20 de junho de 2018

Capítulo 26

— Cabeswater — repetiu Gansey.
Havia algo mágico a respeito daquela palavra. Cabeswater. Algo ancestral e enigmático, uma palavra que não parecia pertencer ao Novo Mundo. Gansey leu o latim na rocha novamente — a tradução parecia óbvia, uma vez que Ronan havia feito a parte pesada do trabalho — e então, como os outros, olhou à sua volta para as árvores que os cercavam.
O que foi que você fez?, ele perguntou a si mesmo. Para onde você os trouxe?
— Eu voto para que a gente procure água — disse Blue. — Para que a energia faça o que o Ronan disse que ela faria melhor, seja o que for. E então... acho que devemos dizer algo em latim.
— Parece um bom plano — concordou Gansey, refletindo sobre a estranheza daquele lugar, que uma sugestão tão sem sentido pudesse parecer tão prática. — A gente devia voltar pelo caminho que viemos ou seguir em frente?
Noah disse:
— Seguir em frente.
Tendo em vista que ele raramente expressava uma opinião, sua palavra reinou. Partindo novamente, eles ficaram num vaivém sobre a própria trilha, à procura de água. À medida que avançavam, as folhas caíam à sua volta, vermelhas e então cinzas, até que as árvores ficaram nuas. Apareceu gelo nas sombras.
— Inverno — disse Adam.
Era impossível, é claro, mas, novamente, tudo que viera antes disso também era. Como quando ele havia passado de carro pelo Lake District com Malory, pensou Gansey. Após um tempo, havia uma quantidade incrível de beleza para processar, e ela se tornara invisível.
Era impossível que fosse inverno. Mas não era mais impossível do que qualquer outra coisa que havia acontecido.
Eles haviam chegado a um agrupamento de salgueiros desfolhados, sobre um ligeiro aclive, e abaixo deles havia a curva de um regato lento e raso. Malory havia dito para Gansey certa vez que onde havia salgueiros, havia água. Salgueiros se propagavam, disse ele, largando sementes em água em movimento, que então as levava corrente abaixo, permitindo que as árvores criassem raízes em alguma margem distante.
— E tem água — acrescentou Blue.
Gansey se virou para os outros. Sua respiração vinha em nuvens e todos eles pareciam terrivelmente malvestidos para o frio. Mesmo a cor da pele deles parecia errada: bronzeada demais para aquele ar de inverno sem cor. Turistas de outra estação. Gansey percebeu que estava tremendo, mas não sabia se era por causa do frio invernal ou da expectativa.
— Ok — ele disse para Blue. — O que você queria dizer em latim?
Blue se virou para Ronan.
— Você pode dizer simplesmente “oi”? É educado.
Ronan pareceu desgostoso; educado não era seu estilo. Mas disse:
— Salve. — Para Blue, ele explicou: — Na verdade, isso quer dizer Esteja bem.
— Excelente — ela respondeu. — Pergunte se elas querem falar com a gente.
Agora Ronan parecia ainda mais incomodado, pois isso o fazia parecer ridículo, o que era ainda menos seu estilo, mas ele inclinou a cabeça para trás e disse: — Loquere tu nobis?
Eles ficaram parados em silêncio. Um sibilar parecia estar subindo, como se uma brisa ligeira de inverno farfalhasse nas árvores. Mas não havia mais folhas sobrando nos ramos para farfalhar.
— Nada — respondeu Ronan. — O que você esperava?
— Silêncio — ordenou Gansey. Porque agora o sibilar era definitivamente mais que um farfalhar. Agora ele havia se transformado no que soava distintamente como vozes secas, sussurradas. — Vocês estão ouvindo isso?
Todos, menos Noah, balançaram a cabeça.
— Eu estou — disse Noah, para o alívio de Gansey.
Gansey disse:
— Peça para elas falarem de novo.
Ronan pediu.
O farfalhar sibilado veio de novo, e agora parecia óbvio que era uma voz, que nunca haviam sido folhas. Gansey ouviu claramente uma declaração quebradiça em latim. Ele gostaria que tivesse estudado com mais afinco enquanto repetia as palavras foneticamente para Ronan.
— Elas disseram que já estavam falando com você, mas que você não estava ouvindo — disse Ronan, e coçou a parte de trás da cabeça raspada. — Gansey, você está brincando comigo? Você realmente está ouvindo alguma coisa?
— Você acha que o latim do Gansey é tão bom assim? — respondeu Adam, tenso. — Foi a sua letra na pedra, Ronan, que disse que elas falavam latim. Cale a boca.
As árvores sibilaram de novo, e Gansey repetiu as palavras para Ronan. Noah corrigiu um dos verbos que Gansey havia entendido errado.
Os olhos de Ronan se voltaram como dardos para Blue.
— Elas disseram que estão felizes em ver a filha da médium.
— Eu! — exclamou Blue.
As árvores sibilaram uma resposta e Gansey repetiu as palavras.
— Eu não sei o que isso quer dizer — disse Ronan. — Elas também estão felizes em ver mais uma vez... eu não sei que palavra é essa: Greywaren? Se é latim, eu não conheço.
Ronan, sussurraram as árvores, Ronan Lynch.
— É você — disse Gansey assombrado, sentindo um arrepio. — Ronan Lynch. Elas disseram o seu nome. É você que elas estão felizes em ver de novo.
A expressão de Ronan era reservada, seus sentimentos, escondidos.
— De novo. — Blue pressionou as mãos contra as faces vermelhas de frio, os olhos arregalados e o rosto transparecendo todo o espanto e a animação que Gansey sentia. — Incrível. As árvores? Incrível.
Adam perguntou:
— Por que só você e o Noah conseguem ouvir?
Em um latim trôpego — mesmo na aula, ele raramente falava latim, e era estranho tentar traduzir pensamentos de palavras que ele conseguia ver escritas na cabeça para palavras faladas —, Gansey disse:
— Hic gaudemus. Gratias tibi... loquere... loqui pro nobis — e olhou para Ronan. — Como eu pergunto por que vocês não conseguem ouvir?
— Nossa, Gansey. Se você tivesse prestado atenção em... — Fechando os olhos, Ronan pensou por um momento: — Cur non te audimus?
Gansey não precisou de Ronan para traduzir a resposta sussurrada das árvores; o latim era simples o suficiente.
Ele disse em voz alta:
— O caminho não está desperto.
— A... linha ley? — sugeriu Blue. Um pouco triste, acrescentou: — Mas isso não explica por que só você e o Noah podem ouvir.
As árvores murmuraram: Si expergefacere via, erimus in debitum.
— Se você despertar a linha, elas terão uma dívida com você — disse Ronan.
Por um momento, todos ficaram em silêncio, olhando uns para os outros. Era muita coisa para assimilar. Não era somente porque as árvores estavam falando com eles, era porque elas eram seres conscientes, capazes de observar seus movimentos. Eram apenas as árvores naquela mata estranha, ou todas as árvores os observavam? Será que elas sempre haviam tentado falar com eles? Não havia uma maneira de saber, também, se as árvores eram boas ou más, se amavam ou odiavam os humanos, se tinham princípios ou compaixão. Eram como extraterrestres, pensou Gansey. Extraterrestres que tratamos muito mal, por muito tempo. Se eu fosse uma árvore, não teria nenhum motivo para amar um humano.
Gansey disse:
— Pergunte se elas sabem onde está o Glendower.
Adam pareceu sobressaltado. Rapidamente, Ronan traduziu a pergunta. Levou um momento para as vozes sussurradas responderem, e, mais uma vez, Gansey não precisou de tradução.
— Não — disse Gansey. Algo dentro dele havia se apertado e apertado e apertado até ele fazer a pergunta. Ele achava que, ouvindo a resposta, ficaria aliviado, mas não foi assim. Todos olhavam para ele, mas Gansey não sabia por quê. Talvez algo em seu rosto estivesse errado. Parecia errado. Então ele desviou o olhar de todos e disse: — Está muito frio. Valde frigida. Onde é a saída? Por favor? Amabo te, ubi exitum?
As árvores sussurraram e sibilaram, e Gansey percebeu que ele podia estar errado, que podia ter sido apenas uma voz o tempo inteiro. Ele não estava inteiramente certo de que chegara a ouvi-la alto também, agora que pensava na questão. Era possível que ela tivesse sido dita em sua cabeça o tempo inteiro. Era um pensamento desconcertante, e ele distraiu sua atenção. Noah teve de ajudá-lo a se lembrar de tudo que havia sido dito, e Ronan precisou pensar por um momento muito longo antes que fosse capaz de traduzir.
— Desculpe — disse Ronan. Ele estava se concentrando demais para se lembrar de parecer descolado ou ranzinza. — É difícil. É... elas disseram que precisamos voltar através do ano. Contra... o caminho. A linha. Elas disseram que, se voltarmos ao longo do regato e virarmos à esquerda na grande... figueira? Platanus? Acho que é figueira. Então acharemos algo que elas acreditam que queremos achar. E aí seremos capazes de sair da mata e encontrar o caminho de volta para o nosso... o nosso dia. Sei lá. Tem partes faltando, mas acho que... desculpem.
— Está tudo bem — disse Gansey. — Você está se saindo bem. — Em voz baixa, ele perguntou a Adam: — Você acha que devemos fazer isso? Me ocorreu agora que talvez elas não sejam confiáveis.
O cenho franzido de Adam queria dizer que isso havia lhe ocorrido também, mas ele respondeu:
— Nós temos outra escolha?
— Acho que devemos confiar nelas — disse Blue. — Elas me conheciam, e conheciam o Ronan também. De alguma forma. E a rocha não disse para não confiar nelas. Certo?
Ela tinha razão. A caligrafia de Ronan, com seu grande cuidado para provar sua origem, tinha lhes dado a chave para falar com as árvores, não um aviso.
— Vamos voltar — disse Gansey. — Cuidado para não escorregar. — Então, mais alto, disse: — Gratias. Reveniemus.
— O que você disse? — perguntou Blue.
Adam respondeu por ele:
— Obrigado. E que vamos voltar.
Não foi difícil seguir as orientações que Ronan havia traduzido. O regato era largo ali, a água fria e lenta entre duas encostas brancas de gelo. Ele os levou firmemente para baixo, e gradualmente o ar à volta deles começou a aquecer. Folhas vermelhas esparsas marcavam os galhos, e, no momento em que Blue apontou para uma enorme figueira, com o tronco branco e cinza perdendo parte da casca e largo demais para que ela o abraçasse, eles se viram nas mãos pegajosas do verão. As folhas eram vigorosas e verdes, movendo-se e esfregando-se umas nas outras em um constante farfalhar murmurado. Se havia uma voz agora, Gansey não tinha certeza se ele a ouvia.
— Nós pulamos o verão antes — Adam apontou. — Quando viemos pelo outro caminho, fomos direto para o outono.
— Mosquitos mágicos — disse Ronan, dando um tapa no braço. — Que lugar incrível é esse.
Seguindo as orientações da voz, eles viraram à esquerda na figueira enorme. Gansey se perguntou o que as árvores achavam que eles gostariam de encontrar.
Ele achava que só havia uma coisa que ele estava procurando.
Então as árvores se abriram em uma clareira de verão, e ficou óbvio o que a voz queria dizer.
Na clareira, inteiramente fora de lugar, havia um carro abandonado. Um Mustang vermelho. O último modelo do Mustang. Num primeiro momento, pareceu que ele estava coberto de lama, mas uma inspeção mais atenta revelou que ele estava, na realidade, coberto por camadas e mais camadas de pólen e folhas caídas. Folhas haviam ficado presas aos montes nas fendas do capô e embaixo do aerofólio, emboladas nos limpadores de para-brisas e em torno dos pneus. Uma muda de árvore crescia debaixo do carro, enrolando-se em torno do para-choque dianteiro. A cena lembrava velhos naufrágios, barcos antigos transformados em barreiras de coral pelos estratagemas do tempo.
Atrás do carro se estendia um caminho tomado completamente pelo mato e que parecia levar para fora dali; aquela devia ser a saída a que as árvores se referiam.
— Espalhafatoso — observou Ronan, chutando um dos pneus. O Mustang tinha pneus enormes, caros, e, agora que Gansey olhou para o carro mais de perto, viu que ele estava cheio de acessórios: aros grandes, aerofólio novo, filme escuro nos vidros, escapamento duplo. Dinheiro novo, seu pai teria dito, queima no bolso.
— Olhem — disse Adam, passando um dedo sobre a poeira da janela de trás.
Ao lado de um adesivo do Blink-182, havia outro da Aglionby.
— Lógico — disse Blue.
Ronan tentou a porta do motorista, que se abriu. Ele riu uma vez, de maneira cortante:
— Tem um hambúrguer mumificado aqui.
Todos se agruparam em volta dele para ver o interior, mas, fora o hambúrguer seco, meio comido, no banco do passageiro, ainda pousado sobre o embrulho, não havia muito para ver.
Aquele carro também era um enigma, como a voz de Blue no gravador. Gansey sentia como se fosse dirigido especificamente a ele.
— Abra o porta-malas — ele ordenou.
Dentro do porta-malas tinha um casaco e, embaixo dele, uma coleção esquisita de varas e molas. Franzindo o cenho, Gansey retirou o dispositivo e o segurou pela haste maior. As peças se ajeitaram em seus lugares, diversas varas suspensas que se retorciam debaixo da principal, e então ele compreendeu tudo.
— É uma vara de radiestesia.
Ele se virou para Adam, querendo uma verificação.
— Coincidência — disse Adam. É claro, querendo dizer que não era.
Gansey sentiu novamente o que sentira no estacionamento do Nino’s, quando Adam o avisara que achava que havia outra pessoa procurando pela linha ley.
Então ele percebeu que Blue e Noah não estavam por ali.
— Cadê a Blue e o Noah?
Ao ouvir seu nome, Blue reapareceu, passando por cima de um tronco caído e voltando para a clareira. Ela disse:
— O Noah está passando mal.
— Por quê? — perguntou Gansey. — Ele está doente?
— Vou perguntar — ela respondeu. — Assim que ele terminar de botar as tripas pra fora.
Gansey fez uma careta.
— Acho que o Gansey prefere a palavra expelindo. Ou evacuando — disse Ronan animadamente.
— Acho que vomitando é a palavra mais específica neste caso — corrigiu Blue precisamente.
— Vomitando! — disse Ronan despreocupado; isso, finalmente, era algo que ele conhecia. — Onde ele está? Noah! — gritou, afastando-se do Mustang e voltando pelo caminho de que ela tinha vindo.
Blue observou a vara de radiestesia nas mãos de Gansey.
— Isso estava no carro? Uma vara de radiestesia!
Ele não deveria ter ficado surpreso que ela soubesse do que se tratava. Mesmo que ela não fosse médium, sua mãe era, e aquela era tecnicamente uma ferramenta do negócio.
— No porta-malas.
— Mas isso significa que outra pessoa estava procurando a linha ley!
Do outro lado do Mustang, Adam passou os dedos pelo pólen na lateral do carro. Ele parecia perturbado.
— E eles acharam que ela era mais importante que o carro.
Gansey olhou de relance para as árvores em volta deles, então para o carro caro. Ao longe, ouviu as vozes baixas de Ronan e Noah.
— Acho melhor a gente ir embora. Precisamos de mais informações.

4 comentários:

  1. Tadinho do Noah. Ele é um amorzinho que precisa ser protegido de todo mal <3

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  2. É o carro do amigo do professor de latim! Foi ai qe rolou o ritual, será qe a "visão" do Adam na arvore tambem era de um ritual?

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  3. Essa história tá muito boa
    Ainda não estou entendendo a coisa toda, mas está muito bom

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Boa leitura, E SEM SPOILER!