20 de junho de 2018

Capítulo 21

Era extraordinariamente fácil desobedecer a Maura.
Maura Sargent tinha muito pouca experiência em disciplinar filhos, e Blue tinha muito pouca experiência em ser disciplinada, de maneira que não havia nada que a impedisse de ir com Adam quando ele a encontrou na frente da casa. Ela nem sentiu culpa, já que nem nisso tinha experiência ainda. Realmente, a coisa mais extraordinária sobre toda a situação era como ela se sentia esperançosa, apesar de todas as probabilidades. Ela estava indo contra a vontade de sua mãe, saindo com um garoto, saindo com um garoto corvo. Ela deveria temer a situação.
Mas era muito difícil imaginar Adam como um garoto corvo quando ele a cumprimentou, com as mãos elegantemente nos bolsos, fragrante com o odor empoeirado de grama cortada. O machucado que ele tinha estava antigo e por isso mesmo mais desagradável de olhar.
— Você está ótima — disse ele, caminhando com ela pela calçada.
Ela não tinha certeza se ele estava falando sério. Blue usava botas pesadas que encontrara em uma loja de artigos de segunda mão (ela as atacara com linha de bordado e uma agulha robusta) e um vestido que fizera alguns meses antes, com vários pedaços diferentes de tecidos verdes. Alguns deles listrados, outros de crochê e outros transparentes. O vestido fazia Adam parecer bastante conservador, como se ela o estivesse raptando. Eles não pareciam nem um pouco um casal, refletiu Blue um pouco inquieta.
— Obrigada — ela respondeu. E então, antes que perdesse a coragem, perguntou: — Por que você queria o meu telefone?
Adam seguiu caminhando, mas não desviou o olhar. Ele parecia tímido até não parecer mais.
— Por que eu não iria querer?
— Não me entenda errado — respondeu Blue, sentindo as bochechas um pouco quentes, mas, como a conversa seguia bem avançada, não houve como voltar atrás. — Porque eu sei que você vai achar que eu me sinto mal quanto a isso, e não é verdade.
— Tudo bem.
— Porque eu não sou bonita. Não da maneira que os garotos da Aglionby parecem gostar.
— Eu estudo na Aglionby — disse Adam. Ele não parecia estudar na Aglionby como os outros garotos estudavam lá. — Eu acho você bonita — disse ele.
Quando Adam disse isso, ela ouviu seu sotaque de Henrietta pela primeira vez naquele dia. Em uma árvore próxima, um cardeal chamou: uik, uik, uik. Os tênis de Adam se arrastavam na calçada. Blue considerou o que ele havia dito, e então um pouco mais.
— Blé — exclamou por fim. Blue se sentia como quando lera pela primeira vez o cartão com as flores. Estranhamente desconcertada. Era como se as palavras dele tivessem fiado uma espécie de linha entre eles, e ela sentia que devia aliviar a tensão de algum modo. — Mas obrigada. Eu também acho você bonito.
Ele deu sua risada surpresa.
— Eu tenho outra pergunta — disse Blue. — Lembra da última coisa que minha mãe disse para o Gansey?
A expressão pesarosa do rosto deixou claro que ele se lembrava.
— Então — disse Blue, respirando fundo. — Ela disse que não ia ajudar. Mas eu não.
Após Adam ter ligado, Blue havia rabiscado apressadamente um mapa impreciso para a igreja sem nome onde ela havia se sentado com Neeve na véspera do Dia de São Marcos. Eram apenas umas poucas linhas paralelas para indicar o caminho principal, algumas ruas laterais de nomes complicados e, por fim, um quadrado rotulado apenas de IGREJA.
Ela passou para Adam o mapa, pouco chamativo em um pedaço de papel amassado de caderno. Então, tirou o diário de Gansey da sacola e o entregou para o garoto.
Adam parou de caminhar. Blue, alguns metros à frente, esperou enquanto ele franzia o cenho diante das coisas em suas mãos. Ele segurava o diário com muito cuidado, como se fosse importante para ele, ou talvez para alguém que era importante para ele. Blue queria desesperadamente que Adam confiasse nela e a respeitasse, e ela podia dizer, pela expressão no rosto dele, que não tinha muito tempo para conseguir isso também.
— O Gansey deixou isso no Nino’s — ela disse rapidamente. — O diário. Eu sei que eu devia ter devolvido no dia da leitura, mas minha mãe... bem, você a viu. Normalmente ela não faz... ela não é normalmente daquele jeito. Eu não sabia o que pensar. A questão é a seguinte: eu quero estar nessa busca que vocês estão fazendo. Tipo, se tem realmente algo sobrenatural acontecendo, eu quero ver. Só isso.
Adam perguntou:
— Por quê?
Com ele não havia opção a não ser a verdade, dita da maneira mais simples possível. Blue não acreditava que Adam aceitaria qualquer outra coisa.
— Eu sou a única pessoa na minha família que não é médium. Você ouviu minha mãe; eu apenas torno as coisas mais fáceis para as pessoas que são. Se a mágica existe, eu quero ver. Só uma vez.
— Você é um caso tão sério quanto Gansey — disse Adam, mas sem dar a impressão de que achava aquilo tão mau assim. — Ele não precisa de nada, a não ser saber que a história é real — completou, virando a folha de papel para lá e para cá.
Blue se sentiu instantaneamente aliviada; ela não havia se dado conta de como Adam estivera imóvel até ele começar a se mover novamente, e agora era como se a tensão tivesse sido retirada do ar.
— É assim que se chega ao caminho dos cor... à linha ley — ela explicou, apontando para o mapa rabiscado. — A igreja está sobre a linha ley.
— Tem certeza?
Blue lhe lançou um olhar absolutamente fulminante.
— Olha, ou você acredita em mim, ou não. Foi você quem me convidou para vir junto. “Explorar!”
O rosto de Adam se fundiu em um largo sorriso, uma expressão tão diferente do usual que seus traços precisaram mudar completamente para acomodá-la.
— Então você não faz nada sem estardalhaço, não é?
Do jeito que Adam disse isso, ela podia dizer que ele estava impressionado com ela da maneira que os homens normalmente ficavam impressionados com Orla.
Blue gostou bastante disso, especialmente tendo em vista que ela não tivera de fazer nada além de ser ela mesma para conquistá-lo.
— Nada que valha a pena.
— Bom — ele disse —, acho que você vai descobrir que eu faço quase tudo sem chamar atenção. Se você não se importar com isso, acho que vamos nos dar bem.


No fim das contas, Blue percebeu que tinha passado a pé ou de bicicleta pelo apartamento de Gansey todos os dias do ano, a caminho da escola e do Nino’s. À medida que eles caminhavam na direção do armazém enorme, ela percebeu o brilho diabolicamente laranja do Camaro no estacionamento tomado pela vegetação e, a apenas cem metros de distância, um helicóptero azul-marinho cintilante.
Blue não tinha acreditado realmente na parte do helicóptero. Não de uma maneira que a preparasse para ver um helicóptero de verdade, em tamanho real, parado ali no estacionamento, parecendo algo normal, como alguém estacionava uma camionete.
Blue parou no acesso e suspirou:
— Uau.
— Eu sei — disse Adam.
E ali, mais uma vez, estava Gansey, e mais uma vez Blue sentiu um choque estranho ao reconciliar a imagem dele como o espírito e a realidade dele ao lado de um helicóptero.
— Finalmente! — ele gritou, trotando na direção deles. Gansey ainda estava usando os mocassins ridículos que ela observara na leitura, dessa vez com uma bermuda cargo e uma camisa polo amarela que o fazia parecer preparado para qualquer tipo de emergência, desde que a emergência envolvesse um iate. Na mão, ele segurava uma garrafa de suco de maçã orgânico.
Ele apontou seu suco sem pesticidas para Blue:
— Você vem com a gente?
Assim como na leitura, Blue se sentiu barata, pequena e estúpida apenas por estar na presença dele. Podando suas vogais de Henrietta da melhor forma que pôde, ela respondeu:
— No helicóptero que está aí à sua disposição, é isso?
Gansey jogou uma mochila de couro polido sobre os ombros de algodão polido. Seu sorriso era cortês e generoso, como se a mãe de Blue não tivesse recentemente se recusado a ajudá-lo, como se ela não tivesse sido praticamente rude.
— Você fala como se fosse algo ruim.
Atrás dele, o helicóptero começou a troar. Adam estendeu o diário para Gansey, que pareceu surpreso. Apenas um pouquinho de sua compostura cedeu, o suficiente para Blue ver uma vez mais que aquilo era parte de sua máscara de Presidente Celular.
— Onde ele estava? — berrou Gansey.
Ele tinha de gritar. Agora que estavam girando, as hélices do helicóptero praticamente vociferavam. O ar batia contra os ouvidos de Blue, mais como um sentimento do que como um som.
Adam apontou para Blue.
— Obrigado — Gansey gritou de volta. Foi uma resposta vazia, ela percebeu; ele retomava sua formalidade poderosa quando era tomado de surpresa. Ele ainda estava observando Adam também, seguindo suas deixas de como deveria reagir a ela. Adam anuiu uma vez, brevemente, e a máscara escorregou um pouco mais.
Blue se perguntou se a conduta de Presidente Celular chegava a sumir completamente quando ele estava com os amigos. Talvez o Gansey que ela vira no adro da igreja era o que se encontrava em seu íntimo.
Era um pensamento desalentador.
O ar rugia à volta deles. Blue achou que o vestido dela voaria longe. Então perguntou:
— Essa coisa é segura?
— Segura como a vida — respondeu Gansey. — Adam, estamos atrasados! Blue, se você vem com a gente, prepare-se e vamos nessa.
Enquanto ele se abaixava para se aproximar do helicóptero, sua camisa tremulou.
Subitamente, Blue se sentiu um pouco nervosa. Não era que ela estivesse assustada, exatamente. Era só que não havia se preparado psicologicamente para deixar o chão com um monte de garotos corvos quando acordara de manhã. O helicóptero, apesar de todo seu tamanho e ruído, parecia algo bastante frágil para confiar sua vida, e os garotos pareciam estranhos. Agora, parecia que ela estava verdadeiramente desobedecendo a Maura.
— Eu nunca voei antes — ela confessou para Adam, um grito alto o suficiente para sobrepujar o lamento do helicóptero.
— Nunca? — ele gritou de volta.
Ela balançou a cabeça, e ele colocou a boca contra o ouvido dela, de maneira que ela pudesse ouvi-lo. Adam cheirava a verão e xampu barato. Ela sentiu cócegas do umbigo aos pés.
— Eu voei uma vez — ele respondeu. Sua respiração era quente na pele dela. Blue estava paralisada; tudo que podia pensar era: Isso é tão próximo quanto um beijo deve ser. Parecia tão perigoso quanto ela imaginara. Ele acrescentou: — E odiei.
Um momento se passou com ambos imóveis. Ela precisava lhe dizer que ele não podia beijá-la — para o caso de ser seu verdadeiro amor. Mas como ela poderia? Como ela poderia dizer isso para um garoto sem nem saber se ele queria realmente beijá-la?
Blue o sentiu pegar sua mão. A palma dele estava suada. Ele realmente odiava voar.
Na porta do helicóptero, Gansey olhou sobre o ombro para eles, com um sorriso confuso quando os viu de mãos dadas.
— Eu odeio isso — Adam gritou para ele, com as bochechas vermelhas.
— Eu sei — Gansey berrou de volta.
Dentro do helicóptero, havia espaço para três passageiros em um banco nos fundos, e um assento utilitário ao lado do piloto. O interior teria lembrado o banco de trás de um carro enorme se os cintos de segurança não tivessem fechos de cinco pontos que pareciam pertencer a um caça de Guerra nas estrelas. Blue não gostava de pensar por que os passageiros tinham de ser amarrados de maneira tão segura; possivelmente estavam esperando que as pessoas fossem jogadas contra as paredes.
Ronan, o garoto corvo mais corvo que os outros, já estava instalado em um assento de janela. Ele não sorriu quando olhou para ela. Adam, dando um soco no braço de Ronan, assumiu o assento do meio, enquanto Blue pegou o da janela restante. Enquanto ela brincava com as faixas do cinto de segurança, Gansey se inclinou para dentro da cabine para cumprimentar Adam com um toque de mãos.
Alguns minutos mais tarde, quando Gansey subiu no assento da frente ao lado do piloto, ela viu que ele sorria largamente, efusivo e sincero, incrivelmente animado de estar indo para onde quer que eles estivessem indo. Não era nada como sua compostura refinada de momentos atrás. Era uma alegria íntima que ela conseguia sentir em virtude de estar no helicóptero e, de uma hora para outra, ela se sentiu animada também.
Adam se inclinou para ela como se estivesse prestes a dizer algo, mas, no fim, apenas balançou a cabeça, sorrindo, como se Gansey fosse uma piada complicada demais para explicar.
Na frente, Gansey se virou para o piloto, que surpreendeu um pouco Blue — uma jovem com o nariz incrivelmente reto, o cabelo castanho preso em um belo coque, fones de ouvido segurando alguns fios soltos. Ela parecia achar a proximidade de Blue e Adam bem mais interessante que Gansey.
A piloto gritou para Gansey:
— Não vai nos apresentar, Dick?
Ele fez uma careta.
— Blue — disse —, gostaria de lhe apresentar minha irmã, Helen.

5 comentários:

  1. Nem conheço, mas essa Helen parece ser um mulherão
    Ela dirige um helicóptero

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  2. Gansey é o meu raiozinho de sol. Que fofinho esse menino

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  3. "— Segura como a vida — respondeu Gansey." ah qe otimo, vindo do garoto qe ta com um pé na cova!
    To quase shippando a Helen comigo hahaha

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Boa leitura, E SEM SPOILER!