26 de junho de 2018

Capítulo 20


Dentro da casa da fazenda, tudo estava em preto e branco. O ar estava carregado permanentemente com a fragrância agradável da infância de Ronan: buxo e fumaça de nogueira, sementes de capim e desinfetante de limão.
— Eu lembro — disse Gansey pensativo para Ronan — quando você costumava ter esse cheiro.
Gansey cacarejou ao ver seu reflexo enlameado no espelho de moldura escura pendurado no corredor. Motosserra olhou para si mesma brevemente antes de se esconder do outro lado do pescoço de Ronan; Adam fez o mesmo, mas sem a parte de se esconder no pescoço de Ronan. Até Blue parecia menos caprichosa que de costume, a iluminação proporcionando ao vestido em forma de abajur e ao cabelo cheio de pontas um ar de Pierrô melancólico.
— O lugar parece o mesmo de quando vocês moravam aqui — disse Gansey por fim.
— Eu achei que teria mudado.
— Você vinha muito aqui? — perguntou Blue.
Ele trocou um olhar de relance com Ronan.
— Razoavelmente.
Ele não disse o que Ronan estava pensando, que Gansey era muito mais um irmão para ele do que Declan jamais havia sido.
Com a voz sumida, Adam perguntou:
— A gente pode tomar uma água?
Ronan os levou até a cozinha. Era uma cozinha de casa de fazenda, sem luxo, desgastada pelo uso. Não havia sido reformada ou atualizada desde que parara de funcionar, e assim o aposento era um amálgama de décadas e estilos: armários brancos simples, decorados com uma combinação de puxadores antigos de vidro e maçanetas de bronze, balcões que eram metade madeira nova para cortar carnes e metade laminado encardido, aparelhos que eram uma mistura de branco neve e aço inoxidável polido.
Com Blue e Adam ali, Ronan viu a Barns com novos olhos. Aquele não era o dinheiro antigo, pretensioso e belo da família de Gansey. Aquela casa era de uma riqueza maltrapilha, que traía sua fortuna não com cultura ou atmosfera, mas porque não faltava comodidade alguma: antiguidades e potes de cobre que não combinavam entre si, arte pintada à mão de verdade nas paredes e tapetes trançados à mão de verdade no chão.
Onde a casa ancestral de Gansey era um museu de coisas elegantes e remotas que você não podia tocar, a Barns era um viveiro de mesas de sinuca e colchas artesanais, cabos de videogame e sofás de couro terrivelmente caros.
Ronan amava tudo aquilo. Quase não conseguia suportar. Ele queria destruir algo. Em vez disso, disse:
— Lembra que eu te contei que o papai... que o meu pai era como eu? — Ele apontou para a torradeira. Era uma torradeira de aço inoxidável comum, com espaço para duas fatias de pão.
Gansey ergueu uma sobrancelha.
— Isso? É uma torradeira.
— Torradeira de sonho.
Adam riu sem fazer nenhum ruído.
— Como você sabe? — perguntou Gansey.
Ronan afastou a torradeira da parede. Não havia tomada ou painel de bateria. No entanto, quando você pressionava a alavanca, os filamentos ali dentro começavam a brilhar. Por quantos anos ele havia usado aquela torradeira antes de perceber que aquilo era impossível?
— Qual é a fonte de energia, então? — perguntou Adam.
— Energia de sonho — disse Ronan. Motosserra pulou desordenadamente do ombro dele para o balcão e teve de ser afastada do eletrodoméstico. — A mais limpa que há.
As sobrancelhas sujas de terra de Adam se ergueram. Ele respondeu:
— Políticos não gostariam disso. Nada contra sua mãe, Gansey.
— Sem problemas — disse Gansey cordialmente.
— Ah, e isso — disse Ronan, apontando para o calendário na frente da geladeira. Blue folheou o calendário. Ninguém estivera ali para mudar o mês, mas isso não tinha importância. Cada página era a mesma — doze páginas em abril, cada foto exibindo três pássaros negros sobre uma cerca. Houvera uma época em que Ronan acreditara que aquilo era só um truque de apresentação. Mas agora ele podia reconhecer prontamente o artefato de um sonho frustrado. Blue espiou os pássaros, o nariz quase tocando a imagem.
— São urubus ou corvos?
Ao mesmo tempo em que Ronan disse “corvos”, Adam disse “urubus”.
— O que mais tem aqui? — perguntou Gansey, usando sua voz profundamente curiosa e seu rosto profundamente curioso, que ele reservava normalmente para todas as coisas relativas a Glendower. — Quer dizer, coisas de sonho?
— E eu vou saber? — respondeu Ronan. — Nunca fiz um estudo.
— Então vamos fazer — disse Gansey.
Os quatro deixaram a geladeira, abrindo armários e repassando os itens sobre o tampo do balcão.
— O telefone não conecta na parede — observou Adam, virando um velho telefone de discar de cabeça para baixo para examiná-lo. — Mas ainda tem sinal.
Na era dos telefones celulares, Ronan achou aquela descoberta profundamente desinteressante. Ele encontrara havia pouco um lápis que na realidade era uma caneta; embora o arranhão exploratório de uma unha sobre a ponta tivesse revelado se tratar de um lápis apontado, ela gerava uma linha perfeita de tinta azul quando arrastada sobre o bloco de notas ao lado da lata de canetas.
— O micro-ondas também não está conectado — disse Adam.
— Aqui tem uma colher com duas extremidades — acrescentou Gansey.
Um lamento agudo tomou conta da cozinha; Blue tinha descoberto que, ao girar o assento de um dos bancos altos, ele emitia um gemido que soava um pouco como “The Wind that Shakes the Barley” tocada diversas vezes mais rápido do que deveria. Ela o girou algumas vezes para ver se ele ia até o fim da canção. Não ia. Produto de outro sonho frustrado.
— Maldita — disse Gansey, largando uma faca sobre o balcão e sacudindo a mão. — Ela está incandescente. — Mas não estava. A lâmina era de aço inoxidável comum, e seu calor era percebido apenas pelo ligeiro odor do verniz do balcão, que derretia sob ela. Ele bateu no cabo algumas vezes para verificar que a faca inteira estava quente, não apenas a lâmina, e então usou um pano de prato para recolocá-la no aparador.
Ronan tinha parado de procurar a sério e estava só abrindo e fechando gavetas pelo prazer de ouvi-las bater. Ele não tinha certeza do que era pior: partir ou a expectativa de partir.
— Bem, isso não é nem um pouco frustrante — observou Adam, mostrando uma fita métrica que havia encontrado. A fita chegava a setenta e seis centímetros e não mais. — Eu teria jogado isso fora na manhã seguinte.
— Perfeito para medir caixas de pão — observou Gansey. — Talvez tenha valor nostálgico.
— E que tal isso? — Do corredor, Blue tocou a pétala de um lírio azul perfeito.
Era um de uma dúzia reunida em um buquê sobre a mesinha do corredor. Ronan nunca dera muita atenção para as flores, mas, quando dera, ele sempre presumira que fossem falsas, uma vez que o vaso onde elas estavam nunca tivera água. Os lírios, brancos e azuis, eram grandes e aveludados, com estames dourados e espumosos, como ele jamais vira em outro lugar. Pensando bem, ele devia ter percebido. Adam arrancou um botão e virou a extremidade úmida do talo para os outros dois garotos.
— Elas estão vivas.
Esse era o tipo de coisa ao qual Gansey não conseguia resistir, e assim Adam e Ronan seguiram pelo corredor até a sala de jantar enquanto Gansey se demorava sobre as flores. Quando Ronan olhou sobre o ombro, Gansey estava parado, segurando uma flor na mão em concha. Havia algo de humilde e encantado no modo como ele estava parado, algo de grato e desejoso em seu rosto enquanto encarava a flor. Era uma expressão estranhamente deferente.
De alguma maneira, isso deixou Ronan ainda mais bravo. Ele se virou rapidamente antes que Gansey pudesse perceber seu olhar. Na sala de jantar cinza-clara, Adam estava tirando uma máscara de madeira de um gancho na parede.
Era entalhada em madeira escura e lisa, e parecia um suvenir barato para turistas. As órbitas dos olhos eram redondas e surpresas, a boca aberta em um sorriso franco, grande o suficiente para montes de dentes.
Ronan deu um salto.
— Não.
A máscara caiu ruidosamente no chão. Sobressaltado, Adam ficou olhando fixamente para onde a mão de Ronan segurava seu pulso. Ronan podia sentir o próprio coração batendo forte e, no pulso de Adam, o coração deste.
Ao mesmo tempo, ele o soltou e deu um passo para trás. Então pegou a máscara e a pendurou de volta na parede, mas seu pulso não baixou. Ele não olhou para Adam.
— Não faça isso — ele disse. Mas ele não sabia o que estava dizendo para Adam não fazer. Era possível que a versão de seu pai da máscara fosse inteiramente inofensiva. Era possível que ela só se tornasse mortal na cabeça de Ronan.
Subitamente, Ronan não suportava mais nada daquilo, os sonhos de seu pai, sua casa de infância, sua própria pele.
Ele deu um soco na parede. Os nós de seus dedos acertaram o estuque, e o estuque o acertou de volta. Ele sentiu o momento em que sua pele se partiu. Ele havia deixado uma ligeira marca de ira na parede, mas ela não havia rachado.
— Ah, por favor, Lynch — disse Adam. — Você está tentando quebrar a mão?
— O que foi isso? — perguntou Gansey da outra sala.
Ronan não fazia ideia do que era, mas fez aquilo de novo. E então chutou uma das cadeiras da sala de jantar. Jogou uma cesta alta cheia de flautas doces e de metal contra a parede. Arrancou um punhado de molduras pequenas de seus suportes. Ele estava irado antes, mas agora não era nada. Apenas nós dos dedos e centelhas de dor.
Abruptamente, seu braço parou em meio a um golpe.
O aperto de Gansey era firme, e sua expressão, a cinco centímetros de Ronan, não era divertida. Sua fisionomia era ao mesmo tempo jovem e velha. Mais velha que jovem.
— Ronan Lynch — ele disse. Era a voz que Ronan não conseguia suportar. Ela era convicta, de todas as maneiras que Ronan não conseguia ser. — Pare com isso agora mesmo. Vá ver a sua mãe. E depois vamos embora.
Gansey segurou o braço de Ronan um segundo a mais para ter certeza de que ele compreendera, e então o largou e se virou para Adam.
— Você ia ficar parado aí?
— Ãhã — respondeu Adam.
— Que decente da sua parte — disse Gansey.
Não havia calor na resposta de Adam.
— Não posso matar os demônios dele.
Blue não disse uma palavra, mas esperou no vão da porta até que Ronan se juntasse a ela. E então, enquanto os outros dois começaram a arrumar a sala de jantar, ela o acompanhou até a sala de estar.
Não era realmente uma sala de estar; ninguém mais precisava de uma sala de estar.
Em vez disso, havia se tornado um depósito para tudo que parecia não pertencer a nenhum outro lugar. Três cadeiras de couro descombinadas estavam posicionadas de frente umas para as outras sobre o assoalho de madeira irregular — essa era a parte do estar. Vasos de cerâmica altos e delgados continham guarda-chuvas e espadas sem fio.
Botas de borracha e pulas-pulas estavam alinhados nas paredes. Tapetes formavam rolos apertados de tapeçaria em um canto; um deles estava marcado com uma nota adesiva que dizia “esse não” na caligrafia de Niall. Um estranho candelabro de ferro, que fazia lembrar órbitas planetárias, estava pendurado no centro da sala. Niall provavelmente o tinha sonhado. Certamente os outros dois candelabros que ficavam pendurados nos cantos, meio acessórios de iluminação, meio plantas em vasos, também eram coisas sonhadas. Provavelmente tudo ali era. Só agora que Ronan estivera longe da casa ele podia ver quão cheia de sonhos ela era.
E ali, no meio de tudo, estava sua bela mãe. Ela tinha uma plateia silenciosa de cateteres, dispositivos intravenosos e tubos de alimentação — todas as coisas que as enfermeiras que a acompanhavam sempre acharam que ela precisaria. Mas ela não pedia nada. Era uma rainha sedentária de um poema épico antigo: cabelo dourado penteado para o lado, emoldurando o rosto pálido, bochechas coradas, lábios vermelhos como o diabo, olhos tranquilamente fechados. Ela não se parecia nem um pouco com seu marido carismático e seus filhos problemáticos.
Ronan caminhou diretamente até ela, próximo o suficiente para ver que ela não tinha mudado nada desde a última vez que ele a vira, meses e meses atrás.
Embora a respiração de Ronan movesse os cabelos finos em torno das têmporas dela, ela não reagiu à presença do filho.
O peito dela subia e descia. Seus olhos permaneciam fechados.
Non mortem, somni fratrem. Não a morte, mas seu irmão, o sono.
Blue sussurrou:
— Que nem os outros animais.
A verdade — Ronan sempre a soubera, na realidade, se pensasse a respeito — se internalizou nele. Blue estava certa.
Sua casa era povoada por coisas e criaturas dos sonhos de Niall Lynch, e sua mãe era apenas mais uma delas.

2 comentários:

  1. Como conseguir a/o mulher/homem dos seus sonhos? Pfff, sonhando com ela/e, é claro!

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  2. Nossa!! Tudo encantado??

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Boa leitura, E SEM SPOILER!