3 de junho de 2018

Capítulo 24

Venha para Santa Bárbara!
Aqui você vê
Surfistas, peixes, romanos!

ERA UMA PÉSSIMA notícia tanto para nós quanto para o sr. Bedrossian, mas não havia nem sinal do Cadillac Escalade na rua onde ele estava estacionado.
— Ih, o carro foi rebocado — anunciou Piper, muito tranquila, como se aquilo fosse comum.
Ela voltou até a secretaria da escola, de onde saiu alguns minutos depois dirigindo uma van verde e dourada da Edgarton.
Piper parou e abriu a janela.
— E então, crianças: prontos para o nosso passeio?
Jason não parava de olhar pelo retrovisor do passageiro enquanto o carro se afastava da escola; parecia nervoso, talvez com medo de um segurança nos abordar e exigir nossa autorização para sair do campus e ir matar um imperador romano. Mas ninguém foi falar com a gente.
— Para onde vamos? — perguntou Piper, logo que chegamos à estrada.
— Santa Bárbara. — respondeu Jason.
Ela franziu a testa, como se a resposta de Jason fosse só um pouco mais surpreendente do que Uzbequistão.
— Então tá.
Ela seguiu as placas para a Rodovia 101.
Daquela vez, para variar, torci para pegarmos bastante trânsito, já que não estava nem um pouco ansioso para ver Calígula. Só que as ruas estavam quase vazias; parecia que as estradas da Califórnia tinham ouvido minhas reclamações e agora queriam vingança. Ah, então passe rapidinho, Apolo!, parecia dizer a Rodovia 101. Espero que você tenha uma ótima viagem até a morte humilhante que o espera!
Ao meu lado, no banco de trás, Meg batucava nos joelhos.
— Falta muito?
Eu não conhecia Santa Bárbara muito bem. Estava torcendo para que Jason dissesse que tínhamos que ir para bem longe, lá depois do Polo Norte, talvez.
Não que eu quisesse ficar tanto tempo preso com Meg numa van, mas aí pelo menos poderíamos dar uma paradinha no Acampamento Júpiter e alistar um esquadrão de semideuses bem armados.
— Mais ou menos duas horas — respondeu Jason, destruindo minhas esperanças. — Vamos subir a costa até aquele píer, Stearns Wharf.
— Você já foi lá? — perguntou Piper.
— Eu… Já. Fui com Tempestade, dar uma olhada na área.
— Tempestade? — perguntei.
— É o cavalo dele — explicou Piper. Então virou outra vez para Jason: — Você foi lá sozinho?
— Bem, Tempestade é um ventus — corrigiu Jason, ignorando a pergunta de Piper.
Meg parou de batucar nos joelhos.
— Tipo aquelas coisas de vento que a Medeia tinha?
— Só que Tempestade é simpático. Eu meio que… não é bem domar, mas ficamos amigos. Ele costuma aparecer quando eu chamo e me deixa cavalgar.
— Um cavalo de vento. — Meg parou um pouco para pensar, sem dúvida comparando os méritos de um ventus aos de seu bebê pêssego. — Deve ser irado.
— Voltando ao que importa — interveio Piper —, por que você foi dar uma olhada em Stearns Wharf?
Jason pareceu tão desconfortável que fiquei com medo de ele sem querer explodir o sistema elétrico da van.
— A Sibila. Ela me disse que era lá que eu encontraria Calígula. É um dos lugares onde ele para.
Piper franziu a testa, confusa.
— Onde ele para?
— O palácio dele não é bem um palácio. Vamos ter que procurar por um barco.
Senti um nó no estômago, que decidiu ir sozinho pegar a saída mais próxima para Palm Springs.
— Ah... — comentei.
— Ah? — perguntou Meg. — Ah o quê?
— Ah, faz sentido. Na Roma Antiga, Calígula era famoso por suas barcas do prazer, enormes palácios flutuantes com casas de banho, teatros, estátuas giratórias, pistas de corrida, milhares de escravos…
Eu me lembrava de como Poseidon ficara enojado ao ver Calígula passear pela Baía da antiga cidade de Baiae — embora eu ache que talvez fosse só inveja porque o palácio dele não tinha estátuas giratórias.
— Mas isso explica por que vocês tiveram tanta dificuldade de encontrar o imperador. Ele pode ir de porto em porto sempre que quiser — comentei.
— É — concordou Jason. — Ele não estava quando eu fui. Acho que a Sibila quis dizer que eu o encontraria em Stearns Wharf quando fosse a hora. E acho que a hora é agora. — Ele se remexeu no banco, inclinando-se para o mais longe possível de Piper. — Falando na Sibila… Tem mais um detalhe que eu não compartilhei sobre essa profecia.
Então ele contou a verdade para Piper sobre a palavra de seis letras que começava com M e não era morder.
Piper recebeu a notícia surpreendentemente bem, sem bater nele ou erguer a voz. Ela só ouviu e ficou em silêncio por um quilômetro, mais ou menos.
Até que finalmente balançou a cabeça.
— É um detalhe e tanto.
— Eu devia ter contado.
— É, devia. — Ela girou o volante com a força exata para torcer o pescoço de uma galinha. — Ainda assim… posso ser sincera? Acho que, no seu lugar, eu talvez fizesse a mesma coisa. Também não ia querer que você morresse.
— Então não está brava? — perguntou Jason, surpreso.
— Eu estou furiosa.
— Ah.
— Estou furiosa, mas compreendo.
— Certo.
Reparei em como a conversa fluía fácil entre eles, mesmo quando envolvia questões difíceis. Os dois pareciam se entender bem. Eu me lembrei de Piper falando que ficou desesperada quando se separou de Jason, lá no Labirinto de Fogo, como ela não conseguia suportar a ideia de perder outro amigo.
Mais uma vez, fiquei imaginando o que havia por trás daquele término.
As pessoas mudam, dissera Piper.
Nota dez no quesito blá-blá-blá, garota, mas eu queria saber os podres.
— E então, mais alguma surpresa? Algum outro detalhe que você esqueceu de mencionar?
Jason balançou a cabeça.
— Acho que é só isso.
— Tudo bem, então. Vamos ao píer e procuramos o barco. Encontramos as botinhas mágicas de Calígula e o matamos se surgir a oportunidade. Mas eu não vou deixar você morrer, e vice-versa.
— Não me deixem morrer também — acrescentou Meg. — Nem o Apolo.
— Obrigado, Meg. Ouvir isso de você aquece meu coração, ele está quentinho como um burrito descongelado no micro-ondas — comentei.
— Não tem de quê. — Ela enfiou o dedo no nariz, para o caso de morrer e não ter outra chance de tirar meleca. — Como a gente vai saber qual é o barco certo?
— Acho que vamos saber só de ver — respondi. — Calígula nunca foi muito sutil.
— Supondo que o barco esteja lá — acrescentou Jason.
— É melhor que esteja — alertou Piper. — Senão eu roubei essa van e tirei você da aula de física à toa.
— O que me deixou bem chateado — concordou Jason.
Eles trocaram um sorriso discreto, uma espécie de olhar que dizia sim, ainda é tudo muito constrangedor, mas não vou deixar você morrer hoje.
Torci para que a viagem fosse tão tranquila quanto Piper decretara, mas desconfiava que era mais provável ganharmos na Loteria dos Megadeuses do Monte Olimpo. (E olha que o máximo que eu ganhei foram cinco dracmas em uma raspadinha.) Seguimos em silêncio pela estrada costeira. O Pacífico cintilava à esquerda, com surfistas cruzando as ondas e palmeiras se balançando ao sabor da brisa. À direita, as colinas secas e marrons estavam cobertas com as flores vermelhas das azaleias murchas que sofriam com o calor.
Por mais que eu tentasse, não conseguia evitar pensar naquelas faixas de flores vermelhas como o sangue derramado das dríades mortas em batalha. Pensei em nossos cactos da Cisterna, fazendo de tudo para sobreviver. Eu me lembrei de Jade, arrasada e queimada no Labirinto. Era por elas que eu tinha que impedir Calígula. Se eu não conseguisse… Não, essa não era uma opção.
Quando enfim chegamos a Santa Bárbara, compreendi por que era provável que Calígula gostasse daquele lugar.
Com um pouco de imaginação, me vi novamente em Baiae, antiga cidade romana à beira-mar. A curva da costa era quase idêntica, assim como as praias douradas, as colinas pontilhadas de lindas casas brancas com telhas vermelhas, as embarcações ancoradas no porto... Até as pessoas tinham os mesmos rostos bronzeados e a mesma expressão de estupor agradável, como se só estivessem matando o tempo entre o surf matinal e o golfe vespertino.
A maior diferença era que o Monte Vesúvio não aparecia ao fundo, mas fiquei com a sensação de outra presença pairando sobre aquela linda cidadezinha, tão perigosa e explosiva quanto o vulcão.
— Calígula está aqui — anunciei quando estacionamos a van no bulevar Cabrillo.
Piper ergueu as sobrancelhas.
— Você está sentindo um distúrbio na força?
— Ah, faça-me o favor — murmurei. — Estou sentindo meu azar de sempre. Esse lugar parece tão inofensivo que não tem como a gente não encontrar problemas.
Passamos a tarde andando pela orla de Santa Bárbara, chegamos até a incomodar um bando de pelicanos no sapal e acordamos leões-marinhos que estavam cochilando no píer. Abrimos caminho por hordas de turistas em Stearns Wharf e, no porto, encontramos uma floresta de barcos de um só mastro que circundava alguns iates de luxo, mas nenhum parecia grande ou espalhafatoso o bastante para um imperador romano.
Jason até sobrevoou a área, fazendo um reconhecimento aéreo, mas ao voltar relatou que não havia embarcações suspeitas no horizonte.
— Você estava no seu cavalo, o Tempestade? — perguntou Meg. — Não deu para ver.
Jason sorriu.
— Não, eu só chamo Tempestade em emergências. Eu estava voando sozinho, manipulando o vento.
Meg soltou um muxoxo enquanto examinava os bolsos de sementes.
— Ah, eu só consigo chamar inhames.
Depois de um tempo, desistimos de procurar e nos sentamos em um restaurante perto da praia. Os tacos de peixe grelhado valiam uma ode à Musa Euterpe.
— Não acho má ideia desistir da busca — admiti, enchendo a boca de ceviche apimentado —, mas só se for para jantarmos.
— Isso aqui é só uma pausa rápida — avisou Meg. — E vê se acaba de comer logo.
Queria que ela não tivesse falado aquilo em forma de ordem; ficou difícil relaxar durante o restante da refeição.
Ficamos sentados no café, apreciando a brisa, a comida e o chá gelado até o Sol descer no horizonte, deixando o céu laranja no tom Acampamento Meio-Sangue. Eu me permiti ter a esperança de ter me enganado sobre a presença de Calígula. Tínhamos ido até ali em vão, que alegria! Eu estava prestes a sugerir que voltássemos para a van e talvez procurássemos um hotel, para não ter que dormir mais uma vez num saco de dormir no fundo de um poço no deserto, quando Jason se levantou.
— Ali! — Ele apontou para o mar.
O barco pareceu se materializar num raio de sol, igualzinho ao que minha carruagem do Sol fazia sempre que eu entrava no Estábulo do Poente ao fim de um longo dia. O iate era uma monstruosidade branca e cintilante, com cinco conveses acima da linha da água. As janelas cobertas de insulfilm pareciam os olhos alongados de um inseto. Como acontece com todos os barcos grandes, era difícil julgar o tamanho de longe, mas o fato de ter dois helicópteros a bordo, um na proa e outro na popa, além de um pequeno submarino preso em um guindaste a estibordo, informava que não se tratava de uma embarcação comum.
Talvez houvesse iates maiores no mundo mortal, mas não muitos.
— Só pode ser esse — decretou Piper. — E agora? Será que vai atracar?
— Esperem — alertou Meg. — Olhem.
Outro iate, idêntico ao primeiro, surgiu em meio a um raio de sol, um quilômetro e meio ao sul do anterior.
— Isso é miragem, né? — perguntou Jason, inquieto. — Ou será que é cilada?
Meg grunhiu, consternada, e apontou para outro ponto no mar.
Um terceiro iate surgiu, bem entre os dois primeiros.
— Isso é loucura! — comentou Piper. — Cada um desses barcos deve custar milhões.
— Meio bilhão — corrigi. — Ou mais. Calígula sempre gostou de esbanjar. E ele é parte do Triunvirato, já faz séculos que os imperadores estão acumulando riquezas.
Outro iate apareceu no horizonte, e depois outro. Em pouco tempo havia dezenas, uma frota alinhada na entrada da enseada como uma corda em um arco.
— Não é possível. — Piper esfregou os olhos. — Só pode ser uma ilusão.
— Não é.
Senti um aperto no peito. Já tinha visto aquele tipo de exibição.
Enquanto olhávamos, a frota de superiates manobrou para se aproximar, ancorando com a proa de um perto da popa do outro, formando uma barreira flutuante e cintilante de pelo menos um quilômetro e meio, indo de Sycamore Creek até a marina.
— A Ponte de Barcas. Ele fez de novo.
— De novo? — perguntou Meg.
— Calígula… na Antiguidade... — Tentei controlar o tremor na voz. — Calígula recebeu uma profecia quando era criança. Um astrólogo romano disse que ele tinha tanta chance de se tornar imperador quanto de atravessar a Baía de Baiae a cavalo; ou seja: nenhuma. Mas Calígula se tornou imperador. Depois de subir ao trono, ele ordenou a construção de uma frota de barcos enormes, como esses. — Apontei para os iates à nossa frente. — Depois mandou alinhar as barcas na Baía de Baiae, formando uma ponte enorme, que ele atravessou a cavalo. Foi o maior projeto de construção flutuante já realizado. Calígula nem ao menos sabia nadar, mas isso não o impediu. Ele estava determinado a jogar seu feito na cara do destino.
Piper arregalou os olhos.
— Os mortais devem estar vendo isso, né? Ele não tem como interromper o tráfego marítimo assim sem ser notado.
— Ah, os mortais reparam — concordei. — Olhem só.
Barcos menores começaram a se reunir em volta dos iates, como moscas atraídas por um suntuoso banquete. Vi duas embarcações da Guarda Costeira, vários barcos da polícia e dezenas de botes infláveis com motores externos, todos guiados por homens de preto armados… a segurança particular do imperador.
— Eles estão ajudando — murmurou Meg, com a voz tensa. — Nem mesmo Nero… Ele subornava a polícia e mantinha muitos mercenários, mas nunca se exibiu assim.
Jason pegou a gládio.
— Por onde começamos? Onde encontramos Calígula no meio disso tudo?
Eu não queria encontrar Calígula, queria fugir. A ideia de morrer — e uma morte permanente, com seis letras e começando com m, de repente me pareceu bem próxima. Mas eu sentia que a confiança dos meus amigos estava abalada.
Eles precisavam de um plano, não de um Lester apavorado e aos berros.
Apontei para o centro da ponte flutuante.
— Vamos começar no meio, que é sempre o ponto mais fraco de uma corrente.

2 comentários:

  1. Agora a coisa pega fogo! (Apesar de tecnicamente já estar pegando fogo desde o princípio.)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!