26 de junho de 2018

Capítulo 21

Blue achou que já estava mais do que na hora de eles levarem Ronan até a família dela para uma consulta. Monstros de sonhos eram uma coisa. Mães de sonhos eram outra. Na manhã seguinte, ela foi de bicicleta até a Indústria Monmouth e lançou a ideia.
Houve um silêncio, e então:
— Não — disse Ronan.
— Como? — ela perguntou.
— Não — ele respondeu. — Eu não vou.
Deitado no chão ao lado da longa impressão aérea da linha ley, Gansey não ergueu o olhar.
— Ronan, não seja difícil.
— Não estou sendo difícil. Só estou dizendo que não vou.
— Não é o dentista — disse Blue.
Recostado contra o batente da porta do quarto, Ronan respondeu:
— Exatamente.
Gansey fez uma anotação na impressão.
— Isso não faz sentido.
Mas fazia. Blue achou que sabia exatamente o que estava acontecendo. De modo frio, ela disse:
— É uma questão religiosa, não é?
— Você não precisa falar desse jeito — desdenhou Ronan.
— Na realidade, preciso sim. Essa é a parte em que você me diz que eu e a minha mãe vamos para o inferno?
— Eu não excluiria essa possibilidade — ele disse. — Mas realmente não tenho informações privilegiadas a esse respeito.
Com isso, Gansey rolou de costas e cruzou as mãos sobre o peito. Ele usava uma camisa polo salmão, que, na opinião de Blue, era bem mais infernal que qualquer coisa que eles tivessem discutido até aquele momento.
— Do que vocês estão falando agora?
Blue não podia acreditar que ele não soubesse ainda qual era o conflito. Ou ele era incrivelmente desatento ou extraordinariamente iluminado. Conhecendo Gansey, sem dúvida alguma era a primeira opção.
— Essa é a parte em que o Ronan começa a usar a palavra oculto — disparou Blue.
Ela ouvira versões dessa conversa inúmeras vezes na vida; já havia se tornado lugar-comum demais alfinetá-la. Mas ela não esperava isso de seu círculo íntimo.
— Não estou usando palavra nenhuma — disse Ronan. O que sempre irritava a respeito de Ronan era que ele ficava bravo quando todo mundo estava calmo, e calmo quando todo mundo estava bravo. Porque Blue estava prestes a estourar uma veia, a voz dele era absolutamente pacífica. — Só estou dizendo que não vou. Talvez seja errado, talvez não. Minha alma já corre bastante perigo do jeito que as coisas estão.
Com isso, o rosto de Gansey ficou genuinamente sério, e pareceu que ele estava prestes a dizer alguma coisa. Mas apenas balançou a cabeça um pouco.
— Você acha que nós temos parte com o diabo, Ronan? — perguntou Blue. A pergunta teria melhor efeito se ela a tivesse feito com uma doçura doentia. Ela podia imaginar Calla fazendo isso, mas estava irritada demais para fazê-lo. — Elas são adivinhas diabólicas?
Ele revirou os olhos sensualmente para ela. Era como se ele simplesmente absorvesse a raiva dela, poupando-a toda para quando a precisasse para si mesmo.
— Minha mãe descobriu que era médium porque viu o futuro em um sonho — disse Blue. — Um sonho, Ronan. Ela não precisou sacrificar uma cabra no quintal para ver nada. Ela não tentou ver o futuro. É algo que ela se tornou, é algo que ela é. Eu também poderia dizer que você é diabólico porque pode tirar coisas dos seus sonhos!
— É, poderia — disse Ronan.
Gansey ficou com o cenho mais franzido ainda. Mais uma vez ele abriu a boca e a fechou.
Blue não conseguia deixar o assunto de lado. Ela disse:
— Então, mesmo que isso pudesse te ajudar a compreender você e o seu pai, você não vai falar com elas.
Ele deu de ombros, tão desinteressado quanto Kavinsky.
— Não.
— Por quê, seu cabeça-dura...
— Jane — Gansey engrossou a voz. Desatento! Ele desviou os olhos para ela, parecendo tão majestoso quanto uma pessoa pode parecer deitada de costas com uma camisa polo salmão. — Ronan.
— Estou sendo totalmente educado, cacete — disse Ronan.
— Você está sendo medieval — respondeu Gansey. — Diversos estudos sugerem que a mediunidade faz parte do reino da ciência, não da magia.
Ah. Iluminado.
— Por favor, cara — disse Ronan.
Gansey se sentou.
— Por favor, você. Todos nós sabemos que Cabeswater modifica o tempo. Você mesmo conseguiu escrever naquela rocha em Cabeswater antes que qualquer um de nós tivesse chegado lá. O tempo não é uma linha. É um círculo ou um número oito ou um maldito brinquedo de molas. Se você pode acreditar nisso, não sei por que não pode acreditar que alguém possa ser capaz de ver algo mais adiante nesse brinquedo de molas.
Ronan olhou para ele.
Aquele olhar, pensou Blue. Ronan Lynch faria qualquer coisa por Gansey.
Eu também provavelmente faria, ela pensou. Era impossível para ela compreender como ele conseguia produzir esse efeito naquela camisa polo.
— Como você quiser — disse Ronan. O que queria dizer que ele faria.
Gansey olhou para Blue.
— Feliz, Jane?
— Como você quiser — disse Blue.
O que queria dizer que ela estava.


Maura e Persephone estavam trabalhando, mas Blue conseguiu pegar Calla de jeito na Sala do Gato/Telefone/Costura. Se ela não podia ter as três juntas, era Calla que ela queria de qualquer maneira. Calla era uma médium tão tradicional quanto as outras duas, mas tinha um dom estranho, adicional: a psicometria. Quando ela tocava um objeto, muitas vezes podia sentir de onde ele tinha vindo, o que o proprietário estava pensando quando o usou e onde ele poderia terminar.
Como eles pareciam estar lidando com coisas que eram ao mesmo tempo pessoas e objetos, o talento de Calla parecia vir a calhar.
Parada no vão da porta com Ronan e Gansey, Blue disse:
— Precisamos do seu conselho.
— Tenho certeza que sim — respondeu Calla, não da maneira mais receptiva. Ela tinha uma daquelas vozes graves, de tabagista, que sempre pareciam mais apropriadas para um filme em preto e branco. — Faça a sua pergunta.
Educadamente, Gansey perguntou:
— Você tem certeza que consegue pensar desse jeito?
— Se está duvidando de mim — disparou Calla —, não sei por que você está aqui.
Em defesa de Gansey, Calla estava de cabeça para baixo, pendurada magnificamente no teto da Sala do Gato/Telefone/Costura. A única coisa que evitava que ela despencasse no chão era uma faixa de seda roxo-escura enrolada em volta de uma das coxas.
Gansey desviou o olhar e sussurrou no ouvido de Blue:
— Isso é um ritual?
Havia algo um pouco mágico naquilo, supôs Blue. Embora a sala, coberta por um papel de parede verde listrado, estivesse cheia de uma miríade de bugigangas para atrair atenção, era difícil evitar olhar para a forma de Calla girando lentamente. Parecia impossível que aquele pedaço de seda fosse segurar o peso dela. Naquele momento, ela estava virada para o canto, de costas para eles. Sua túnica pendia baixa, revelando uma porção considerável de pele bem morena, uma alça de sutiã rosa e quatro coiotes minúsculos tatuados correndo ao longo da espinha dela.
Segurando a caixa quebra-cabeça nas mãos, Blue sussurrou de volta:
— É ioga aérea. — Mais alto, disse: — Calla, é sobre o Ronan.
Calla se endireitou, enrolando a seda em volta da outra coxa.
— Quem é ele mesmo? O bonito?
Blue e Gansey se entreolharam. O olhar de Blue disse: Sinto muito, de verdade.
O de Gansey: Sou eu o bonito?
Calla continuou girando, quase imperceptivelmente. À medida que se enrolava, ficava cada vez mais óbvio que Calla não era a mulher mais magra no planeta, mas tinha músculos abdominais que uau.
— O camiseta da Coca-Cola?
Ela queria dizer Adam. Ele usara uma camiseta vermelha da Coca-Cola na primeira leitura, e agora e para sempre seria identificado por ela.
Ronan disse, com a voz num rosnado baixo:
— A cobra.
A rotação de Calla parou assim que ele terminou de falar. Eles olharam um para o outro por um longo momento, Ronan em pé, Calla de cabeça para baixo.
Motosserra, sobre o ombro de Ronan, virou a cabeça para ver melhor. Não havia nada particularmente simpático a respeito de Ronan naquele instante, a boca bonita traçando uma linha cruel, a tatuagem sombria saindo pela gola da camiseta preta, o corvo pressionado contra a lateral da cabeça raspada. Era difícil lembrar do Ronan que havia pressionado aquele camundongo pequenino contra o rosto lá na Barns.
De cabeça para baixo, Calla tentou parecer desinteressada, mas estava claro, pelas sobrancelhas arqueadas, que ela estava terrivelmente interessada.
— Compreendo — Calla respondeu finalmente. — De que tipo de conselho você precisa, Cobra?
— Meus sonhos — respondeu Ronan.
Agora as sobrancelhas se combinavam com a boca desinteressada. Ela se permitiu girar para longe deles de novo.
— É com a Persephone que você vai querer conversar sobre interpretação de sonhos. Boa sorte.
— Eles vão te interessar — disse Ronan.
Calla apenas deu risada e estendeu uma das pernas.
Blue fez um ruído irritado. Com dois passos largos sala adentro, ela pressionou a caixa quebra-cabeça contra o peito nu de Calla.
Calla parou de girar.
Lentamente, ela se endireitou. O gesto foi tão elegante quanto um movimento de balé, uma bailarina do cisne desabrochando. Então perguntou:
— Por que você não disse antes?
— Eu disse — respondeu Ronan.
Ela comprimiu os lábios roxo-escuros.
— Uma coisa você devia saber a meu respeito, Cobra. Eu não acredito em qualquer um.
Motosserra sibilou. Ronan disse:
— Uma coisa você devia saber a meu respeito. Eu nunca minto.


Calla continuou a fazer sua ioga aérea pelo resto da conversa.
Às vezes ela estava do lado certo, as pernas curvas para baixo.
— Todas essas coisas ainda fazem parte de você. Para mim, elas parecem exatamente do jeito que você sente. Bem, na maior parte das vezes. São como as unhas que você corta. Então elas compartilham a mesma vida que você. A mesma alma. Vocês são a mesma entidade.
Ronan quis protestar — se Motosserra caísse de uma mesa, ele não sentiria a dor dela, mas não sentiria a dor de uma de suas unhas cortadas também.
— Então, quando você morrer, elas vão parar.
— Parar? Elas mesmas não vão morrer? — perguntou Gansey.
Calla se virou de cabeça para baixo, os joelhos dobrados e os pés pressionados um no outro. Isso a deixava com um ar de aranha habilidosa.
— Quando você morre, seu computador não morre também. Elas nunca chegaram a viver realmente, da forma como você pensa na vida. Não é uma alma que está animando essas coisas. Tire o sonhador e... elas são como um computador esperando pelos comandos.
Ronan pensou no que Declan havia dito todos aqueles meses atrás: A mamãe não é nada sem o papai. Ele estava certo.
— Então a minha mãe nunca vai despertar.
Calla escorregou lentamente até se endireitar, livrando as mãos.
— Cobra, me passe esse pássaro.
— Não aperte — disse Ronan brevemente, dobrando as asas do corvo contra o corpo e o entregando a Calla.
Motosserra prontamente bicou o dedo dela. Sem se intimidar, Calla exibiu os dentes de volta para o corvo.
— Cuidado, gatinha — ela disse para Motosserra, com um sorriso mortal. — Eu também mordo. Blue?
Isso significava que ela queria usar o poder invisível de Blue para incrementar sua visão. Blue pousou uma mão no joelho de Calla e usou a outra para evitar que ela girasse. Por um longo momento, Calla ficou pendurada ali com os olhos fechados.
Motosserra ficou imóvel em suas mãos, as penas eriçadas diante da ignomínia de toda a situação. Então Calla fixou o olhar em Ronan, com um sorriso bruscamente armado se manifestando nos lábios pintados de roxo-escuro.
— O que você fez, Cobra?
Ronan não respondeu. O silêncio nunca era a resposta errada.
Calla enfiou o pássaro nas mãos de Blue, que tentou acalmá-lo antes de devolvê-lo para Ronan.
— Eis a questão. A sua mãe era um sonho. Seu tolo pai a tirou do sonho. Como se não tivesse mulheres suficientes no mundo sem que seja preciso fazer uma. E agora ela não tem sonhador. Você quer a sua mãe de volta, mas ela tem que voltar em um sonho.
Então ela realizou vários procedimentos elaborados, todos eles aparentemente elegantes e pouco exigentes. Eles lembravam a Ronan um pouco do movimento da caixa quebra-cabeça, no sentido de que pareciam meio ilógicos, meio impossíveis. Era difícil compreender como ela tirava o braço da seda sem enrolar o torso. Difícil perceber como ela torcia a perna sem cair no chão.
Ronan interrompeu o silêncio.
— Cabeswater. Cabeswater é um sonho.
Calla parou de girar.
— Você não precisa me dizer que estou certo — disse Ronan. Ele pensou em todas as vezes em que sonhara com as árvores antigas de Cabeswater; em quão familiar parecia caminhar por lá; no modo como as árvores sabiam o nome dele. Ele estava preso nas raízes delas, de certa maneira, e elas, nas veias dele. — Se a minha mãe estiver em Cabeswater, ela vai despertar.
Calla o encarou. O silêncio nunca era a resposta errada.
— Acho que realmente precisamos recuperar Cabeswater, então — disse Gansey.
Blue inclinou a cabeça de maneira que Calla ficasse ligeiramente menos de cabeça para baixo em relação a ela.
— Alguma ideia?
— Não sou mágica — disse Calla. Blue deu um giro nela. Calla riu a volta inteira, um som satisfeito, sujo. Ela apontou para Ronan enquanto ele se dirigia para a porta. — Mas ele é. E outra coisa: livre-se daquela máscara. Que criação detestável.

2 comentários:

  1. QUE CAPÍTULO LINDO MEUS SENHORES, REALMENTE ADMIRÁVEL!

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  2. Adorei. Chorando Calma e Ronan!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!