26 de junho de 2018

Capítulo 28

— Boa noite, rei de espadas.
— Boa noite, nobre lâmina. Você fez uma leitura antes de eu vir? Para lhe explicar como tudo deu certo? — perguntou o Homem Cinzento, enquanto acompanhava Maura na direção do Motim Champanhe. Ele tinha tomado banho antes de ir buscá-la, embora não tivesse feito a barba que era sua marca registrada, e estava bonito, embora Maura não tenha dito isso.
— Você matou alguém antes de vir me buscar? — Maura havia trocado o jeans azul rasgado por um jeans azul ligeiramente menos rasgado e uma blusa de algodão com os ombros de fora, que mostrava como sua clavícula e seu pescoço combinavam bem. Ela estava bonita, embora o Homem Cinzento não tenha dito isso.
Mas ambos sabiam que o outro havia notado.
— É claro que não. Não acho que eu mate tantas pessoas quanto você imagina — ele disse, abrindo a porta do passageiro para ela. — Sabe, é a primeira vez que eu te vejo usando sapatos. Ah, então... O que é aquilo?
Maura olhou de relance sobre o ombro, para onde ele apontava. Um Ford pequeno, cansado, havia estacionado um pouco atrás do carro alugado do Homem Cinzento.
— Ah, é a Calla. Ela vai nos seguir até o restaurante para ter certeza que você vai me levar realmente lá, e não me enterrar na mata.
O Homem Cinzento disse:
— Que ridículo. Eu nunca enterro ninguém.
Calla acenou de má vontade na direção dele. Seus dedos eram garras no volante.
— Ela gosta de você — disse Maura. — Você devia ficar satisfeito. Ela é uma boa amiga para se ter.
O Ford cansado os seguiu até o restaurante e esperou no meio-fio até que o Homem Cinzento e Maura estivessem sentados a uma mesa debaixo de uma madressilva e um caramanchão coberto de luzes natalinas. Ventiladores fixos nos cantos mantinham a noite úmida a distância.
— Vou fazer o pedido para você — disse Maura.
Ela esperou para ver se ele contestaria, mas ele apenas disse:
— Sou alérgico a morango.
— Seis por cento da população é — ela observou.
— Agora vejo a quem sua filha puxou — ele disse.
Ela sorriu exultante para ele. Ela tinha um daqueles sorrisos adoráveis, abertos e perfeitos, genuinamente feliz e muito bonito. O Homem Cinzento pensou: Essa foi a pior decisão que eu já tomei.
Ela fez o pedido para eles. Nenhum dos dois bebia vinho. As entradas estavam deliciosas, não por causa da cozinha, mas porque toda comida consumida antes de um beijo é deliciosa.
— Como é ser uma clarividente? — perguntou o Homem Cinzento.
— Essa é uma maneira engraçada de colocar a questão.
— O que eu quero dizer é: quanto você pode ver e com que grau de clareza? Você sabia que eu faria essa pergunta? Você sabe o que eu estou pensando?
O sorriso de Maura se crispou inteligentemente.
— É como um sonho ou uma lembrança, mas para frente. A maior parte é confusa, mas às vezes vemos um elemento em particular muito claramente. E nem sempre é o futuro. Muitas vezes, quando as pessoas chegam para uma leitura, nós contamos coisas que elas já sabem. Então não, eu não sabia que você faria essa pergunta. E sim, eu sei o que você está pensando, mas isso porque sou boa com conjecturas, não uma boa médium.
Era engraçado, pensou o Homem Cinzento, como ela parecia brincalhona sempre, como aquele sorriso estava sempre a apenas um instante de seus lábios. Você realmente não via a tristeza ou o desejo, a não ser que já soubesse que eles estavam ali. Mas esse era o truque, não era? Todo mundo tinha suas frustrações e sua bagagem, só que algumas pessoas as carregavam nos bolsos internos e não nas costas. E este era o outro truque: Maura não estava fingindo sua felicidade. Ela era muito feliz e muito triste.
Mais tarde, os pratos chegaram. Maura havia pedido salmão para o Homem Cinzento.
— Porque tem algo de escorregadio a seu respeito — ela disse.
Ele achou divertido.
— E como é ser um assassino de aluguel?
— Essa é uma maneira engraçada de colocar a questão. — Mas, realmente, o Homem Cinzento concluiu que não queria falar sobre seu trabalho. Não porque tivesse vergonha dele, afinal era o melhor do ramo, mas porque o trabalho não o definia. Não era o que ele fazia no tempo livre. — Paga as contas. Mas prefiro a minha poesia.
Maura havia pedido para si um daqueles pássaros pequenos servidos como se tivessem caminhado até o prato com suas próprias forças. Ela parecia estar questionando essa decisão agora.
— A sua poesia em inglês arcaico. Tudo bem, vou morder a isca. Me conte por que você gosta dela.
Ele contou. Contou da melhor maneira possível, sem mencionar onde havia estudado ou o que havia feito antes de publicar o seu livro. Ele disse que tinha um irmão, mas rapidamente voltou atrás e contornou essa parte da história. Ele lhe contou o máximo que podia contar a respeito de si sem dizer o seu nome. Seu telefone estava vibrando contra a perna, mas ele o deixou tocar.
— Então você é um assassino só para pagar o aluguel — disse Maura. — Você não se importa de machucar as pessoas?
O Homem Cinzento considerou a questão. Ele não queria faltar com a verdade.
— Eu me importo — ele disse. — Eu apenas... desligo essa parte do cérebro.
Maura puxou uma das coxas de seu pássaro pequenino.
— Acho que não preciso lhe dizer como isso é psicologicamente prejudicial.
— Existem impulsos mais destrutivos no mundo — ele respondeu. — Eu me sinto relativamente equilibrado. E você e a sua ambição?
Os olhos dela se arregalaram, surpresos.
— Por que você diz isso?
— O jogo que você estava jogando naquela primeira noite. Quando estava adivinhando as cartas. Praticando. Experimentando.
— Eu só quero compreender — disse Maura. — Isso mudou completamente minha vida. É um desperdício se eu não souber o máximo que puder. Mas não sei se chamaria isso de ambição. Ah, sei lá. Já causou o seu dano... Então, você mencionou um irmão.
De alguma maneira, ela conseguira associar a palavra irmão com dano. Ele sentiu como se ela já tivesse adivinhado as nuances da relação deles.
— Meu irmão — ele disse, e então fez uma pausa e se reagrupou. De maneira absolutamente precisa, respondeu: — Meu irmão é muito inteligente. Ele pode desenhar o mapa de um lugar se tiver passado dirigindo por ele uma única vez. Ele consegue fazer contas complexas de cabeça. Eu sempre o admirei quando criança. Ele inventava jogos complicados e passava o dia inteiro neles. Às vezes me deixava jogar, se eu prometesse seguir as regras. Às vezes ele pegava um jogo, como xadrez ou War, e aplicava essas regras para o bairro inteiro. Às vezes construíamos fortes e nos escondíamos neles. Às vezes ele encontrava coisas na casa de outras pessoas e me machucava com elas. Às vezes ele pegava animais com armadilhas e fazia coisas com eles. Às vezes nos fantasiávamos e encenávamos peças.
Maura empurrou o prato para frente.
— Então ele era um sociopata.
— Provavelmente.
Ela suspirou. Um suspiro muito triste.
— E agora você é um assassino. O que ele faz? Ele está na prisão?
— Ele investe o dinheiro de outras pessoas em fundos de pensão. Ele jamais irá para a prisão. É inteligente demais.
— E você?
— Acho que eu não me daria bem na prisão — ele disse. — Eu preferiria não ir para lá.
Maura ficou quieta por um bom tempo. Então dobrou o guardanapo, colocou-o de lado e se inclinou na direção dele.
— Te incomoda que ele tenha te deixado desse jeito? Você sabe que é por isso que você consegue fazer o seu trabalho, não sabe?
Qualquer parte do Homem Cinzento que tivesse se incomodado com isso havia morrido há muito tempo, queimada com fósforos, cortada com tesouras e espetada com alfinetes, e, quando olhou para ela, ele não disfarçou essa morte nele.
— Ah — ela disse, estendendo o braço sobre a mesa e colocando a palma da mão no rosto dele. Ela era fria, macia e inteiramente diferente, de alguma forma, do que o Homem Cinzento havia esperado. Mais real. Muito mais real. — Lamento que ninguém o tenha salvado.
Ele não fora salvo? Será que ele poderia ter terminado de outro jeito?
Maura pediu a conta. O Homem Cinzento pagou. Ele havia deixado dois pequenos pedaços de salmão no prato, e Maura usou o garfo dela para roubá-los.
— Assim nós dois teremos hálito de peixe — disse ela.
E então, no escuro ao lado da Paródia Champanhe, ele a beijou. Há tempos nenhum dos dois beijava alguém, mas não tinha importância. Beijar é muito parecido com rir. Se a piada for engraçada, não importa há quanto tempo você ouviu uma boa.
Por fim, ela murmurou, a mão na camisa dele, os dedos percorrendo suas costelas:
— Essa é uma ideia terrível.
— Não existem ideias terríveis — disse o Homem Cinzento. — Apenas ideias terrivelmente executadas.
— Esse também é um conceito psicologicamente prejudicial.
Mais tarde, após tê-la deixado em casa e voltado para a Pousada Vale Aprazível, ele descobriu que Shorty e Patty Wetzel tentaram desesperadamente ligar para ele durante todo o jantar para avisá-lo que seu quarto no hotel havia sido revirado.
— Você não ouviu o telefone tocar? — perguntou Patty urgentemente.
O Homem Cinzento se lembrou da vibração do celular e tateou os bolsos. Mas o telefone havia desaparecido. Maura Sargent o roubara enquanto eles se beijavam.
Em seu lugar estava o dez de espadas: o Homem Cinzento morto no chão e Maura, a espada, atravessando-lhe o coração.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!