20 de junho de 2018

Capítulo 20

Ao mesmo tempo em que as flores estavam sendo entregues para o número 300 na Rua Fox, Adam chegava à Indústria Monmouth com sua bicicleta de certa maneira patética. Ronan e Noah já estavam na rua no terreno coberto de vegetação, construindo rampas de madeira para algum propósito pouco recomendável.
Ele tentou duas vezes persuadir o descanso enferrujado a segurar a bicicleta de pé antes de largá-la de lado. O capim se enfiava pelos raios das rodas. Ele perguntou:
— Quando você acha que o Gansey vai chegar aqui?
Ronan não respondeu imediatamente. Ele estava deitado debaixo do BMW, medindo a largura dos pneus com uma trena amarela.
— Vinte e cinco centímetros, Noah.
Parado ao lado de uma pilha de madeira compensada, Noah perguntou:
— Só isso? Não parece muito.
— Eu mentiria para você? Vinte e cinco centímetros — disse Ronan, empurrando-se para sair debaixo do carro e levantando os olhos para Adam. Ele havia deixado a sombra de barba malfeita se tornar uma barba de vários dias, provavelmente para alfinetar a incapacidade de Gansey de deixar crescer pelos na cara. Agora parecia o tipo de pessoa da qual as mulheres esconderiam as bolsas e os bebês.
— Vai saber. Que horas ele disse?
— Três.
Ronan se pôs de pé e os dois se viraram para observar Noah trabalhando com os compensados para as rampas. Trabalhando com na verdade queria dizer olhando para. Noah mantinha os indicadores a vinte e cinco centímetros um do outro e, através do espaço entre eles, olhava perplexo para a madeira abaixo. Não havia ferramentas à vista.
— O que você vai fazer com essas coisas? — perguntou Adam.
Ronan abriu seu sorriso de lagarto.
— Uma rampa. BMW. A maldita lua.
Isso era tão típico de Ronan. Seu quarto dentro da Monmouth estava cheio de brinquedos caros, mas, como uma criança mimada, ele terminava brincando na rua com galhos.
— A trajetória que você está construindo não sugere uma lua — respondeu Adam. — Sugere o fim da sua suspensão.
— Não preciso da sua opinião, cientista.
E ele provavelmente não precisava. Ronan não precisava de física. Ele podia intimidar até um pedaço de compensado a fazer o que ele queria. Agachando-se ao lado da bicicleta, Adam mexia de novo no descanso, tentando ver se ele conseguiria soltá-lo sem quebrá-lo inteiramente.
— Qual é o seu problema, mesmo? — perguntou Ronan.
— Estou tentando decidir quando eu devo ligar para Blue.
Dizer isso em voz alta era como um convite à gozação de Ronan, mas tratava-se de um daqueles fatos que precisavam ser reconhecidos.
Noah disse:
— Ele mandou flores para ela.
— Como você sabe? — demandou Adam, mais mortificado que curioso.
Noah sorriu distante e soltou com um chute uma das placas do compensado, parecendo vitorioso.
— Para a médium? Você sabe o que era aquele lugar? — perguntou Ronan.— Um palácio de castração. Se você sair com essa garota, é melhor mandar suas bolas em vez de flores.
— Você é um neandertal.
— Às vezes você parece o Gansey falando — disse Ronan.
— Às vezes você não.
Noah deu sua risada suspirada, quase sem som. Ronan cuspiu no chão ao lado do BMW.
— Eu não tinha me dado conta de que o tipo favorito de Adam Parrish eram “anãs” — disse ele.
Ele não estava falando sério, mas Adam se sentiu, de uma hora para outra, cansado de Ronan e de sua inutilidade. Desde o dia da briga no Nino’s, Ronan já havia recebido diversas advertências em sua caixa de estudante em Aglionby, avisando-o sobre as coisas terríveis que aconteceriam se ele não começasse a melhorar suas notas. Se ele não começasse a tentar tirar notas. Em vez disso, Ronan estava ali, construindo rampas.
Algumas pessoas invejavam o dinheiro de Ronan. Adam invejava seu tempo. Ser tão rico quanto Ronan significava ser capaz de ir à escola e não fazer mais nada, ter intervalos preciosos de tempo nos quais ele podia estudar, escrever ensaios e dormir. Adam não admitiria para ninguém, muito menos para Gansey, mas ele estava cansado. Cansado de ter de encontrar tempo para fazer a tarefa de casa entre seus empregos de meio período, de encontrar tempo para dormir, encontrar tempo para a caçada a Glendower. Os empregos pareciam um tamanho desperdício de tempo: em cinco anos, ninguém se importaria se ele havia trabalhado em uma fábrica de trailers. As pessoas só se importariam em saber se ele havia se formado em Aglionby com notas perfeitas, ou se havia encontrado Glendower, ou se ainda estava vivo. E Ronan não tinha de se preocupar com nada disso.
Dois anos antes, Adam havia decidido ir para Aglionby, e, na sua cabeça, Ronan tinha algo a ver com isso. Sua mãe o mandara para o supermercado com o cartão bancário dela — tudo que havia na esteira era um tubo de pasta de dentes e quatro latas de ravióli de micro-ondas —, e a caixa dissera naquele instante que não havia fundos na conta bancária para pagar a compra. Embora não fosse sua culpa, havia algo peculiarmente humilhante e íntimo a respeito do momento, curvado numa fila de supermercado, revirando os bolsos para fingir que talvez tivesse dinheiro para pagar a conta. Enquanto ele procurava, um garoto de cabelo raspado na fila da outra caixa seguiu rapidamente, passou o cartão de crédito e ensacou suas coisas em poucos segundos.
Até a maneira como o garoto havia se deslocado, lembrou Adam, havia chamado sua atenção: confiante e despreocupado, com os ombros jogados para trás, o queixo empinado, o filho de um imperador. Enquanto a caixa passava o cartão mais uma vez, ambos fingindo que a máquina poderia ter lido errado a fita magnética, Adam observava o garoto sair para a calçada onde um carro preto brilhante o esperava. Quando ele abriu a porta, Adam viu que havia outros dois garotos usando gravatas e blusões com um corvo no peito. Pareciam desprezivelmente despreocupados enquanto dividiam as bebidas.
Ele tivera de deixar as latas e a pasta de dentes na esteira, os olhos queimando com lágrimas de vergonha que não caíam.
Desde então, ele nunca quisera tanto ser outra pessoa.
Na sua cabeça, aquele garoto era Ronan, mas, em retrospectiva, Adam pensou que aquilo seria impossível. Ele não teria idade suficiente para ter carteira de motorista. Era apenas outro estudante de Aglionby com um cartão de crédito ilimitado e um carro bacana. Aquele dia não fora a única razão pela qual ele decidira lutar para entrar na Aglionby, mas fora um catalisador. A memória imaginada de Ronan, despreocupado e superficial, mas com o orgulho absolutamente intacto, e Adam, acovardado e humilhado, enquanto uma fila de senhoras esperava atrás dele.
Ele ainda não era aquele outro garoto na caixa registradora, mas estava mais próximo.
Adam olhou para o relógio velho e castigado, para ver o tamanho do atraso de Gansey, e disse para Ronan:
— Me passe seu telefone.
Com uma sobrancelha erguida, Ronan pegou o telefone do teto do BMW.
Adam digitou o número da médium. Tocou apenas duas vezes, e então uma voz suspirada disse:
— Adam?
Sobressaltado com o som do seu nome, ele respondeu:
— Blue?
— Não — disse a voz. — Persephone. — Em seguida, disse para alguém ao fundo: — Dez dólares, Orla. Essa foi a aposta. Não, a identidade de quem está fazendo a chamada não está aparecendo. Está vendo? — Então, de volta para Adam: — Desculpe, viu? Eu sou terrível quando há uma disputa envolvida. Você é o garoto da camiseta da Coca-Cola, certo?
Adam levou um momento para se dar conta de que ela se referia à camiseta que ele usara no dia da leitura.
— Ah, hum... Sou.
— Que bom. Vou chamar a Blue.
Houve um instante breve e desconfortável enquanto vozes murmuravam ao fundo. Adam se defendia dos mosquitos aos tapas; era preciso cortar a grama do estacionamento de novo. Estava difícil ver o asfalto em alguns lugares.
— Não achei que você fosse ligar — disse Blue.
Adam não devia estar esperando realmente ouvir Blue ao telefone, pois a surpresa que ele sentiu quando ouviu a voz dela fez seu estômago parecer vazio. Ronan dava risadinhas de um jeito que o fez pensar em lhe dar um soco no braço.
— Eu disse que ia ligar.
— Obrigada pelas flores. São bonitas. — Então sussurrou: — Orla, sai daqui!
— Parece agitado por aí.
— Está sempre agitado por aqui. Tem trezentas e quarenta e duas pessoas morando aqui, e todas elas querem estar nesse quarto. O que você vai fazer hoje? — Blue perguntou muito naturalmente, como se fosse a coisa mais lógica no mundo para eles terem uma conversa ao telefone, como se já fossem amigos.
Ficou mais fácil para Adam dizer:
— Explorar. Quer vir junto?
Ronan arregalou os olhos. Não importava o que ela dissesse agora, o telefonema havia valido a pena pela expressão de choque genuína no rosto de Ronan.
— Que tipo de exploração?
Protegendo os olhos, Adam ergueu a cabeça para o céu. Ele achou que estava ouvindo Gansey chegar.
— Montanhas. Qual a sua opinião a respeito de helicópteros?
Houve uma longa pausa.
— O que você quer dizer? Eticamente falando?
— Como um meio de transporte.
— Mais rápidos que camelos, mas menos sustentáveis. Tem um helicóptero no seu futuro hoje?
— Tem. O Gansey quer procurar a linha ley, e normalmente elas são mais fáceis de ser vistas do ar.
— E, é claro, ele simplesmente... arrumou um helicóptero.
— Ele é o Gansey.
Houve outra longa pausa. Uma pausa para refletir, pensou Adam, de maneira que não a interrompeu. Por fim, Blue disse:
— Ok, eu vou junto. Isso é um... O que é isso?
Adam respondeu com sinceridade:
— Não faço ideia.

9 comentários:

  1. Mas eu já tava shippando ela com o Gansey, af... já vi que vou ter de pesquisar no google se eles ficam juntos pra conseguir terminar a série

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    1. Só senta e aproveita. O Adam é um pé no saco, e ver ele e a Blue juntos é chato tb. Mas relaxa, no segundo livro vcs vão ter uma surpresa agradável ( ͡° ͜ʖ ͡°) sem contar que o romance nem é muito o foco desses livros, apesar de todo aquele negócio do "se a Blue beija o verdadeiro amor, ele morre" isso acaba sendo um "empecilho" pra qualquer pegação que possa se relacionar com ela, kkkkk

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  2. Estou amando o Ronan, acho que tenho queda por Bad Boy rsrsrs.

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  3. "— Vinte e cinco centímetros, Noah.
    Parado ao lado de uma pilha de madeira compensada, Noah perguntou:
    — Só isso? Não parece muito.
    — Eu mentiria para você? Vinte e cinco centímetros"

    Fora de contexto isso fica meio esquisito

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  4. Gostei tem vários protagonistas, não é um livro com só um ou dois mais vários fica mais enteressante assim

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    1. Sério? Eu acho o contrário, não gosto de livros em que o foco fica narrando assim... Prefiro que uma pessoa narre tudo.

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    2. Tbm achei chatinho essa narração. Pra mim não mostra totalmente os sentimentos dos personagens. Acaba faltando algo :/

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  5. Mas gente, vai morrer geral então?

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  6. Ah gente, até agora não tô conseguindo gostar desse livro. Não sei se paro ou prossigo. Continuo preferindo q a narração se foque em um pessoa só!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!