3 de junho de 2018

Capítulo 2

Eu virei uma mochila
Nas costas de um sátiro
Pior. Manhã. Da minha vida

— PARE! — GRITOU GROVER. — A gente veio em paz!
A ave não pareceu dar ouvidos. Ela só não acertou o rosto do sátiro porque Meg interveio, brandindo as espadas. A estrige desviou com uma pirueta por entre as lâminas e pousou, ilesa, um pouco acima na rampa.
SCRIII! , gritou a criatura, eriçando as penas.
— Como assim, “você precisa nos matar”? — perguntou Grover.
Meg encarou o sátiro com desprezo.
— Você consegue falar com ela?
— Ué, claro. É um bicho, afinal.
— E por que não traduziu o que ela estava dizendo mais cedo? — perguntou a garota.
— Porque ela só estava gritando scriii! Agora ela está dizendo scriipreciso matar vocês.
Tentei mexer as pernas, mas pareciam ter virado sacos de cimento — o que achei meio engraçado. Ainda conseguia mover os braços e restava um pouco de sensação no peito, mas eu não sabia por quanto tempo.
— Que tal perguntar por que ela precisa nos matar? — sugeri.
— Scrii! — exclamou Grover.
Eu já estava me cansando dessa língua de estrige. A resposta veio numa série de guinchos e estalos de bico.
Enquanto isso, no corredor, as outras estriges berravam e se jogavam na barreira de plantas. Garras pretas e bicos dourados atacavam, preparando os tomates para o molho do picadinho que queriam fazer com a gente. Pelo que vi, tínhamos no máximo alguns minutos até a barreira ceder e as aves nos matarem. Mas, nossa, como aqueles bicos afiados como lâminas eram bonitinhos!
Grover esfregou as mãos, nervoso.
— A estrige está dizendo que foi enviada para beber nosso sangue, comer nossa carne e arrancar nossas vísceras, mas não necessariamente nessa ordem. Ela até pede desculpas, mas é uma ordem direta do imperador.
— Ai, esses imperadores idiotas — resmungou Meg. — Qual deles?
— Não sei. Ela só falou Scrii.
— Então você consegue traduzir vísceras, mas não consegue traduzir o nome do imperador? — indagou a garota.
Eu não tinha problema nenhum com isso. Desde Indianápolis eu não parava de pensar na Profecia das Sombras que recebemos na Caverna de Trofônio. Já tínhamos encontrado Nero e Cômodo, e eu tinha um palpite horrível sobre a identidade ainda não revelada do terceiro imperador. E, no momento, quanto menos eu soubesse, melhor. A euforia do veneno da estrige estava começando a passar, e eu estava prestes a ser comido vivo por uma coruja sanguessuga gigante.
Não precisava de mais motivos para chorar de desespero.
A estrige partiu para cima de Meg, que desviou e conseguiu acertar a cauda da ave com a espada, jogando a infeliz na parede oposta. Ela bateu de cara nos tijolos e explodiu em uma nuvem de pó e penas monstruosas.
— Meg! Eu falei para você não matar aquele bicho! — protestei. — Você vai ser amaldiçoada!
— Eu não matei. Ela se suicidou se jogando na parede.
— Duvido que as Parcas interpretem dessa forma.
— Então não vamos contar para elas.
— Gente... — chamou Grover, apontando para a barreira de plantas que ia sendo aberta pelo ataque de garras e bicos. — Se não podemos matar as estriges, talvez seja melhor fortalecer esses tomateiros, não?
Ele tocou a flauta. Meg transformou as espadas de volta em anéis e estendeu as mãos para os tomateiros. Os caules engrossaram, e as raízes tentaram se fincar no piso de pedra, mas era uma batalha perdida: eram estriges demais atacando do outro lado, cortando as plantas novas tão rápido quanto os brotos surgiam.
— Não adianta. — Meg cambaleou para trás, o rosto encharcado de suor. — Não tem muito o que fazer sem terra e luz do sol.
— É verdade. — Grover olhou para cima, analisando a rampa em espiral que adentrava a escuridão. — Estamos quase chegando. Só temos que conseguir subir tudo antes de a barreira ceder…
— Então vamos subir — anunciou Meg.
— Oi? Gente? — chamei, sofrido. — Tem um ex-deus paralisado aqui.
Grover olhou para Meg, pensativo.
— Que tal fita adesiva?
— Acho ótimo.
Que os deuses me defendam desses heróis e sua fita adesiva. Por alguma razão, heróis sempre têm fita adesiva. Meg tirou um rolo de uma bolsinha do cinto de jardinagem e fez com que eu me sentasse de costas para Grover. Então passou fita ao redor de nós dois, por baixo das axilas, me prendendo ao sátiro como uma mochila.
Com a ajuda de Meg, Grover se pôs de pé, cambaleante, e me levantou.
Enquanto ele se ajustava, tive vislumbres aleatórios: paredes, o chão, o rosto de Meg, minhas pernas paralisadas e esticadas.
— Hã, Grover...? Você vai ter força para me carregar até lá em cima?
— Sátiros são ótimos alpinistas — respondeu ele, ofegante.
O sátiro começou a subir a rampa estreita, meus pés paralisados arrastando atrás de nós. Meg vinha logo depois, de vez em quando olhando para a barreira de tomateiros, que se abria cada vez mais depressa.
— Apolo, conta mais sobre as estriges — ordenou ela.
Vasculhei o cérebro em busca de pérolas de conhecimento no meio daquela lama.
— São… São aves de mau presságio. Sempre que elas chegam, coisas ruins acontecem.
— Dã-ã — retrucou Meg. — E o que mais?
— Hã... Elas se alimentam das crianças e dos fracos: bebês, idosos, deuses paralisados… esse tipo de coisa. Elas se reproduzem nas partes mais altas do Tártaro. Isso é só um palpite, mas tenho quase certeza de que não dariam bons animais de estimação.
— E como nos livramos delas? Se não podemos matar nenhuma, como vamos impedir esse ataque?
— Eu… não sei.
Meg suspirou, frustrada.
— Pergunte à Flecha de Dodona, veja se ela sabe alguma coisa. Vou tentar ganhar algum tempo.
Ela desceu a rampa correndo.
Se havia uma coisa capaz de piorar ainda mais meu dia, era ter que falar com aquela flecha. Mas o cara lá de cima tinha me mandado obedecer, então, quando Meg mandava, eu obedecia. Não tinha jeito. Tateei a aljava até pegar o projétil mágico.
— Olá, Flecha Sábia e Poderosa — cumprimentei. É sempre melhor começar com elogios.
ORA, DEMORASTE TANTO! , entoou a flecha. TIVE INFINITAS QUINZENAS PERDIDAS EM TENTATIVAS DE FALAR CONTIGO.
— Falei com você não faz quarenta e oito horas — retruquei.
AH, MAS O TEMPO DE FATO SE ARRASTA PARA OS QUE ESTÃO ALJAVADOS. DEVERIAS TENTAR E VER SE GOSTAS.
— Certo. — Resisti à vontade de quebrar a flecha. — O que você sabe sobre estriges?
É IMPERATIVO QUE EU FALE CONTIGO ACERCA DE… UM MOMENTO: ESTRIGES? POR QUE ME VEM COM PERGUNTAS SOBRE TAIS CRIATURAS?
— Porque elas estão na iminência de… Elas vão a nos matar!
ABOMINÁVEL! , gemeu a flecha. TU DEVES EVITAR TAIS PERIGOS!
— Nossa, eu nunca teria pensado nisso. Então, tem alguma informação pertinente sobre estriges ou não, Ó Sábio Projétil?
A flecha tremeu, sem dúvida tentando acessar a Wikipédia. Claro que ela jurava por tudo que era mais sagrado que não usava internet. Devia ser pura coincidência o fato de as respostas serem sempre mais úteis quando a gente estava em algum lugar com wi-fi grátis.
Grover se mostrou um exemplo de coragem, carregando meu corpo mortal lamentável rampa acima. Ele bufou e ofegou, cambaleando perto demais da beirada para o meu gosto. O chão já estava quinze metros abaixo, longe o suficiente para uma bela queda fatal. Vi Meg lá embaixo, andando de um lado para o outro, murmurando sozinha e sacudindo mais pacotes de sementes.
A rampa parecia não ter fim, espiralando ao redor do poço. O que quer que nos esperasse no topo — isso se houvesse um topo — estava escondido no breu.
Achei muita falta de consideração do Labirinto não providenciar um elevador, ou pelo menos um corrimão decente. Como os heróis com mobilidade reduzida apreciariam aquela armadilha mortal?
A Flecha de Dodona enfim deu seu veredito: ESTRIGES SÃO PERIGOSAS.
— Nossa, mais uma vez sua sabedoria traz luz à escuridão.
CALA A TUA BOCA, retrucou a flecha. HÁ COMO EXTERMINAR AS AVES, EMBORA COMO RESULTADO HAJA APENAS UMA MALDIÇÃO PARA O EXTERMINADOR E O SURGIMENTO DE MAIS ESTRIGES.
— Sim, sim. E o que mais?
— O que ela está dizendo? — perguntou Grover, ofegante.
Uma das muitas características irritantes daquela flecha era que ela falava apenas na minha mente, então, além de parecer um doido sempre que conversava com ela, eu ainda tinha que ficar repassando suas divagações para meus amigos.
— Ela ainda está procurando no Google — respondi. — Talvez, Ó Flecha, seja bom fazer uma busca com termos mais específicos, tipo “como derrotar estriges”.
EU NÃO ME VALHO DESSAS TRAPAÇAS! , esbravejou a flecha. Então ficou em silêncio por um tempo, o suficiente para digitar como derrotar estriges.
É POSSÍVEL REPELIR AS AVES COM ENTRANHAS DE PORCO, relatou a flecha. ACASO TENS ALGUMA?
— Grover! — gritei, por cima do ombro. — Você por acaso tem alguma entranha de porco aí?
— O quê? — Ele se virou, o que não foi muito eficiente se a intenção era me encarar, já que eu estava grudado às suas costas com fita adesiva. Quase ralei o nariz na parede. — Por que eu carregaria entranhas de porco? Eu sou vegetariano!
Meg subiu a rampa correndo para se juntar a nós.
— As aves estão quase passando. Eu tentei plantas diferentes, tentei conjurar o Pêssego…
Ela ficou quieta, desesperada. Meg não conseguia conjurar seu comparsa, o espírito do pêssego, desde que entramos no Labirinto. Ele era útil em lutas, mas bem seletivo em relação a quando e onde aparecia. Eu achava que, assim como os tomateiros, Pêssego não se saía bem no subterrâneo.
— Flecha de Dodona, o que mais!? — gritei, já desesperado. — Deve ter alguma coisa além de intestino de porco para manter as estriges longe!
ESPERA! ENCONTREI! disse a flecha. OUVE! PARECE QUE MEDRONHEIRO SERVE.
— Medro quê?
Era tarde demais.
Logo abaixo, as estriges romperam a barricada de tomates e invadiram o lugar com um estrondo de berros sanguinários.

14 comentários:

  1. Karina obrigando....tava muito afim de ler esse livro.. Vc é a melhor. Parabéns pelo blog

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  2. Morrendo de rir com esse dialogo doido do Apolo com a espada!

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    1. Aqui alguém que leu a saga com muita atenção.

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    2. do Magnus ela veio para o Apolo, da um desconto kkkkkkk

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    3. Errou a saga em kkkkkk

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  3. Né a Karina é incrível amo esse blog.😙😙😚

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  4. Damon Herondale, filho de Zeus5 de junho de 2018 18:28

    Essa flecha é quase tão legal quanto o Jacques

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  5. A Flecha funciona melhor com Wifi grátis... Essa flecha tá cada vez melhor...

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  6. Flecha de dodona com wifi, a imaginaçao do tio rick n tem fim kkkk

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  7. "Por alguma razão, heróis sempre têm fita adesiva". Rocket discorda.

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  8. Meu palpite pro terceiro imperador é caligula

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  9. Essa flecha lembra Jacques, sim ou claro ? kkkkkkkkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!