20 de junho de 2018

Capítulo 23

Tão logo o helicóptero pousou, Gansey saltou da cabine e saiu caminhando a passos largos na relva à altura dos joelhos, como se fosse o proprietário do lugar, com Ronan ao lado. Pela porta aberta do helicóptero, Blue o ouviu dizer o nome de Noah no telefone antes de repetir as coordenadas do GPS. Ele estava energizado e poderoso, um rei em seu castelo.
No entanto, Blue se sentia um pouco mais lenta. Por uma série de razões, suas pernas estavam um pouco moles após o voo. Ela não tinha certeza se não contar para Gansey toda a verdade sobre a véspera do Dia de São Marcos era a decisão certa, e estava preocupada se Ronan tentaria falar com ela novamente.
O cheiro do campo era maravilhoso — tudo relva e árvores e, em algum lugar, água, muita água. Blue pensou que poderia viver bem feliz ali. Ao seu lado, Adam protegia os olhos. Ele parecia em casa, os cabelos combinando com o marrom desbotado da relva seca. Parecia mais bonito do que Blue se lembrava. Ela pensou em como Adam havia tomado sua mão antes, e concluiu que gostaria que ele fizesse aquilo de novo.
Com alguma surpresa, Adam disse:
— Aquelas linhas são bem difíceis de ver daqui.
Ele estava certo, é claro. Apesar de Blue ter visto o corvo bem pouco tempo atrás, enquanto eles pousavam ao seu lado, qualquer traço geográfico que dera sua forma estava agora completamente escondido.
— Eu ainda odeio voar. Desculpe pelo Ronan.
— A parte do voo não foi ruim — disse Blue. Na realidade, tirando Ronan, ela havia gostado de certa forma, a sensação de estar flutuando em uma bolha muito barulhenta em que todas as direções eram possíveis. — Achei que seria pior. Você tem que deixar rolar, não é? Aí é legal. Já o Ronan...
— Ele é um pit bull — disse Adam.
— Eu conheço alguns pit bulls bem simpáticos. — Um dos cães que Blue levava para passear toda semana era um pit bull com o pelo malhado e o sorriso mais simpático que se poderia esperar de um canino.
— Ele é o tipo de pit bull que aparece no jornal da noite. O Gansey está tentando domesticar o Ronan.
— Que nobre.
— Isso faz com que ele se sinta melhor como Gansey.
Blue não duvidava disso.
— Às vezes ele é muito arrogante.
Adam olhou para o chão.
— Não é por mal. É todo aquele sangue azul nas veias dele.
Ele estava prestes a dizer outra coisa quando um grito o interrompeu:
— VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO, GLENDOWER? EU VOU ENCONTRAR VOCÊ!
A voz de Gansey, exaltada e ressonante, ecoou pelas encostas cobertas de árvores em torno do campo. Adam e Blue o viram parado no meio de uma trilha aberta e clara, os braços abertos e a cabeça inclinada para trás enquanto gritava para o ar. A boca de Adam assumiu a forma sem som de uma risada.
Gansey abriu um largo sorriso para ambos. Ele era difícil de resistir deste jeito: brilhando com fileiras e fileiras de dentes brancos, como uma propaganda de universidade.
— Conchas de ostras — disse ele, inclinando-se para pegar um dos pedaços claros que formavam a trilha. O fragmento era de um branco puro, as bordas obtusas e gastas. — É isso que forma o corvo. Como as que são usadas para pavimentar estradas nas regiões em que a maré avança. Conchas de ostras sobre rocha pura. O que vocês acham disso?
— Acho que são muitas conchas de ostras para trazer da costa — respondeu Adam. — E também acho que o Glendower viria da costa.
Como resposta, Gansey apenas apontou para Adam.
Blue colocou as mãos nos quadris.
— Então você acha que eles colocaram o corpo do Glendower em um barco no País de Gales, vieram até a Virgínia e o trouxeram montanha acima? Por quê?
— Energia — respondeu Gansey, remexendo na sacola e tirando uma caixinha preta que parecia muito uma bateria de carro bem pequena.
Blue perguntou:
— O que é isso? Parece sofisticado.
Gansey mexia nos botões na lateral do aparelho enquanto explicava:
— Um frequencímetro eletromagnético. Ele monitora os níveis de energia. Algumas pessoas usam para caçar fantasmas. Supostamente, ele deve exibir uma leitura alta quando você está próximo de um espírito ou de uma fonte de energia. Como uma linha ley.
Ela fez uma careta para o aparelho. Uma caixa de registrar magia parecia insultar tanto o portador quanto a magia.
— E é claro que você tem um... como é o nome? Eletromagnorífico de botão. Todo mundo tem um desses.
Gansey segurou o medidor acima da cabeça, como se estivesse chamando seres extraterrestres.
— Você não acha isso normal?
Blue podia perceber que ele queria muito que ela dissesse que não era normal, então respondeu:
— Ah, tenho certeza que é bastante normal em alguns círculos.
Ele pareceu um pouco magoado, mas a maior parte de sua atenção estava voltada para o medidor, que mostrava duas luzes vermelhas fracas. Gansey observou:
— Eu gostaria de estar nesses círculos. Então, como eu disse, energia. Outro nome para a linha ley é caminho dos...
— Caminho dos corpos — interrompeu Blue. — Eu sei.
Ele parecia satisfeito e magnânimo, como se ela fosse uma aluna destacada.
— Então me esclareça. Você provavelmente sabe melhor do que eu.
Como antes, seu sotaque era o antigo sotaque da Virgínia, aberto e glorioso, fazendo com que as palavras de Blue soassem desajeitadas perto dele.
— Eu só sei que os mortos viajam em linha reta — disse ela. — Que costumavam carregar os corpos em linha reta para as igrejas, para que fossem enterrados. Ao longo do que você chama de linha ley. Acreditava-se que era muito ruim seguir por qualquer outra rota que não a escolhida por eles para viajar como espíritos.
— Certo — disse ele. — Então podemos concluir que tem algo a respeito da linha que fortalece ou protege o corpo. A alma. O... animus. A quididade dele.
— Gansey, sério — Adam interrompeu, para o alívio de Blue. — Ninguém sabe o que é quididade.
— A essência, Adam. O que torna uma pessoa o que ela é. Se tirassem o Glendower do caminho dos corpos, acho que a magia que o mantém adormecido seria quebrada.
— Basicamente, você quer dizer que ele morreria para sempre se fosse tirado da linha — disse ela.
— Sim.
As luzes que piscavam na sua máquina haviam começado a brilhar com mais intensidade, levando-os ao longo do bico do corvo e na direção da linha de árvores onde Ronan já se encontrava. Blue levantou os braços para que o mato, que chegava à altura da sua cintura em alguns pontos, não acertasse o dorso das mãos.
Ela perguntou:
— E por que simplesmente não deixaram Glendower no País de Gales? Não é lá que eles querem que ele acorde e seja um herói?
— Foi uma insurreição, e ele era um traidor para a coroa inglesa — disse Gansey. A facilidade com que ele começou a história, ao mesmo tempo avançando a passos largos pelo campo e cuidando do frequencímetro, deixou claro para Blue que ele já a havia contado muitas vezes antes. — Glendower lutou contra os ingleses durante anos. Foi uma grande batalha entre famílias nobres, com alianças confusas. A resistência galesa fracassou. E então Glendower desapareceu. Se os ingleses soubessem onde ele estava, vivo ou morto, certamente não tratariam o corpo como os galeses desejariam. Você já ouviu falar em ser pendurado e esquartejado?
Blue perguntou:
— É tão doloroso quanto conversar com o Ronan?
Gansey lançou um olhar para Ronan, que era uma forma pequena, indistinta, perto das árvores. Adam engoliu uma risada.
— Depende se ele está sóbrio — respondeu Gansey.
Adam perguntou:
— Falando nisso, o que ele está fazendo?
— Mijando.
— Confie no Lynch para vandalizar um lugar como esse cinco minutos depois de chegar aqui.
— Vandalizar? Ele está marcando território.
— Ele deve ser dono de mais territórios na Virgínia do que o seu pai, então.
— Pensando bem, acho que ele nunca usou uma privada.
Aquilo tudo parecia muito masculino e muito Aglionby para Blue, essa coisa de chamar os amigos pelo sobrenome e fazer piadas sobre hábitos urinários públicos.
Também parecia que aquilo poderia seguir por um bom tempo, então ela interrompeu, mudando o assunto de volta para Glendower.
— Eles realmente teriam todo esse trabalho para esconder o corpo dele?
Gansey disse:
— Bem, pense em Ned Kelly.
Ele proferiu o disparate de modo tão factual que Blue se sentiu repentinamente burra, como se talvez o sistema de ensino público realmente estivesse devendo alguma coisa.
Então Adam disse, com um rápido olhar para Blue:
— Ninguém sabe quem é Ned Kelly também, Gansey.
— Sério? — perguntou Gansey, tão inocentemente sobressaltado que ficou claro que Adam estivera certo antes: ele não tinha a intenção de ser arrogante. — Ele foi um fora da lei australiano. Quando os ingleses o pegaram, fizeram coisas terríveis com o corpo. Acho que o chefe de polícia usou a cabeça dele como peso de papel por um tempo. Agora imagine o que os inimigos do Glendower fariam com ele! Se os galeses quisessem ter uma chance de ressuscitar o cara, teriam de manter o corpo intacto.
— Mas por que as montanhas? — insistiu Blue. — Por que ele não está perto da costa?
Isso pareceu ter lembrado Gansey de algo, pois, em vez de responder, ele se virou para Adam:
— Liguei para o Malory para falar sobre aquele ritual, para saber se ele tinha tentado. Ele acha que o ritual não pode ser realizado em qualquer ponto da linha ley. Que precisa ser feito no “coração” dela, onde está a maior parte da energia. Acho que quiseram colocar o Glendower em um lugar assim.
Adam se virou para Blue.
— E a sua energia?
A pergunta a pegou de surpresa.
— O quê?
— Você disse que fazia as coisas ficarem mais claras para outros médiuns — disse Adam. — Estamos falando de energia?
Blue se sentiu absurdamente satisfeita por ele lembrar, e também por responder a ela em vez de a Gansey, que agora estava espantando mosquitos e esperando por sua resposta.
— Sim — disse ela. — Eu acho que torno mais fortes as coisas que precisam de energia. Sou como uma bateria ambulante.
— Você é a mesa que todo mundo quer no Starbucks — ponderou Gansey enquanto começava a caminhar novamente.
Blue piscou.
— Como?
Sobre o ombro, Gansey disse:
— Perto da tomada — e pressionou o frequencímetro ao lado de uma árvore, observando as duas coisas com grande interesse.
Adam balançou a cabeça para Blue e disse para Gansey:
— Estou dizendo que talvez ela possa transformar uma parte comum da linha ley em um lugar viável para o ritual. Espere, estamos entrando na mata? E a Helen?
— Não se passaram dois segundos — disse Gansey, embora claramente não fosse o caso. — Essa é uma ideia interessante sobre energia. Mas... a sua bateria pode ficar fraca? Por questões além de conversas sobre prostituição?
Ela não honrou o comentário com uma resposta imediata. Em vez disso, pensou sobre como sua mãe tinha dito que não havia nada a temer dos mortos, e como Neeve parecera descrente. A vigília na igreja havia obviamente tomado algo dela; talvez houvesse consequências piores que ela ainda viria a descobrir.
— Bem, isso é interessante — observou Gansey, atravessando um pequeno regato com um passo largo perto da borda da mata, mantendo um pé em cada margem. Era apenas água que havia subido de uma fonte subterrânea, encharcando a relva. A atenção de Gansey estava focada no frequencímetro que ele segurava diretamente acima da água. O medidor chegara ao máximo.
— A Helen — disse Adam, advertindo-o. Ronan havia se juntado novamente a eles, e os dois garotos olharam na direção do helicóptero.
— Eu disse: Isso é interessante — repetiu Gansey.
— E eu disse: A Helen.
— Só mais alguns metros.
— Ela vai ficar brava.
A expressão de Gansey era perversa, e Blue pôde ver que Adam não teria como detê-lo.
— Eu avisei — disse Adam.
O regato corria preguiçoso para fora da mata, por entre dois cornisos. Com Gansey à frente, todos seguiram a água por entre as árvores. Imediatamente, a temperatura caiu vários graus. Blue ainda não havia percebido o enorme ruído de insetos no campo até que ele fosse substituído pelo ocasional canto de um pássaro debaixo das árvores. Aquela mata era linda, antiga, toda de carvalhos enormes e freixos encontrando espaço em meio a grandes lajes de rocha partida. Samambaias brotavam das pedras e o musgo verdejante subia pelos troncos. O próprio ar tinha um aroma verde, pujante, aquoso. A luz era dourada através das folhas. Tudo estava vivo, muito vivo.
Blue sussurrou:
— Isso é lindo.
O comentário fora para Adam, não para Gansey, mas ela viu que ele olhou de relance por cima do ombro para ela. Ao lado dele, Ronan estava curiosamente calado. Algo a respeito de sua postura era defensivo.
— O que estamos procurando mesmo? — perguntou Adam.
Gansey era um cão de caça guiado pelo frequencímetro ao longo do regato que se alargava. A água em movimento havia se tornado larga demais para manter um pé em cada margem, e agora corria em um leito de seixos, fragmentos afiados de pedra e, de maneira bastante estranha, algumas conchas de ostras.
— O que estamos sempre procurando.
Adam avisou:
— A Helen vai te matar.
— Ela vai me mandar uma mensagem se estiver muito brava — disse Gansey, tirando o celular do bolso. — Humm... não tem sinal...
Dada sua localização nas montanhas, a falta de sinal não causava surpresa, mas Gansey parou onde estava. Enquanto os quatro formavam um círculo irregular, ele passava as telas do celular com o polegar. Na outra mão, o frequencímetro brilhava com um tom vermelho sólido. Sua voz soou um pouco estranha quando ele perguntou:
— Alguém mais está usando relógio?
Fins de semana não eram geralmente dias de contar as horas para Blue, então ela não o usava, e Ronan tinha apenas suas tiras de couro entrelaçado em torno do braço. Adam levantou o punho. Ele usava um relógio de aparência barata e pulseira encardida.
— Eu estou — disse ele, acrescentando pesarosamente: — Mas ele não parece estar funcionando.
Sem falar nada, Gansey voltou a tela do celular para eles. Ela estava na função relógio, e Blue levou um momento para perceber que nenhum dos ponteiros se mexia. Por um longo momento, os quatro apenas olharam para os ponteiros parados no relógio do celular. O coração de Blue marcava cada segundo que o relógio não batia.
— Ele está... — começou Adam, e então parou e tentou de novo: — Será que a bateria está sendo afetada pela energia da linha?
A voz de Ronan soou cortante:
— Afetando o seu relógio? O seu relógio de corda?
— É verdade — respondeu Gansey. — Meu celular ainda está funcionando. Assim como o frequencímetro. É só a hora... Será que...
Mas não havia respostas, e todos eles sabiam disso.
— Quero seguir em frente — disse Gansey. — Só mais um pouco.
Ele esperou para ver se alguém o impediria. Ninguém disse nada, mas, quando Gansey partiu novamente, escalando o topo de uma pedra, com Ronan ao seu lado, Adam olhou para Blue de relance. Sua expressão perguntava: Você está bem?
Ela estava bem, mas da maneira que estivera bem antes do helicóptero. Não que Blue tivesse medo das luzes piscando no frequencímetro ou do relógio de Adam se recusando a funcionar, mas ela não saíra da cama de manhã esperando encontrar um lugar onde possivelmente o tempo não existia.
Blue estendeu a mão.
Adam a pegou sem hesitação, como se estivesse esperando que ela a oferecesse. Ele disse em voz baixa, apenas para ela ouvir:
— Meu coração está batendo como louco.
Estranhamente, não eram os dedos dele entrelaçados nos dela que mais afetavam Blue, e sim onde seu punho quente pressionava o dela, acima das mãos. Eu preciso dizer ao Adam que ele não pode me beijar, ela pensou.
Mas ainda não. Nesse momento, ela queria sentir sua pele pressionada na dele, ambos os pulsos rápidos e incertos.
De mãos dadas, eles escalaram depois de Gansey. As árvores ficaram ainda maiores, algumas delas se juntando como castelos, imponentes e enormes. As copas pairavam alto acima da cabeça deles, farfalhando e reverentes. Tudo era muito verde. Em algum lugar à frente, ouviram o ruído de algo se mexendo na água.
Por um breve momento, Blue achou que ouvia música.
— Noah?
A voz de Gansey soou desamparada. Ele havia parado perto de uma faia poderosa e agora procurava em volta. Blue o alcançou e percebeu que ele havia parado na margem de um pequeno lago montanhoso que alimentava o regato que eles vinham seguindo. O lago tinha apenas alguns centímetros de profundidade e era perfeitamente limpo. A água era tão transparente que implorava para ser tocada.
— Achei que tinha ouvido... — Gansey interrompeu o que dizia. Seus olhos caíram para onde Adam segurava a mão de Blue. Mais uma vez, seu rosto aparentou certa confusão com o fato de os dois estarem de mãos dadas. Adam apertou a mão dela com mais força, apesar de Blue achar que essa não fosse sua intenção.
Era uma discussão sem palavras, embora ela não achasse que nenhum dos garotos soubesse o que estava tentando dizer.
Gansey se voltou para o pequeno lago. Em sua mão, o frequencímetro ficara escuro. Ele se agachou e passou a mão livre sobre a água. Os dedos estavam bem abertos, quase tocando a superfície. Sob a mão, a água se mexeu e ficou escura, e Blue percebeu que havia milhares de peixinhos ali. Eles brilhavam, prateados e então pretos, à medida que se moviam, apegando-se à sombra tênue que ele lançava.
Adam perguntou:
— Como é que há peixes aqui?
O regato que eles haviam seguido mata adentro era raso demais para ter peixes, e, acima dele, o pequeno lago parecia alimentado pela água da chuva da parte mais alta da montanha. Peixes não vinham do céu.
Gansey respondeu:
— Não sei.
Os peixes se revolviam e cruzavam uns sobre os outros, movendo-se incessantemente, como pequenos enigmas. Novamente, Blue achou que tinha ouvido música, mas, quando olhou para Adam, achou que talvez tivesse sido apenas o som de sua respiração.
Gansey olhou para os dois, e ela viu em seu rosto que ele adorava aquele lugar. Sua expressão indisfarçável trazia algo novo: não o prazer puro de encontrar a linha ley ou o prazer dissimulado de caçoar de Blue. Ela reconheceu a estranha felicidade que vinha de amar algo sem saber por quê, aquela estranha felicidade que às vezes era tão grande que parecia tristeza. Era a maneira como ela se sentia quando olhava para as estrelas.
Sem mais nem menos, ele pareceu mais com o Gansey que Blue tinha visto no adro da igreja, e ela achou que não suportaria olhar para ele.
Em vez disso, ela soltou a mão de Adam para ir até a faia ao lado da qual Gansey estava. Cuidadosamente, pisou nos nós expostos das raízes da árvore e então pousou a palma sobre a casca suave e cinzenta. Como a árvore atrás de sua casa, a casca daquela faia era fria como o inverno e estranhamente confortante.
— Adam. — Era a voz de Ronan, e Blue ouviu os passos de Adam se movendo cuidadosa e lentamente em torno do pequeno lago. O som de ramos quebrando ficou mais baixo à medida que ele se afastava.
— Não acho que esses peixes sejam de verdade — disse Gansey suavemente.
Era uma coisa tão ridícula de dizer que Blue se voltou para olhar para ele de novo. Ele corria os dedos para frente e para trás na superfície da água, enquanto a observava.
— Acho que eles estão aqui porque eu pensei que eles deveriam estar aqui — disse Gansey.
Blue respondeu sarcasticamente:
— Tá bom, Deus.
Ele girou a mão novamente, e ela viu as formas dos peixes brilharem na água mais uma vez. Hesitante, Gansey seguiu em frente:
— Na leitura, o que foi que aquela mulher disse? Aquela do cabelo? Ela disse que a questão era a... percepção... não, a intenção.
— Persephone. A intenção é para as cartas — disse Blue. — Para uma leitura, para deixar alguém entrar na sua mente, para ver padrões no futuro e no passado. Não para peixes. Como a intenção funcionaria com um peixe? A vida não é negociável.
Ele perguntou:
— Qual era a cor dos peixes quando chegamos?
Eles eram pretos e prata, ou pelo menos pareciam assim no reflexo. Ela tinha certeza de que Gansey estava buscando por sinais de magia inexplicável, mas ela não seria influenciada tão facilmente. Azul e marrom poderiam parecer preto ou prata, dependendo da luz. Mesmo assim, Blue se juntou a ele, agachando-se na terra úmida ao lado do pequeno lago. Os peixes eram todos escuros e indistintos sob a sombra de sua mão.
— Eu estava observando os peixes e pensando em como eles haviam chegado aqui, e então lembrei que existe uma espécie de truta que muitas vezes vive em regatos menores — disse Gansey. — Acho que são chamadas de truta de ribeiro selvagem. Achei que isso faria um pouco mais de sentido. Talvez elas tenham sido introduzidas pelo homem nesse laguinho, ou em outro mais para cima. Era nisso que eu estava pensando. As trutas de ribeiro são prateadas no dorso e vermelhas no ventre.
— Tudo bem — ela disse.
A mão estendida de Gansey estava absolutamente imóvel.
— Me diz que não tinha peixes vermelhos nesse lago quando chegamos.
Como Blue não respondeu, ele olhou para ela. Blue balançou a cabeça. Definitivamente não havia peixes vermelhos ali.
Gansey puxou a mão rapidamente.
O pequeno cardume disparou em busca de abrigo, mas não antes que Blue visse que cada um deles era prata e vermelho.
Não um vermelho fraco, mas vermelho-vivo, vermelho pôr do sol, vermelho como um sonho. Como se eles nunca tivessem sido de nenhuma outra cor.
— Não entendo — disse Blue. Algo nela doía, como se ela compreendesse, mas não conseguisse descrever com palavras. Algo embrulhava seus pensamentos. Ela sentia como se fizesse parte de um sonho que aquele lugar estava tendo, ou que o lugar fizesse parte de um sonho dela.
— Eu também não.
Então os dois se viraram ao mesmo tempo, ao som de uma voz que vinha do lado esquerdo.
— Isso foi o Adam? — perguntou Blue. Parecia estranho que ela tivesse de perguntar, mas nada parecia muito definido.
Eles ouviram novamente a voz de Adam, dessa vez mais clara. Ele e Ronan estavam parados do outro lado do pequeno lago. Bem ao lado dele, havia um carvalho. Uma cavidade apodrecida do tamanho de um homem se abria negra no tronco. No lago a seus pés, havia o reflexo de Adam e da árvore, uma imagem espelhada mais fria e mais distante que a realidade.
Adam esfregava os braços ferozmente, como se estivesse com frio. Ronan estava ao lado dele, olhando sobre o ombro para algo que Blue não podia ver.
— Venha aqui — disse Adam. — Agora pare ali. E me diga se estou ficando louco.
Seu sotaque estava pronunciado, e Blue estava começando a entender que isso significava que ele estava preocupado demais para escondê-lo.
Blue espiou na cavidade. Como todos os buracos nas árvores, ele parecia úmido, irregular e escuro, o fungo na casca ainda trabalhando para aumentar a cratera. As bordas da entrada eram irregulares e finas, fazendo com que a sobrevivência da árvore por tanto tempo parecesse milagrosa.
— Você está bem? — perguntou Gansey.
— Feche os olhos — Adam lhe disse. Seus braços estavam cruzados, as mãos segurando firmemente os bíceps. A forma que ele estava respirando lembrava Blue de como ela se sentia ao acordar depois de um pesadelo, o coração batendo forte, a respiração aos trancos, as pernas doendo de uma perseguição que nunca existiu de verdade. — Quer dizer, depois que você entrar lá dentro.
— Você entrou ali? — Gansey perguntou a Ronan, que balançou a cabeça.
— Foi ele quem encontrou o buraco — disse Adam.
Ronan disse, monótono como uma tábua:
— Não vou entrar aí.
A declaração soou como uma questão de princípio em vez de covardia, como a recusa de pegar uma carta na leitura.
— Eu não me importo — disse Blue. — Eu vou.
Foi difícil para ela se imaginar intimidada quando cercada por uma árvore, não importava quão estranha a floresta em torno dela pudesse ser. Ela entrou na cavidade e se virou de maneira que ficasse de frente para o mundo exterior. O ar lá dentro tinha um cheiro úmido e pesado. Estava quente também, e, apesar de Blue saber que devia ser por causa do processo de apodrecimento, isso fazia com que a árvore parecesse ter sangue quente como ela.
À sua frente, Adam ainda tinha os braços firmemente enlaçados em torno de si. O que ele acha que vai acontecer aqui?
Ela fechou os olhos. Quase imediatamente, pôde sentir o cheiro de chuva — não a fragrância da chuva que chega, mas o odor vivo e móvel de uma tempestade caindo, o aroma aberto de uma brisa se deslocando pela água. Então ela sentiu que algo estava tocando seu rosto.
Quando abriu os olhos, ela estava ao mesmo tempo dentro de seu corpo e o observando de fora, longe da cavidade da árvore. A Blue diante dela estava a centímetros de distância de um garoto com um blusão da Aglionby. Havia uma ligeira inclinação na postura dele, e seus ombros estavam salpicados de chuva. Foram os dedos dele que Blue sentiu no rosto. Ele tocou a face dela com o dorso dos dedos.
Lágrimas correram pelo rosto da outra Blue. Por uma estranha magia, ela podia senti-las em seu rosto também. Ela podia sentir, igualmente, a angústia crescente e doentia que sentira no adro da igreja, a tristeza que parecia maior do que ela. As lágrimas da outra Blue pareciam intermináveis. Uma lágrima seguia a outra, todas traçando um caminho idêntico em seu rosto.
O garoto de blusão da Aglionby inclinou a testa e a encostou na dela. Blue sentiu a pressão da pele dele e, subitamente, sentiu cheiro de hortelã.
Vai ficar tudo bem, Gansey disse para a outra Blue. Ela podia dizer que ele estava com medo. Vai ficar tudo bem.
Inacreditavelmente, ela percebeu que a outra Blue estava chorando porque amava Gansey. E que a razão de Gansey tocá-la daquela forma, com mãos tão cuidadosas, era porque ele sabia que o beijo dela poderia matá-lo. Ela podia sentir com que intensidade a outra Blue queria beijá-lo, mesmo que temesse isso.
Embora ela não pudesse entender por quê, a memória real, do dia atual na cavidade da árvore, estava obscurecida por outras memórias, falsas, dos lábios deles quase se tocando, uma vida que aquela outra Blue já havia vivido.
Tudo bem, estou pronto — a voz de Gansey hesitou, só um pouco. Me beije, Blue.
Abalada, Blue abriu bem os olhos, viu a escuridão do espaço em volta de si e sentiu de novo o cheiro escuro e apodrecido da árvore. Seu estômago se embrulhou com a tristeza assustadora e o desejo que havia sentido durante a visão. Ela se sentia enjoada e envergonhada e, quando saiu da árvore, não conseguiu olhar para Gansey.
— E então? — ele perguntou.
Ela disse:
— É... muitas coisas.
Como ela não disse mais nada, Gansey assumiu seu lugar na árvore.
Tudo parecera tão real. Aquilo era o futuro? Era um futuro alternativo? Ou apenas um sonho acordado? Ela não conseguia se imaginar apaixonada por Gansey, entre todas as pessoas, mas, naquela visão, isso pareceu não somente possível, mas indiscutível.
Quando Gansey se virou para dentro da cavidade, Adam tomou o braço de Blue e a arrastou para perto. Ele não foi gentil, mas Blue não achou que ele tivesse a intenção de ser bruto. No entanto, ela levou um susto quando Adam secou seu rosto com as costas da outra mão; ela estivera chorando de verdade.
— Quero que você saiba — sussurrou Adam furiosamente — que eu nunca faria aquilo. Não era real. Eu nunca faria aquilo com ele.
Seus dedos apertavam o braço dela, e ela sentiu que ele tremia. Ela piscou para Adam e secou o rosto. Levou um instante para perceber que ele devia ter visto algo inteiramente diferente do que ela.
Mas, se Blue perguntasse a Adam o que ele vira, teria de lhe contar também.
Ronan encarava os dois descaradamente, como se soubesse o que havia acontecido na árvore, ainda que ele mesmo não tivesse tentado.
Alguns metros adiante, na cavidade, a cabeça de Gansey estava inclinada como em uma mesura. Ele parecia uma estátua em uma igreja, com as mãos unidas à frente. Havia algo ancestral a respeito de Gansey naquele instante, com a árvore arqueada sobre ele e as pálpebras pálidas nas sombras. Gansey era ele mesmo, mas era algo mais também — aquilo que Blue vira pela primeira vez nele na leitura dos garotos, aquele sentido de alteridade, de algo mais, que parecia irradiar daquele retrato imóvel de Gansey preservado na árvore escura.
O rosto de Adam estava virado para o outro lado, e agora, agora, Blue sabia qual era a expressão dele: de vergonha. O que quer que ele tenha visto na árvore escavada, ele tinha certeza de que Gansey estava vendo também, e não conseguia suportar.
Os olhos de Gansey se abriram de uma vez.
— O que você viu? — Blue perguntou.
Ele inclinou a cabeça para o lado. Foi um gesto lento, como se estivesse sonhando.
— Eu vi o Glendower — disse Gansey.

4 comentários:

  1. Aí, achei que Gansey ia se ver com Blue também, alguém dá um tapãop nesse menino... se isso for o futuro, então ele vai achar Glendower antes de deixar Blue matar ele, certo?

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    1. Cada um viu uma coisa, essa coisa pode vir a acontecer ou não. O Adam e o Gansey vão narrar o que viram mais pra frente e você vai perceber um certo conflito das visões. Mas é como a Persephone tinha dito pro Adam "você está em conflito com essas duas escolhas, mas o mais correto seria se você fizesse um terceiro caminho, que não está previsto", ou seja, as visões podem ser todas verdadeiras, mas elas se concretizarem ou não depende do curso da história e das decisões que cada um vai tomar

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  2. acho que ele viu outra coisa so nao quis contar na frente de todos,e acho que Adam viu ele matando o Gansey

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    1. Também acho! Afinal, sabemos desde o início que o Gansey vai morrer

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Boa leitura, E SEM SPOILER!