3 de junho de 2018

Capítulo 27

Vocês vão ter que escolher
Posso matar todos
Ou vão me ouvir cantar Joe Walsh

OS FILHOS DE Deméter adoram cheirar as flores. Ficam criando campos de sementes. Alimentam o mundo e cuidam da vida.
Também são ótimos em cravar espadas no peito do inimigo.
As lâminas de ouro imperial de Meg acertaram o alvo em cheio: uma se fincou em Acorde com tanta força que o pandai-chefe explodiu em uma nuvem de poeira amarela. A outra atravessou o arco de Agudo, entrou no esterno dele e o fez se desintegrar, como areia caindo em uma ampulheta.
Clave disparou com o arco, mas, para a minha sorte, tinha uma mira muito ruim. A flecha passou voando bem diante do meu rosto, as penas raspando meu queixo, e acabou fincada na cadeira em que eu estava sentado.
Piper se balançou para trás na própria cadeira, golpeando Timbre, que acabou errando o golpe de espada. Antes que ele pudesse se recuperar e arrancar a cabeça da filha de Afrodite, Jason se empolgou demais.
Digo isso pelos relâmpagos. O céu lá fora brilhou, a parede de vidro se estilhaçou, e filetes de eletricidade envolveram Timbre, fritando-o até ele virar uma pilha de cinzas. Foi bem eficiente, é verdade, mas não tão discreto quanto eu gostaria.
— Ops... — murmurou Jason.
Soltando um gemido horrorizado, Clave largou o arco e cambaleou para trás, tentando pegar a espada.
Meg arrancou a espada que estava fincada na cadeira coberta de pó de Acorde e foi para cima do último sobrevivente.
— Meg, espera!
Ela me olhou de cara feia.
— O que foi?
Tentei erguer as mãos para pedir calma, mas lembrei que elas ainda estavam presas às costas.
— Clave, se render não é vergonha nenhuma — falei. — Você não é um guerreiro.
pandai engoliu em seco.
— V-você não me conhece.
— Você está segurando a espada com a lâmina ao contrário — observei. — Então, a não ser que sua intenção seja acabar com a própria vida…
Ele se apressou para corrigir a situação.
— Fuja! — pedi. — Essa luta não é sua, você não precisa assumi-la. Saia daqui! Seja o músico que você quer ver no mundo!
Clave deve ter ouvido a sinceridade em minha voz. Ele largou a espada e escapou pelo buraco na parede de vidro, pairando acima do nível da água, abanando as orelhas na escuridão.
— Por que você deixou aquele pandai escapar? — perguntou Meg. — Ele vai avisar todo mundo.
— Acho que não vai, não — respondi. — Além do mais, acabamos de anunciar nossa presença com esse relâmpago.
— É, desculpa. Às vezes isso acontece — murmurou Jason.
Relâmpagos pareciam o tipo de poder que ele ainda precisava aprender a controlar, mas não tínhamos tempo para discutir o assunto. Meg cortou as amarras bem na hora em que Florêncio e Piscadela entraram na sala.
— Parem! — gritou Piper.
Florêncio tropeçou e caiu de cara no tapete, o fuzil disparando um cartucho inteiro para o lado, metralhando as pernas de um sofá próximo.
Piscadela ergueu o porrete e atacou. Puxei o arco por instinto, prendi uma flecha e a soltei… direto no olho do Ciclope. Fiquei perplexo. Eu tinha acertado!
Piscadela caiu de joelhos, então seu corpo desabou para o lado e começou a se desintegrar, acabando com todo o roteiro da minha sitcom com companheiros de espécies diferentes.
Piper foi até Florêncio, que gemia de dor por causa do nariz quebrado.
— Obrigada por ter parado — disse, antes de amordaçá-lo e prender seus pulsos e tornozelos com abraçadeiras de náilon que encontrou nos bolsos do brutamontes.
— Bom, isso foi interessante. — Jason se virou para Meg. — E o que você fez foi incrível. Aqueles pandai… Quando eu tentei lutar, eles me desarmaram como se fosse brincadeira de criança. Mas você, com essas espadas…
Meg ficou com as bochechas vermelhas.
— Ah, não foi nada.
— Foi, sim. — Jason se virou para mim. — E agora?
Uma voz seca zumbiu na minha cabeça. AGORA APOLO, ESTE PATIFE TORPE E VIL, ME REMOVERÁ DO OLHO DESTE MONSTRO IMEDIATAMENTE!
— Ai, caramba!
Eu tinha feito o que sempre temi e às vezes sonhava em conseguir: sem querer usei a Flecha de Dodona em combate. A seta de madeira sagrada agora tremia, espetada na cavidade ocular de Piscadela — que tinha sido reduzido a nada, além do crânio. Talvez fosse um espólio de guerra?
— Sinto muito — falei, soltando a flecha.
Meg riu.
— Essa é…?
— A Flecha de Dodona — concordei.
E MINHA FÚRIA NÃO CONHECE LIMITES!, entoou a flecha. TU ME DISPARASTE PARA TRUCIDAR TEUS INIMIGOS COMO SE EU FOSSE UMA MERA FLECHA!
— Sim, sim, peço desculpas. Mas agora faça silêncio, por favor. — Eu me virei para meus amigos. — Precisamos agir rápido. Os seguranças já devem estar a caminho.
— E o idiota do imperador está no barco doze — completou Meg. — É para lá que vamos.
— Mas o barco dos sapatos é o quarenta e três — retruquei. — Ele fica para o outro lado.
— E se o idiota do imperador estiver usando os sapatos? — insistiu Meg.
— Ei. — Jason apontou para a Flecha de Dodona. — Essa é a fonte móvel de profecias de que você estava falando, não é? Que tal perguntar para ela?
Achei a sugestão irritantemente lógica. Ergui a flecha.
— Você os ouviu, Ó Sábia Flecha. Para que lado vamos?
TU ME MANDAS FAZER SILÊNCIO E DEPOIS TENS CORAGEM DE PEDIR MINHA SABEDORIA? AH, VIDA DE DESGRAÇAS! AH, DESTINO CRUEL! NAS DUAS DIREÇÕES VÓS DEVEIS SEGUIR, SE É O SUCESSO QUE DESEJAIS. MAS CUIDADO: VEJO GRANDE DOR E SOFRIMENTO NO CAMINHO. SACRIFÍCIO SANGRENTO!
— E qual é a resposta? — perguntou Piper.
Ah, leitores, fiquei tão tentado a mentir! Queria dizer aos meus amigos que a flecha mandou voltarmos para Los Angeles e reservar quartos em um hotel cinco estrelas.
Meus olhos encontraram os de Jason, e eu me lembrei de como o convencera a contar a verdade sobre a profecia da Sibila para Piper. Decidi que não podia enganá-los.
Contei o que a flecha tinha dito.
— Então temos que nos separar? — Piper balançou a cabeça. — Odiei esse plano.
— Eu também — concordou Jason. — Então claro que deve ser o melhor jeito.
Ele se ajoelhou e pegou a gládio da pilha de poeira que eram os restos de Timbre, então jogou a adaga Katoptris para Piper.
— Eu vou atrás de Calígula — anunciou ele. — Mesmo que os sapatos não estejam lá, talvez eu consiga ganhar tempo para vocês, distraindo os seguranças.
Meg pegou a outra espada.
— Eu vou junto.
Antes que eu pudesse argumentar, ela pulou pelo buraco da janela — uma ótima metáfora para o modo como ela levava a vida.
Jason lançou um último olhar de preocupação para mim e para Piper.
— Vocês dois, tomem cuidado.
Ele pulou atrás de Meg. Tiros soaram no convés abaixo quase na mesma hora.
Fiz uma careta para Piper.
— Eles eram nossos únicos guerreiros. Não devíamos ter deixado os dois irem juntos.
— Não subestime minhas habilidades de luta — protestou Piper. — Agora vamos, temos sapatos a comprar.

* * *

A garota só aceitou esperar o bastante para irmos ao banheiro mais próximo, onde eu pude fazer um curativo decente no seu machucado na cabeça. Ela colocou o capacete de Florêncio, e saímos.
Logo percebi que Piper não precisava do charme para persuadir as pessoas. Ela andava com confiança, seguindo de barco em barco como se fosse perfeitamente normal estar lá. Os iates tinham poucos guardas, talvez porque a maioria dos pandai e das estriges já tivessem voado até a embarcação vinte e seis, querendo verificar o que tinha sido aquele relâmpago. Os poucos mercenários mortais por quem passamos nem olharam duas vezes para Piper e, como eu ia logo atrás, também me ignoraram. Parecia que, já que estavam acostumados a trabalhar com Ciclopes e Orelhudos, podiam deixar passar dois adolescentes vestidos para a batalha.
O barco vinte e oito era um parque aquático flutuante, com piscinas de vários níveis interligadas por cachoeiras, escorregas e tobogãs transparentes. Um salva-vidas solitário nos ofereceu uma toalha quando passamos, parecendo bem chateado com nossa recusa.
O barco vinte e nove era um spa completo. Saía vapor de todas as escotilhas abertas, e, na popa, um exército de massagistas e esteticistas entediados esperava, a postos, caso Calígula decidisse aparecer com mais cinquenta amigos para uma festa regada a shiatsu e manicures. Fiquei tentado a dar uma paradinha para uma massagem nos ombros, mas, como Piper, filha de Afrodite, passou direto sem nem olhar o que havia por ali, decidi que seria melhor evitar mais esse constrangimento.
O barco trinta era um banquete, literalmente. O iate parecia planejado para oferecer um bufê vinte e quatro horas, mas ninguém estava aproveitando. Havia chefs de plantão, garçons à espera. Os pratos eram trocados a intervalos regulares.
A comida que sobrava, que parecia suficiente para alimentar toda a área metropolitana de Los Angeles, devia ser jogada no mar — típica extravagância de Calígula, que achava que seu sanduíche de presunto ficava tão mais gostoso sabendo que centenas de sanduíches idênticos tinham sido desperdiçados enquanto os chefs esperavam que ele ficasse com fome.
Nossa sorte falhou no barco trinta e um. Eu soube que estávamos encrencados assim que atravessamos a rampa com tapete vermelho até a proa. Grupos de mercenários de folga relaxavam aqui e ali, conversando, comendo, mexendo no celular... Fomos recebidos por testas franzidas e olhares questionadores.
Pela tensão na postura de Piper, percebi que ela também notara o problema.
Mas, antes que eu pudesse dizer Vixe, Piper, acho que viemos parar no quartel de Calígula e vamos morrer, ela seguiu em frente, sem dúvida decidindo que seria tão perigoso voltar quanto abrir caminho na marra.
Ela estava enganada.
Na popa, acabamos nos deparando com um jogo de vôlei entre Ciclopes e mortais. Em uma quadra de areia, seis Ciclopes peludos só de sunga jogavam contra seis mortais igualmente peludos só de calças camufladas. Ali por perto, mais mercenários de folga faziam churrasco, riam, afiavam as facas e comparavam cicatrizes e tatuagens.
Na churrasqueira, um cara tão grande que mais parecia dois, com cabelo raspado e tatuagem de MÃE TE AMO (sic.) no peito nos viu e exclamou:
— Ei!
O jogo de vôlei parou. Todo mundo se virou para a gente.
Piper tirou o capacete.
— Apolo, me dá cobertura!
Fiquei com medo de que ela fosse bancar a Meg e partisse para a luta. Nesse caso, dar cobertura significaria virar picadinho nas mãos de ex-militares suados, o que não estava na minha lista de coisas a fazer antes de morrer.
Em vez disso, Piper começou a cantar.
Eu não sabia o que me surpreendia mais: a voz linda e melodiosa dela ou a música escolhida. Reconheci a canção na mesma hora: “Life of Illusion”, de Joe Walsh. Minhas memórias dos anos 1980 eram meio confusas, mas eu me lembrava bem daquela música. Era 1981, o comecinho da MTV. Ah, como eram lindos os vídeos que produzi para o Blondie e para as Go-Gos! Usamos tanto laquê e roupa de lycra com estampa de oncinha!
O grupo de mercenários ficou ouvindo, num silêncio confuso. Será que deviam nos matar logo? Ou era melhor esperar a apresentação acabar? Não era todo dia que alguém cantava Joe Walsh no meio de um jogo de vôlei. Tenho certeza de que os mercenários não chegaram a um consenso sobre qual seria a forma correta de proceder.
Depois de alguns versos, Piper me encarou com um olhar intenso, como quem diz: Vai uma ajudinha aí?
Ah, ela queria que eu desse cobertura com a música!
Muito aliviado, peguei meu ukulele e toquei junto. Na verdade, a voz de Piper era tão boa que ela não precisava de ajuda. A garota cantava com paixão e clareza, gerando uma onda de emoção que atingia a todos. Aquilo era mais do que uma performance apaixonada, era mais do que charme.
Piper andou pela multidão, cantando sua vida ilusória, incorporando a música. Encheu as palavras de dor e sofrimento, transformando a melodia animada de Walsh em uma confissão melancólica. Ela falou em derrubar as muralhas da incerteza, de aguentar as pequenas surpresas que a natureza lhe oferecia, de entender quem ela era de verdade.
A letra continuou a mesma, mas mesmo assim senti a história dela em cada verso: as dificuldades como filha negligenciada de um ator de cinema famoso, os sentimentos conflitantes sobre a descoberta de que era filha de Afrodite e, o mais doloroso de tudo, a percepção de que o suposto amor da sua vida, Jason Grace, não era alguém com quem queira estar envolvida romanticamente. Eu não entendi tudo, mas o poder daquela voz era inegável, e meu ukulele reagiu. Os acordes que eu toquei ficaram mais ressoantes, os riffs saíram num ritmo mais soul. Cada nota que eu tocava era um grito de solidariedade por Piper McLean, minha habilidade musical ampliando a dela.
Os guardas perderam a concentração. Alguns se sentaram e aninharam a cabeça nas mãos, outros ficaram olhando para o nada, deixando a carne queimar na churrasqueira.
Ninguém nos impediu quando atravessamos a popa. Ninguém nos seguiu pela ponte até o barco trinta e dois. Já estávamos na metade desse iate quando Piper terminou a música e se apoiou na parede mais próxima. Estava com os olhos vermelhos, o rosto inundado de emoção.
Eu a encarei, impressionado.
— Piper? Como você…?
— Primeiro sapatos. Depois conversa — gemeu ela.
E seguiu cambaleando.

9 comentários:

  1. Piper tá incrível nesse livro. Socorro. e APOLO e o raio do ukelelê de batalha, não posso mais ver um sem querer rir.

    ResponderExcluir
  2. Será que a Piper vai virar uma cantora? Parece um pensamento estranho mas...

    ResponderExcluir
  3. Laíres de Deus câmara campos8 de junho de 2018 15:02

    KKKKKKKKKKKKKKKKKK EU não consigo parar de rir! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    "AGORA APOLO, ESTE PARO DE TORPE E VIL ME REMOVERÁ DO OLHO DESTE MONSTRO IMEDIATAMENTE! "

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk entendo sua fúria! kkkkkkkkkkk eu não queria estar no seu lugar! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  4. Eu realmente gosto da piper solteira. Descobrindo seu potencial,deixando de ser reduzido a uma petsonagem chata e irritantemente romantica. Ah... a clareza mental e uma coisa linda

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que vc ta confundindo a Piper com a Annabeth.
      Foi a Annabeth que passou a série INTEIRA "Ain, Percy, Percy, ain Percy, mimimimi Percy, foda-se o resto, ainnn Percy".
      E o que a Piper fez se chama amadurecer, coisas que vc não é capaz, não tem NADA a ver com o fato dela estar solteira ou não.

      Excluir
    2. Leitora compulsiva obsessiva24 de julho de 2018 15:08

      Caaaalma allan, q exagero hein
      Annabeth e Piper amadureceram, na msm quantidade
      A Annie apareceu em PJO, então é de se esperar q ela esteja mais madura em HDO, mas Piper apareceu me HDO e agr ta mudando
      Gostei do tio Rick ter deixado ela desse jeito, mais independente, acho q se ela voltasse c o jason, ela ia continuar assim

      Excluir
    3. Isso não é vdd Annabeth passou sim o livro 3 pensando no Percy porque ele tinha sumido mais ela teve que aguentar sozinha uma profecia inteira foi atrás da Atenas Paternos sozinha e enfrentou a Aracne mãe de todas as aranhas com um plano todo feito pra a própria tecer sua própria armadilha e você vem falar que ela só pensa no Percy, leia a Marca de Atena denovo então porque você leu errado.

      Excluir
  5. "o mais doloroso de tudo, a percepção de que o suposto amor da sua vida, Jason Grace, não era alguém com quem queira estar envolvida romanticamente."
    EU ESTOU CHORANDO

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!