3 de junho de 2018

Capítulo 29

Um cavalo é um cavalo
Claro, ninguém pode...
CORRAM! ELE ESTÁ CHEGANDO!

O IATE ERA uma mansão flutuante cheia de sapatos. Hermes estaria no paraíso. Não que ele fosse o deus dos sapatos, vejam bem, mas é que, como deidade padroeira dos viajantes, era o mais próximo disso em termos olimpianos. Sua coleção de Nike Air era inigualável. Sem falar que ele tinha armários de sandálias aladas, separadas em fileiras de couro envernizado e prateleiras de camurça azul... e, claro, patins. Ainda tenho pesadelos com as visões de Hermes patinando pelo Olimpo com aquele cabelão, usando um short justinho e meias listradas de lurex, ouvindo Donna Summer em seu walkman.
Piper e eu seguíamos para o segundo convés a bombordo. No caminho, passamos por pedestais iluminados exibindo sapatos de grife; um corredor coberto de prateleiras do chão ao teto cheias de botas vermelhas; e um quarto só para chuteiras (para que Calígula queria tantas chuteiras, eu não sei).
A sala indicada por Compasso parecia servir mais para abrigar uma quantidade impressionante de sapatos do que para ostentar a qualidade das marcas. O aposento era grande como um bom apartamento, e as janelas tinham vista para o mar — assim os estimados sapatos do imperador poderiam apreciar a paisagem. Bem no meio ficavam dois sofás muito confortáveis virados para uma mesa de centro onde repousava uma pequena coleção de garrafas de água mineral exóticas, para o caso de alguém sentir sede e precisar se reidratar enquanto se recuperava de calçar o sapato esquerdo e esperava para botar o direito.
Quanto aos sapatos em si, as paredes dos fundos e a da frente estavam alinhadas com fileiras de…
— Minha nossa! — exclamou Piper.
Achei que isso resumia muito bem: fileiras de minha nossa!.
Um par das botas de batalha de Hefesto estava exposto num pedestal central: eram dispositivos enormes com saltos e bicos cobertos de spikes e meias embutidas de cota de malha. Os cadarços eram pequeninas serpentes de bronze autômatas, programadas para impedir que qualquer pessoa não autorizada tentasse calçar as botas.
Em outro pedestal, numa caixa de vidro, voava um par de sandálias aladas, tentando escapar.
— Será que são essas? — perguntou Piper, apontando. — Assim poderíamos voar pelo Labirinto.
A ideia era ótima, mas eu balancei a cabeça.
— Sapatos alados são muito complicados. Se estiverem encantados, podem nos levar para o lugar errado…
— Ah, certo. Percy já me contou de um par que quase… Bem, deixa pra lá.
Examinamos os outros pedestais. Alguns sapatos exibidos não passavam de simples modelos únicos: botas plataforma cravejadas de diamantes, sapatos sociais feitos de pele do extinto dodô (mas que coisa vil!) e um par de Adidas assinado por todos os jogadores do LA Lakers de 1987. Outros eram sapatos mágicos, muito bem indicados. Um par de chinelos tecido por Hipnos, para dar sonhos agradáveis e sono profundo; um par de sapatos de dança elaborado por minha grande amiga Terpsícore, a Musa da dança — esses eram raros. Astaire e Rogers tinham um par cada, assim como Baryshnikov. Também havia um par de mocassins velho de Poseidon, que garantia tempo perfeito na praia, boa pescaria, ondas altas e bronzeado de primeira. Achei uma ideia ótima.
— Ali! — Piper apontou para um velho par de sandálias de couro jogado de qualquer jeito no canto do quarto. — Podemos supor que os sapatos menos prováveis são na verdade os mais prováveis?
Não gostei daquela suposição. Sempre preferi quando o popular, maravilhoso ou talentoso era mesmo o mais popular ou maravilhoso ou talentoso — o que em geral era eu, claro. Mas, naquele caso, achava que Piper podia estar certa.
Eu me ajoelhei ao lado do par.
— São cáligas, sandálias de legionário.
Com o dedo indicador, ergui os sapatos pelas tiras. Não tinham nada de muito especial, eram só solas de couro e tiras amaciadas e escurecidas pelo tempo. Pareciam ter visto muitas marchas, mas estavam muito bem cuidadas; deviam ter recebido amor e atenção ao longo dos séculos.
— Cáligas — repetiu Piper. — De Calígula.
— Exatamente. São a versão adulta das botinhas que geraram o apelido de infância de Caius Julius Caesar Augustus Germanicus.
Piper fez careta.
— Está sentindo algum resquício de magia nelas?
— Bem, elas não estão vibrando de energia nem nada. E também não estão trazendo grandes memórias de pés fedidos ou me dando vontade de calçá-las, mas acho que são os sapatos certos. São do modelo que o batizou, então carregam seu poder.
— Hum. Bem, se você consegue falar com uma flecha, deve conseguir decifrar um par de sandálias.
— É um dom — concordei.
Piper se ajoelhou ao meu lado e pegou um dos pés da sandália.
— Não cabem em mim, são grandes demais. Parecem ser do seu tamanho.
— Está dizendo que eu tenho pés grandes?
Ela abriu um sorriso.
— Essas sandálias devem ser tão desconfortáveis quanto os sapatos da vergonha, um par de sapatos de enfermeira branco e horrível que tinha lá no chalé de Afrodite. A pessoa era obrigada a usar como punição, quando fazia alguma coisa ruim.
— Nossa, isso é a cara da Afrodite.
— Eu me livrei daqueles sapatos. Mas estes aqui… Acho que, se você não ligar de botar os pés onde os de Calígula já estiveram…
— PERIGO! — gritou uma voz atrás de nós.
Chegar sorrateiramente por trás de alguém e gritar perigo é um excelente jeito de fazer a pessoa ao mesmo tempo pular, girar e cair de bunda — que foi exatamente o que aconteceu comigo e com Piper.
E eis que surge Clave, com o pelo branco todo despenteado e encharcado, como se tivesse acabado de atravessar a piscina de Calígula. As mãos de oito dedos estavam apoiadas no batente da porta, e sua respiração estava arquejante. O terno preto estava em farrapos.
— Estriges! — anunciou, ofegante.
Meu coração pulou para a boca.
— Estão atrás de você?
Ele balançou a cabeça, as orelhas ondulando como lulas em pânico.
— Acho que consegui despistar todas, mas…
— E por que você veio aqui? — perguntou Piper, levando a mão à adaga.
O olhar no rosto de Clave era um misto de desejo e pânico. Ele apontou para o meu ukulele.
— Pode me ensinar a tocar?
— É… posso. Se bem que um violão seria melhor, considerando o tamanho das suas mãos.
— Aquele acorde, o que fez Compasso berrar. É esse que eu quero.
Eu me levantei bem devagar, querendo evitar assustá-lo ainda mais.
— O conhecimento do trítono de dó menor dissonante é uma grande responsabilidade. Mas, sim, posso ensiná-lo a você.
— E tem você também. — Ele olhou para Piper. — Aquele jeito como você cantou... pode me ensinar?
Piper afastou a mão do cabo da adaga.
— Eu… eu acho que posso tentar, mas…
— Então temos que fugir agora mesmo! — exclamou Clave. — Eles já pegaram seus amigos!
— O quê? — Piper se levantou. — Tem certeza?
— A garota apavorante. O menino do raio. Tenho certeza.
Engoli em seco, contendo o desespero. Clave tinha dado uma descrição impecável de Meg e Jason.
— Onde? — perguntei. — Quem os pegou?
— Ele. O imperador. E o pessoal daqui a pouco chega. Temos que sair voando! Vamos ser os melhores músicos do mundo!
Em outras circunstâncias, eu teria achado aquele conselho excelente. Mas não com Meg e Jason em perigo. Enrolei as sandálias do imperador e as enfiei bem no fundo da aljava.
— Você pode nos levar até nossos amigos?
— Não! — berrou Clave. — Vocês vão morrer! A feiticeira…
Como foi que Clave não ouviu os inimigos se esgueirando atrás dele? Não sei. Talvez o raio de Jason tivesse deteriorado um pouco sua audição. Talvez ele estivesse nervoso demais, concentrado demais em tentar nos convencer a fugir para prestar atenção ao que acontecia logo atrás.
Fosse qual fosse o caso, Clave caiu para a frente, dando de cara na redoma de vidro que guardava as sandálias aladas. Ele desabou no tapete, quebrando a redoma, e as sandálias, livres, ficaram chutando sua cabeça. Nas costas dele dava para ver, bem destacadas, duas marcas fundas no formato de cascos de cavalo.
Um majestoso garanhão branco estava parado à porta, a cabeça quase tocando o topo do batente. Foi naquele momento que compreendi por que os iates do imperador tinham tetos tão altos, com corredores e portas tão largos: tinham sido feitos para acomodar o cavalo.
— Incitatus — cumprimentei.
O cavalo me encarou de uma forma que nenhum cavalo no mundo deveria ser capaz de fazer, as enormes pupilas castanhas cintilando com uma inteligência maliciosa.
— Apolo.
Piper pareceu atordoada, o que é normal ao encontrar um cavalo falante dentro de um iate cheio de sapatos.
— Mas o que…? — Ela não teve tempo de terminar a pergunta.
Incitatus atacou, pisoteando a mesa de centro, e deu uma cabeçada em Piper, jogando-a longe. Ela bateu na parede com um estalo horrível e desabou no chão.
Corri para socorrê-la, mas o cavalo avançou em mim, me arremessando no sofá mais próximo.
— Ora, ora...
Incitatus observou o aposento, contabilizando o estrago: pedestais virados; a mesa de centro destruída; as garrafas de água mineral exótica quebradas, escorrendo pelo tapete; Clave gemendo no chão, ainda sendo chutado pelas sandálias aladas; Piper imóvel, com sangue escorrendo do nariz; e eu no sofá, apalpando as costelas machucadas.
— Ah, me desculpe por invadir sua invasão. Eu tinha que apagar a garota rapidamente, entende? Não gosto de gente que usa charme.
Era a mesma voz que ouvi quando estava escondido na caçamba de lixo atrás da Maluquice Militar do Macro — uma voz grave e cansada, com toques de irritação, como se já tivesse visto todas as coisas estúpidas possíveis que se poderiam esperar dos bípedes.
Olhei para Piper McLean, horrorizado. Ela parecia não estar respirando. Eu me lembrei das palavras da Sibila… principalmente a parte da palavra terrível que começa com M.
— Você… você a matou — gaguejei.
— Matei? — Incitatus enfiou o focinho no peito de Piper. — Que nada, ela ainda está viva. Mas não vai durar muito. Agora, venha. O imperador quer ver você.

Um comentário:

  1. Não pode ser tão simples. Um cavalo... Claro, porque não. Riordan, não faça uma personagem começar a evoluir e ficar legal para mata-lá. Sério.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!