9 de junho de 2018

Capítulo 24

O FIM DAS aulas sempre me provoca um sentimento especial. É o mesmo todos os anos, mas neste ano o sentimento está amplificado, porque não vai haver ano que vem. Tem um ar de encerramento. Professores vão de short e camiseta para a aula. Passam filmes enquanto arrumam as mesas. Ninguém tem mais energia para se importar. Todos nós estamos em contagem regressiva, matando tempo. Todo mundo sabe para onde vai, e o agora já parece que ficou no passado. De repente, a vida parece mais rápida e mais lenta, tudo junto. É como estar em dois lugares ao mesmo tempo.
As provas vão bem; até a de cálculo não é tão ruim quanto eu imaginava. E de repente minha jornada no ensino médio está chegando ao fim. Peter viajou para o fim de semana de treino. Só tem um dia, e já estou com tanta saudade quanto sinto do Natal quando ainda estamos em julho.
Peter é meu chocolate quente, minhas luvinhas vermelhas, minha manhã de Natal. Ele disse que ia ligar assim que voltasse do ginásio, e fico com o celular por perto, o volume no máximo. De manhã Peter me ligou quando eu estava no banho, e, quando vi, ele já tinha saído de novo. O futuro vai ser assim? Vai ser diferente quando eu tiver aulas e outras atividades, mas agora parece que estou no alto de um farol, esperando o navio do meu amor chegar. Como sou romântica, este não é um sentimento totalmente desagradável, ao menos por enquanto. Vai ser diferente quando não for mais novidade, quando não ver Peter todos os dias for a nova rotina, mas, por enquanto, há uma espécie de prazer perverso em sentir saudade.
No fim da tarde, eu desço usando a camisola branca comprida que Margot diz que me deixa com cara de um personagem da série Os pioneiros e Kitty diz que me faz parecer um fantasma. Eu me sento na bancada com uma das pernas dobrada, abro uma lata de pêssegos em calda e como com um garfo direto da lata. Tem algo de satisfatório em morder um pêssego adocicado.
Eu solto um suspiro, e Kitty tira os olhos do computador e me encara.
— Por que você está suspirando tão alto?
— Estou com saudade… do Natal. — Mordo outro pedaço de pêssego.
Ela se anima.
— Eu também! Acho que devíamos arrumar uns cervos para nosso jardim este ano. Não daqueles vagabundos, mas sim os chiques de arame cobertos de luzes de Natal.
Suspiro de novo e coloco a lata na bancada.
— Claro. — A calda está começando a pesar no meu estômago.
— Pare de suspirar!
— Por que será que suspirar é tão bom? — reflito.
Kitty dá um suspiro alto.
— Bom, é basicamente a mesma coisa que respirar. E é bom respirar. Ar é delicioso.
— É mesmo, não é? — Eu espeto outro pedaço de pêssego. — Onde será que se compra esse tipo de cervo? Deve ter na Target.
— A gente devia ir àquela loja, Christmas Mouse. Assim, podemos fazer estoque de várias coisas. Não tem uma em Williamsburg?
— Tem, no caminho dos shoppings outlet. Sabe, acho que também precisamos de uma guirlanda nova. E, se tiver luzes de Natal lilás, pode ser legal. Daria uma sensação de terra das fadas no inverno. Talvez a árvore toda possa ser em tons pastel.
— Não vamos nos empolgar — diz Kitty, secamente.
Eu a ignoro.
— Não esqueça que agora também temos as coisas de Natal de Trina. Ela tem uma cidadezinha de Natal, lembra? Está tudo naquelas caixas na garagem. — A cidadezinha de Trina não é só um presépio. Tem uma barbearia, uma padaria e uma loja de brinquedos. É um exagero.
— Eu nem sei onde vamos colocar.
Kitty dá de ombros.
— Acho que vamos ter que jogar fora algumas coisas velhas. — Caramba, Kitty não tem um pingo de sentimentalismo! Com o mesmo tom prático, ela acrescenta: — Nem tudo que a gente tem é muito legal. A saia da árvore está desfiando e com cara de mastigada. Por que guardar uma coisa só porque é velha? O novo é quase sempre melhor que o velho, sabe?
Eu desvio o olhar. Nossa mãe comprou aquela saia em uma feira de Natal da escola quando estávamos no ensino fundamental. Uma das mães era costureira. Margot e eu brigamos para escolher; ela gostou da vermelha com a barra xadrez, e eu gostei da branca porque achei que ia parecer que nossa árvore estava na neve. Mamãe escolheu a vermelha porque a branca ficaria suja rápido. A vermelha está aguentando bem, mas Kitty está certa, acho que está na hora de aposentá-la. Mas nem eu nem Margot vamos deixá-la jogar fora. Por segurança, vou pelo menos cortar um quadradinho e guardar na minha caixa de chapéu.
— Trina tem uma saia de árvore legal — digo. — É branca e peludinha. Jamie Fox-Pickle vai amar se aconchegar nela.
Meu celular toca, e eu pulo para ver se é Peter, mas é só papai dizendo que vai comprar comida tailandesa para o jantar e querendo saber se preferimos pad thai ou pad see yew. Eu suspiro de novo.
— Por Deus, Lara Jean, se você suspirar mais uma vez… — ameaça Kitty. Me olhando, ela diz: — Sei que não é do Natal que você está com saudade. Peter viajou tem um dia e você está agindo como se ele tivesse ido para a guerra.
Eu a ignoro e respondo pad see yew só de raiva, porque sei que Kitty prefere pad thai.
É nessa hora que recebo uma notificação de e-mail. É da admissão da UNC. Minha candidatura foi atualizada. Eu clico no link. Parabéns…
Eu fui aceita.
Como é?
Fico ali, atordoada, lendo e relendo a mensagem. Eu, Lara Jean Song Covey, fui aceita pela Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. Não consigo acreditar. Eu nunca achei que entraria. Mas entrei.
— Lara Jean, alô?
Assustada, olho para ela.
— Eu acabei de repetir uma pergunta três vezes. O que está acontecendo?
— Hum… acho que acabei de entrar na UNC.
Kitty fica boquiaberta.
— Uau!
— Louco, não é?
Eu balanço a cabeça sem acreditar. Quem imaginaria? Não eu. Tinha me esquecido da UNC depois que entrei na lista de espera.
— A UNC é uma faculdade muito difícil de entrar, Lara Jean!
— Eu sei. — Ainda estou atordoada. Depois que não entrei na UVA, fiquei muito deprimida, como se não fosse boa o suficiente para ir para lá. Mas a UNC! É mais difícil entrar na UNC sendo de fora do estado do que na UVA sendo do estado.
O sorriso de Kitty diminui um pouco.
— Mas você não vai para a William and Mary? Já não pagou a taxa de matrícula? E você não vai pedir transferência para a UVA ano que vem de qualquer forma?
A UVA. Por alguns segundos, esqueci completamente a transferência para a UVA e fiquei feliz pela UNC.
— Esse é o plano — afirmo.
Meu celular toca e meu coração dá um salto, achando que é Peter, mas não é. É uma mensagem de Chris.
Quer ir na Starbucks?
Eu respondo:
ADIVINHA. Eu entrei na UNC!
OMG!
Vou te ligar
Um segundo depois, meu celular toca e Chris grita:
— Parabéns!
— Obrigada! Quer dizer, uau. É que… é uma faculdade tão boa. Eu achei…
— E o que você vai fazer? — pergunta ela.
— Ah. — Olho para Kitty, que está me observando com olhos de águia. — Nada. Eu ainda vou para a William and Mary.
— Mas a UNC não é uma faculdade melhor?
— Está melhor no ranking. Não sei. Eu nunca fui lá.
— Então vamos — diz ela.
— Visitar? Quando?
— Agora! Uma viagem espontânea!
— Está maluca? Fica a quatro horas daqui!
— Não fica, não. Fica a três horas e vinte e cinco minutos. Acabei de pesquisar.
— Quando chegarmos lá, vão ser…
— Seis da tarde. Grande coisa. A gente dá uma volta, janta e volta. Por que não? Somos jovens. E você precisa saber para o que está dizendo não. — Antes que eu possa protestar de novo, ela completa: — Vou passar aí em dez minutos. Leve uns lanches para a viagem.
Chris desliga.
Kitty está me olhando.
— Você vai para a Carolina do Norte? Agora?
Estou me sentindo bastante eufórica no momento. Solto uma gargalhada.
— Acho que vou!
— Isso quer dizer que você vai estudar lá e não na William and Mary?
— Não, só… eu só vou visitar. Nada mudou. Mas não conta para o papai.
— Por quê?
— Porque… porque sim. Pode dizer para ele que estou com a Chris e que não venho jantar, mas não fale nada sobre a UNC.
Então vou me vestir e voo pela casa como uma louca, jogando um monte de coisas na bolsa. Ervilhas secas com wasabi, Pocky Sticks, uma garrafa de água mineral. Chris e eu nunca fizemos uma viagem de carro juntas; eu sempre quis fazer isso com ela. E que mal haveria em dar uma olhada em Chapel Hill, só para conhecer? Eu não vou estudar lá, mas é divertido pensar nisso.
Chris e eu estamos na metade do caminho quando percebo que meu celular está ficando sem bateria e que esqueci o carregador.
— Você tem carregador de carro? — pergunto.
Ela está cantando com o rádio.
— Não.
— Droga! — Nós consumimos a maior parte da bateria de Chris usando o GPS. Fico um pouco tensa de viajar para outro estado sem o celular estar totalmente carregado. Além do mais, eu pedi a Kitty para não contar ao papai aonde eu estava indo. E se acontecesse alguma coisa?
— Que horas você acha que a gente vai voltar?
— Pare de se preocupar, vovó Lara Jean. Nós vamos ficar bem. — Ela abre a janela dela e a minha e começa a procurar a bolsa. Pego a bolsa dela no chão do banco de trás e tiro o maço de cigarros antes que ela bata o carro. Quando estamos em um sinal vermelho, ela acende o cigarro e dá um trago. — Vamos ser como os pioneiros. Só aumenta a aventura. Nossos antepassados não tinham celular, sabia?
— Lembre-se de que só vamos olhar. Eu ainda vou estudar na William and Mary.
— Você que se lembre: ter mais de uma opção é tudo — afirma Chris.
É o que Margot sempre diz. Essas duas têm mais em comum do que imaginam.
Passamos o resto da viagem mudando as estações do rádio, cantando e discutindo se Chris devia ou não pintar a raiz de rosa. É surpreendente como o tempo passa rápido. Chegamos a Chapel Hill em menos de três horas e trinta minutos, como Chris disse que aconteceria. Encontramos uma vaga na Franklin Street, que acho que é a rua principal. A primeira coisa que percebo é como o campus da UNC é parecido com o da UVA. Tem muitos bordos, muito verde, muitos prédios de tijolo.
— É bonito, não é? — Eu paro para admirar um corniso com flores rosa. — Fico surpresa de ter tantos cornisos aqui, sendo a flor do estado da Virgínia. Qual você acha que é a flor do estado da Carolina do Norte?
— Não faço ideia. Podemos ir jantar? Estou morrendo de fome. — Chris tem a concentração de uma mosca e, quando está com fome, é melhor todo mundo tomar cuidado.
Eu passo o braço pela cintura dela. De repente sinto um carinho enorme por ela me levar até lá para ver o que meu futuro poderia ser.
— Vamos encher essa pança, então. O que você quer? Pizza? Sanduíche? Comida chinesa?
Ela passa o braço pelos meus ombros. O humor dela já melhora quando falo de comida.
— Pode escolher. Qualquer coisa, menos comida chinesa. E pizza. Quer saber, vamos comer sushi.
Dois caras passam na rua, e Chris grita:
— Ei!
Eles se viram.
— E aí? — diz um deles.
Ele é negro, bonito, alto, musculoso e veste uma camiseta com os dizeres LUTA-LIVRE DA CAROLINA DO NORTE.
— Onde tem o melhor sushi por aqui? — pergunta Chris.
— Eu não como sushi, então não sei. — Ele olha para o amigo ruivo, que é menos bonito, mas não deixa a desejar. — Qual você prefere?
— O Spicy Nine — diz ele, sem tirar os olhos de Chris. — É só seguir a Franklin por ali que vocês vão encontrar. — Ele pisca para ela, e os dois saem andando na direção oposta.
— Devíamos ir atrás deles? — pergunta ela, o olhar os acompanhando enquanto se afastam. — Descobrir o que planejam fazer hoje?
Eu a viro na direção que eles indicaram.
— Achei que você estivesse com fome — digo.
— Ah, é. Mas foi um ponto para a UNC, não foi? Garotos mais gatos?
— Tenho certeza de que a William and Mary também tem garotos gatos. — Rapidamente, eu acrescento: — Não que isso importe para mim, porque, obviamente, eu tenho namorado. Que ainda não me ligou, aliás. Meu celular está com cinco por cento de bateria, então, quando Peter ligar, vai ser tarde demais.

* * *

Depois que comemos sushi, nós andamos pela Franklin Street, olhando as lojas. Penso em comprar um chapéu de bola de basquete do UNC Tar Heels para Peter, mas ele provavelmente não vai usar, pois vai torcer para o Wahoo.
Nós passamos por um poste com alguns anúncios colados, e Chris para. Aponta para um flyer de um espaço de música chamado Cat’s Cradle. Uma banda chamada Meow Mixx vai tocar hoje.
— Vamos! — diz Chris.
— Você já ouviu falar do Meow Mixx? — pergunto. — Que tipo de música eles tocam?
— Quem liga? Vamos e pronto!
Ela pega minha mão, rindo. Corremos pela rua juntas.
Tem uma fila para entrar, e a banda já começou a tocar. Uma música animada flui pela porta aberta. Duas garotas estão na fila na nossa frente, e Chris me abraça e diz:
— Minha melhor amiga acabou de entrar na UNC.
Sinto um calor por dentro ao ouvir Chris me chamar de melhor amiga, ao saber que ainda somos importantes uma para a outra, apesar de ela ter amigos do trabalho e de eu ter Peter. Faz com que eu sinta uma certeza de que, quando ela estiver na Costa Rica, na Espanha ou onde quer que vá, nós ainda seremos próximas.
Uma das garotas da fila me abraça.
— Parabéns! Você vai adorar a UNC. — O cabelo dela está preso em duas tranças, e ela usa uma camiseta com os dizeres HILLARY É MINHA PRESIDENTE.
Ajustando a fivela esmaltada de pirulito no cabelo, a amiga diz:
— Escolha o alojamento Whaus ou o Craige. São os mais divertidos.
Fico tímida quando respondo:
— Na verdade, eu não vou estudar aqui. Nós só viemos visitar. Por diversão.
— Ah, e onde você vai estudar? — pergunta ela, o rosto cheio de sardas um pouco franzido.
— William and Mary.
— Mas ainda não é definitivo — completa Chris.
— É bem definitivo — retruco.
— Eu vim para cá em vez de ir para Princeton — diz a garota das tranças. — De tanto que amei o campus quando visitei. Você vai ver. Sou Hollis, aliás.
Nós nos apresentamos, e as garotas me contam sobre o departamento de literatura inglesa e os jogos de basquete no Dean Dome e os lugares na Franklin Street que não pedem identidade. Chris, que se distraiu durante a parte da conversa sobre o departamento de literatura, fica alerta de repente. Antes de entrarmos, Hollis me dá o número dela.
— Para o caso de você decidir vir para cá — diz ela.
Quando nós entramos, o lugar está bem cheio, com muita gente de pé perto do palco, tomando cerveja e dançando. A banda só tem dois caras com guitarras e um laptop, e o estilo musical deles é um pop eletrônico. O som se propaga pelo ambiente. A plateia é mista: uns caras mais velhos com camisetas de bandas de rock e barba, que devem ser da idade do meu pai, mas também muitos estudantes. Chris tenta limpar o carimbo que tem na mão para comprar cerveja para nós, mas não consegue. Eu não me importo porque não gosto tanto assim de cerveja, e ela ainda tem que dirigir de volta hoje. Começo a perguntar às pessoas se alguém tem um carregador de celular, e Chris dá um tapa no meu braço.
— Nós estamos em uma aventura! — grita ela. — Não precisamos de celulares em uma aventura!
Chris pega minha mão e me puxa até a beirada do palco. Nós dançamos até chegarmos ao meio e pulamos no ritmo da música, apesar de não conhecermos nenhuma canção. Um dos caras estudou na UNC e, no meio do show, puxa da plateia o hino de guerra dos Tar Heels. “Nascido Tar Heel, criado Tar Heel e, quando morrer, um morto Tar Heel!” A multidão vai à loucura, e o prédio chega a sacudir. Chris e eu não sabemos a letra, mas gritamos “Vai pro inferno, Duke!” junto com todo mundo. Nosso cabelo cai no rosto; estou suada e, de repente, me divertindo muito.
— Isso é tão legal! — grito para Chris.
— Também acho!
Depois da segunda parte do show, Chris declara que está com fome, e nós saímos noite adentro.
Nós andamos pela rua pelo que parece ser uma eternidade quando encontramos um lugar chamado Cosmic Cantina. É um restaurante mexicano pequenininho com uma fila comprida na porta, e Chris diz que deve querer dizer que a comida é muito boa ou muito barata. Chris e eu engolimos nossos burritos. O recheio de arroz, feijão, queijo derretido e molho pico de gallo caseiro é farto. O gosto é normal, exceto pelo molho apimentado. É tão apimentado que meus lábios ficam ardendo. Se meu celular não estivesse descarregado e o de Chris não estivesse quase na mesma situação, eu teria procurado na internet o melhor burrito de Chapel Hill. Mas aí talvez não tivéssemos encontrado aquele lugar. Por algum motivo, é o melhor burrito da minha vida.
Depois que comemos nossos burritos, eu digo:
— Que horas são? Nós devíamos voltar agora para chegarmos em casa antes de uma da manhã.
— Mas você quase não viu o campus — argumenta Chris. — Não tem nada em especial que você queira ver? Tipo, sei lá, uma biblioteca chata ou algo assim?
— Ninguém me conhece como você, Chris — digo, e ela pisca os olhos para mim. — Tem um lugar que quero ver… está em todos os folhetos. O Velho Poço.
— Então vamos lá — incentiva ela.
Quando estamos andando, pergunto:
— Você acha Chapel Hill parecida com Charlottesville?
— Não, parece ser melhor.
— Você é que nem Kitty. Acha que tudo novo é melhor.
— E você acha que tudo velho é melhor.
Ela tem razão. Andamos o resto do caminho em um silêncio confortável. Estou pensando nas formas como a UNC lembra e não lembra a UVA. O campus está tranquilo, provavelmente porque a maioria dos alunos voltou para casa para as férias de verão. Mas ainda tem bastante gente por aqui: garotas de vestido e sandálias e garotos de bermuda cáqui e bonés da UNC.
Atravessamos o gramado verde, e ali está: o Velho Poço. Fica entre dois alojamentos de tijolo. É uma pequena rotunda, uma versão menor da que existe na UVA, com um chafariz com água potável no centro. Há um carvalho branco enorme logo atrás e arbustos de azaleia em volta, rosa como a cor do batom que Stormy gostava de usar. É encantador.
— Você tem que fazer um pedido ou algo assim? — pergunta Chris, se aproximando do chafariz.
— Ouvi dizer que, no primeiro dia de aula, os alunos tomam um gole de água para dar sorte — digo. — Sorte ou só notas boas.
— Eu não vou precisar de notas boas no lugar para onde vou, mas aceito a sorte.
Chris se inclina para tomar um gole, e duas garotas passando por ali avisam:
— Os garotos das fraternidades fazem xixi aí toda hora. Não beba.
Ela afasta a cabeça e pula para longe do chafariz.
— Eca! — Descendo os degraus, ela diz: — Vamos tirar uma selfie.
— Não dá. Nossos celulares estão descarregados, lembra? Vamos ter que guardar a lembrança no coração, como antigamente.
— É verdade. Então vamos pegar a estrada?
Eu hesito. Não sei por quê, mas não estou pronta para ir embora ainda. E se eu nunca mais voltar aqui? Vejo um banco virado para um dos prédios de tijolo e decido me sentar.
— Vamos ficar um pouco mais.
Abraço os joelhos contra o peito, e Chris se senta ao meu lado. Ela começa a mexer no monte de pulseiras que usa no braço.
— Eu queria poder vir para cá com você.
— Para a faculdade ou para a UNC? — Sou pega tão de surpresa pelo tom de reflexão na voz dela que não paro para corrigi-la, para lembrar que também não vou estudar aqui.
— Qualquer uma das duas coisas. As duas. Não me entenda mal. Estou doida pela Costa Rica. É que… não sei. E se eu estiver perdendo coisas por não ir para a faculdade na mesma época que todo mundo?
Ela olha para mim, o olhar cheio de dúvida.
— A faculdade vai estar aqui esperando você, Chris. Ano que vem, no ano seguinte. Quando você quiser.
Chris se vira e olha para o gramado.
— Talvez. Vamos ver. Consigo ver você aqui, Lara Jean. Você não?
Engulo em seco.
— Eu tenho um plano. A William and Mary por um ano, depois a UVA.
— Você quer dizer que você e Peter têm um plano. É por isso que você está tão indecisa.
— Tudo bem, Peter e eu temos um plano. Mas não é o único motivo.
— É o principal.
Não posso negar. O que fica faltando aonde quer que eu vá, seja a William and Mary ou a UNC, é Peter.
— Então por que você não estuda aqui por um ano? — pergunta Chris. — Qual é a diferença de estar aqui ou na William and Mary? Uma hora? Você não vai estar na UVA de qualquer jeito. Então, por que não aqui? — Ela não espera que eu responda; dá um pulo e corre pelo gramado, tira os sapatos e dá uma série de estrelas.
E se eu viesse para cá e adorasse tudo? E se, depois de um ano, não quisesse ir embora? E aí? Mas não seria ótimo se eu adorasse? Não é esse o objetivo? Por que apostar em não amar um lugar? Por que não correr um risco e apostar na felicidade?
Eu me deito, estico as pernas no banco e olho para o céu. Há galhos de árvore se entrelaçando bem acima da minha cabeça; uma árvore fica ao lado do prédio, e a outra, no gramado. Os galhos cobrem a passagem e se encontram no meio. E se Peter e eu pudéssemos ser como essas duas árvores, distantes, mas ainda se tocando? Porque eu acho que seria feliz aqui.
Acho que talvez consiga me ver estudando aqui também.
O que foi que Stormy disse? Na última vez que a vi, no dia que ela me deu o anel? Nunca diga não quando quer mesmo dizer sim.

* * *

Quando Chris para na frente da minha casa, passa um pouco das três da manhã e todas as luzes estão acesas. Eu engulo em seco e me viro para ela.
— Entra comigo? — imploro.
— De jeito nenhum. Você está por conta própria. Tenho que ir para casa encarar minha mãe.
Dou um abraço de despedida em Chris, saio do carro e subo os degraus da frente. A porta se abre quando estou procurando as chaves na bolsa. É Kitty com a camisa larga que usa para dormir.
— Você está encrencada — sussurra ela.
Eu entro, e papai está logo atrás dela, ainda com as roupas de trabalho. Trina está no sofá, me olhando com cara de Você está ferrada, e me solidarizo, mas podia ter pelo menos ligado.
— Onde você esteve a noite toda?! — grita ele. — E por que não atendeu o celular?
Eu me encolho.
— A bateria acabou. Desculpa. Eu não tinha percebido que estava tão tarde. — Penso em fazer uma piada dizendo que é por isso que a geração Y devia usar relógio, para tentar aliviar o clima, mas acho que uma piada não vai funcionar desta vez.
Papai começa a andar de um lado para outro.
— E por que não usou o celular da Chris?
— O celular da Chris também ficou sem bateria…
— Nós estávamos morrendo de preocupação! Kitty disse que você saiu com Chris sem dizer para onde estava indo… — Nessa hora, Kitty me olha. — Eu estava quase ligando para a polícia, Lara Jean! Se você não tivesse chegado agora…
— Sinto muito — começo a dizer. — De verdade.
— Isso é tão irresponsável. — Papai está resmungando sozinho, sem nem me ouvir. — Lara Jean, você pode ter dezoito anos, mas…
Do sofá, Trina interrompe:
— Dan, por favor, não diga “mas ainda mora sob o meu teto”. É tão clichê.
Papai se vira para ela.
— Tem motivo para ser clichê! É uma boa frase! Uma frase muito boa.
— Lara Jean, conte para eles onde você estava — diz Kitty, impaciente.
Papai lança um olhar acusador para ela.
— Kitty, você sabia onde ela estava?
— Ela me fez jurar não contar!
Antes que ele possa responder, digo:
— Eu fui para a Carolina do Norte com Chris.
Ele levanta os braços.
— Carolina do Norte! Mas… mas que coisa é essa? Você atravessou a fronteira estadual sem me contar? E ainda por cima com o celular descarregado!
Sinto-me mal por tê-lo deixado preocupado. Não sei por que não liguei. Eu podia ter pedido o celular de alguém. Acho que me deixei levar pela noite, por estar lá. Eu não queria pensar na minha casa e na vida real.
— Desculpa — sussurro. — Sinto muito mesmo. Eu devia ter ligado.
Ele balança a cabeça.
— Por que você foi para a Carolina do Norte?
— Eu fui para a Carolina do Norte porque… — Faço uma pausa. Se eu falar agora, não tem volta. — Porque eu fui aceita pela UNC.
Papai arregala os olhos.
— Foi? Que… que maravilha. Mas e a William and Mary?
Sorrindo, eu dou de ombros.
Trina solta um grito e pula do sofá, derrubando o cobertor de flanela em que tinha se enrolado e quase tropeçando. Papai me dá um abraço apertado, e Trina se junta a nós.
— Ah, meu Deus, Lara Jean! — diz ela, me dando tapinhas nas costas. — Você vai ser uma Tar Heel!
— Espero que você esteja feliz — diz papai. Ele limpa uma lágrima. — Ainda estou furioso por você não ter ligado. Mas também estou feliz.
— Então você vai? — pergunta Kitty da escada.
Eu olho para ela. Dou um sorriso trêmulo e digo:
— É, eu vou. Peter e eu vamos dar um jeito. Vamos pensar em alguma coisa.
Conto para eles cada detalhe da noite: o show no Cat’s Cradle, os burritos da Cosmic Cantina, o Velho Poço. Trina faz pipoca, e está quase amanhecendo quando vamos dormir.
Quando papai vai para o quarto, Trina sussurra para mim:
— Seu pai envelheceu dez anos em uma noite. Olhe para ele, daqui a pouco vai precisar de uma bengala. Graças a você, vou me casar com um velho.
Nós duas caímos na gargalhada e não conseguimos parar. Acho que estamos meio grogues pela falta de sono. Trina cai de costas e balança as pernas no ar de tanto que está rindo. Kitty, que adormeceu no sofá, acorda.
— O que é tão engraçado?
Isso só nos faz rir mais. Quando está subindo a escada, papai para, se vira e balança a cabeça para nós duas.
— Vocês já estão fazendo complôs contra mim — diz ele.
— É melhor aceitar, papai. Você sempre viveu em um matriarcado. — Eu jogo um beijo para ele.
Ele franze a testa.
— Ei, não pense que esqueci que você passou a noite fora sem nem ligar para casa.
Ops. Talvez seja cedo demais para piadinhas. Quando ele termina de subir, eu grito:
— Sinto muito de verdade!
Eu lamento por não ter ligado, mas não por ter ido.

2 comentários:

  1. Aaaaaa quero MUITO q ela vá pra UNC, parece ser tão legal lá.. Queria q a Chris fosse tbm :(

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  2. Medo e expectativas sobre oque vai acontecer nos próximos capítulos!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!