3 de junho de 2018

Capítulo 22

No meu projeto escolar
Fiz um templo pagão
No Banco Imobiliário

NO TRAJETO ATÉ o quarto de Jason, passamos por um professor e dois monitores, mas, graças ao charme de Piper, todos concordaram que era perfeitamente normal nós quatro (inclusive duas meninas) irmos para o alojamento em pleno horário de aula.
Quando chegamos, Piper parou à porta e disse:
— Defina “aqui não é seguro”.
— Há monstros infiltrados no corpo docente. Estou de olho na professora de história. Tenho quase certeza de que ela é uma empousa. Já tive que matar meu professor de cálculo avançado, porque ele era um blemmyae.
Se tais palavras saíssem da boca de um mortal, ele seria tachado de louco e homicida, mas, quando se tratava de semideuses, era só a descrição de mais um dia na Terra.
— Blemmyae, é? — Meg reavaliou Jason, como se decidindo que os óculos dele talvez não fossem tão feios. — Eu odeio blemmyae.
Jason deu um sorrisinho e nos mandou entrar.
Eu diria que o lugar era espartano, mas já tinha visto os alojamentos dos verdadeiros espartanos — eles achariam o quarto do filho de Júpiter absurdamente confortável.
O espaço de quatro metros quadrados tinha uma estante, uma cama, uma mesa e um armário. O único luxo era uma janela aberta com vista para os cânions, deixando um aroma de jacinto preencher o ar. (Tinha que ser de jacinto? Sempre me dá um aperto no peito quando sinto esse cheiro, mesmo depois de milhares de anos.) Na parede de Jason havia uma foto sorridente da irmã dele, Thalia, com um arco nas costas, o cabelo escuro e curto bagunçado pelo vento. Exceto pelos olhos azuis, ela não se parecia em nada com o irmão.
Se bem que nenhum deles se parecia comigo, e, como filho de Zeus, eu era tecnicamente irmão deles. Eu cheguei a flertar com Thalia, o que… eca. Maldito seja você, pai, por ter tantos filhos! Por sua causa, namorar se tornou um campo minado ao longo dos milênios.
— Sua irmã mandou um oi — falei.
Os olhos de Jason se iluminaram.
— Vocês se encontraram?
Então contei tudo que aconteceu no período que passamos em Indianápolis: a Estação Intermediária, o imperador Cômodo, as Caçadoras de Ártemis chegando de rapel no estádio de futebol para nos salvar.
Voltei mais um pouco e expliquei a questão do Triunvirato e todas as coisas horríveis que aconteceram comigo desde que saí daquela caçamba de lixo em Nova York.
Piper estava sentada no chão, de pernas cruzadas e encostada na parede, o mais longe possível da opção mais confortável, a cama. Meg estava de pé ao lado da escrivaninha de Jason, examinando algum projeto escolar, uma placa de isopor com pequenas caixinhas de plástico em cima, talvez representando prédios.
Quando mencionei casualmente que Leo estava vivo, bem e ocupado em uma missão no Acampamento Júpiter, todas as tomadas soltaram fagulhas. Jason olhou para Piper, atordoado.
— Pois é — disse ela. — Depois de tudo que passamos.
— Eu nem consigo… — Jason se sentou na cama, exausto. — Não sei se choro de felicidade ou de raiva.
— Para que escolher? — resmungou Piper. — Faça as duas coisas.
— Ei, o que é isto? — perguntou Meg.
Jason ficou vermelho.
— Um projeto pessoal.
— É a Colina dos Templos — respondeu Piper, o tom cautelosamente neutro. — No Acampamento Júpiter.
Eu me aproximei para olhar melhor. Piper tinha razão. Reconheci a disposição dos templos e santuários onde os semideuses do Acampamento Júpiter homenageavam as deidades antigas. Cada construção era representada por uma caixinha de plástico, os nomes dos santuários em etiquetas manuscritas coladas no isopor. Jason até marcou as linhas de elevação, apontando os níveis topográficos da colina. Encontrei meu templo: Apolo, simbolizado por uma construção de plástico vermelho. Não era nem de longe tão bonita quanto a real, com o teto dourado e as filigranas de platina, mas achei melhor não expor minhas observações aos colegas presentes.
— São casinhas de Banco Imobiliário? — perguntou Meg.
Jason deu de ombros.
— Eu usei o que tinha, as casas verdes e os hotéis vermelhos.
Dei mais uma olhada na maquete. Eu não surgia em toda a minha glória na Colina dos Templos fazia um tempo, mas no projeto de Jason o lugar parecia mais cheio do que na minha lembrança. Havia pelo menos vinte pontos que eu não reconhecia.
Eu li algumas das etiquetas.
— Cimopoleia? Caramba, eu não penso nela há séculos! Por que os romanos construíram um santuário para ela?
— Ainda não construíram — disse Jason. — Mas eu prometi a ela que construiriam. Ela… nos ajudou em nossa viagem a Atenas.
Do jeito que ele falou, concluí que a ajudinha dela significava algo mais parecido com ela concordou em não nos matar, o que tinha muito mais a ver com a personalidade de Cimopoleia.
— Eu falei para ela que não deixaria que nenhum deus fosse esquecido — continuou Jason —, nem no Acampamento Júpiter, nem no Acampamento Meio-Sangue. Vou garantir que todos tenham algum tipo de santuário nos dois acampamentos.
— Jason passou um tempão fazendo os desenhos — disse Piper. — Depois dá uma olhada no caderno dele.
Jason franziu a testa, sem saber se aquilo era um elogio ou uma crítica. O cheiro de eletricidade ficou mais forte.
— Bem — disse ele por fim —, os desenhos não são nada de mais, na verdade. Vou pedir ajuda a Annabeth para fazer as plantas de verdade.
— Homenagear os deuses é uma tarefa nobre — falei. — Você devia sentir orgulho do seu trabalho.
Jason não parecia nem um pouco orgulhoso, e sim preocupado. Eu me lembrei do que Medeia dissera sobre o encontro do semideus com o oráculo: A verdade foi o suficiente para destruir o pobre Jason Grace. Ele não parecia destruído. Mas eu também não parecia Apolo.
— Por que Potina ganhou uma casa e Quirino, um hotel? — perguntou Meg.
— A escolha das peças foi aleatória — admitiu Jason. — Só usei os objetos para marcar as posições.
Franzi a testa. Jurava que a minha peça era um hotel, e não uma casa, como a de Ares, porque eu era mais importante.
Meg deu uma batidinha na peça da mãe.
— Deméter é legal. Você tinha que botar os deuses legais perto dela.
— Meg — repreendi —, não dá para aglomerar os deuses por quem é mais legal. Imagina quantas brigas isso não causaria?
Além do mais, pensei, todo mundo ia querer ficar do meu lado. Será que eu continuaria sendo tão amado quando e se voltasse ao Olimpo?, foi a pergunta amarga que me fiz. Meu tempo como Lester mancharia minha reputação para sempre? Será que eu seria visto como um pateta mortal por toda a eternidade?
— Enfim... — interrompeu Piper. — Vamos ao que interessa: o Labirinto de Fogo.
A garota não acusou Jason de esconder informações. Não contou a ele o que Medeia tinha dito. Só observou o ex-namorado, esperando para ver como ele reagiria.
Jason entrelaçou os dedos e olhou para a gladius embainhada que estava encostada na parede, ao lado de um taco de lacrosse e de uma raquete de tênis. (Esses colégios internos chiques realmente tinham de tudo.)
— Eu não contei a história toda para você — admitiu ele.
Piper ficou em silêncio, o que foi mais poderoso do que qualquer charme que ela poderia jogar.
— Eu… eu encontrei a Sibila — continuou Jason. — Não sei nem explicar como. Só caí em um lugar enorme com um poço de lava. A Sibila estava… parada na minha frente, em uma plataforma de pedra, os braços acorrentados em algemas ardentes.
— Herófila — falei. — O nome dela é Herófila.
Jason piscou, confuso, como se ainda conseguisse sentir o calor e as cinzas no aposento.
— Eu queria libertá-la — disse ele. — É claro. Mas ela me disse que não era possível. Tinha que ser… — Ele apontou para mim. — Ela me disse que era uma cilada. O Labirinto inteiro. Uma cilada para Apolo. Ela me disse que você viria me procurar. Você e Meg. Herófila disse que não havia nada que eu pudesse fazer além de ajudá-lo no que precisasse. E pediu que passasse essa mensagem: você tem que salvá-la.
Eu já sabia disso. Tinha visto e ouvido nos meus sonhos. Mas ouvir de Jason, desperto, tornou tudo pior.
Piper apoiou a cabeça na parede e ficou encarando uma infiltração no teto.
— O que mais Herófila disse?
O rosto de Jason se contraiu.
— Pipes… Piper, olha, me desculpa por não ter contado. É que…
— O que mais ela disse? — repetiu Piper.
Jason olhou para Meg e depois para mim, talvez em busca de apoio moral.
— A Sibila me disse onde encontrar o imperador — respondeu ele. — Bom, mais ou menos. Ela disse que Apolo precisaria dessa informação. Que ele precisaria de… um par de sapatos. Sei que não faz muito sentido.
— Na verdade, faz — falei.
Meg passou os dedos pelos telhados de plástico dos templos da maquete.
— Podemos aproveitar e matar o imperador enquanto estivermos roubando os sapatos dele? A Sibila disse alguma coisa sobre isso?
Jason balançou a cabeça.
— Ela só disse que Piper e eu… Nós não podíamos fazer mais nada por conta própria. Tinha que ser Apolo. Se tentássemos… seria perigoso demais.
Piper soltou uma risada seca, levantando as mãos como se estivesse fazendo uma oferenda à infiltração no teto.
— Jason, nós passamos por tudo juntos, tudo. Não consigo nem contar quantos perigos enfrentamos, quantas vezes nós quase morremos. Aí agora você vem me dizer que mentiu para me proteger? Sério? Para me impedir de ir atrás de Calígula?
— Eu sabia que você teria ido — murmurou ele. — Independentemente do que a Sibila dissesse.
— Sim, eu teria escolhido fazer isso — disse Piper. — Não você.
Ele assentiu, desolado.
— E eu não pensaria duas vezes antes de acompanhar você, fosse qual fosse o risco. Mas do jeito que as coisas andam entre a gente… — Ele deu de ombros. — Trabalhar em equipe tem sido difícil. Eu achei… Eu decidi esperar até Apolo me encontrar. Eu mandei muito mal em não ter contado nada. Me desculpe.
Ele ficou olhando fixamente para a Colina dos Templos, como se estivesse tentando encontrar um lugar para o santuário do deus de quem se sente mal por relacionamentos fracassados. (Ah, não, me confundi. Esse templo já existia. Era o de Afrodite, a mãe de Piper.) A garota respirou fundo.
— A questão aqui não somos eu e você, Jason. Sátiros e dríades estão morrendo. Calígula está planejando se transformar em um novo deus do Sol. Hoje é a lua nova, e algo muito ruim está prestes a acontecer no Acampamento Júpiter. Enquanto isso, Medeia está naquele labirinto, lançando fogo titã por aí…
— Medeia? — Jason se sentou, confuso. A lâmpada no abajur da escrivaninha explodiu e fez chover cacos de vidro na maquete. — Espera aí. O que Medeia tem a ver com isso? E que história é essa de lua nova e Acampamento Júpiter?
Pensei que talvez Piper fosse se recusar a compartilhar a informação, só de raiva, mas ela não fez isso. A garota resumiu para o ex-namorado a profecia de Indiana, que previa corpos enchendo o Tibre, e explicou o projeto culinário de Medeia com o avô.
Jason fez uma cara péssima; parecia que nosso pai tinha jogado um raio nele.
— Eu não tinha a menor ideia de nada disso.
Meg cruzou os braços.
— Então, você vai ajudar a gente ou não?
Jason hesitou, certamente sem saber o que responder à garotinha assustadora com roupa camuflada azul-turquesa.
— C-claro — disse ele, por fim. — Vamos precisar de um carro. E eu vou precisar de uma desculpa para sair do campus.
Ele olhou para Piper, que se levantou.
— Tudo bem. Vou passar na secretaria. Meg, você vem comigo, para o caso de encontrarmos a tal empousa. Encontramos vocês no portão. E, Jason…?
— O quê?
— Se você estiver escondendo mais alguma coisa…
— Certo. Eu… eu entendi.
Piper saiu do quarto. Meg me olhou com uma cara de Tem certeza?.
— Pode ir — falei. — Vou ajudar Jason a pegar algumas coisas para a viagem.
Quando as garotas saíram, olhei bem nos olhos de Jason Grace e, de um filho de Zeus/Júpiter para outro, falei:
— Tudo bem. O que a Sibila realmente disse para você?

9 comentários:

  1. Tô com um péssimo pressentimento de que alguém vai morrer em breve

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  2. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 06:28

    "Se bem que nenhum deles se parecia comigo, e, como filho de Zeus, eu era tecnicamente irmão deles. Eu cheguei a flertar com Thalia, o que… eca."

    Desde quanto os deuses se importam com parentesco na hora do flerte?

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    1. Aposto que o tio Rick deve ter colocado isso pra ninguém dizer que ele tá influenciando mal as crianças... Ou talvez seja a perspectiva mortal de Apolo ( porque ele sabia que Thalia era irmã dele antes de flertar, não sabia? E não se importou nem um pouco.)

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  3. Ele esta começando a pensar como um mortal.

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  4. Ele está a cada dia mais mortal, tá até se preocupando com os outros e está menos egoísta tbm

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    1. Tomara que continue mesmo quando voltar a ser um deus

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    2. Se ele voltar a ser deus. Talvez no final ele possa preferir acabar como lester [TEORIA]

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  5. Apolo, fique muito muito mas muiiiiiitoooooo mesmo parecido com um mortal dai vire deus novamente e ajude os mortais please

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  6. Acho que agora entendi porque a Piper e o Jason terminaram kkkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!