26 de junho de 2018

Capítulo 24

— Você pode explicar por que estamos no meio dessa poça? — perguntou Adam.
— Dessa maldita poça — corrigiu Ronan ao lado de Gansey. Como um tipo celta, pálido e de cabelos escuros, ele não apreciava o calor.
Os cinco — mais Motosserra, menos Noah (ele estivera presente, mas debilmente, quando eles partiram) — flutuavam no barco no meio do lago beligerantemente feio feito pelo homem que haviam encontrado antes. O dia estava terrivelmente ensolarado. O cheiro de campo — terra quente — lembrava Gansey de todas as manhãs em que ele fora buscar Adam na casa pré-fabricada dos pais dele. Da margem, corvos guinchavam apocalipticamente para eles. Motosserra guinchou de volta.
Realmente era o pior que Henrietta tinha a oferecer.
— Nós estamos procurando debaixo dele. — Gansey olhou para o laptop. Ele não conseguia fazer com que o equipamento de sonar se comunicasse com ele, apesar de um exame superficial do manual de instrução. A irritação estava começando a formar gotas de suor em suas têmporas e sua nuca.
Empoleirada na outra extremidade do barco, Blue perguntou:
— Nós vamos passar o sonar em todos os lagos na linha ley? Ou só nos que te irritam?
Ela ainda estava brava, a respeito do sofá, da mesa de sinuca e da barriga nua de Orla. Esta, se bronzeando ociosamente, não estava ajudando. Ela ocupava a maior parte do barco, as pernas se perdendo para um lado e o longo torso bronzeado ornando o outro. De vez em quando, ela abria os olhos para sorrir abertamente para um dos garotos, virando para esse lado e para aquele como se estivesse simplesmente endireitando a coluna.
— Essa é uma missão piloto — disse Gansey. Ele estava mais profundamente desconfortável com o fato de Blue estar brava com ele do que ele gostaria de admitir para qualquer pessoa, muito menos para si mesmo. — A probabilidade maior é que Glendower não esteja debaixo desse lago. Mas eu quero ter os meios, caso a gente encontre um corpo de água em que ele possa estar debaixo.
— Meios — ecoou Ronan, mas sem força. A água refletia o sol em seu rosto por baixo, tornando-o um deus translúcido e impaciente. — Que merda, como tá quente.
A explicação de Gansey não era precisamente verdadeira. De vez em quando, ele tinha palpites, sempre a respeito de encontrar coisas, sempre a respeito de Glendower.
Eles eram consequência de seu esforço ao se debruçar sobre mapas, repassar registros históricos e se lembrar de achados que fizera antes. Quando você encontra coisas impossíveis, isso torna a localização de outra coisa impossível mais previsível.
O palpite sobre aquele lago tinha algo a ver com aquele campo aberto parecer uma das únicas passagens fáceis através daquela seção de montanhas desafiadoras. Algo a ver com o nome da estrada estreita na parte de baixo da colina — Estrada Hanmer, sendo Hanmer o sobrenome da esposa de Glendower. Algo a ver com onde ela ficava na linha, a aparência do campo, o comichão de parar e olhar mais de perto.
— Será possível que você comprou uma sucata de seiscentos e cinquenta dólares? — Ronan puxou um fio da parte de trás do laptop e o conectou de um jeito diferente. O laptop fingiu que não sabia a diferença. Gansey pressionou algumas teclas. O laptop fingiu que ele não tinha feito isso. Todo o processo parecia muito mais direto no vídeo online de instruções.
Do convés do barco, Orla disse:
— Estou tendo um momento mediúnico. Envolve você e eu.
Distraído, Gansey tirou os olhos da tela do computador.
— Você estava falando comigo ou com o Ronan?
— Tanto faz. Sou flexível.
Blue fez um ruído baixo, terrível.
— Eu gostaria que você voltasse o seu olho interior para a água — disse Gansey. — Porque... Droga, Ronan, a tela ficou preta.
Ele estava começando a pensar que havia comprado uma sucata de seiscentos e cinquenta dólares. Ele esperava que a mesa de sinuca funcionasse melhor.
— Quanto tempo vamos ficar em Washington? — perguntou Adam subitamente.
— Três dias — disse Gansey.
Por Deus, Adam havia concordado em ir junto. Havia montes de oportunidades em um evento para arrecadar fundos como aquele. Estágios, posições futuras, patrocinadores. Um nome que impressionasse na parte de baixo de uma carta de recomendação da faculdade. Tantas pérolas para ser encontradas, se você estivesse com disposição para abrir as ostras.
Gansey odiava ostras.
Ronan sacudiu com força a parte de trás do laptop. O equipamento de sonar apareceu na tela, com o formato de um submarino minúsculo.
— Seu canalha brilhante! — disse Gansey. — Você conseguiu. O que você fez?
— Cansei de suar, foi o que fiz. Vamos olhar debaixo desse maldito lago e voltar para o ar-condicionado. Ah, nem comece, Parrish.
Na outra extremidade do barco, Adam parecia extremamente indiferente à falta de tolerância ao calor de Ronan.
— Eu não disse nada.
— Tanto faz, cara — respondeu Ronan. — Eu conheço essa cara. Você nasceu no inferno, está acostumado com isso.
— Ronan — disse Gansey — Lynch.
Por alguns longos minutos, todos ficaram quietos enquanto zanzavam lentamente pela água, observando os elementos indistintos na tela. Gansey teve a nítida e desagradável sensação de uma única gota de suor rolando entre as omoplatas.
— Estou tendo um momento mediúnico — declarou Orla.
— Pfff! — respondeu Blue.
— Não, é sério. — Orla abriu os olhos. — Tem algo na tela agora?
Tinha. Na tela do laptop, as imagens o atormentaram. Uma era um tipo de disco, e a outra era um corvo pouco claro. Na realidade, podia ser qualquer tipo de pássaro. Mas, para o grupo daquele barco, uma sugestão era tudo que eles precisavam. Eles precisavam que fosse um corvo. Seria um corvo.
Gansey contemplou se poderia mergulhar em busca do objeto. A primeira coisa que lhe ocorreu foi sua camisa polo verde-azulada — ele teria de tirá-la. A questão seguinte que lhe ocorreu foi sua calça cáqui — será que ele poderia tirá-la na presença de todas aquelas mulheres? Duvidoso.
E, por fim, ele considerou suas lentes de contato. Elas se rebelavam mesmo na água da piscina, e aquilo certamente não era uma piscina.
Blue espiou a água marrom sobre a borda.
— Qual a profundidade da água aqui?
— Está dizendo... — Gansey se esforçou para ver no laptop — ... três metros.
— Então tá. — Blue jogou suas sandálias na barriga nua de Orla, ignorando seus vagos protestos.
— O quê? Você não pode entrar! — disse Gansey.
— Posso sim — ela respondeu, prendendo o rabo de cavalo vestigial em um nó atrás do crânio. — Eu realmente posso.
— Mas... — ele tentou. — Você não vai conseguir abrir os olhos nessa água. Eles vão ficar irritados.
— Seus olhos altamente cultos, quem sabe — respondeu Blue, tirando a camiseta regata de cima e jogando-a sobre Orla também. A pele nua apareceu através do tecido rasgado da regata que estava por baixo. — Meus olhos de pântano vão se adaptar perfeitamente.
Gansey se sentiu atingido, mas, antes que pudesse protestar, foi forçado a aparar o laptop quando o equipamento virou. Orla havia ficado de pé, súbita e rapidamente, fazendo o barco se agitar. Todos se seguraram como puderam e olharam fixamente para a giganta de calça boca de sino.
— Pare, Blue. Eu faço isso — ordenou Orla. Seu umbigo com piercing estava precisamente na altura do olhar de Gansey. A esfera de prata deu uma piscadela para ele. A joia dizia: Olhem só, garotos! — Você está de roupa. Eu estou de biquíni.
Blue respondeu ferozmente:
— Nenhum de nós pode esquecer disso. — Se não fosse pelo sol, sua voz teria congelado o lago.
Orla jogou a cabeça para trás, o nariz magnificamente grande descrevendo um círculo no ar. Então tirou á calça boca de sino tão rápido que todos os garotos no barco a encararam, fascinados e atordoados. Gansey não conseguia entender a velocidade daquilo. Num momento ela estava vestida e, no seguinte, estava de biquíni. Cinquenta por cento do mundo era pele morena e cinquenta por cento, nylon laranja. Pelo sorriso de Mona Lisa nos lábios de Orla, era claro que ela estava satisfeita por finalmente poder mostrar seus verdadeiros talentos.
Uma parte minúscula do cérebro de Gansey disse: Você está encarando demais.
E a parte maior dele disse: LARANJA.
— Ah, pelo amor de Deus — disse Blue e saltou para fora do barco.
Ronan começou a rir, e isso foi tão inesperado que o encanto se rompeu. Ele riu quando Motosserra se lançou ao ar para voar em círculos onde Blue havia se atirado, e riu quando Orla soltou um grito como uma buzina e torpedeou a água. Ele riu quando a imagem do laptop ficou distorcida com a formação de pequenas ondas. Riu quando estendeu o braço para Motosserra voltar, e então cerrou os lábios com uma expressão que indicava que, por dentro, ainda estava achando todos hilários.
O barco, antes lotado até o máximo de sua capacidade, agora continha apenas três garotos e uma pequena pilha de roupas e sapatos femininos. Adam olhou para Gansey com uma expressão atônita:
— Isso está mesmo acontecendo?
Estava mesmo acontecendo, porque o sonar de varredura lateral mostrava duas formas abaixo da superfície. Uma delas não estava nem um pouco próxima dos objetos e parecia estar se movendo em círculos um tanto a esmo. A outra seguia intencionalmente na direção dos arredores do corvo, movendo-se em breves impulsos que sugeriam nado de peito. Gansey, ex-capitão da equipe de remo da Aglionby e um nadador relativamente talentoso, aprovou.
— Estou um tanto envergonhado — ele admitiu.
Ronan passou uma mão sobre a cabeça raspada.
— Eu não queria molhar o cabelo.
Adam apenas acompanhou as pequenas ondulações se expandindo na água. Um segundo mais tarde, Orla retornou à superfície. Assim como seu mergulho, seu reaparecimento foi dramático: uma bela saída espumosa que terminou com ela flutuando preguiçosamente de costas, as mãos atrás da cabeça.
— Está escuro demais — ela disse, com os olhos fechados contra o sol. Ela não parecia ter nenhuma pressa de tentar de novo ou voltar para o barco. — Mas está fresco e gostoso. Vocês deviam entrar.
Gansey não tinha desejo algum de se juntar a ela. Ele espiou ansiosamente sobre a borda do barco. Mais um segundo e ele ia...
Blue reapareceu ao lado deles. O cabelo escuro grudado nas faces. Com uma mão exibindo os nós dos dedos brancos, ela se agarrou à borda do barco e se impulsionou meio para fora da água.
— Deus do céu — disse Gansey.
Blue cuspiu alegremente uma boca cheia de água marrom sobre os mocassins de Gansey, formando uma poça na lona, sobre seus dedos do pé.
— Deus do céu — ele disse.
— Agora eles são realmente sapatos náuticos — ela respondeu. Com um balanço do braço livre, jogou seu prêmio para dentro, que caiu sobre as tábuas com um baque surdo.
Motosserra imediatamente saltou do ombro de Ronan para investigar.
— Tem mais uma coisa lá embaixo. Vou voltar para pegar.
Antes que Gansey tivesse tempo de dizer algo, a água escura se fechou sobre a cabeça dela. Ele ficou espantado com o animal glorioso e destemido que era Blue Sargent, e fez uma nota mental para contar a ela exatamente isso, se ela não se afogasse buscando o que quer que fosse essa segunda coisa.
Blue ficou submersa apenas por um momento dessa vez. O barco balançou quando ela emergiu de novo, respirando ofegante e triunfante. Ela enganchou um cotovelo na borda.
— Me ajudem a subir!
Adam puxou Blue para dentro como se ela fosse a pescaria do dia, estendida na base do barco. Embora ela usasse bem mais roupas que Orla, Gansey ainda achava que devia desviar o olhar. Tudo estava molhado e colado de um jeito que parecia mais excitante que todo o guarda-roupa de Blue.
Sem fôlego, ela perguntou:
— O que é a primeira coisa? Você sabe?
Ele pegou o primeiro objeto de Ronan. Sim, ele sabia. Gansey esfregou os dedos sobre a superfície limosa. Era um disco de metal arranhado de aproximadamente dezoito centímetros de diâmetro. Havia três corvos gravados nele. Os outros deviam estar enterrados fundo demais no lodo para aparecerem na tela do sonar. Era incrível que eles tivessem chegado a ver um deles. Um disco completamente obscurecido seria algo muito fácil de acontecer. Mais fácil ainda que houvesse uma crosta sobre o pássaro que o identificava e que ele tivesse sido escondido pelas algas.
Algumas coisas querem ser encontradas.
— É um ornamento — disse Gansey com assombro, correndo o polegar em torno da borda irregular do disco. Tudo a respeito dele evidenciava sua antiguidade. — Ou um umbo. De um escudo. Essa parte reforçava o meio do escudo. O resto deve ter apodrecido. Provavelmente era de madeira e couro.
Não era o que ele esperava encontrar ali, de maneira alguma. Do que ele podia lembrar, escudos como aquele não eram popularmente usados na época de Glendower.
Uma boa armadura os havia tornado desnecessários. Certamente o capricho na produção parecia excessivo para um armamento. Parecia mais o tipo de coisa que seria trazido para ser enterrado com um rei. Ele passou um dedo sobre os corvos. Três corvos marcados em um triângulo — o brasão de armas de Urien, o pai mitológico de Glendower.
Quem mais havia tocado esse ornamento? Um artesão, a mente ocupada com a determinação de Glendower. Um soldado, carregando-o em um barco para atravessar o Atlântico. Talvez o próprio Glendower.
Seu coração fervilhava com essa ideia.
— Então é antigo — disse Blue, da outra extremidade do barco.
— É.
— E isso aqui?
Com o tom da voz dela, ele levantou os olhos para o objeto grande que repousava no alto de suas coxas.
Ele sabia o que era. Só não sabia por que era.
— Bom, essa roda é do Camaro.
E era.
Ela parecia idêntica às rodas do Pig — exceto pelo fato de que essa tinha obviamente centenas de anos. A superfície descolorida trazia buracos e calombos. Com toda a deterioração, a roda elegantemente simétrica não parecia fora de lugar ao lado do ornamento do escudo. Se você fizesse vista grossa para o logotipo da Chevrolet no meio.
— Você se lembra de ter perdido uma roda um tempo atrás? — perguntou Ronan. — Tipo, uns quinhentos anos atrás?
— Nós sabemos que a linha ley mexe com o tempo — disse Gansey imediatamente, sentindo-se acabado. Não exatamente acabado, mas desancorado. Liberto dos caminhos percorridos pela lógica. Quando as regras do tempo se tornavam flexíveis, o futuro parecia conter possibilidades demais para suportar. Aquela roda prometia um passado com o Camaro, um passado que tanto não havia acontecido quanto havia. Não havia acontecido porque as chaves ainda estavam no bolso de Gansey e o carro ainda estava estacionado lá na Indústria Monmouth. E havia porque Blue segurava a roda nas mãos ainda úmidas.
— Acho que você devia deixar essas coisas comigo enquanto passa o fim de semana com a sua mãe — disse Blue. — E eu vejo se consigo convencer a Calla a trabalhar nelas.
O barco foi levado para a margem, Orla recebeu de volta sua calça boca de sino, o laptop foi recolocado em uma sacola, e o equipamento de sonar foi puxado para fora da água. Entediado, Adam ajudou a prender o barco ao trailer antes de subir na picape — Gansey precisava conversar com Adam, embora ele não fizesse ideia do que iria dizer; seria bom para eles darem uma saída da cidade juntos —, e Ronan voltou para o BMW sozinho. Gansey provavelmente precisava falar com ele também, embora tampouco soubesse o que lhe diria.
Blue se aproximou dele na sombra do barco, com o ornamento do escudo na mão.
Aquela descoberta não era Cabeswater e não era Glendower, mas era algo. Gansey estava ficando ganancioso, ele percebeu, faminto por Glendower e somente Glendower.
Aquelas pistas tantalizantes costumavam ser o suficiente para sustentá-lo. Agora era apenas o Santo Graal que ele queria. Ele se sentia envelhecendo dentro de sua pele jovem. Estou cansado de milagres, pensou.
Ele observou o biquíni laranja de Orla desaparecer auspiciosamente no BMW. Sua mente estava longe dali, no entanto: ainda absorta com o mistério da roda antiga do Camaro.
Em voz baixa, Blue perguntou sugestivamente:
— Já viu o suficiente?
— De... ah, da Orla?
— É.
A questão o incomodava. Ela o julgava, e, nesse caso, ele não achava que tivesse feito nada para merecer isso. Blue não tinha o direito de se meter na vida dele, não desse jeito.
— O que você tem a ver com isso — ele perguntou —, com o que eu penso da Orla?
Isso parecia perigoso, por alguma razão. Quem sabe seria melhor se ele não tivesse perguntado. Pensando bem, a pergunta em si não era o problema. Era a maneira como ele a havia feito. Seus pensamentos andavam longe e ele não vinha dando importância para sua aparência exterior, e agora, tarde demais, ouvira o veneno de suas próprias palavras. Como a inflexão parecia conter um desafio.
Vamos lá, Gansey, ele pensou. Não estrague as coisas.
Blue sustentou o olhar dele, irredutível. Seca, ela respondeu:
— Nada.
E era mentira.
Não devia ter sido, mas foi, e Gansey, que valorizava a honestidade acima de quase tudo, sabia quando a ouviu. Blue Sargent se importava se ele estava ou não interessado em Orla. Ela se importava muito. Quando ela se virou rapidamente para voltar para a picape balançando a cabeça com menosprezo, ele sentiu uma emoção do tipo indecente.
O verão se impregnou em suas veias, e ele entrou na picape.
— Vamos embora — disse aos outros, e deslizou os óculos escuros sobre o rosto.

2 comentários:

  1. "Uma emoção do tipo indecente"? Bem, a Blue tava com ciúmes, claramente. Mas e o Gansey? Feliz que ela estivesse com ciúmes (embora isso seja mais cruel que indecente)?

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  2. Ele ta todo se achando com essa descoberta, kkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!