como posso ajudar?
Elas abriram a formação para que Blue visse sobre o que elas estavam amontoadas: um telefone celular. Calla o segurava, e elas vinham tentando uma leitura da médium sobre o objeto.
— Esse telefone é do sr. Cinzento — disse Maura. — Você nos ajudaria?
Aborrecida, Blue colocou a mão no ombro de Calla.
— Não — disse Maura. — Não desse jeito. Estamos tentando descobrir como acessar os e-mails dele.
— Ah. — Ela pegou o telefone. — A garotada de hoje em dia...
— Pois é.
Blue passou o polegar pela tela. Embora ela não tivesse um celular, já manuseara muitos, e aquele era do mesmo modelo do de Gansey. Não era preciso nenhuma habilidade especial para abrir o e-mail do sr. Cinzento. Ela devolveu o telefone.
A três mulheres se inclinaram para frente.
— Você roubou isso? — perguntou Blue.
Não houve resposta. Só pescoços esticados, observando.
— Devo queimar um pouco de íris? E aipo?
Persephone piscou, os olhos negros um pouco distantes.
— Ah, sim, por favor.
Com um bocejo, Blue se afastou da mesa e preparou um prato pequeno com sementes de aipo e um rizoma de íris do armário. Ela usou uma das velas sobre o balcão para acendê-las. A mistura fez fumaça e estalou, as sementes de aipo se retorcendo como pipoca e o rizoma de íris cheirando a violeta queimada. A ideia era que a fumaça tornasse as impressões mediúnicas mais claras.
Ela colocou o prato no centro da mesa. Ele começou a cheirar um pouco como fogos de artifício.
— Por que vocês estão mexendo no telefone dele?
— Todas nós sabíamos que ele estava procurando algo — respondeu Maura. — Só não sabíamos o quê. Mas agora sabemos.
— E o que é?
— O seu garoto cobra — disse Calla. — Só que ele não sabe que é um garoto.
— Ele o chama de Greywaren e diz que serve para tirar coisas de sonhos. Você vai ter que tomar cuidado, Blue. Acho que aquela família está toda enrolada em alguma confusão — disse Maura.
Alguma confusão que envolvia o pai de Ronan ter sido espancado até a morte com uma chave de roda. Essa parte Blue já sabia.
— Você acha que ele é perigoso para o Ronan? — Blue se lembrou do rosto machucado de Declan Lynch. — Quer dizer, se ele descobrir que o Greywaren é um ele e não uma coisa?
— Com certeza — disse Calla, ao mesmo tempo em que Maura disse: — Provavelmente não.
Persephone e Calla lançaram olhares para Maura.
— Vou entender como um talvez — disse Blue.
Nesse momento, o telefone pulou da superfície da mesa. As quatro deram um salto.
Blue foi a primeira a se acalmar; ele só estava tocando. Ou melhor, abrindo caminho mesa afora enquanto zunia e vibrava.
— Anote o número! — gritou Calla, mas devia estar falando consigo mesma, pois já o estava anotando.
Com uma voz pequena, Persephone disse:
— É um número de Henrietta. Você quer atender?
Maura balançou a cabeça. Após um momento, chegou uma mensagem no correio de voz.
— Mas isso nós vamos ouvir. Hã, Blue? Você consegue?
Blue pegou o telefone e encontrou o correio de voz com o polegar, então o passou para Maura.
— Ah — disse Maura, ouvindo. — É ele. Aperto esse botão para ligar de volta...? Sim. — Ela esperou enquanto o telefone tocava, e então: — Ah, olá, sr. Cinzento.
Blue adorava aquela voz de sua mãe, exceto quando era usada com ela. Era uma voz alegre, que transmitia autoridade, que dizia que ela tinha todas as cartas. Só que agora ela a estava usando com um assassino, cujo telefone ela havia roubado. Blue não sabia dizer se aquilo era encantadoramente descarado ou incrivelmente tolo.
— Bem, você não achou que eu ia atender uma chamada no seu telefone, não é? Isso seria terrivelmente grosseiro. Você chegou em casa bem? Ah, sim, pode pegar o telefone de volta agora. Desculpe se você precisou dele. Você... ah.
O que quer que o Homem Cinzento tenha dito imediatamente fez Maura se calar. Ela baixou os olhos e sugou o lábio superior entre os dentes. A ponta das orelhas ficou rosada. Ela ouviu por um momento, puxando Calla e Persephone de volta.
— Bem — ela disse, por fim. — Quando você quiser. Eu acho que você devia ligar primeiro, mas... bem. Você sabe. Eu tenho o seu telefone. Ha. Tudo bem. Tudo bem. Não durma de costas. Todas as espadas vão te atravessar. Sim, esse é o meu conselho profissional.
Maura desligou o telefone.
— O que ele disse? — demandou Blue.
— Que a gente podia simplesmente pedir os objetos de valor que quisermos dele da próxima vez, para que ele possa se precaver — disse Maura.
Calla apertou os lábios.
— Isso é tudo?
Maura estava ocupada passando o telefone da mão esquerda para a direita e de volta para a esquerda.
— Ah, e que ele gostou do jantar.
Blue irrompeu:
— Mas você não esqueceu o Chuchu.
Dessa vez, sua mãe não reclamou do nome. Ela disse:
— Eu nunca esqueço.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!