3 de junho de 2018

Capítulo 20

Uma bela ode aos botânicos
Musa, nos permita
Eles plantam coisas. Uau

NOSSO GRANDIOSO CONSELHO de guerra foi mais um conselho de tédio e descrença.
Graças à magia de Grover e às gosmas (quer dizer, cuidados) constantes de Aloe Vera, Piper e Meg aos poucos estavam se recuperando. Nós três até conseguimos tomar banho, nos vestir e andar por aí sem muitos gemidos de dor, mas ainda estávamos bem fracos. Toda vez que eu me levantava rápido demais, Calígulas dourados pequenininhos dançavam diante de meus olhos.
A zarabatana e a aljava de Piper, ambas heranças do avô, estavam destruídas. O cabelo dela estava chamuscado. Os braços queimados, brilhando com aloe, pareciam tijolos esmaltados. Ela ligou para o pai e avisou que passaria a noite com o grupo de estudos, acomodou-se em uma das alcovas da Cisterna com Mellie e Hedge, que a toda hora mandavam que ela bebesse mais água.
O bebê Chuck estava no colo de Piper, olhando hipnotizado para o rosto dela, como se fosse a coisa mais incrível do mundo.
Meg, por outro lado, não estava tão serena. Ela ficou sentada perto da piscina, emburrada, os pés na água, um prato de enchiladas de queijo no colo. Estava usando uma camiseta azul-bebê da Maluquice Militar do Macro com o desenho de um AK-47 sorridente e, logo abaixo, uma legenda: TIRINHOS - CLUBE DE ATIRADORES MIRINS. Ao lado dela estava Agave, visivelmente devastada, embora um espinho novo tivesse começado a crescer no local do braço queimado. Suas amigas dríades se aproximavam para oferecer fertilizante, água e enchiladas, mas Agave balançava a cabeça com tristeza, negando, os olhos fixos no amontoado de pétalas de árvore-de-jade em sua mão.
Fiquei sabendo que Jade tinha sido plantada na colina com honras supremas. Com sorte, ela reencarnaria como uma bela suculenta novinha em folha, ou talvez um esquilo de cauda branca. Jade amava esses esquilos.
Grover parecia exausto. As muitas horas tocando música curativa cobraram seu preço, sem mencionar o estresse de ter que voltar dirigindo até Palm Springs a uma velocidade nada segura no carro emprestado/ligeiramente roubado com cinco vítimas de queimaduras graves.
Quando estávamos todos reunidos, com condolências trocadas, enchiladas comidas, aloe espalhado, dei início à reunião.
— Tudo isso — anunciei — é minha culpa.
Vocês devem imaginar como dizer isso foi difícil para mim. Tais palavras não existiam no vocabulário de Apolo. Bem lá no fundo, eu nutria a esperança de que os sátiros, semideuses e dríades correriam até mim e diriam que nããão, eu não tinha culpa de nada.
Ninguém fez isso.
Continuei.
— O objetivo de Calígula era o mesmo desde sempre: se tornar um deus. Ele viu seus ancestrais imortalizados depois da morte: Júlio, Augusto, até o velho nojento do Tibério. Mas Calígula não queria esperar a morte. Ele foi o primeiro imperador romano a querer ser um deus vivo.
— Calígula já é uma espécie de deus agora, não é? — perguntou Piper. — Você disse que ele e os dois outros imperadores estão no mundo há milhares de anos. Então ele conseguiu o que queria.
— Em parte — concordei. — Mas ser qualquer coisa menor não basta para Calígula. Ele sempre sonhou em substituir algum olimpiano. Vivia brincando com a ideia de se tornar o novo Júpiter ou Marte. No final, ele decidiu ser — senti o gosto azedo na boca — o novo eu.
O treinador Hedge coçou a barbicha de bode. (Humm. Se um bode tem uma barbicha de bode, podemos chamá-la apenas de barbicha?) — Mas e aí? O que acontece? Calígula mata você, coloca um crachá com Oi, eu sou Apolo! e entra no Olimpo torcendo para ninguém notar?
— Ele vai fazer pior do que me matar — falei. — Vai consumir minha essência, junto com a essência de Hélio, para se tornar o novo deus do Sol.
Figo-da-índia se irritou.
— E os outros olimpianos permitiriam isso?
— Os olimpianos — falei, com amargura — permitiram que Zeus tirasse meus poderes e me largasse na Terra. Fizeram metade do trabalho de Calígula por ele. Não vão mover um fio de cabelo divino para interferir. Como sempre, vão esperar que os heróis consertem as coisas. Se Calígula se tornar o novo deus do Sol, eu já era. Para sempre. Não vou mais existir. É para isso que Medeia vem se preparando no Labirinto de Fogo. O lugar é uma panela gigantesca para fazer sopa de deus do Sol.
Meg franziu o nariz.
— Que nojo.
Pela primeira vez, eu concordava totalmente com minha amiga.
Parado nas sombras, Josué cruzou os braços.
— Então são os fogos de Hélio que estão matando nossa terra?
Eu abri as mãos.
— Bom, os humanos não estão ajudando. Mas, além da poluição e da mudança climática de sempre, sim, o Labirinto de Fogo foi o que detonou tudo. O que sobrou do titã Hélio está agora perambulando por essa seção do Labirinto embaixo do sul da Califórnia, transformando lentamente a parte de cima em um deserto escaldante.
Agave tocou no rosto queimado. Quando se virou para me encarar, seu olhar estava tão afiado quanto os espinhos.
— Se Medeia conseguir completar o ritual, todo o poder vai para Calígula? O Labirinto vai parar de queimar e nos matar?
Eu nunca pensei em cactos como formas de vida particularmente cruéis, mas ao ser escrutinado pelas outras dríades, consegui imaginá-las me enrolando com uma fita bem bonita, pendurando em mim um cartão que dizia PARA CALÍGULA, COM AMOR. ASS: NATUREZA e deixando o embrulho na porta do imperador.
— Pessoal, isso não vai ajudar em nada — disse Grover. — Calígula é responsável pelo que está acontecendo conosco agora. Ele não está nem aí para os espíritos da natureza. Vocês querem mesmo dar a ele o poder total de um deus do Sol?
As dríades murmuraram em concordância, embora ainda relutantes. Santo Grover. Tenho que me lembrar de enviar a ele um cartão bem bonito no Dia Mundial dos Bodes.
— Então, o que a gente faz? — perguntou Mellie. — Não quero que meu filho cresça em um deserto queimado.
Meg tirou os óculos.
— A gente mata o Calígula.
Era perturbador ouvir uma garota de doze anos falando com tanta frieza sobre assassinato. Mais perturbador ainda era saber que eu estava tentado a concordar com ela.
— Meg — falei —, talvez isso não seja possível. Você se lembra de Cômodo. Ele era o mais fraco dos três imperadores, e o máximo que conseguimos foi expulsá-lo de Indianápolis. Calígula é bem mais poderoso, deve ter muito mais reforços.
— Tô nem aí — murmurou ela. — Ele machucou meu pai. Ele fez… tudo isso — disse, indicando os arredores.
— O que você quer dizer com tudo isso? — perguntou Josué.
Meg olhou para mim como quem diz Sua vez.
Mais uma vez, expliquei o que vira nas lembranças de Meg: o passado de Aeithales, o terrorismo jurídico e financeiro que Calígula deve ter usado para acabar com o trabalho de Phillip McCaffrey, o jeito como Meg e o pai dela tiveram que fugir antes de seu lar ir para o espaço.
Josué franziu a testa.
— Eu me lembro de um saguaro chamado Hércules, da primeira estufa. Um dos poucos que sobreviveram ao incêndio da casa. Era um dríade velho e forte, sempre com dor por causa das queimaduras, mas lutando para sobreviver. Ele sempre falava de uma garotinha que morava na casa. Dizia esperar seu retorno. — Josué se virou para Meg, impressionado. — Era você?
Meg limpou uma lágrima da bochecha.
— Ele não sobreviveu?
Josué balançou a cabeça.
— Ele morreu alguns anos atrás. Sinto muito.
Agave segurou a mão de Meg.
— Seu pai era um grande herói — disse a dríade. — Ele com certeza fez tudo que estava ao seu alcance para ajudar as plantas.
— Ele era… botânico — disse Meg, pronunciando a palavra com se tivesse acabado de lhe ocorrer.
As dríades baixaram a cabeça. Hedge e Grover tiraram os chapéus.
— Queria saber o que seu pai planejava fazer com aquelas sementes reluzentes — disse Piper. — Como foi que Medeia chamou você mesmo? Descendente de Plemneu?
As dríades soltaram um arquejo coletivo.
— Plemneu? — perguntou Reba. — Aquele Plemneu? Ele é famoso até na Argentina!
— Famoso? — perguntei.
Fig riu com deboche.
— Ah, deixa de besteira, Apolo! Você é um deus. Deve conhecer o grande herói Plemneu!
— Hum… — Queria muito culpar minha memória mortal falha, mas eu tinha quase certeza de que nunca tinha ouvido aquele nome, mesmo quando estava no Olimpo. — Que monstro ele matou?
Aloe se afastou de mim, como se não quisesse estar na linha de fogo quando as outras dríades disparassem seus espinhos na minha direção.
— Apolo — repreendeu Reba —, um deus da cura deveria ser mais bem informado.
— Hum, com certeza — concordei. — Mas, hum, informado sobre quem, exatamente…?
— Típico — murmurou Fig. — Os assassinos são lembrados como heróis. Os cultivadores são esquecidos. Menos por nós, espíritos da natureza.
— Plemneu foi um rei grego — explicou Agave. — Um homem nobre, mas seus filhos nasceram com uma maldição. Se algum deles chorasse, uma única vez sequer, ainda que bebês ou durante a infância, eles morreriam na mesma hora.
Eu não sabia bem como isso tornava Plemneu um homem nobre, mas assenti com educação.
— O que aconteceu?
— Ele suplicou ajuda a Deméter — disse Josué. — A própria deusa criou o próximo filho dele, Ortópolis. Em agradecimento, Plemneu construiu um templo para a deusa. Desde então, os descendentes dele se dedicam ao trabalho de Deméter. Sempre são grandes agricultores e botânicos.
Agave apertou a mão de Meg.
— Agora entendo por que seu pai conseguiu construir Aeithales. O trabalho dele devia ser muito especial. Ele não só veio de uma longa linhagem de heróis de Deméter, como atraiu a atenção da própria deusa, sua mãe. Nós estamos honrados de receber você de volta em casa.
— Em casa — concordou Figo-da-índia.
— Em casa — ecoou Josué.
Meg tentou conter as lágrimas.
Pareceu um momento excelente para uma grande roda de violão. Imaginei as dríades se abraçando e se espetando enquanto cantavam “We Are the World”. Eu até cogitei tocar algo no ukulele.
O treinador Hedge nos trouxe de volta à dura realidade.
— Isso tudo é ótimo. — Ele se virou para Meg e fez um aceno respeitoso. — Garota, seu pai devia ser um cara e tanto. Mas, a menos que ele tenha plantado alguma arma secreta, não sei como essa informação vai nos ajudar. Ainda temos um imperador para matar e um Labirinto para destruir.
— Gleeson… — repreendeu Mellie.
— E eu estou errado? — retrucou ele.
Ninguém se pronunciou.
Grover encarou os cascos, desolado.
— O que a gente faz, então?
— Nós seguimos o plano — falei. A certeza na minha voz pareceu surpreender todo mundo. Surpreendeu a mim. — Nós vamos encontrar a Sibila Eritreia. Ela é mais do que uma isca. Ela é a chave de tudo. Tenho certeza.
Piper aninhou o bebê Chuck enquanto ele esticava a mão para a pena de harpia dela.
— Apolo, nós já tentamos percorrer o Labirinto. Você viu o que aconteceu.
— Jason Grace conseguiu — falei. — Ele encontrou o oráculo.
A expressão de Piper mudou.
— Pode ser. Mas, mesmo que você não acredite totalmente na feiticeira, Jason só encontrou o oráculo porque Medeia quis.
— Ela mencionou que havia outra forma de andar pelo labirinto — falei. — Os sapatos do imperador. Aparentemente, permitem que Calígula ande por lá sem problemas. Nós precisamos desses sapatos. Era isso que a profecia queria dizer: Percorrendo o caminho com as botas inimigas.
Meg limpou o nariz.
— Então você está dizendo que temos que encontrar a casa de Calígula e roubar os sapatos dele. Enquanto estiver lá, a gente não pode simplesmente matar esse idiota?
Ela fez essa pergunta casualmente, como quem diz: Nós podemos dar uma passadinha na padaria no caminho de casa?
Hedge apontou para McCaffrey.
— Estão vendo, isso é um plano. Gostei dessa garota.
— Amigos — falei, desejando usar o charme como Piper —, Calígula está vivo há milhares de anos. Ele é um deus menor. Nós não sabemos como matá-lo de vez, de forma que ele permaneça morto. Nós também não sabemos como destruir o Labirinto, e não queremos piorar as coisas libertando todo aquele calor divino na superfície. Nossa prioridade tem que ser a Sibila.
— Só porque é a sua prioridade? — resmungou Fig.
Eu resisti à vontade de gritar Dã!.
— Seja como for — continuei —, para descobrir o paradeiro do imperador, temos que falar com Jason Grace. Medeia mencionou que o oráculo disse a ele como encontrar Calígula. Piper, você pode nos levar até Jason?
Piper franziu a testa. A mãozinha do bebê Chuck segurava o dedo dela, puxando-o perigosamente para perto da boca.
— Jason está morando em um colégio interno em Pasadena — respondeu ela, por fim. — Não sei se ele vai me ouvir. Não sei se vai ajudar. Mas podemos tentar. Minha amiga Annabeth sempre diz que a informação é a arma mais poderosa.
Grover assentiu.
— Eu nunca discuto com Annabeth.
— Está decidido, então — falei. — Amanhã continuamos nossa missão. Vamos tirar Jason Grace da escola.

7 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!