26 de junho de 2018

Capítulo 27

Embora tanto Kavinsky quanto Gansey estivessem irremediavelmente interligados na infraestrutura de Henrietta, Ronan sempre fizera um bom trabalho em mantê-los separados em sua mente. Gansey presidia sobre os elementos mais ordeiros e reluzentes da cidade; o mundo ensolarado das escrivaninhas da Aglionby, os professores mais novos acenando para o seu carro da calçada, os motoristas de guincho o chamando pelo nome.
Mesmo o apartamento na Indústria Monmouth era típico de Gansey: ordem e estética impostas sobre um amontoado de ruína e abandono. Kavinsky, por outro lado, governava a noite. Ele vivia em lugares que nem ocorreriam a Gansey: nos fundos de estacionamentos de escolas públicas, nos porões de McMansões, agachado atrás de portas de banheiros públicos. O reino de Kavinsky não era conduzido tanto no brilho verde-amarelo de um semáforo, mas na escuridão fora dele.
Ronan preferia vê-los separados. Ele não gostava que seus alimentos se tocassem.
E, no entanto, ali estava ele, na noite antes de Gansey deixar a cidade, levando-o a um dos rituais mais vulgares de Kavinsky.
— Eu posso fazer isso sem você — disse Ronan, ajoelhando-se para pegar uma das dúzias de carteiras de motorista falsificadas idênticas.
Andando de um lado para o outro junto à sua Henrietta em miniatura arruinada, Gansey mirou os olhos em Ronan. Havia algo intenso e insensato neles. Havia muitas versões de Gansey, mas essa havia sido rara desde a entrada da presença calmante de Adam. Era também a favorita de Ronan. Era o oposto da face mais conhecida de Gansey, que era puro controle embrulhado em um fino papel acadêmico.
Mas essa versão de Gansey era Gansey o garoto. Esse era o Gansey que havia comprado o Camaro, o Gansey que havia pedido a Ronan que o ensinasse a lutar, o Gansey que continha todas as fagulhas vibrantes que não apareciam nas outras versões.
Teria sido o escudo debaixo do lago que liberara isso? O biquíni laranja de Orla? As ruínas despedaçadas de sua Henrietta reconstruída e as carteiras de motorista falsas que eles haviam encontrado ao voltar para casa?
Ronan não se importava realmente. Tudo que importava era que algo havia riscado o fósforo, e Gansey estava queimando.
Eles pegaram o BMW. Seria mais fácil lidar com um fogo de artifício inserido em seu cano de descarga do que no do Pig. Ele deixou Motosserra para trás, o que a deixou irritada. Ronan não queria que ela aprendesse nenhum palavrão.
Ronan dirigiu, pois ele sabia para onde eles estavam indo. Ele não disse para Gansey por que ele sabia disso, e Gansey não perguntou.
O sol tinha baixado quando eles chegaram à velha feira do condado, escondida em uma estrada vicinal a leste de Henrietta. O local não era usado para receber uma feira desde que a feira do condado falira dois anos atrás. Agora era um campo enorme coberto de relva, crivado de holofotes e enfeitado com bandeirolas esfarrapadas, descoloridas pelos meses ao ar livre.
Ordinariamente, o lugar ficava absolutamente no escuro à noite, fora do alcance das luzes de Henrietta e longe de qualquer casa. Mas, naquela noite, os holofotes jogavam uma luz branca estéril sobre a relva, iluminando as formas inquietas de mais de uma dúzia de carros. Havia algo insuportavelmente sexy a respeito de carros à noite, pensou Ronan. O modo como os para-lamas desvirtuavam a luz e refletiam a estrada, o modo como cada motorista se tornava anônimo. A visão deles fazia seu coração palpitar.
Quando Ronan dobrou no velho acesso, os faróis iluminaram a forma familiar do Mitsubishi branco de Kavinsky, a grade negra se escancarando. O ritmo de seu pulso se tornou um rufar excitado.
— Não diga nada idiota para ele — disse Ronan para Gansey. A batida do estéreo dele já estava sendo abafada pelo som de Kavinsky, o baixo pulsando através do próprio chão.
Gansey enrolou as mangas da camisa e estudou a mão enquanto fechava e abria o punho.
— O que é idiota?
Era difícil dizer, em se tratando de Kavinsky.
À esquerda, dois carros assomaram da escuridão, um vermelho e um branco, acelerando direto um contra o outro. Nenhum dos dois fugia da colisão iminente. Jogo do medroso. No último momento, o carro vermelho desviou, derrapando de lado, e o branco buzinou forte. Um garoto colocou metade do corpo para fora do assento do passageiro do carro branco, se segurando no teto com uma mão e mostrando o dedo médio com a outra. A poeira engoliu aos dois. Gritos entusiasmados encheram o espaço entre os ruídos dos motores.
Do outro lado do jogo, um Volvo cansado estava estacionado debaixo de uma linha de bandeirolas esfarrapadas e desbotadas. Estava iluminado por dentro, como uma entrada para o inferno. Foi necessário um momento para registrar que ele estava em chamas, ou pelo menos começando a pegar fogo. Havia garotos parados em torno do Volvo, bebendo e fumando, suas formas distorcidas e escuras contra o estofamento que ardia lentamente. Duendes em torno de uma fogueira.
Algo dentro de Ronan estava ansioso e em movimento, irado e irrequieto. O fogo o comia por dentro.
Ele levou o BMW até o Mitsubishi, nariz com nariz. Então viu que Kavinsky já estivera brincando: o lado direito do carro estava chocantemente mutilado e amassado. Parecia um sonho — difícil acreditar que o Mitsubishi estivesse tão destroçado; ele era imortal. O próprio Kavinsky estava parado próximo dele, garrafa na mão, sem camisa, os holofotes apagando as costelas de seu torso côncavo. Quando ele viu o BMW, Kavinsky jogou a garrafa no capô. Ela se partiu ao bater no metal, cacos de vidro e líquido para toda parte.
— Jesus — disse Gansey, surpreso ou admirado. Pelo menos eles não haviam trazido o Camaro.
Puxando o freio de mão, Ronan escancarou a porta. O ar estava carregado com o cheiro de plástico derretido, embreagens acabadas e, por trás de tudo isso, a fragrância morna de maconha. O barulho era grande, a sinfonia era constituída de tantos instrumentos que era difícil identificar quaisquer timbres individuais.
— Ronan — disse Gansey, exatamente da mesma maneira que ele acabara de invocar Jesus.
— Vamos levar isso adiante? — respondeu Ronan.
Gansey escancarou a porta. Segurando o teto do carro, ele deslizou para fora. Mesmo esse gesto, observou Ronan, era o Gansey animal, o Gansey exaltado. Como ele havia se puxado para fora do carro, pois sair normalmente seria lento demais.
Aquela seria uma noite e tanto.
O fogo dentro de Ronan era o que o mantinha vivo.
Percebendo Ronan de relance indo direto para ele, Kavinsky abriu a mão sobre o peito liso.
— Ei, garota. Essa é uma festa de embalo. Ninguém entra a não ser que tenha trazido uma droga.
Como resposta, Ronan fechou uma mão em torno da garganta de Kavinsky e outra em torno do ombro e o jogou ordeiramente sobre o capô do Mitsubishi. Para enfatizar seu ponto, se juntou a ele novamente do lado oposto e enfiou um soco no nariz de Kavinsky.
Enquanto Kavinsky recuava se reerguendo, Ronan lhe mostrou os nós dos dedos ensanguentados.
— Aqui estão as suas drogas.
Kavinsky limpou o nariz com o braço nu, deixando uma faixa vermelha.
— Ei, cara, não seja tão antissocial, caralho.
Ao lado de Ronan, Gansey levantou a mão no sinal universal de Calma, garoto.
— Não quero acabar com a sua festa — disse Gansey, frio e glorioso —, então vou dizer apenas isso: fique longe da minha casa.
Kavinsky respondeu:
— Eu não sei do que você está falando. Baby, me passa um cigarro.
A última parte parecia dirigida a uma garota que se recostava indolentemente no banco do passageiro do Mitsubishi batido, os olhos profundamente chapados. Ela não dignificou a ordem dele com uma resposta.
Ronan exibiu uma das carteiras de motorista falsas.
Kavinsky sorriu abertamente do próprio trabalho. Com as faces encovadas, ele parecia vampiresco naquela luz.
— Você está bravo porque eu não te deixei uma também?
— Não, estou bravo porque você detonou meu apartamento — disse Gansey. — Você devia estar feliz que eu estou aqui e não na delegacia.
— Ei, cara — disse Kavinsky. — Calma aí. Não sei qual de nós dois está mais chapado. Eu não detonei a sua casa.
— Por favor, não insulte a minha inteligência — respondeu Gansey, e havia apenas um indício de uma risada glacial em sua voz. Era um riso aterrorizante e maravilhoso, pensou Ronan, porque Gansey havia adicionado apenas desdém e nenhum toque de humor.
A conversa deles foi interrompida pelo ruído familiar e destrutivo de carros colidindo.
Não havia nada dramático no som de veículos mais novos colidindo: os muitos para-choques faziam com que quase tudo não passasse do baque surdo de plásticos rachando.
Não era o volume, no entanto, que provocou calafrios na espinha de Ronan — era a especificidade do ruído. Não havia outro ruído no mundo como uma batida de carro.
Kavinsky percebeu a linha da atenção deles.
— Ah — disse ele —, vocês querem participar também, não é?
— De onde são esses caras? — Gansey forçou a visão. — Aquele é o Morris? Achei que ele estava em New Haven.
— É uma festa de embalo — Kavinsky deu de ombros.
— Não tem drogas em New Haven? — rosnou Ronan.
— Não como essas. É o País das Maravilhas! Algumas te deixam grande, outras te deixam pequeno...
Era a citação errada. Ou melhor, a citação certa, feita de maneira errada. No lar Lynch, Ronan havia crescido ouvindo duas histórias recorrentes e perenes de seus pais. A favorita de Aurora Lynch era uma versão em filme preto e branco do mito de Pigmaleão, sobre um escultor que se apaixona por uma de suas estátuas.
E Niall Lynch tinha afeição extraordinária por uma velha e feia edição de Alice no País das Maravilhas, frequentemente lida em voz alta para dois ou três irmãos Lynch relutantes, meio dormindo. Ronan vira Pigmaleão e ouvira Alice no País das Maravilhas tantas vezes na infância que não sabia mais julgar se as obras eram boas ou não, se ele realmente gostava delas ou não. O filme e o romance eram passado agora. Eram seus pais.
Então ele sabia que a citação era, na realidade: “Um lado faz você crescer e o outro faz você diminuir”.
— Depende do lado do cogumelo que você usar — disse Ronan, mais para o pai morto que para Kavinsky.
— Verdade — concordou Kavinsky. — Então, o que você vai fazer com o problema dos ratos?
Gansey piscou.
— Como?
Isso fez Kavinsky rir ruidosamente e, quando passou o acesso, ele disse:
— Se eu não detonei a sua casa, algo a está infestando.
Os olhos de Gansey se transferiram para Ronan. Possibilidade?
É claro que era uma possibilidade. Outra pessoa que não Ronan tinha arrebentado a cara de Declan Lynch, então, teoricamente, alguma coisa que não Kavinsky poderia ter arrombado a Indústria Monmouth. Possibilidade? Qualquer coisa era possível.
— Lynch! — Um participante da festa se aproximou e o reconheceu. Ronan, por sua vez, também o reconheceu: Prokopenko. Sua voz estava leitosa com as drogas, mas Ronan teria reconhecido sua silhueta em qualquer lugar, um ombro arqueado e mais alto que o outro, orelhas de abano. — E Gansey!
— Isso aí — disse Kavinsky, polegares enganchados nos bolsos de trás, ossos dos quadris aparecendo para fora da calça baixa. — A mamãe e o papai vieram. Ei, Gansey, você conseguiu uma babá para o Parrish? Sabe de uma coisa, cara, não responda; vamos fumar um cachimbo da paz.
Imediatamente, Gansey respondeu com desprezo preciso:
— Não estou interessado nas suas pílulas.
— Ah, sr. Gansey — zombou Kavinsky. — Pílulas! A primeira regra da festa de embalo é: você não fala sobre a festa de embalo. A segunda é: você traz uma droga se quiser outra.
Prokopenko deu uma risadinha.
— Sorte sua, sr. Gansey — continuou Kavinsky, no que provavelmente era para soar como um sotaque elegante —, que eu sei o que o seu cachorro quer.
Prokopenko deu uma risadinha de novo. Era o tipo de risadinha que significava que ele estaria vomitando logo. Gansey pareceu compreender isso, enquanto se afastava um pouco dele.
Comumente, Gansey teria feito mais do que se afastar um pouco dele. Tendo conseguido tudo que eles precisavam, ele teria dito para Ronan que era hora de partir. Ele teria sido friamente educado com Kavinsky, e então teria ido embora. Mas aquele não era o Gansey de sempre.
Era o Gansey com uma inclinação arrogante do queixo, um trejeito condescendente da boca. O Gansey que sabia que, não importava o que acontecesse ali naquela noite, ainda assim ele voltaria para a Indústria Monmouth e presidiria o seu canto particular do mundo. Era o Gansey, percebeu Ronan, que Adam odiaria.
Gansey disse:
— E o que é que o meu cachorro precisa?
Os lábios de Ronan se curvaram em um sorriso.
Foda-se o passado. Aquele era o presente.
— Pirotecnia. Bum! — disse Kavinsky. Ele socou o teto de seu carro amassado. Amigavelmente, disse para a garota no banco do passageiro: — Sai do carro, vagabunda. A não ser que você queira morrer. Pra mim tanto faz.
Ronan se deu conta de que Kavinsky tinha a intenção de explodir o Mitsubishi. No estado da Virgínia, fogos de artifício que explodiam ou emitiam uma chama mais alta que quatro metros eram ilegais, a não ser que você tivesse uma permissão especial.
Não era um fato que a maioria dos residentes de Henrietta precisava lembrar, no entanto, porque era impossível encontrar fogos de artifício que fizessem qualquer coisa mesmo ligeiramente fora do comum, muito menos ilegal, dentro das fronteiras do estado.
Se você quisesse algo um pouco mais impressionante para o fim de semana de feriado, você procurava o show de fogos de artifício da cidade. Se você fosse como alguns dos garotos mais arruaceiros da Aglionby ou caipiras com mais dinheiro de Henrietta, você atravessava a divisa do estado e enchia o porta-malas com fogos de artifício ilegais da Pensilvânia. Se você fosse Kavinsky, fazia os seus próprios.
— Aquele amassado vai cair — disse Ronan, igualmente empolgado e horrorizado em pensar no Mitsubishi perecendo. Tantas vezes apenas o primeiro vislumbre de suas luzes traseiras na estrada à frente dele era suficiente para bombear um espasmo urgente de adrenalina em seu corpo.
— Eu sempre vou saber que ele estava aí — respondeu Kavinsky, indiferente. — Aos virgens, que deixaram de ser. Prokopenko, me prepara um coquetel, cara.
Prokopenko obedeceu, satisfeito.
— Pra tirar a tensão — disse Kavinsky. Ele se virou para Gansey com uma garrafa na mão. Dava para ouvir o líquido lá dentro; uma camiseta havia sido amarrada e enfiada pelo gargalo. Ela estava pegando fogo. Na realidade, era um coquetel molotov.
Para a surpresa e a alegria de Ronan, Gansey o aceitou.
Ele era uma versão extraordinária de si mesmo, uma versão perigosa, parado ali, diante do Mitsubishi detonado de Kavinsky, com uma bomba caseira na mão. Ronan se lembrou do sonho de Adam e da máscara: a versão com mais dentes de Adam.
No entanto, em vez de jogá-lo no Mitsubishi, Gansey mirou uma trajetória na direção do Volvo distante. Ele o jogou, alto, gracioso e para valer. Cabeças se curvaram para observar o progresso. Uma voz da turma gritou: — Oh-oh, garoto Gansey! — o que significava que pelo menos um membro da equipe de remo estava presente. Um momento mais tarde, a garrafa caiu um pouco antes dos pneus traseiros do Volvo. A quebra do vidro e a explosão simultâneas fizeram parecer que o coquetel molotov estava afundando no chão. Gansey limpou a mão na calça e se virou.
— Bom arremesso — disse Kavinsky —, mas carro errado. Proko!
Prokopenko lhe passou outro coquetel molotov. Esse, Kavinsky pressionou na mão de Ronan. Ele se inclinou mais próximo — próximo demais — e disse:
— É uma bomba. Que nem você.
Ronan sentiu um frêmito de empolgação. Era como um sonho, a intensidade de tudo aquilo. O peso da garrafa em sua mão, o calor do pavio em chamas, o cheiro daquele prazer poluído.
Kavinsky apontou para o Mitsubishi.
— Mire alto — aconselhou. Seus olhos brilhavam, abismos negros refletindo o pequeno inferno na empunhadura de Ronan. — E seja rápido, cara, ou essa coisa vai explodir o seu braço. Ninguém quer saber de meia tatuagem.
Uma coisa curiosa aconteceu quando a garrafa deixou a mão de Ronan.
Enquanto ela descrevia um arco no ar, uma trilha de fogo laranja em seu rastro, Ronan sentiu como se tivesse lançado seu coração. O calor enchendo seu corpo, vertendo para dentro do buraco que ele havia feito. Mas agora ele podia respirar, agora que havia espaço em seu peito subitamente leve. O passado era algo que havia acontecido com outra versão de si mesmo, uma versão que podia ser acesa e lançada longe.
Então a garrafa caiu na janela do motorista do Mitsubishi. Era como se não houvesse líquido, apenas fogo. As chamas se espalharam pelo encosto da cabeça como um ser vivo. Vivas ecoaram pela feira. Os participantes da festa se deslocaram na direção do carro, mariposas e uma lâmpada nova.
Ronan suspirou.
Kavinsky, sua risada alta e maníaca, lançou outra bomba pela janela. Prokopenko lançou mais uma. Agora o interior estava em chamas, e o cheiro ficando tóxico.
Parte de Ronan não conseguia acreditar que o Mitsubishi estivesse desaparecendo.
Mas, à medida que os outros começaram a jogar cigarros e drinques na fogueira, a música subitamente sumiu enquanto o estéreo fundia. Pelo visto, um veículo estava morto para valer no momento em que seu estéreo fundira.
— Skov! — gritou Kavinsky. — Música!
O estéreo de outro carro ressoou para a vida, assumindo a partir do ponto em que o Mitsubishi havia parado.
Kavinsky virou para Ronan com um sorriso irônico.
— Você vem para a festa do Quatro de Julho este ano?
Ronan trocou um olhar com Gansey, mas o outro garoto estava observando as inúmeras silhuetas, seus olhos se estreitando.
— Talvez — ele disse.
— É muito parecido com uma festa de embalo — disse Kavinsky. — Se você quer ver algo explodir, traga algo que exploda.
Havia um desafio ali. Um desafio que podia ser satisfeito, talvez, por uma ida para o outro lado da fronteira ou pelo preparo inteligente de um explosivo a partir de receitas encontradas na internet.
Mas, pensou Ronan, com a mesma emoção que sentira antes, era também um desafio que ele podia atacar com um sonho.
Ele era bom com coisas perigosas, tanto em sonho quanto acordado.
— Talvez — ele respondeu. Gansey estava indo na direção do BMW. — Vou acender uma vela para o seu carro.
— Vocês estão indo? Dureza.
Se Gansey estava indo, Ronan estava indo. Ele parou e jogou outra carteira de motorista falsa no peito nu de Kavinsky.
— Fique longe da nossa casa.
O sorriso de Kavinsky era largo, aberto, sacana.
— Eu só vou aonde sou convidado, cara.
— Lynch — disse Gansey. — Deu por hoje.
— Isso mesmo — gritou Kavinsky nas costas de Ronan. — Leve o seu cachorro!
Ele disse isso com a intenção de que tanto Ronan quanto Gansey se sentissem ofendidos.
Mas Ronan não sentiu nada, apenas uma caverna abrasadora e vazia no peito. Ele deslizou para o banco do motorista enquanto Gansey fechava a porta do passageiro.
O telefone de Ronan vibrou no compartimento da porta. Ele olhou para o aparelho — uma mensagem de Kavinsky.
te vejo nas ruas
Largando o telefone de volta na porta, Ronan deixou que o giro do motor fosse lá em cima, então deu ré com um giro dramático na terra. Gansey fez um ruído aprovador.
— O Kavinsky — disse Gansey com um risinho na voz, ainda o desprezando. — Ele acha que é o dono desse lugar. Ele acha que a vida é um videoclipe.
E se agarrou à porta enquanto Ronan deixava que o BMW despejasse a sua potência.
O carro galopou alegre e imprudentemente na direção de casa por alguns quilômetros, o velocímetro marcando o ritmo de seus pulsos.
— Você não percebe o apelo? — disse Ronan.
Fechando os olhos, Gansey recostou a cabeça no banco, o queixo virado para cima, a garganta verde com as luzes do painel. O sorriso em sua boca ainda transmitia certo perigo — que tormento era a possibilidade naquele sorriso —, e ele disse:
— Nunca teve um momento em que eu e você podíamos ser aquilo. Sabe a diferença entre a gente e o Kavinsky? A gente importa.
Só então, naquele momento, o pensamento de Gansey partindo para Washington sem ele foi insuportável. Eles haviam sido uma criatura de duas cabeças por tanto tempo, Ronan e Gansey. No entanto, ele não podia dizer isso. Havia milhares de razões para ele não dizer isso.
— Enquanto eu estiver fora — disse Gansey, fazendo uma pausa —, sonhe o mundo para mim. Algo novo a cada noite.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!