26 de junho de 2018

Capítulo 26

Quando Blue chegou em casa com suas roupas encharcadas, Noah estava ajoelhado no jardinzinho sombreado na frente do número 300 da Rua Fox. Orla entrou correndo e não o cumprimentou. Como médium, ela provavelmente o viu, mas, como Orla, não se importou. Blue, no entanto, parou. Ela estava contente por ele estar ali. Ela ajeitou a roda do Camaro debaixo do braço e tirou o cabelo molhado da testa.
— Oi, Noah.
Mas ele estava ocupado demais em ser espectral para lhe dar atenção.
Naquele momento, ele se dedicava a uma de suas atividades mais horripilantes: reencenar a própria morte. Ele olhou de relance em volta do jardinzinho como se apreciasse a ravina coberta de mata contendo a si mesmo e seu amigo Barrington Whelk.
Então soltou um grito terrível e deturpado quando foi atingido pelas costas por um skate invisível. Ele não fez ruído algum quando foi atingido de novo, mas seu corpo estremeceu de maneira convincente. Blue tentou não olhar enquanto ele corcoveava algumas vezes mais antes de cair no chão. Sua cabeça teve espasmos; suas pernas pedalaram.
Blue respirou fundo, ansiosamente. Embora ela já tivesse visto Noah fazer aquilo quatro ou cinco vezes, era sempre perturbador. Onze minutos. Esse era o tempo que toda a encenação do homicídio durava: a vida de um garoto destruída em menos tempo do que levava para fritar um hambúrguer. Os últimos seis minutos, os que ocorreram depois de Noah ter caído pela primeira vez, mas antes de ele ter realmente morrido, eram torturantes. Blue se achava uma garota sensata, razoavelmente equilibrada, mas, não importava quantas vezes ela ouvisse a respiração agonizante vinda da garganta dele, ela sentia um pouco de vontade de chorar.
Entre as raízes retorcidas do jardim da frente, o corpo de Noah teve espasmos e parou como estava, finalmente morto. De novo.
Delicadamente, ela chamou:
— Noah?
Ele estava no chão, e então, de uma hora para outra, estava de pé ao lado dela. Era como um sonho, onde a parte do meio fora cortada, o intervalo do ponto A para o ponto B. Era mais uma de suas coisas horripilantes.
— Blue! — ele disse e acariciou o cabelo molhado dela.
Ela o abraçou forte; ele estava frio contra a roupa úmida dela. Ela sempre se preocupava tanto que ele não saísse daquela condição ao fim da encenação.
— Por que você faz isso? — ela demandou.
Noah havia retornado à sua personalidade normal, segura. A única prova de sua verdadeira natureza era a mancha sempre presente em seu rosto, onde o osso havia sido esmagado. De resto, ele era novamente o garoto encurvado, meigo e eternamente vestido no uniforme da Aglionby.
Ele parecia vagamente surpreso e satisfeito por ter uma garota abraçada a ele.
— Isso?
— O que você fez. Agora mesmo.
Ele deu de ombros, informe e amigável.
— Eu não estava aqui.
Estava sim, Noah, ela pensou. Mas, qualquer que fosse a parte de Noah que ainda existia para fluir pensamentos e memórias naquela forma, misericordiosamente desaparecia pelos onze minutos de sua morte. Ela não tinha certeza se a amnésia sobre a coisa toda tornava a situação mais ou menos horripilante.
— Ah, Noah.
Ele colocou um braço sobre os ombros dela, ele mesmo frio e esquisito demais para notar que ela também estava úmida e fria. Eles caminharam lentamente até a porta desse jeito, um pretzel de garoto morto e garota não mediúnica.
É claro, ele não queria entrar. Blue suspeitava que ele não conseguia. Fantasmas e médiuns competiam pela mesma fonte de energia, e, na disputa por energia entre Noah e Calla, não havia dúvida na mente de Blue sobre quem sairia vitorioso. Ela teria pedido a Noah para confirmar isso, mas ele era notoriamente desinteressado nos detalhes de sua vida pós-morte. (Certa vez, Gansey havia perguntado de um modo muito sério: “Você não se importa em saber como é que ainda está aqui?”, ao que Noah respondera com uma sagacidade extraordinária: “Você se importa em saber como seus rins funcionam?”)
— Você não está indo para Washington, né? — Noah perguntou com alguma ansiedade.
— Não. — Ela tivera a intenção de apenas dizer isso, sem inflexão alguma, mas na verdade se sentia curiosamente desolada com a ideia de Gansey e Adam deixarem a cidade ao mesmo tempo. Na realidade, ela se sentia exatamente como Noah soava.
Audaciosamente, Noah ofereceu:
— Vou te deixar entrar em Monmouth.
Blue corou imediatamente. Uma de suas fantasias mais ocultas e persistentes era impossível: morar em Monmouth. Ela jamais seria realmente do grupo, pensou, enquanto vivesse ali, na Rua Fox, 300. Ela jamais seria realmente uma deles enquanto não fosse estudante da Aglionby. O que significava que ela jamais seria realmente uma deles enquanto fosse uma garota. A injustiça disso, a necessidade, a mantinha acordada à noite. Ela não podia acreditar que Noah tivesse adivinhado seu desejo de forma tão precisa. Para disfarçar o constrangimento, ela se irritou:
— E eu andaria o dia inteiro com você e com o Ronan?
Alegremente, Noah disse:
— Tem uma mesa de sinuca agora! Eu sou o pior jogador de sinuca de todos os tempos! É maravilhoso. — Ele a abraçou. — Hum. Lá vem problema.
Um homem avançava na calçada na direção deles. Ele estava cuidadosamente vestido e era irresistivelmente... cinza. Ao mesmo tempo em que Blue avaliava aquele Homem Cinzento, achou que estava sendo avaliada também.
No fim, ambos se olharam com uma espécie de decisão mútua de não se subestimar.
— Olá — ele disse cordialmente. — Lamento interromper.
Em primeiro lugar, pela maneira como ele formulou a frase, significava que podia ver Noah, o que nem todos podiam. Em segundo lugar, ele era educado de um jeito diferente de qualquer coisa que Blue encontrara antes. Gansey era educado de um modo esmagador, que diminuía o outro. Adam era educado para tranquilizar o interlocutor. E aquele homem era educado de maneira intensa, questionadora. Como tentáculos são educados, testando a superfície cuidadosamente, conferindo para ver como ela reagia à sua presença.
Ele era, Blue decidiu subitamente, muito inteligente. Um sujeito para ser levado a sério.
Ela gesticulou para suas roupas encharcadas.
— Isso é arte cênica. Estamos reencenando A pequena sereia. Não a versão da Disney.
Esse era seu próprio pequeno teste de tentáculo.
O Homem Cinzento sorriu amavelmente.
— E ele é o príncipe? Você o esfaqueia ou o transforma em espuma no final?
— Espuma, é claro — disse Blue, bastante satisfeita.
— Eu sempre achei que ela devia tê-lo esfaqueado — ele refletiu. — Estou procurando a Maura.
— Ah. — Agora tudo fazia sentido. Aquele era o sr. Cinzento. Ela ouvira o seu nome sussurrado entre Maura, Calla e Persephone nos últimos dias. Especialmente entre Calla e Persephone. — Você é o assassino de aluguel.
O sr. Cinzento teve a boa graça de parecer eficientemente sobressaltado.
— Ah. E você é a filha. Blue.
— Em carne e osso. — Blue fixou um olhar penetrante nele. — Então, você tem uma arma favorita?
Sem perder o embalo, ele respondeu:
— Oportunidade.
Agora ela ergueu uma sobrancelha.
— Tudo bem. Vem comigo. Noah, já volto.
Ela levou o Homem Cinzento para dentro de casa. Como sempre, novos visitantes a faziam se sentir hiperconsciente da aparência pouco ortodoxa da casa. Eram duas casas que haviam sido juntadas, e nenhuma estrutura havia sido um palácio, para começo de conversa. Corredores estreitos se inclinavam ávidos uns contra os outros. Uma privada perdida vazava constantemente. Os assoalhos de madeira eram tão curvados quanto a calçada na frente da casa, como se raízes estivessem ameaçando sair por entre as tábuas. Algumas paredes eram pintadas em tons roxos e azuis vividos, e algumas mantinham um papel de parede de décadas atrás. Fotografias gastas em preto e branco estavam penduradas ao lado de pôsteres de Klimt e velhas tesouras de metal. Toda a decoração era vítima de compras demais em brechós e uma quantidade grande demais de personalidades fortes.
Estranhamente, o Homem Cinzento — um ponto sereno de cor neutra em meio ao excesso — não parecia fora de lugar. Blue o notou observando o ambiente à sua volta enquanto eles caminhavam para o interior da casa. Ele não parecia o tipo de pessoa que alguém poderia pegar desprevenido.
Mais uma vez, ela pensou: Não o subestime.
— Ah! — resmungou Jimi, apertando o corpanzil para passar pelo Homem Cinzento. — Vou chamar a Maura!
Enquanto Blue o levava na direção da cozinha, ela perguntou:
— Qual é exatamente a sua intenção com a minha mãe?
— Isso parece direto demais — disse o sr. Cinzento.
Blue passou sobre duas garotas pequenas (ela não tinha certeza a quem elas pertenciam), que brincavam com tanques no meio do corredor, e desviou de um possível primo em segundo grau, que carregava duas velas acesas. O Homem Cinzento ergueu os braços acima da cabeça para evitar ser incendiado pelo primo em segundo grau, que cacarejou para ele:
— A vida é curta.
— E fica mais curta a cada dia que passa.
— Então você entende.
— Em nenhum momento duvidei disso.
E então eles estavam na cozinha, com todas as suas xícaras e chás meio empacotados, e caixas de óleos essenciais esperando para ser colocadas no correio, e flores decapitadas esperando para ser fervidas.
Blue apontou para uma cadeira, sob a luminária falsa da Tiffany.
— Sente-se.
— Eu prefiro ficar de pé.
Ela mostrou uma bela fileira de dentes para o Homem Cinzento.
— Sente-se.
O Homem Cinzento se sentou. Ele olhou de relance sobre o ombro, para o corredor atrás dele, então de volta para ela. Ele tinha aqueles olhos brilhantes e ativos que dobermanns e gaios têm.
— Ninguém vai te matar aqui. — Ela lhe passou um copo de água. — Não está envenenada.
— Obrigado. — Ele pegou o copo, mas não bebeu a água. — Minha única intenção nesse instante é convidar sua mãe para jantar fora.
Apoiando o traseiro no balcão, Blue cruzou os braços e o estudou. Ela estava pensando a respeito de seu pai biológico, Artemus. A verdade é que Blue jamais o encontrara e, aliás, sabia muito pouco a respeito dele — pouco mais que o seu nome, Artemus. No entanto, ela se sentia estranhamente protetora em relação ao pai. Não gostava de pensar nele reaparecendo e encontrando um usurpador em seu lugar. Mas, por outro lado, fazia dezesseis anos. A probabilidade de que ele voltasse era ínfima.
E era apenas um jantar.
— Você não vai ficar aqui, não é? — perguntou Blue. Ela se referia a Henrietta, não à casa.
Ela devia ter esclarecido a questão, mas ele pareceu ter entendido, pois respondeu:
— Eu não fico em lugar nenhum. Não por muito tempo.
— Isso não parece muito agradável.
Ao fundo, o telefone tocou. Não era problema seu. Ninguém ligaria para aquela casa atrás de uma não médium.
A expressão intensa dele não descaiu.
— É preciso se manter em movimento.
Blue considerou essa sabedoria antes de responder.
— O planeta gira a mais de mil e seiscentos quilômetros por hora a todo momento. Na realidade, ele dá a volta no sol a cento e sete mil quilômetros por hora, mesmo se não estivesse girando. Então você pode se mover bem rápido sem ir a lugar nenhum.
O sr. Cinzento fez um cacoete com a boca.
— Taí uma sacada muito filosófica.
Após uma pausa, ele disse:
— Ping sceal gehegan/ frod wip frodne. Bip hyra ferõ gelic.
Soava como alemão, mas, de ouvir os sussurros de Calla a respeito do Homem Cinzento, ela sabia que era inglês arcaico.
— Língua morta? — perguntou com interesse. Ela parecia estar ouvindo muitas delas ultimamente. — O que significa?
— “Encontros têm lugar, do sábio com o sábio. Pois seus espíritos são afins.” Ou mentes. A palavra ferõ tem o sentido de mente, ou espírito, ou alma. É uma das máximas anglo-saxônicas. Poesia sábia.
Blue não tinha certeza se ela e aquele Homem Cinzento pensavam exatamente parecido, mas não achava que eles fossem tão diferentes, também. Ela podia ouvir a batida pragmática do coração dele, e gostava disso.
— Escute, ela não gosta de porco — Blue disse. — Leve ela em algum lugar em que usem um monte de manteiga. E nunca diga galhofa perto dela. Ela odeia essa palavra.
O Homem Cinzento bebeu sua água. Ele piscou para o vão da porta do corredor, e, um momento depois, Maura apareceu com o telefone na mão.
— Oi, filha — ela disse, desconfiada. Por um milésimo de segundo, sua expressão era dura enquanto ela analisava se Blue corria ou não algum perigo com aquele homem estranho sentado à mesa de sua cozinha. Ela analisou o copo de água na frente do Homem Cinzento e os braços casualmente cruzados de Blue. Só então relaxou. Blue, de sua parte, gostou de ver o milésimo de segundo em que sua mãe pareceu perigosa. — O que posso fazer por você, sr. Cinzento?
Que coisa estranha que todos soubessem que o sr. Cinzento certamente não era o sr. Cinzento e, no entanto, todos continuassem com a farsa. Essa atuação devia ter incomodado o lado sensato de Blue, mas, em vez disso, parecera-lhe uma solução razoável. Ele não queria dizer quem era, e elas precisavam chamá-lo de algo.
O Homem Cinzento disse:
— Jantar.
— Se você se refere a eu cozinhar para você, não — disse Maura. — Se formos sair, talvez. Blue, essa ligação é para você. É o Gansey.
Blue notou que o Homem Cinzento ficou abruptamente desinteressado em quem era ao telefone. O que era interessante, pois ele estivera tão interessado em absolutamente todo o resto antes.
O que levou Blue a concluir que, na realidade, ele estava muito interessado em quem poderia estar ao telefone, só não queria que elas soubessem que ele estava interessado.
O que era interessante.
— O que ele quer? — perguntou Blue.
Maura lhe passou o telefone.
— Parece que alguém entrou na casa dele.

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