9 de junho de 2018

Capítulo 1


GOSTO DE OBSERVAR Peter quando ele não sabe que estou olhando. Gosto de admirar a linha reta do maxilar, a curva da bochecha. Tem algo de sincero no rosto dele, de inocente… há uma espécie de gentileza. É a gentileza que mais me emociona.
É sexta à noite e estamos na casa de Gabe Rivera, depois do jogo de lacrosse. Nosso time ganhou, então todo mundo está de bom humor — Peter em especial, porque marcou o ponto da vitória. Ele está do outro lado da sala jogando pôquer com uns garotos do time; sentado com a cadeira inclinada para trás, as costas na parede. O cabelo ainda está molhado do banho. Estou no sofá com meus amigos Lucas Krapf e Pammy Subkoff, que folheiam a edição mais nova da Teen Vogue e discutem se Pammy deve cortar a franja ou não.
— O que você acha, Lara Jean? — pergunta ela, passando os dedos pelo cabelo cor de cenoura.
Pammy é uma amiga recente; eu a conheci porque ela namora Darrell, amigo de Peter. Ela tem um rosto de boneca, redondo como uma forma de bolo, e sardas salpicam seu nariz e seus ombros como confeitos.
— Hum… acho que franja é algo sério demais para ser decidido por impulso. Se seu cabelo demora muito para crescer, pode levar mais de um ano para voltar ao normal. Mas, se você estiver decidida, devia esperar até o outono, porque o verão está chegando, e uma franja no verão fica grudenta e suada e irritante…
Meu olhar se detém em Peter, que vira a cabeça na minha direção, me vê olhando e ergue as sobrancelhas como quem faz uma pergunta. Eu só dou um sorriso e balanço a cabeça.
— Então não devo cortar a franja?
Meu celular vibra na bolsa. É Peter.
Quer ir embora?
Não.
Então por que estava me olhando?
Porque deu vontade.
Lucas está lendo por cima do meu ombro. Eu o empurro, e ele balança a cabeça e diz:
— Vocês estão mesmo trocando mensagens estando na mesma sala?
Pammy franze o nariz, risonha.
— Que fofo.
Estou prestes a responder quando noto Peter atravessando a sala na minha direção, parecendo determinado.
— Hora de levar minha garota para casa — diz ele.
— Que horas são? — falo. — Já está tarde assim?
Peter me ajuda a levantar do sofá e a vestir o casaco. Ele me leva pela mão até o outro lado da sala de Gabe. Olho para trás, dou um tchauzinho e grito:
— Tchau, Lucas! Tchau, Pammy! Só para deixar registrado: acho que você ia ficar linda de franja!
Quando Peter me conduz pelo jardim até o meio-fio, onde o carro dele está estacionado, eu pergunto:
— Por que está andando tão rápido?
Ele para na frente do carro, me puxa para perto e me beija, tudo em um movimento rápido.
— Não consigo me concentrar no jogo com você me olhando daquele jeito, Covey.
— Desculpa… — começo a dizer, mas ele já está me beijando de novo, as mãos firmes nas minhas costas.
Quando entramos no carro, eu olho para o painel e vejo que é só meia-noite.
— Ainda tenho uma hora até precisar voltar para casa — digo. — O que a gente vai fazer?
Das pessoas que conheço, sou a única com hora para chegar em casa. Quando o relógio bate uma hora da manhã, eu viro uma abóbora. Todo mundo já se acostumou: a namorada certinha de Peter Kavinsky precisa estar em casa à uma da manhã. Eu nunca me incomodei com isso. Porque, na verdade, não estou perdendo nada tão maravilhoso assim… Como é mesmo aquele ditado? Nada de bom acontece depois das duas da manhã. A menos que você seja fã de ver o pessoal participando de jogos de bebida por horas e mais horas. Não sou assim. Não, eu prefiro ficar de pijama de flanela com uma xícara de chá e um livro, obrigada.
— Vamos para a sua casa. Quero dar um oi para o seu pai, ficar lá um pouco. A gente pode assistir ao final de Aliens, o Resgate.
Peter e eu estamos seguindo nossa lista de filmes, que consiste nas minhas escolhas (meus filmes preferidos que ele não viu), nas dele (os preferidos dele que eu não vi) e em filmes que nenhum dos dois viu. Aliens, o Resgate foi sugestão de Peter, e estou achando ótimo. E apesar de uma vez Peter ter dito que não gosta de comédias românticas, ele gostou muito de Sintonia de Amor, o que me deixou aliviada, porque não sei como eu poderia namorar uma pessoa que não gosta desse filme.
— Não vamos para casa ainda. Vamos para algum lugar.
Peter pensa por um minuto, batendo os dedos no volante.
— Sei para onde a gente pode ir — diz.
— Para onde?
— Espere e verá.
Peter abre as janelas, e o ar frio invade o carro. Eu me recosto. As ruas estão vazias; as luzes apagadas na maioria das casas.
— Vou tentar adivinhar. Vamos à lanchonete porque você quer panqueca de mirtilo.
— Não.
— Hum… Está tarde para irmos à Starbucks, e o Biscuit Soul Food está fechado.
— Ei, eu não penso só em comida — protesta ele. E continua: — Tem algum biscoito nesse pote?
— Acabaram, mas talvez eu tenha mais em casa, se Kitty não tiver comido tudo.
Coloco o braço para fora da janela e o deixo lá. Não vamos ter mais noites como essa, frias o bastante para precisarmos de casaco. Observo Peter pelo canto do olho. Às vezes, ainda não consigo acreditar que ele é meu. O garoto mais bonito de todos os garotos bonitos é meu, todo meu.
— O quê? — diz ele.
— Nada.
Dez minutos depois, entramos no campus da Universidade da Virgínia, a UVA, que ninguém chama de campus: todo mundo chama de Terreno. Peter estaciona perto da calçada. Está silencioso para uma sexta à noite em uma cidade universitária, mas é a época do recesso de primavera, então muitos alunos estão viajando.
Estamos andando pelo gramado de mãos dadas quando sinto uma onda repentina de pânico.
Paro e pergunto:
— Ei, você não acha que dá azar vir aqui antes de ter entrado, acha?
Peter ri.
— Não é um casamento. Você não vai se casar com a UVA.
— É fácil falar, você já foi aceito.
Peter assumiu um compromisso verbal com o time de lacrosse da UVA no ano passado, depois se candidatou antecipadamente no outono. Como a maioria dos atletas de faculdade, era quase certo que ele seria aceito, desde que suas notas continuassem boas. Quando recebeu o sim oficial em janeiro, sua mãe deu uma festa, e eu fiz um bolo com os dizeres Vou levar todo o meu charme para a UVA e cobertura amarela.
Peter me puxa pela mão.
— Deixe disso, Covey. Nós fazemos nossa própria sorte. Além do mais, viemos aqui dois meses atrás para aquele evento no Miller Center.
Eu relaxo.
— Ah, é.
Continuamos andando pelo gramado. Sei aonde estamos indo agora. Vamos nos sentar na escada da Rotunda. Foi Thomas Jefferson, fundador da universidade quem elaborou a Rotunda, que teve o Panteão como modelo, com colunas brancas e telhado abobadado. Peter sobe os degraus de pedra correndo no melhor estilo Rocky e se senta. Eu me acomodo na frente dele, me inclino para trás e apoio os braços em seus joelhos.
— Você sabia que uma das coisas que tornam a UVA única é que, no centro da faculdade, lá dentro da Rotunda, tem uma biblioteca e não uma igreja? É porque Jefferson acreditava na separação entre o ensino e a religião.
— Você leu isso no panfleto? — provoca Peter, dando um beijo no meu pescoço.
— Eu aprendi quando fiz a visita ano passado — respondo, em tom sonhador.
— Você não me disse que fez uma visita. Por que você faria isso se mora tão perto? Já veio aqui um milhão de vezes!
Ele está certo ao dizer que já fui ao campus um milhão de vezes. Cresci visitando a universidade com minha família. Antes de mamãe morrer, nós vínhamos ver os Hullabahoos cantarem, porque ela amava música a capela. Temos um retrato de família no gramado. Nos dias de sol depois da igreja, nós fazíamos piqueniques aqui.
Eu me viro para olhar para Peter.
— Eu fiz a visita porque queria saber tudo sobre a UVA! Coisas que não saberia só por morar aqui perto. Tipo, você sabe em que ano as mulheres tiveram permissão para estudar aqui?
Ele coça a nuca.
— Hã… não. Quando foi mesmo que a faculdade foi fundada? No começo dos anos 1800? Então, em 1920?
— Não. Em 1970. — Eu me viro de volta e olho para a frente, para o campus. — Depois de cento e cinquenta anos.
Intrigado, Peter diz:
— Nossa. Que loucura. Tudo bem, me conte mais coisas sobre a UVA.
— A UVA é a única universidade dos Estados Unidos que foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
— Deixa pra lá, não quero mais saber sobre a UVA — diz Peter, e eu dou um tapa no joelho dele. — Me conte outra coisa, então. O que deixa você mais ansiosa quanto a estudar aqui?
— Primeiro você. O que está deixando você mais animado?
— Essa é fácil — diz Peter, sem pestanejar. — Correr pelado pelo gramado com você.
— É isso que você quer mais do que tudo aqui? Correr pelado? — Depois acrescento: — Aliás, nunca vou fazer isso.
Ele ri.
— É uma tradição da UVA. Eu achei que você curtisse as tradições da UVA.
— Peter!
— Estou brincando. — Ele se inclina para a frente e envolve meus ombros, depois esfrega o nariz no meu pescoço do jeito que tanto gosta. — Sua vez.
Eu me permito sonhar por um momento. Se eu entrar, o que mais quero que aconteça? Há tantas coisas que não consigo citar todas. Estou ansiosa para comer waffles todos os dias com Peter no refeitório. Para descer de trenó pelo O-Hill quando nevar. Para fazer piquenique no verão. Para passar a noite acordada conversando, depois acordar e conversar mais. Para lavar roupa de madrugada e fazer viagens de última hora. Para… tudo.
Por fim, digo:
— Se eu contar, vai dar azar.
— Pare com isso!
— Tudo bem, tudo bem… acho que estou mais ansiosa para… para ir ao McGregor Room sempre que eu quiser.
As pessoas chamam o McGregor Room de salão do Harry Potter por causa dos tapetes, candelabros, cadeiras de couro e retratos nas paredes. As estantes vão do chão ao teto e todos os livros ficam atrás de grades de metal, protegidos como os objetos preciosos que são. É um salão de outra época. É muito silencioso, solene até. Houve um verão — eu devia ter cinco ou seis anos, porque foi antes de Kitty nascer — em que minha mãe fez um curso na UVA e costumava estudar no McGregor Room. Margot e eu ficávamos colorindo ou lendo. Minha mãe o chamava de biblioteca mágica, porque Margot e eu nunca brigávamos lá dentro. Nós duas ficávamos bem quietinhas, tão impressionadas com aqueles livros e com o pessoal mais velho estudando.
Peter parece decepcionado. Tenho certeza de que é porque achou que eu responderia alguma coisa que tivesse a ver com ele. Conosco. Mas, por algum motivo, quero guardar essas esperanças só para mim agora.
— Você pode ir comigo ao McGregor Room. Mas tem que prometer que vai ficar quieto.
— Lara Jean, só você ficaria ansiosa para ir a uma biblioteca.
Na verdade, a julgar só pelo Pinterest, eu tenho quase certeza de que muita gente gostaria de passar um tempo em uma biblioteca tão bonita. Só que é gente que Peter não conhece. Ele me acha tão peculiar. Não estou planejando contar a ele que não sou tão diferente assim, que na verdade muita gente gosta de ficar em casa, assar biscoitos, fazer scrapbooks e frequentar bibliotecas. A maioria deve estar perto dos cinquenta anos, mas mesmo assim. Eu gosto como ele me olha, como se eu fosse uma ninfa do bosque que ele encontrou por acaso e teve que levar para casa um dia.
Peter tira o celular do bolso do moletom.
— Meia-noite e meia. A gente tem que ir daqui a pouco.
— Já? — Eu dou um suspiro. Gosto de ficar ali à noite. Parece que tudo aquilo nos pertence.
Sempre quis ir para a UVA. Nunca esperei estudar em outro lugar, nem cheguei a pensar nisso. Eu ia me candidatar antecipadamente, como Peter fez, mas minha orientadora, a sra. Duvall, me aconselhou a não fazer isso. Ela disse que seria melhor esperar para enviar minhas notas do primeiro semestre do último ano também. De acordo com ela, é sempre recomendável se candidatar no seu momento de melhor rendimento acadêmico.
Assim, acabei me candidatando a cinco faculdades. Primeiro seria só a UVA, a mais difícil de entrar e a apenas quinze minutos de casa; William and Mary, a segunda mais difícil de entrar e também minha segunda escolha (a duas horas de distância); e a Universidade de Richmond e a James Madison, ambas a uma hora de distância, empatadas em terceiro lugar. Todas na Virgínia.
Mas a sra. Duvall insistiu para que eu me candidatasse a uma faculdade fora do estado, só por garantia, para ter outra opção. Então, optei pela Universidade da Carolina do Norte, a UNC, em Chapel Hill. É difícil entrar nas de fora do estado, mas eu a escolhi porque me lembra a UVA. É muito boa em várias áreas de humanas e não fica muito longe; é perto o bastante para eu vir para casa correndo se acontecer alguma coisa.
Mas, se pudesse escolher, sempre seria a UVA. Eu nunca quis ir para longe de casa. Não sou como minha irmã mais velha. O sonho de Margot era ir para longe. Ela sempre quis conhecer o mundo. Eu só quero a minha casa, e, para mim, a UVA é o meu lar, e é por isso que é a faculdade com a qual eu comparei todas as outras. Tem o campus dos sonhos, tudo perfeito. E, claro, Peter.
Nós ficamos um pouco mais, conto para Peter mais curiosidades sobre a UVA e ele debocha de mim por saber tantas coisas sobre a faculdade. Depois, me leva para casa. É quase uma da manhã quando paramos na frente do meu jardim. As luzes do andar de baixo estão apagadas, mas as do quarto do meu pai ainda estão acesas. Estou quase saindo do carro quando Peter estica a mão e me impede de abrir a porta.
— Quero meu beijo de boa-noite — diz ele.
Eu dou uma gargalhada.
— Peter! Eu tenho que ir.
Teimoso como sempre, ele fecha os olhos e espera, e eu me inclino e dou um selinho nos lábios dele.
— Pronto. Satisfeito?
— Não. — Ele me beija de novo, como se tivéssemos todo o tempo do mundo, e diz: — O que aconteceria se eu voltasse depois de todo mundo ir dormir, passasse a noite e fosse embora bem cedinho? Tipo, antes de amanhecer?
— Você não pode fazer isso, então nunca vamos saber — digo, sorrindo.
— Mas e se fizesse?
— Meu pai me mataria.
— Não mataria, não.
— Ele mataria você.
— Não mataria, não.
— Não mataria, não — concordo. — Mas ficaria muito decepcionado comigo. E ficaria com raiva de você.
— Só se nós fôssemos pegos — diz Peter, mas sem convicção. Ele também não quer arriscar. Toma bastante cuidado para que meu pai goste dele. — Sabe pelo que estou mais ansioso? — Peter puxa de leve minha trança antes de falar. — Não ter que dizer boa-noite. Eu odeio dizer boa-noite.
— Eu também.
— Mal posso esperar para estarmos na faculdade.
— Também — falo, e o beijo mais uma vez antes de pular do carro e correr para casa.
No caminho, olho para a lua, para todas as estrelas que cobrem o céu noturno como um cobertor, e faço um pedido: Querido Deus, por favor, por favor, me deixe entrar na UVA.

27 comentários:

  1. 😫😫 tô sentindo q ela n vai entrar na UVA, típica reviravolta dos livros ♥📚

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  2. Tão emocionante!! Fantástico 📖📖📚 eu quero um cara como peter só para mim!!!
    Anna!!!

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  3. Eu quero que ela fique com o Peter 😭😭😭😭 Ela não pode ir pra outra Facul

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  4. É impressão minha ou ela citou Ted Mosby?! Kkkk

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  5. acho q ela vai para a faculdade da Carolina do Norte (ou algo assim... esqueci rs) e nao pra UVA

    aliás, esse nome me deu fome kskskssksk

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    1. tbm me deu muita fome kksksksksksksk

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  6. Sem querer levantar história do passafo, mas a UNC não era a universidade que o pai do John queria que ele fosse?

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  7. Acho q ela n vai conseguir entrar na UVA.Acho que só vai conseguir entrar na faculdade da Carolina do norte,e ele e o Peter vão se separar

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  8. A nem vei tô sentindo que ela não vai ir pra UVA e vai acabar terminabdo com peter

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  9. Começando esse último livro e já acho que vem muita coisa por aí...ah não gente ela e o Peter têm que ficar juntos,estando na mesma universidade ou não. #torcendo 😍

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  10. ELA TEM QUE ENTRAR NA UVA, PELO SANGUE DE JESUS

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  11. Sou só eu que estou achando que Lara Jean não vai passar??

    -s2

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  12. Acho que ela não vai conseguir entrar 😑😕 o que vai acabar complicando tudo que estava perfeito

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  13. Eu não acredito que já começa assim, dando um nervouser no coração

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  14. Por favor Deus, me faça ler esse livro devagar pq eu não quero que acabeeeee! 💔

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  15. Por que eu to sentindo que ela não vai pra UVA? E ainda vai se separar do Peter, eu quero que eles fiquem juntosss!!

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  16. "Ele me acha tão peculiar. Não estou planejando contar a ele que não sou tão diferente assim, que na verdade muita gente gosta de ficar em casa, assar biscoitos, fazer scrapbooks e frequentar bibliotecas. A maioria deve estar perto dos cinquenta anos, mas mesmo assim."

    Kkkkkkkkk

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  17. Nada de bom acontece depois das duas da manhã.

    lara fã de how i met your mother icone

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Boa leitura, E SEM SPOILER!