26 de junho de 2018

Capítulo 25

É claro, o Homem Cinzento tinha de se livrar dos dois corpos. Era uma chateação, nada mais. O tipo que arrombaria uma casa em busca de artefatos sobrenaturais também tendia a ser o tipo que não era dado como desaparecido.
O Homem Cinzento não seria dado como desaparecido, por exemplo.
Ainda assim, ele precisava limpar os corpos de impressões digitais e então levá-los para algum lugar mais conveniente para eles morrerem. No porta-malas da Abominação Champanhe, o Homem Cinzento tinha latas de combustível e dois potes peruanos quentes demais para ser vendidos enrolados em cobertores da Dora, a Aventureira, então ele colocou os corpos no banco de trás, pondo o cinto de segurança neles para que não mexessem muito para os lados. Ele estava tristemente a caminho de criar uma mancha incriminadora em mais um carro alugado. Seu pai estava certo: um desempenho passado realmente parecia ser o melhor indicador de um desempenho futuro.
Enquanto dirigia, ele ligou para a Hospedaria e Restaurante Varanda e cancelou a reserva do jantar.
— O senhor gostaria de mudar para mais tarde? — perguntou a recepcionista. O Homem Cinzento gostava do jeito como ela dissera mais tarde. Era algo como táárde, mas com bem mais vogais.
— Acho que hoje não vai dar mesmo. Posso remarcar para... quinta? — Ele pegou a saída para a estrada do Parque Blue Ridge. A força da curva fez bater a cabeça de um dos bandidos contra a janela. Ele não se importava mais com isso.
— Mesa para um, certo?
Ele pensou em Maura Sargent e em seus tornozelos nus e esbeltos.
— Não, para dois.
Ele desligou o telefone, colocou os Kinks para tocar e seguiu pela estrada do parque.
Entrou em um acesso depois do outro até o GPS do carro alugado ficar irremediavelmente confuso. O Homem Cinzento fez seu próprio caminho mata adentro com o carro alugado, passando por diversas placas de ENTRADA PROIBIDA (ele nunca se arrependia de pagar pelo seguro de danos adicionais em uma locação). O Homem Cinzento estacionou em uma clareira pequena, idílica, baixou a janela e aumentou lá em cima o volume do estéreo. Ele tirou o Míssil e o Camisa Polo do carro, depois desamarrou os sapatos deles.
Tinha acabado de colocar os sapatos do Camisa Polo em seus próprios pés quando o telefone tocou.
O Homem Cinzento atendeu.
— Você sabe quem eram aqueles homens? — perguntou, em vez de saudá-lo.
A voz de Greenmantle soou exaltada.
— Eu disse. Eu disse que tinham outros no pedaço.
— Sim, você disse — concordou o Homem Cinzento. Ele encheu a sola dos sapatos do Camisa Polo com o bom barro da Virgínia, pisoteando o chão. — Tem mais?
— É claro — disse Greenmantle tragicamente.
O Homem Cinzento trocou para os sapatos do Míssil. A clareira estava coberta com os rastros dos dois homens.
— De onde eles estão vindo?
— As leituras! As máquinas! Qualquer um pode seguir as leituras — disse Greenmantle. — Nós não somos os únicos com geofones por aí.
Ao fundo, os Kinks cantavam sobre o demônio do álcool.
— Como mesmo você sabe que essa coisa existe?
— Da mesma maneira que a gente sabe de qualquer coisa. Rumores. Livros antigos. Velhos gananciosos. Que música é essa?
— The Kinks.
— Eu não sabia que você era fã. Na verdade, é estranho pensar em você ouvindo qualquer tipo de música. Espere. Não sei por que eu disse isso. Desculpe, soou péssimo.
O Homem Cinzento não ficou ofendido. Isso significava que Greenmantle pensava nele como uma coisa em vez de uma pessoa, e ele não se incomodava com isso. Por um momento, os dois ficaram ouvindo os Kinks cantarem sobre vinho do Porto, Pernod e tequila. Toda vez que o Homem Cinzento colocava os Kinks para tocar, considerava retomar seus estudos acadêmicos. Dois dos Kinks eram irmãos. Fraternidade no rock dos anos 60 e 70 seria um belo título, ele pensou. Os Kinks o intrigavam porque, embora brigassem direto — um membro deu uma cuspida famosa no outro antes de chutar a bateria e sair ruidosamente do palco —, eles permaneceram juntos por décadas. Isso sim, ele achava, era irmandade.
— Você vai conseguir se livrar desses dois? — perguntou Greenmantle. — Eles serão um problema?
O Homem Cinzento levou um momento para se dar conta de que ele estava se referindo ao Míssil e ao Camisa Polo.
— Não — disse o Homem Cinzento. — Não serão.
— Você é bom — disse Greenmantle. — É por isso que você é o único.
— Sim — concordou o Homem Cinzento. — Certamente eu sou. Você diria que essa coisa é uma caixa?
— Não, eu não diria isso, porque eu não sei. Você diria isso?
— Não. Provavelmente não.
— Por que você perguntou, então?
— Se fosse uma caixa, eu poderia parar de procurar coisas que não fossem caixas.
— Se eu achasse que fosse uma caixa, eu teria lhe dito para procurar uma caixa. Se eu diria que é uma caixa... Por que você tem que ser tão misterioso o tempo inteiro? Você se diverte com isso? Quer que eu comece a pensar em caixas agora? Porque eu estou pensando. Vou ver isso. Vou ver o que posso fazer.
O Homem Cinzento desligou e avaliou a cena. Em um mundo auspicioso, os dois corpos diante dele seguiriam sem ser descobertos durante anos, seriam comidos por animais e consumidos pelo tempo. Mas, em um mundo onde amantes achavam que estavam sentindo um cheiro estranho, ou caçadores tropeçavam em ossos de pernas, ou urubus circulavam inconvenientemente durante dias, tudo que restaria na cena seriam dois homens com sapatos cobertos de lama e amostras defensivas de DNA encravadas debaixo das unhas. De certa maneira, dois corpos tornavam as coisas mais fáceis.
Tornavam a história mais simples. Dois homens mal-intencionados em uma propriedade privada. Uma discussão entre os dois. Uma briga que saiu de controle.
Um para solidão. Dois para uma batalha.
O Homem Cinzento franziu o cenho e conferiu o relógio. Com sorte, aqueles seriam os únicos corpos que ele teria de enterrar em Henrietta, mas era difícil prever exatamente.

2 comentários:

  1. gostaria que ele se endireitassem e ficasse com a mae de blue

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Boa leitura, E SEM SPOILER!