20 de junho de 2018

Capítulo 27

Quando Blue se aprontou para sair no domingo seguinte, ela estava oficialmente dividida. Domingo era dia de levar os cães para passear. Na realidade, domingos e quintas eram dias de fazer isso, mas Blue havia pedido para não trabalhar nas duas semanas anteriores para acompanhar os garotos, de maneira que fazia um longo tempo que não via seus cães postiços. O problema era que ela estava ficando sem dinheiro e, além disso, a culpa por desobedecer Maura estava finalmente começando a pesar sobre ela. A situação chegara a tal ponto que ela não conseguia olhar a mãe nos olhos durante o jantar, mas era impossível, agora, imaginar abandonar os garotos. Ela tinha de encontrar uma maneira de conciliar as duas coisas.
Mas, primeiro, ela tinha de levar os cães para passear.
Já de saída para Willow Ridge, o telefone da cozinha tocou, e Blue, com um copo de suco de maçã em uma mão e os cadarços do tênis de cano alto na outra, atendeu.
— Alô?
— Eu gostaria de falar com a Blue, por favor, se ela estiver em casa.
Era a inconfundível e educada voz de Gansey, a que ele usava para transformar palha em ouro. Certamente, ele sabia que estava se arriscando ao ligar para a casa dela e, certamente, tinha se preparado para falar com outra pessoa que atendesse.
Apesar da crescente suspeita de que seu segredo não duraria, ela não sabia ao certo como se sentia com o fato de que ele podia ter revelado o segredo.
— A Blue está se preparando para levar os cães de outras pessoas para passear — ela disse, largando o suco e amarrando os cadarços do tênis, com o telefone enfiado entre a orelha e o ombro. — E que bom que foi ela que atendeu, e não outra pessoa.
— Eu estava preparado para essa eventualidade — disse Gansey. Era estranho ouvi-lo no telefone; a voz não combinava com o rosto. — De qualquer maneira, que bom que você atendeu. Como vai? Acredito que bem.
Ele não está querendo ser arrogante, Blue disse a si mesma, várias vezes.
— Acreditou certo.
— Ótimo. Escute. O Adam está trabalhando hoje e o Ronan está na igreja com os irmãos, mas eu gostaria de dar uma volta só... para ver as coisas. — E acrescentou rapidamente: — Não na mata. Eu estava pensando em ir até aquela igreja no seu mapa. Você quer...
Ele vacilou. Gansey vacilando? Blue levou um momento para perceber que ele estava perguntando se ela queria ir com ele. E levou outro momento para se dar conta de que nunca estivera em qualquer lugar com ele sem os outros garotos.
— Eu preciso levar os cães para passear.
— Ah — ele respondeu, soando vazio. — Tudo bem.
— Mas só vai levar uma hora.
— Ah — ele repetiu, uns catorze tons mais brilhante. — Posso ir te buscar, então?
Blue olhou furtivamente sobre o ombro na direção da sala de estar.
— Ah, não... Eu, humm... te encontro no estacionamento.
— Ótimo — ele disse de novo. — De primeira. Acho que vai ser interessante. Te vejo em uma hora.
De primeira? Gansey sem Adam... Blue não tinha certeza como isso funcionaria.
Apesar do interesse hesitante de Adam nela, os garotos pareciam agir como uma unidade, uma única entidade com múltiplas cabeças. Ver qualquer um deles sem a presença dos outros parecia um pouco... perigoso.
Mas não havia outra opção a não ser ir com Gansey. Ela queria explorar tanto quanto ele.
Tão logo ela desligou o telefone, ouviu chamarem seu nome.
— Bluu-uuuu, minha menina, vem aqui!
Era a voz de Maura, e o ritmo cantado na maneira como ela falou era altamente irônico. Com uma sensação de afundamento, Blue seguiu até a sala de estar, onde encontrou Maura, Calla e Persephone bebendo o que Blue suspeitava que fossem drinques de vodca com suco de laranja. Quando ela entrou na sala, as mulheres olharam para ela com sorrisos indolentes. Um bando de leoas.
Blue ergueu as sobrancelhas diante dos coquetéis. A luz da manhã através das janelas transformava os drinques em um amarelo brilhante, translúcido.
— São dez da manhã.
Calla estendeu a mão, fechando o punho de Blue com os dedos, e a arrastou para a namoradeira verde-menta. Seu copo já estava quase vazio.
— É domingo. O que mais vamos fazer?
— Eu preciso levar os cães para passear — disse Blue.
Da cadeira com listras azuis do outro lado da sala, Maura bebericou seu drinque e fez uma careta de desagrado.
— Ah, Persephone. Você põe muita vodca nesses drinques.
— Eu sempre erro a mão — disse Persephone tristemente de um banco de vime na frente da janela.
Quando Blue começou a se levantar, Maura disse, com um quê de ligeira censura.
— Sente um pouco com a gente, Blue. Fale sobre ontem. E o dia anterior, e o outro. E... ah, vamos falar um pouco sobre essas últimas semanas.
Blue então percebeu que Maura estava furiosa. Ela só a tinha visto assim algumas vezes antes, e essa fúria direcionada a ela fez sua pele ficar instantaneamente fria e úmida.
— Bom, eu estava... — ela deixou a frase inacabada. Uma mentira parecia não fazer sentido.
— Eu não sou seu carrasco — interrompeu Maura. — Eu não vou amarrar você no quarto ou te mandar para um convento, por favor. Então pode parar com essa coisa de sair escondida agora mesmo.
— Eu não ia...
— Ia sim. Eu sou sua mãe desde que você nasceu e posso garantir que você ia. Vejo que você e o Gansey estão se dando bem, não é mesmo? — Maura tinha uma expressão irritante de malícia.
— Mãe.
— A Orla me contou do carrão de oito cilindros dele — continuou Maura. Sua voz ainda estava brava e artificialmente animada. O fato de Blue estar bem consciente de que merecia isso tornava a ferroada ainda pior. — Você não está planejando beijar aquele garoto, está?
— Mãe, isso nunca vai acontecer — assegurou Blue. — Você conheceu ele, não é?
— Eu não sabia que dirigir um Camaro velho e barulhento era o equivalente masculino de vestir camisetas rasgadas e grudar árvores de papelão nas paredes do quarto.
— Acredite em mim — disse Blue. — Eu e o Gansey não somos nem um pouco parecidos. E elas não são de papelão, são de lona reciclada.
— O meio ambiente suspira de alívio. — Maura deu mais um golinho em seu drinque, torceu o nariz e lançou um olhar irado para Persephone, que parecia martirizada. Após uma pausa, Maura observou, com uma voz ligeiramente mais suave: — Eu não fico muito feliz que você esteja entrando em um carro sem air bags.
— Nem o nosso carro tem air bags — destacou Blue.
Maura pegou um longo fio do cabelo de Persephone da borda do copo.
— Sim, mas você sempre sai de bicicleta.
Blue ficou de pé, suspeitando que a penugem verde do sofá havia grudado na parte de trás de sua legging.
— Posso ir agora? Eu estou encrencada?
— Está. Eu disse para você ficar longe dele e você não ficou — disse Maura. — Eu só não decidi ainda o que fazer. Estou magoada. Conversei com várias pessoas, e elas me disseram que eu tenho todo o direito de me sentir assim. Os adolescentes ainda ficam de castigo? Ou isso só acontecia nos anos oitenta?
— Eu vou ficar muito brava se você me colocar de castigo — disse Blue, ainda vacilante com a desaprovação pouco familiar de sua mãe. — Depois não reclame se eu me rebelar e fugir pela janela do quarto numa corda de lençóis.
Sua mãe esfregou uma mão sobre o rosto. Sua ira tinha se consumido completamente.
— Você está bem envolvida nisso, não é? Não demorou muito.
— Se você não me proibir de ver meus amigos, não preciso te desobedecer — sugeriu Blue.
— É isso que você ganha, Maura, por usar o seu DNA para fazer um bebê — disse Calla.
Maura suspirou.
— Blue, eu sei que você não é idiota. Só que às vezes pessoas inteligentes cometem burrices.
Calla resmungou:
— Não seja uma delas.
— Persephone? — perguntou Maura.
Em sua voz pequena, Persephone disse:
— Não tenho nada a acrescentar. — Após um momento de consideração, no entanto, acrescentou: — Se você for dar um soco em alguém, não coloque o polegar dentro da mão. Seria uma pena quebrá-lo.
— Ok — Blue disse apressadamente. — Estou saindo.
— Você poderia ao menos dizer que sente muito — disse Maura. — Finja que eu ainda tenho algum poder sobre você.
Blue não tinha certeza de como reagir àquilo. Maura tinha toda sorte de controle sobre Blue, mas não era normalmente o tipo que vinha com ultimatos ou castigo. Então ela simplesmente disse:
— Desculpa. Eu devia ter te contado que eu ia fazer o que você não queria que eu fizesse.
Maura disse:
— Não era bem isso que eu queria ouvir.
Calla pegou a mão de Blue de novo, e, por um momento, Blue teve medo de que ela pudesse sentir o nível de estranheza que cercava a busca de Gansey. Mas então ela deu o último gole no drinque, antes de dizer com uma voz ronronante:
— Com toda essa correria, não esqueça do nosso cinema na sexta à noite, Blue.
— Nosso... cinema... — Blue repetiu.
Calla franziu o cenho.
— Você prometeu.
Por um momento, Blue tentou lembrar quando havia falado sobre uma noite de cinema com Calla, e então se deu conta do que se tratava: a conversa de dias e dias atrás. Sobre revistar o quarto de Neeve.
— Eu esqueci que era esta semana — respondeu Blue.
Maura mexeu o drinque, que ainda parecia praticamente cheio. Ela sempre preferia observar outras pessoas bebendo a fazê-lo ela mesma.
— Que filme?
— Até os anões começaram pequenos — respondeu Calla imediatamente. — No original alemão: Auch Zwerge haben klein angefangen.
Maura estremeceu, e Blue não sabia se era por causa do filme ou do sotaque de Calla. Então disse:
— Tanto faz. A Neeve e eu vamos sair na sexta à noite.
Calla ergueu uma sobrancelha e Persephone pegou uma ponta do cadarço do tênis.
— O que vocês vão fazer? — perguntou Blue. Procurar meu pai? Fazer leituras em poças?
Maura parou de agitar o drinque.
— Não vou sair com o Gansey.
Pelo menos Blue podia ter certeza de que sua mãe nunca mentiria para ela. Ela simplesmente não diria nada.

3 comentários:

  1. "— Ah — ele repetiu, uns catorze tons mais brilhante. — Posso ir te buscar, então?"

    Olha se não é meu raiozinho de sol atacando novamente, iti malia :3

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  2. Hum... Ela sair primeiro só com Gansey que o Adam é um pouco estranho, mesmo que com toda a busca.

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  3. Desculpa. Eu devia ter te contado que eu ia fazer o que você não queria que eu fizesse.


    ai uma boa resposta pra da para mae kkk e depois levar uns tapas

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Boa leitura, E SEM SPOILER!