3 de junho de 2018

Capítulo 23

Olha só que dia lindo!
Ah, não, era engano
Foi só mais uma mentira

JASON DEMOROU PARA responder.
Ele tirou o paletó, que guardou no armário, desatou a gravata e a pendurou em um gancho na parede.
Aquela cena me lembrou meu velho amigo Fred Rogers, apresentador de programas infantis — ele irradiava a mesma calma e concentração ao pendurar suas roupas de trabalho. Fred sempre me deixava dormir no sofá dele depois de um dia difícil como deus da poesia. Ele me oferecia biscoitos e leite e cantava até eu me sentir melhor. Minha favorita era “It’s You I Like”. Ah, como aquele mortal fazia falta!
Depois de todos aqueles procedimentos, Jason prendeu a gládio na cintura. De óculos, camisa social, calça, mocassins e espada, ele parecia menos o sr. Rogers e mais um advogado armado.
— Por que você acha que estou escondendo alguma coisa?
— Ora, por favor! Não tente enrolar, ainda mais quando o assunto é profecia. Não com o deus das profecias e da enrolação.
Jason soltou um suspiro, então dobrou as mangas da camisa, revelando a tatuagem romana na parte interna do antebraço, o emblema de raio do nosso pai.
— Primeiro, não foi bem uma profecia. Parecia mais as perguntas de um jogo de perguntas e respostas da tevê.
— Sim, é assim que a Herófila profetiza.
— E você sabe como são as profecias. Podem ser difíceis de interpretar, mesmo se o oráculo for simpático.
— Jason…
— Ah, está bem. A Sibila disse… Ela disse que, se Piper e eu formos atrás do imperador, um de nós vai morrer.
Morrer. A palavra caiu entre nós com um baque, como um peixão estripado num balcão de cozinha.
Fiquei esperando uma explicação. Jason encarava a base de isopor da maquete da Colina dos Templos como se quisesse dar vida ao diorama com sua mera força de vontade.
— Morrer — repeti.
— É.
— Não foi desaparecer, nem não voltar, nem ser derrotado.
— Não. Foi morrer. Ou, mais precisamente: seis letras, começa com M.
— Não pode ser morder? Nem mandar?
Ele ergueu uma das sobrancelhas louras e finas.
— Se forem atrás do imperador, um de vocês vai... mandar? Não, Apolo. Só podia ser morrer.
— Mas, mesmo assim, isso pode significar muitas coisas. Pode ser uma viagem ao Mundo Inferior. Ou pode ser uma morte como a de Leo, que voltou à vida na mesma hora. Pode ser…
— Agora é você quem está enrolando — argumentou Jason. — A Sibila falou de morte. Final. Real. Sem replay. Só estando lá para ver. Ela falou de um jeito... A não ser que você tenha um frasco de cura do médico sobrando…
Jason sabia muito bem que eu não tinha nada disso. Só meu filho Esculápio, deus da medicina, é que tinha acesso à cura do médico que trouxera Leo Valdez de volta à vida. E, como Esculápio queria evitar uma guerra contra Hades, era raro distribuir amostras. Raro tipo: nunca. Leo foi o primeiro sortudo em quatro mil anos, e provavelmente seria o último.
— Mas, mesmo assim… — Busquei teorias alternativas e brechas para a interpretação. Eu não gostava nem de pensar em morte permanente. Como imortal, aquilo era oposto à minha consciência. Por melhor que pudesse ser a pós-vida (e olha que a maioria não chegava nem a ser boa), viver ainda era melhor. O calor do Sol de verdade, as cores vibrantes do mundo lá em cima, a comida… Olha, sério: nem os Campos Elísios eram melhores.
O olhar de Jason era implacável. Tive a impressão de que, naquelas semanas desde sua conversa com Herófila, ele já tinha imaginado todos os possíveis cenários. Jason já não estava mais barganhando com aquela profecia; tinha passado ao estágio de aceitação da morte. Ele a aceitara na mesma medida que Piper McLean tinha aceitado Oklahoma.
Eu não gostava nada disso. A calma de Jason me lembrou outra vez Fred Rogers, mas de um jeito meio exasperante. Como alguém podia ser assim, aceitando as coisas e mantendo a cabeça no lugar o tempo todo? Às vezes eu só queria que ele ficasse com raiva, que gritasse e esperneasse, chutando os mocassins para o outro lado do quarto.
— Vamos supor que você esteja certo. Por que não contou a verdade a Piper?
— Você sabe o que aconteceu com o pai dela. — Jason examinou os calos nas mãos, prova de que não tinha parado de praticar com a espada. — Ano passado, quando o salvamos do gigante do fogo, lá no Monte Diablo… a cabeça do sr. McLean não ficou nada bem. Agora, com o estresse da falência e tudo o mais... Dá para imaginar o que aconteceria se ele perdesse a filha também?
Eu me lembrei do astro de cinema desgrenhado andando de um lado para outro na frente de casa, procurando moedas imaginárias.
— Sim, mas não dá para saber como a profecia vai se desenrolar.
— Eu não posso deixar que ela se desenrole com a morte de Piper. Ela e o pai estão prontos para sair da cidade agora no fim da semana. Na verdade, ela… não sei se dá para dizer que está empolgada, mas está no mínimo aliviada por sair de Los Angeles. Desde que nos conhecemos, tudo que ela queria era ter mais tempo com o pai. E agora eles têm a chance de recomeçar. Piper pode ajudar o pai a levar uma vida mais tranquila. E talvez até possa encontrar um pouco de tranquilidade para si mesma.
A voz dele falhou. Provavelmente por culpa, ou talvez fosse arrependimento ou medo.
— Você queria que ela saísse da cidade em segurança — deduzi. — E depois iria sozinho atrás do imperador.
Jason deu de ombros.
— Bem, eu estaria com você e com Meg. Eu sabia que vocês viriam atrás de mim, já que Herófila me contou. Se você tivesse esperado mais uma semana…
— E aí? Você ia deixar a gente saltitar alegremente até a sua morte? E como isso afetaria a tranquilidade de Piper quando ela descobrisse?
Jason ficou com as orelhas vermelhas. Só então reparei como ele era jovem.
Tinha no máximo dezessete anos — o que era mais velho do que minha forma mortal, é verdade, mas não muito. Ele tinha perdido a mãe. Depois ainda tinha sobrevivido ao treinamento puxado de Lupa, a deusa-loba, e crescido com a disciplina da Décima Segunda Legião, no Acampamento Júpiter. Tinha lutado contra gigantes e titãs e ajudado a salvar o mundo pelo menos duas vezes. Mas, pelos padrões mortais, nem era adulto. Não tinha idade para votar ou sequer para beber.
E, apesar de toda essa experiência, será que era justo esperar que ele raciocinasse friamente e considerasse os sentimentos de todos enquanto ainda ponderava sobre a própria morte?
Tentei suavizar o tom.
— Você não quer que Piper morra, eu entendo. Ela também não ia querer que você morresse. Mas evitar profecias não dá certo. E muito menos guardar segredos de amigos, principalmente segredos mortais. Nossa tarefa é enfrentar Calígula juntos, roubar os sapatos daquele maníaco homicida e fugir sem a palavra de seis letras começando com M.
A cicatriz no canto da boca de Jason tremeu.
— Mandão?
— Ah, você é ridículo — protestei, mas a piadinha dissolveu um pouco da tensão que me assolava. — Está pronto?
Ele olhou para a foto da irmã, Thalia, e para a maquete da Colina dos Templos.
— Se alguma coisa acontecer comigo…
— Pare com isso.
— Se alguma coisa acontecer, se eu não puder cumprir a promessa que fiz a Cimopoleia... você pode levar meu projeto para o Acampamento Júpiter? Os desenhos dos novos templos nos dois acampamentos estão ali na prateleira.
— Você mesmo vai levar isso para lá — insisti. — E seus novos santuários vão honrar os deuses. Vai ser um sucesso: é um projeto honrado demais para falhar.
Ele tirou um caco de vidro do hotel de Zeus.
— A honra nem sempre importa. Pense só no que aconteceu com você. Já conversou com nosso pai desde…?
Ele teve a decência de não continuar. Desde que você caiu numa lixeira no corpo de um gorducho de dezesseis anos sem nenhuma habilidade.
Engoli em seco, sentindo aquele gosto de cobre no ar. As palavras do meu pai ribombaram das profundezas de minha pequena mente mortal: SUA CULPA. SUA PUNIÇÃO.
— Zeus não fala comigo desde que me tornei mortal. E minha memória do que aconteceu antes disso é muito confusa. Eu me lembro da batalha do verão passado, lá no Parthenon, e me lembro de Zeus jogando um raio em mim. Depois disso, não há nada até eu acordar caindo do céu, em janeiro… Nada.
— Sei como é isso de perder seis meses da sua vida. — Ele me encarou com um olhar sofrido. — Me desculpe por não ter conseguido ajudar mais.
— Como assim? O que mais você poderia ter feito?
— Ah, lá no Parthenon. Tentei conversar com Zeus, falei que era errado punir você. Mas o pai não quis ouvir.
Fiquei olhando para ele sem entender, sentindo o que restava da minha eloquência natural entalada na garganta. Jason Grace tinha feito o quê?
Zeus tinha muitos filhos; ou seja, eu tinha muitos meios-irmãos e meias-irmãs. Mas, com exceção de minha irmã gêmea, Ártemis, eu nunca tinha me sentido próximo de nenhum outro filho de Zeus. E nunca nenhum irmão tinha me defendido para nosso pai. Aliás, era mais provável que meus irmãos olimpianos tentassem escapar da fúria de Zeus me acusando, aos berros: foi Apolo!
E aquele jovem semideus tinha me defendido — sem o menor motivo para isso, aliás. Ele mal me conhecia, mas arriscou a própria vida e enfrentou a fúria de Zeus. Meu primeiro instinto foi gritar: VOCÊ É DOIDO?
Por sorte, logo surgiram palavras mais apropriadas.
— Obrigado.
Jason me segurou pelos ombros — não com raiva, nem mesmo com agressividade; foi mais de um jeito meio fraternal.
— Quero que você me prometa uma coisa: aconteça o que acontecer, quando voltar para o Olimpo, quando voltar a ser deus, quero que você se lembre. Não esqueça como é ser humano.
Algumas semanas antes, eu teria rido com deboche. Por que eu iria querer me lembrar disso? No máximo, se eu tivesse sorte de recuperar meu trono divino, a memória da experiência horrenda seria como um filme de terror ruim que finalmente havia terminado. Eu sairia do cinema pensando: Ufa! Ainda bem que acabou!
Mas, depois de tudo pelo que passei na Terra, eu tinha uma ideia do que Jason queria dizer. A experiência me ensinou muito sobre a fragilidade e a força dos humanos, e, sendo mortal, eu me sentia… diferente em relação a eles. Aquilo no mínimo me serviria de inspiração para uma nova música!
Mas fiquei relutante em prometer qualquer coisa, até porque eu já estava vivendo sob a maldição de uma promessa quebrada. Lá no Acampamento Meio-Sangue, eu me precipitei e jurei pelo rio Estige que não usaria minhas habilidades de arquearia e de música até voltar a ser deus. Mas logo quebrei essa promessa, e, desde então, minhas habilidades estavam se deteriorando.
E eu tinha certeza de que o espírito vingativo do rio Estige ainda não estava satisfeito. Naquele momento, eu quase conseguia sentir a dríade me olhando de cara feia, lá do Mundo Inferior, como quem diz: Que direito você tem de prometer o que quer que seja, seu quebrador de promessas?
Mas qual seria a alternativa? Era o mínimo que eu podia fazer por aquele mortal tão corajoso que me defendeu mesmo quando ninguém mais ousou estender a mão para mim.
— Eu prometo. Vou me esforçar ao máximo para lembrar dessa experiência humana. Mas você precisa prometer que vai contar a verdade sobre a profecia para a Piper.
Jason deu um tapinha em meus ombros.
— Combinado. Falando nelas, as garotas devem estar esperando.
— Só mais uma coisa — pedi, falando sem pensar. — É sobre Piper. É que… vocês dois parecem um casal tão legal, tão saudável. Você quer mesmo… Ah, você terminou para que ficasse mais fácil para ela ir embora de Los Angeles?
Jason me encarou com seus olhos azuis.
— Ela disse isso?
— Não. Mas Mellie pareceu tão... hã, chateada com você...
Jason refletiu.
— Mellie pode me culpar à vontade, não ligo. Acho que é até melhor.
— Então não é verdade?
Notei certa tristeza no olhar de Jason, quase como uma lufada de fumaça ofuscando o céu azul por alguns instantes. Eu me lembrei de Medeia dizendo: A verdade foi o suficiente para destruir o pobre Jason Grace.
— Foi a Piper que terminou comigo — explicou, baixinho. — Já faz meses, muito antes do Labirinto de Fogo. Bem, vamos logo. Vamos encontrar Calígula.

4 comentários:

  1. Tio Rick n faz isso comigo
    Mesmo n gostando muito da Piper ou do Jason, eu n quero ver nenhum deles morrer

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  2. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 06:56

    Ver o Jason e o Apolo como irmãos é ótimo, não tem palavra melhor. Principalmente com Apolo deixando claro q nunca teve essa relação com os outros filhos de Zeus.

    São coisas assim que são realmente boas de ler/ver.

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    Respostas
    1. Siiiiiiiiiim! Primeiro ver Apolo sendo um pai no primeiro livro (mesmo que parecesse mais um irmão mais velho também), e agora ele com o Jason... Acho que ele não conseguiria esquecer essa experiência mortal nem se quisesse.

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  3. Caraca... Eu não sei se aguento...
    Sabia que ele tava tentando proteger ela, só não sei o porquê da Piper ter terminado. Tudo bem, tudo vai se resolver... espero. Por que eu sinto a catástrofe por perto?

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