3 de junho de 2018

Capítulo 28

Um deus vestido de deus
Vestido de um…
Não. Deprimente demais

NENHUM MERCENÁRIO SE deu ao trabalho de nos seguir. E como poderiam? Não dava para esperar que alguém fosse se meter numa perseguição depois de uma performance daquelas, nem mesmo guerreiros durões. Deviam estar chorando nos braços uns dos outros ou procurando caixas de lenço de papel pelo iate.
Seguimos pelos outros superiates de Calígula da casa dos trinta usando dissimulação sempre que necessário, mas em geral contando apenas com a apatia dos tripulantes. Calígula sempre inspirou medo nos servos, mas isso não era o mesmo que lealdade. Ninguém nem quis saber da gente.
No barco quarenta, Piper desabou. Corri para ajudar, mas ela me empurrou para longe, resmungando:
— Estou bem.
— Você não está nada bem. Deve ter tido uma concussão e ainda acabou de usar um charme musical poderoso. Precisa descansar um tempinho.
— Não temos um tempinho.
Eu estava perfeitamente ciente disso. Volta e meia ouvíamos tiros pipocando pelo porto, da direção de onde tínhamos vindo. O scree agudo das estriges cortava o ar noturno. Nossos amigos tinham ido ganhar tempo, e não podíamos desperdiçar nem um segundo sequer.
Além disso, era a noite da lua nova. Os planos de Calígula para o Acampamento Júpiter, ao norte, estavam acontecendo naquele momento, fossem quais fossem. Só me restava torcer para que Leo tivesse conseguido avisar os semideuses romanos a tempo de eles impedirem qualquer tragédia. Estar impotente para ajudá-los era um sentimento terrível que me deixava muito ansioso, tanto que eu não queria desperdiçar nenhum segundo.
— Mas, mesmo assim, eu realmente não tenho tempo de lidar com você morrendo ou entrando em coma. Então você vai parar um pouco para se sentar. Vamos procurar um lugar fechado.
Piper estava fraca demais para protestar muito. Naquelas condições, eu duvidava que ela fosse conseguir usar o charme até para se livrar de pagar estacionamento. Eu a carreguei para dentro do iate quarenta, que era dedicado ao closet de Calígula.
Passamos por diversos aposentos cheios de roupas: ternos, togas, armaduras, vestidos (por que não?) e diversas fantasias: pirata, Apolo, panda... (Mais uma vez: por que não?) Fiquei tentado a me fantasiar de Apolo, só para sentir mais pena de mim mesmo, mas não pude parar e cobrir o corpo de tinta dourada. Por que os mortais achavam que eu era dourado? Eu poderia ser, se quisesse, mas o brilho ofuscava minha beleza natural. Correção: minha antiga beleza natural.
Depois de um tempão, encontramos um camarim com sofá. Tirei uma pilha de vestidos de baile de cima e mandei Piper se sentar. Peguei um quadradinho de ambrosia meio amassado e a mandei comer. (Caramba, como eu sabia ser firme quando precisava. Pelo menos esse poder divino eu não tinha perdido.) Enquanto Piper mordiscava a barrinha de proteína divina, fiquei olhando, melancólico, para as araras de roupas chiques feitas sob medida.
— Por que os sapatos não podiam ficar aqui? Este é o barco guarda-roupa.
— Ai, Apolo, por favor. — Piper fez uma careta enquanto se acomodava nas almofadas. — Todo mundo sabe que os sapatos têm que ter um superiate só para eles.
— Não sei se se você está falando sério.
Piper pegou um vestido Stella McCartney de seda escarlate com decote enorme.
— Que lindo. — Ela pegou a adaga, trincando os dentes pelo esforço, e abriu um rasgo bem na frente, a partir do decote. — Ah, isso foi ótimo.
Aquilo não fez muito sentido para mim. Não dava para atingir Calígula só estragando as coisas dele — Calígula tinha tudo. Rasgar o vestido também não pareceu deixá-la mais feliz. Graças à ambrosia, Piper já tinha um pouco mais de cor no rosto, e os olhos não estavam tão embotados de dor, mas ela continuava com a mesma expressão perturbada, igualzinha à mãe sempre que ouvia alguém elogiar a beleza de Scarlet Johansson. (Dica: Nunca mencionem Scarlet Johansson perto de Afrodite.)
— A música que você cantou para os mercenários, “Life of Illusion.”
Piper estreitou um pouco os olhos, como se já soubesse que essa conversa seria inevitável e estivesse cansada demais para tentar evitá-la.
— É de uma velha memória. Logo depois que meu pai conseguiu o primeiro grande papel no cinema, ele botou essa música para tocar bem alto, no carro. Estávamos indo para a casa nova, a de Malibu, e ele cantou para mim. A gente estava tão feliz... Acho que eu estava… sei lá, na pré-escola.
— Mas o jeito como você cantou... Parecia que era sobre você, sobre o término com Jason.
Ela examinou a adaga. A lâmina estava vazia, sem visões.
— Eu tentei tanto... — murmurou. — Depois da guerra com Gaia, tentei me convencer de que ficaria tudo bem. E por um tempo, talvez uns meses, eu achei que estivesse mesmo. Jason é ótimo; ele é meu melhor amigo, ainda mais do que Annabeth. Mas... — ela espalmou as mãos — aquilo que eu achei que encontraria, o meu “felizes para sempre”… Bem, não está lá.
Eu assenti.
— Esse relacionamento nasceu de uma crise. E romances assim são difíceis de manter depois que a crise acaba.
— Não foi só isso.
— Um século atrás, eu namorei a grã-duquesa Tatiana Romanova. O nosso relacionamento foi ótimo durante a Revolução Russa; ela estava muito estressada, muito assustada, e precisava muito de mim. Mas, depois que a crise passou, a magia não estava mais lá. Espera... Na verdade talvez tenha sido porque ela foi executada junto com o restante da família. Mas mesmo assim…
— Era eu.
Eu estava perdido no Palácio de Inverno, imerso na fumaça acre das armas e no frio intenso de 1917.
Mas voltei ao presente quando ela falou aquilo.
— Como assim, você? Quer dizer que você percebeu que não amava Jason? Isso não é culpa de ninguém.
Piper fez careta, como se eu ainda não tivesse entendido o que ela queria dizer… ou talvez como se ela mesma não tivesse certeza.
— Eu sei que não é culpa de ninguém. E eu amo Jason. Mas… como eu falei: foi um relacionamento forçado, tudo começou com Hera, a deusa do casamento, querendo formar um casalzinho feliz. As minhas lembranças do começo do namoro, dos nossos primeiros meses juntos, eram tudo ilusão. E, assim que eu descobri isso, antes mesmo de conseguir entender o que aquilo queria dizer, Afrodite me assumiu. De repente, a deusa do amor era minha mãe.
Ela balançou a cabeça, consternada.
— Afrodite me fez pensar que eu era… que eu precisava… — Ela soltou um suspiro. — Olhe só para mim: a grande encantadora, cheia de charme, sem palavras. Afrodite espera que suas filhas tenham os homens na palma da mão, que partam corações, essas coisas.
Eu ainda me lembrava das muitas vezes em que Afrodite e eu nos desentendemos. Eu adorava um romance, e ela sempre achou muito engraçado botar amantes trágicos no meu caminho.
— Sim. Sua mãe tem concepções bem específicas sobre como devem ser os relacionamentos.
— Então, considerando isso tudo... Eu tinha a deusa do casamento querendo que eu me acertasse com um cara legal e a deusa do amor querendo que eu seduzisse tudo e todos. Aí eu, sei lá…
— Você ainda está tentando entender quem é no meio de toda essa pressão.
Ela ficou encarando o vestido vermelho destroçado.
— Sabe, segundo a tradição Cherokee, a herança vem do lado materno. O clã dela é o seu clã. O lado do pai não conta. — Ela soltou uma risada amarga. — Ou seja: tecnicamente eu não sou nem Cherokee. Não sou de nenhum dos sete clãs principais, já que minha mãe é uma deusa grega.
— Ah.
— Então, sabe... será que eu não tenho nem isso para me definir? Passei os últimos meses tentando entender mais sobre a minha herança. Peguei a zarabatana do meu avô e conversei muito com meu pai sobre a história da família, para tentar fazer com que ele se distraísse dos problemas. Mas e se eu não for nenhuma das coisas que me disseram que eu sou? Tenho que descobrir quem sou.
— E você já chegou a alguma conclusão?
Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Estou no processo.
Eu entendia isso; também estava no processo. Era bem doloroso. Lembrei um verso da música de Joe Walsh:
— A natureza ama suas pequenas surpresas.
Piper bufou, irônica.
— Ah, se ama.
Olhei para as araras de roupas de Calígula. Vestidos de noiva e ternos Armani estavam misturados a peças como armaduras de gladiador.
— Eu tenho observado que vocês, humanos, são muito mais que a sua história. Vocês podem escolher o quanto de seus antepassados querem incorporar em suas identidades, podem superar as expectativas da família e da sociedade. O que você não pode, nem nunca deve fazer, é tentar se tornar uma pessoa diferente de quem é… Ouviu bem, dona Piper McLean?
Ela abriu um sorriso melancólico.
— Legal. Gostei disso, Apolo. Tem certeza de que você não é o deus da sabedoria?
— Eu me candidatei ao cargo, mas passaram para outro. Tinha alguma coisa a ver com a invenção das azeitonas. — Eu revirei os olhos.
Piper caiu na gargalhada, e foi como se um vento bom e forte finalmente afastasse a fumaça dos incêndios da Califórnia. Sorri também. Quando foi a última vez em que tive uma conversa tão positiva com um semelhante, um amigo, uma alma como a minha? Não conseguia lembrar.
Piper se levantou com dificuldade.
— Muito bem, ó grande sábio. Melhor a gente ir, temos vários outros barcos para invadir.

* * *

O iate quarenta e um era o departamento de lingerie. Vou poupar vocês dos detalhes sórdidos. O barco quarenta e dois era um superiate comum, com poucos tripulantes (que nos ignoraram), dois mercenários (que Piper mandou pular no mar) e um cara de duas cabeças (que, por pura sorte, consegui acertar na virilha, fazendo com que ele se desintegrasse).
— Por que alguém colocaria um barco comum entre das roupas e o dos sapatos? — questionou Piper. — Péssima organização.
Ela parecia incrivelmente calma, enquanto eu estava com os nervos à flor da pele. Senti como se estivesse me despedaçando, como acontecia sempre que dezenas de cidades gregas oravam ao mesmo tempo para que eu manifestasse meu eu glorioso. É tão irritante quando as cidades não coordenam seus dias sagrados!
Atravessamos o iate por bombordo, e achei ter visto algo se movimentando no céu. Uma forma pálida pairava logo acima, grande demais para ser uma gaivota.
— Acho que estamos sendo seguidos — alertei. — Deve ser nosso amigo Clave.
Piper olhou para cima.
— E o que vamos fazer?
— Acho melhor não fazermos nada. Se ele quisesse atacar ou avisar os comparsas, já teria feito isso.
Piper não pareceu feliz com nosso perseguidor orelhudo, mas seguimos em frente. Até que finalmente chegamos ao Júlia Drusila XLIII, o famoso navio dos sapatos.
Daquela vez, graças à dica de Acorde e seus homens, já estávamos à espera dos guardas pandai, liderados pelo temeroso Compasso.
Preparei o ukulele assim que pisamos no convés dianteiro. Piper murmurou:
— Uau, espero que ninguém descubra nosso maior segredo!
Quatro pandai chegaram correndo na mesma hora, dois de bombordo e dois de estibordo, tropeçando uns nos outros no desespero de tentar nos alcançar primeiro.
Assim que consegui ver bem os lóbulos de suas orelhas, dedilhei um trítono de dó menor dissonante — coisa que, para criaturas com audição tão sensível, devia ter sido como usar um cotonete eletrificado.
Os pandai berraram e caíram de joelhos, o que deu a Piper tempo de desarmá-los e amarrar suas mãos.
Interrompi o ataque tortuoso com o ukulele.
— Qual de vocês é o Compasso? — perguntei.
O pandos da esquerda rosnou:
— Quem quer saber?
— Oi, Compasso! — cumprimentei. — Estamos procurando os sapatos mágicos do imperador. Aqueles que permitem que ele ande pelo Labirinto de Fogo, sabe? Você pouparia muito do nosso tempo se dissesse onde eles estão.
Ele se debateu e xingou.
— Nunca!
— Ou posso deixar minha amiga aqui procurar enquanto faço uma serenata com meu ukulele desafinado. Já ouviu “Total Eclipse of the Heart”, da Bonnie Tyler?
Compasso estremeceu, apavorado com a ideia.
— No segundo convés, a bombordo, terceira porta! — admitiu. — Por favor, “Total Eclipse of the Heart” não! “Total Eclipse of the Heart” não!
— Ah, tenham uma bela noite — desejei.
Deixamos os pandai em paz e fomos procurar sapatos.

9 comentários:

  1. Conclusão... A CULPA DE TUDO É DE HERA É AFRODITE. Não gosto de nenhuma das duas, essas nojentas. Eca... Mas tô gostando do Apolo,ele está ficando mais humano.

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  2. Embora a série esteja ficando mais sombria, gostei muito do fato do Tio Rick ter mudado um pouco o rumo das coisas - Jason e Piper não estão juntos.
    Desde o começo da história, eu ficava meio incomodada, porque Hera criou uma ilusão... e por causa disso que eles estavam juntos, no HDO.
    Agora que Piper decidiu terminar, é triste, mas mais realista. Acho que isso faz a história mais séria e os personagens amadurecerem... mesmo que sinta pena de Piper e de Jason.
    Na verdade eu não gostava muito da Piper x'D
    Todo seu sofrimento nesse livro agora me faz gostar mais dela :c

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  3. Eu simplesmente adoro Total Eclipse of the Heart, esses orelhudos não tem bom gosto u.u

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  4. Bem ja que este imperador e Calígula, que tal uma suruba greco-romana? Reyna, Piper é um pouquinho dos raios do Jason?

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  5. Eu fico pensando...
    Depois de toda essa intriga acabar, Piper poderia sentar por um momento com Jason e simplesmente conversar com ele, sobre tudo que eles sentem e tudo mais, e talvez tentarem um novo começo, sem a interferência de deusas malucas e trambiqueiras.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!