26 de junho de 2018

Capítulo 22

Últimos desejos & testamento de Niall T. Lynch
Artigo 1
Declarações preliminares
Eu sou casado com Aurora Lynch e todas as referências neste testamento à minha esposa dizem respeito a Aurora Lynch.
Tenho três filhos vivos, chamados Declan T. Lynch, Ronan N. Lynch e Matthew A. Lynch. Todas as referências neste testamento a meu “filho” ou “filhos” ou “prole” dizem respeito ao filho ou filhos acima, e a qualquer filho ou filhos nascidos ou adotados no futuro por mim. Todas as referências ao “filho do meio” dizem respeito a Ronan N. Lynch.

— Eu estava pensando que podíamos passar o Quatro de Julho juntos — disse Matthew, espiando Ronan; a luz da tarde que caía deixava seus cachos angelicais. A pedido de Ronan, eles tinham se encontrado para jantar no parque central da cidade. Era um ato egoísta. Tanto Declan quanto Ronan tratavam Matthew como um manto de segurança. — Nós três. Para ver os fogos de artifício.
Ronan se curvou sobre ele de cima da velha mesa de piquenique.
— Não.
Antes que o irmão mais novo tivesse chance de dizer algo para inadvertidamente fazê-lo se sentir culpado e então topar o convite, Ronan gesticulou para o sanduíche de atum de Matthew com o seu.
— Como está o seu sanduíche?
— Ah, está bom — disse Matthew entusiasticamente. Não chegava a ser um grande elogio. Matthew Lynch era um fosso dourado e indiscriminado no qual o mundo jogava comida. — Está muito bom. Eu não acreditei quando você ligou. Quando vi seu número na tela, quase me caguei todo! Você poderia vender o seu telefone, tipo, como se fosse novinho, na caixa.
— Sem palavrão, cacete — disse Ronan.

Artigo 2
Doações e legações testamentárias
Lego a soma de vinte e três milhões de dólares ($ 23.000.000,00) para um fundo em separado que deverá providenciar o cuidado e a manutenção perpétuos da propriedade referida como “Barns” (ver item B) e para o cuidado, a educação e o alojamento dos meus filhos sobreviventes. Esse fundo deve ser executado por Declan T. Lynch até todos os filhos completarem dezoito anos de idade.
Lego a soma de três milhões de dólares ($ 3.000.000,00) para meu filho Declan T. Lynch, assim que ele completar dezoito anos de idade.
Lego a soma de três milhões de dólares ($ 3.000.000,00) para meu filho Ronan N. Lynch, assim que ele completar dezoito anos de idade.
Lego a soma de três milhões de dólares ($ 3.000.000,00) para meu filho Matthew A. Lynch, assim que ele completar dezoito anos de idade.

Ronan pegou uma batata de Matthew e deu para Motosserra, que a mutilou sobre a superfície da mesa, mais pelo ruído que pelo gosto. Na calçada, uma senhora empurrando um carrinho de bebê lhe lançou um olhar feio, fosse por estar sentado sobre a mesa ou por parecer pouco respeitável andar com aves carniceiras. Ronan lhe devolveu o olhar, com alguns graus a mais de vulgaridade.
— Ei, o Declan ainda perderia a cabeça se a gente voltasse para a Barns?
Mastigando afetuosamente, Matthew abanou para o conteúdo do carrinho de bebê. O conteúdo abanou de volta. Ele falou com a boca cheia.
— Ele sempre perde. A cabeça, quero dizer. Sobre isso. E sobre você. É verdade que a gente perde nosso dinheiro se voltarmos? O papai era realmente tão mau quanto o Declan diz?

Artigo 7
Condição adicional
Com a minha morte, nenhum dos meus filhos poderá adentrar os limites físicos da “Barns”, tampouco perturbará nada que esteja dentro da propriedade, vivo ou inerte, ou os ativos tratados neste testamento serão legados para o fundo New York-Roscommon, exceto o fundo estabelecido para o cuidado continuado de Aurora Lynch.

— O quê? — Ronan largou seu sanduíche, e Motosserra o pegou furtivamente. — O que ele diz sobre o papai?
O irmão mais novo deu de ombros.
— Sei lá, só que ele nunca estava lá ou algo do gênero. Você sabe. Ei, o Declan não é tão ruim assim. Não sei por que vocês dois não se dão.
A mamãe e o papai simplesmente não se amam mais, pensou Ronan, mas não podia dizer isso para Matthew, que o encarava com os mesmos olhos confiantes que o bebê camundongo virara para ele. Aquele lanche não bastara para recuperar seu equilíbrio.
Sua visita ilícita à Barns, a percepção a respeito de sua mãe e a avaliação de Calla da situação o haviam deixado muito abalado. Subitamente, Ronan estava diante de uma decisão: se deveria ou não reviver sua mãe. Se ele pudesse ter a mãe de volta, isso certamente ajudaria, mesmo se ela tivesse de morar em Cabeswater. Um dos pais era melhor que nenhum. A vida era melhor que a morte. Ficar desperto era melhor que ficar dormindo.
Mas as palavras de Declan incomodavam Ronan: Ela não é nada sem o papai.
Era como se ele soubesse. Ronan queria muito saber quanto Declan sabia, mas não podia perguntar.
— O Declan começou a me odiar primeiro — disse Ronan. — Caso você esteja se perguntando. Então não fui eu.
Matthew soltou uma respiração com cheiro de atum, com o ar alegre e contente de uma freira ou de um maconheiro.
— Ele só estava chateado porque o papai gostava mais de você. Eu não me importava. Todo mundo tem preferências. A mamãe gostava mais de mim, de qualquer forma.

Artigo 2A
Legados adicionais
Lego toda minha parte na propriedade imobiliária que era minha residência no momento de minha morte (a “Barns”), assim como qualquer seguro sobre essa propriedade, para meu filho do meio.

Os dois comeram seus sanduíches em silêncio. Ronan pensou que ambos provavelmente estavam considerando que isso deixava Declan como o favorito de ninguém.
Se eu era o seu favorito, ele perguntou ao pai morto, por que você me deixou uma casa aonde eu jamais posso voltar?
Cuidadosamente — isso era difícil, pois Ronan nunca fazia nada cuidadosamente —, ele perguntou:
— O Declan fala sobre sonhos?
Ele precisou repetir a pergunta. Tanto Matthew quanto Motosserra haviam se distraído com um par de borboletas-monarcas.
— Tipo, os dele? — perguntou Matthew, e deu de ombros de maneira elaborada. — Não acho que ele sonhe. Ele toma remédio para dormir, sabia?
Ronan não sabia.
— De que tipo?
— Sei lá. Mas eu olhei a caixa. O dr. Mac deu para ele.
— Doutor quem, cacete?
— O médico da Aglionby.
Ronan assobiou.
— Ele não é médico, cara. É enfermeiro ou algo assim. Não sei se ele pode receitar remédios. Por que o Declan toma remédio para dormir?
Matthew enfiou o restante de seu sanduíche na boca.
— Ele diz que você está dando úlcera nele.
— Úlceras não são problemas de sono. Elas aparecem quando o ácido faz um maldito buraco no seu estômago.
— Ele diz que você e o papai eram sonhadores — disse Matthew —, e que você vai fazer a gente perder tudo.
Ronan ficou absolutamente imóvel. Ele parou tão rapidamente que Motosserra congelou também, a cabeça inclinada na direção do irmão Lynch mais novo, o sanduíche de atum roubado esquecido.
Declan sabia a respeito do pai deles. Declan sabia a respeito da mãe deles.
Declan sabia a respeito dele.
O que isso mudava? Nada, talvez.
— Ele colocou uma arma debaixo do banco do carro — disse Matthew. — Eu vi quando meu telefone caiu entre os bancos.
Ronan percebeu que Matthew tinha parado de mastigar e de se mexer e, em vez disso, estava curvado sobre a mesa de piquenique, seus olhos líquidos e incertos encarando o irmão mais velho.
— Não diga assaltantes — disse Matthew por fim.
— Eu não ia dizer — respondeu Ronan. — Você sabe que eu não minto.
Matthew anuiu rápido. Ele estava mordendo o lábio. Seus olhos estavam inconscientemente marejados.
— Escute — disse Ronan, e então de novo —, escute. Acho que eu sei como dar um jeito na mamãe. Ela não vai poder ficar na Barns e... quer dizer, não podemos ir lá de qualquer jeito... e acho que eu sei como dar um jeito nela. Então pelo menos a gente vai ter ela de volta.

Niall Lynch encontra-se, no momento da celebração deste testamento, com a mente sã e sem nenhum problema de memória ou compreensão. Age de livre e espontânea vontade e goza de plena capacidade para realizá-lo. Este testamento é válido até que outro documento mais recente seja criado.
Firmo o presente: T’Libre vero-e ber nivo libre n’acrea.

Provavelmente fora por isso que ele ligara para Matthew. Ele provavelmente tivera a intenção de prometer essa esperança impossível desde o início. Ele provavelmente precisava dizê-la em voz alta para que ela parasse de abrir um maldito buraco no seu estômago.
Seu irmão mais novo parecia cauteloso.
— Sério?
A decisão galvanizou Ronan.
— Eu prometo.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!