20 de junho de 2018

Capítulo 24

Como Adam avisara, eles não haviam levado dois segundos para explorar o corvo cunhado no chão, seguir o regato mata adentro, observar os peixes mudarem de cor, descobrir uma árvore alucinatória e retornar até Helen.
Pelo relógio de Gansey, eles haviam levado sete minutos.
Helen estava furiosa. Quando Gansey lhe disse que sete minutos era um milagre, pois na verdade eles deviam ter ficado quarenta minutos ali, isso causou tamanha discussão que Ronan, Adam e Blue tiraram os fones de ouvido para permitir que os irmãos resolvessem suas diferenças. Sem os fones, é claro, os três no banco de trás ficaram impossibilitados de falar. A situação deveria ter criado um silêncio constrangedor, mas, em vez disso, foi mais fácil sem palavras.
— É impossível — disse Blue, no momento em que o helicóptero deixou o terreno em silêncio suficiente para que se pudesse falar. — O tempo não pode ter parado enquanto a gente estava na mata.
— Não é impossível — respondeu Gansey, atravessando o estacionamento até o prédio. Ele escancarou a porta do primeiro andar da Monmouth e gritou para a escada sombria: — Noah, você está em casa?
— É verdade — disse Adam. — De acordo com a teoria da linha ley, o tempo pode ser uma coisa fluida bem em cima da linha.
Aquele era um dos efeitos mais comumente relatados sobre as linhas ley, especialmente na Escócia. No folclore escocês, acreditava-se no mito de que os viajantes podiam ser “levados por duendes” ou desorientados por fadas locais. Andarilhos partiam em uma trilha reta apenas para se encontrar inexplicavelmente perdidos, parados em um local que eles não faziam a menor ideia de ter caminhado, com o relógio mostrando minutos antes ou horas depois de terem partido. Como se eles tivessem tropeçado em uma dobra no espaço-tempo. Era a energia das linhas ley pregando peças.
— E o que tinha naquela árvore? — perguntou Blue. — Aquilo foi uma alucinação? Um sonho?
Glendower. Foi Glendower. Glendower. Glendower.
Gansey não conseguia parar de vê-lo. Ele se sentia excitado, temeroso ou ambas as coisas.
— Eu não sei — disse ele, tirando as chaves do bolso e dando um tapa na mão de Ronan quando ele tentou pegá-las. Seria um dia gelado no verão da Virgínia quando ele deixasse Ronan dirigir seu carro. Ele vira o que Ronan fizera com o próprio carro, e a ideia do que ele faria com algumas dezenas a mais de cavalos de potência ao seu comando era impensável. — Mas pretendo descobrir. Vamos nessa.
— Vamos? Para onde? — perguntou Blue.
— Para a prisão — disse Gansey agradavelmente. Os outros dois garotos já a estavam empurrando na direção do Pig. Ele se sentia nas alturas como uma pipa, eufórico. — Para o dentista. Para qualquer lugar terrível.
— Eu tenho que voltar às... — mas ela não terminou a frase. — Não sei quando. Numa hora razoável.
— O que é razoável? — perguntou Adam, e Ronan riu.
— Estaremos de volta antes que você vire abóbora — disse Gansey, prestes a acrescentar Blue no fim da frase, mas soava estranho chamá-la assim. — Blue é um apelido?
Ao lado do Camaro, as sobrancelhas de Blue ficaram subitamente angulosa.
Apressadamente, Gansey acrescentou:
— Não que não seja um nome legal. Só que é... incomum.
— Esquisitão — disse Ronan, enquanto mordia distraído uma das fitas de couro no pulso, de maneira que o efeito foi minimizado.
Blue respondeu:
— Infelizmente, não é nem um pouco normal. Não como Gansey.
Ele sorriu de maneira tolerante para ela. Coçou o queixo liso, com os pelos assassinados havia pouco, e a estudou. Blue mal batia no ombro de Ronan, mas era tão grande e tão presente quanto ele. Gansey teve um sentimento incrível de coisa certa, com todos reunidos em torno do Pig. Como se Blue, e não a linha ley, fosse a peça que faltava e de que ele estivera precisando todos aqueles anos, como se a busca por Glendower não estivesse verdadeiramente a caminho até que ela fizesse parte dela. Ela parecia certa como Ronan parecera, como Adam parecera, como Noah parecera. Quando cada um deles havia se juntado a Gansey, ele sentira uma torrente de alívio e, no helicóptero, se sentiu exatamente da mesma maneira quando percebeu que era a voz de Blue no gravador.
É claro, ela podia simplesmente cair fora.
Ela não vai, ele pensou. Ela também deve sentir isso.
E continuou:
— Eu sempre gostei do nome Jane.
Os olhos de Blue se arregalaram.
— Ja... o quê? Ah! Não, não... Você não pode simplesmente dar outro nome para as pessoas porque não gosta do nome verdadeiro delas.
— Eu gosto de Blue — disse Gansey. Ele não acreditava que ela estivesse realmente ofendida; seu rosto não parecia como parecera no Nino’s, quando eles se encontraram pela primeira vez e as orelhas dela ficaram vermelhas. Gansey pensou que possivelmente estava se saindo um pouco melhor em conseguir não ofendê-la, mesmo não conseguindo parar de provocá-la. — Algumas das minhas camisas favoritas são azuis. Mas eu também gosto de Jane.
— Não vou nem responder.
— Eu não pedi que você respondesse. — Abrindo a porta do Camaro, ele empurrou o banco do motorista para frente, para que Adam entrasse atrás.
Blue apontou para Gansey.
— Não vou responder.
Mas ela entrou. Ronan procurou o aparelho de MP3 do BMW antes de entrar no banco do passageiro e, mesmo sabendo que o aparelho de CD barato que fora colocado no Pig não estava funcionando direito, chutou o painel até que uma música eletrônica detestável e barulhenta começasse. Gansey escancarou a porta do motorista. Na verdade, ele deveria estar cuidando para que Ronan fizesse o dever de casa antes que a Aglionby o expulsasse. Mas, em vez disso, gritou por Noah uma última vez e então entrou no carro.
— Seu gosto para música é aterrorizante — ele disse a Ronan.
Do banco de trás, Blue gritou:
— Ele sempre cheira a gasolina?
— Só quando está ligado! — berrou Gansey de volta.
— Essa coisa é segura?
— Segura como a vida.
Adam deu um berro:
— Para onde estamos indo?
— Sorvete. A Blue vai nos contar como ela sabia onde estava a linha ley — disse Gansey. — Vamos bolar uma estratégia e decidir qual vai ser o próximo passo. Vamos aprender com a Blue sobre energia. Adam, você vai me contar tudo que lembra sobre o tempo e as linhas ley, e, Ronan, quero que você me conte de novo o que descobriu sobre o tempo do sonho e as trilhas do som. Antes de voltarmos lá, quero descobrir tudo que for possível para ter certeza que é um lugar seguro.
Mas não foi isso que aconteceu. O que aconteceu foi que eles dirigiram até o Harry’s e estacionaram o Camaro entre um Audi e um Lexus, e Gansey pediu tanto sorvete que a mesa não tinha espaço para mais nada, e Ronan convenceu os atendentes a aumentarem o volume das caixas de som, e Blue riu pela primeira vez de algo que Gansey disse, e eles eram barulhentos e triunfantes e reis de Henrietta, pois tinham encontrado a linha ley e porque algo estava começando, tudo estava começando.

4 comentários:

  1. "— Segura como a vida."

    Considerando q quem diz isso é um cara que a morte está prevista pros próximos doze meses e que pode morrer por uma picada de um inseto ou por um beijo... esse carro é tudo, menos seguro. Mais provável que exploda com todos dentro

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  2. Eu gosto de Jane. Me faz pensar em Jane Eyre, Jane Austen ou Jane Bennet. Janes são legais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!