26 de junho de 2018

Capítulo 1

Na teoria, Blue Sargent provavelmente mataria um daqueles garotos.
— Jane! — O grito veio do outro lado da colina. Era dirigido a Blue, embora Jane não fosse o seu nome verdadeiro. — Vamos!
Como a única não vidente em uma família bastante mediúnica, ela tivera o seu futuro contado repetidas vezes, e cada vez ele dizia que ela mataria o seu verdadeiro amor se tentasse beijá-lo. Além disso, fora previsto que ela se apaixonaria naquele ano. E tanto Blue quanto sua meia-tia vidente, Neeve, tinham visto um dos garotos caminhando ao longo do caminho invisível dos corpos agora em abril, o que significava que ele deveria morrer nos próximos doze meses. Tudo isso se encaixava em uma equação temível.
Por ora, aquele garoto em particular, Richard Campbell Gansey III, parecia bastante indestrutível. No vento úmido no topo da ampla colina verde, uma camisa polo ardentemente amarela tremulava contra o seu peito e um par de bermudas cáqui golpeava suas pernas gloriosamente bronzeadas. Garotos como ele não morriam, eram esculpidos em bronze e colocados do lado de fora de bibliotecas públicas. Ele estendeu uma mão na direção de Blue enquanto ela subia a colina, um gesto que parecia menos um encorajamento e mais uma sinalização de tráfego aéreo.
— Jane. Você precisa ver isso! — Sua voz era cheia do sotaque melodioso das fortunas antigas da Virgínia.
À medida que Blue subia com dificuldade a colina, telescópio no ombro, ela testou mentalmente o nível de perigo: Já estou apaixonada por ele?
Gansey desceu a galope para tirar o telescópio dela.
— Isso não é tão pesado — ele lhe disse e voltou a passos largos por onde tinha vindo.
Blue não achava que estava apaixonada por ele. Ela nunca se apaixonara, mas ainda tinha bastante convicção de que saberia dizer quando isso acontecesse. No início do ano, ela tivera uma visão na qual o beijava e ainda podia ver isso com a maior facilidade. Mas a parte sensata de Blue, que era normalmente a única parte dela, achava que aquilo tinha mais a ver com o fato de Richard Campbell Gansey III ter uma boca bonita do que com qualquer romance que estivesse florescendo.
De qualquer maneira, se o destino achava que podia dizer a ela por quem se apaixonar, ele ia ver só.
Gansey acrescentou:
— Eu achei que você tinha mais músculos. Feministas não são musculosas?
Decididamente não apaixonada por ele.
— Sorrir quando você diz isso não torna a piada engraçada — disse Blue.
Como o último passo em sua busca para encontrar o rei galês Owen Glendower, Gansey andara pedindo permissão para caminhar nas propriedades de donos de terras locais. Cada lote cruzava a linha ley de Henrietta — uma linha de energia perfeitamente reta, invisível, que conectava espiritualmente lugares significativos — e circulava Cabeswater, uma floresta mística que se sobrepunha a ela. Gansey tinha certeza de que Glendower estava escondido em algum lugar dentro de Cabeswater, adormecido havia séculos. Quem quer que viesse a despertar o rei supostamente teria direito a um favor — algo que estivera na mente de Blue recentemente.
Parecia a ela que Gansey era o único que realmente precisava dele. Não que Gansey soubesse que poderia morrer em alguns meses. E não que ela fosse contar isso a ele.
Se encontrarmos Glendower logo, pensou Blue, certamente vamos conseguir salvar Gansey.
A escalada íngreme os levou para um cimo vasto e coberto de relva, que se curvava acima dos contrafortes cobertos pela mata. Bem, bem abaixo estava Henrietta, Virgínia.
A cidade era flanqueada por pastos pontilhados com casas de fazenda e gado, tão pequenos e arrumados quanto uma maquete de ferrovia. Tudo, a não ser a cadeia de montanhas que se elevava azul, era verde e bruxuleante com o calor do verão.
Mas os garotos não estavam olhando para a paisagem. Eles estavam parados em um círculo próximo: Adam Parrish, emaciado e pálido; Noah Czerny, sujo e desleixado; e Ronan Lynch, feroz e sombrio. No ombro tatuado de Ronan, empoleirava-se seu corvo de estimação, Motosserra. Embora o aperto de suas garras fosse cuidadoso, havia linhas finamente desenhadas por elas de cada lado da alça da regata preta. Todos olhavam para algo que Ronan segurava nas mãos. Gansey elegantemente jogou o telescópio na relva fofa e se juntou a eles.
Adam deixou que Blue entrasse no círculo deles também, seus olhos cruzando com os dela por um momento. Como sempre, seus traços intrigavam Blue. Não eram convencionalmente belos, mas eram interessantes. Ele tinha as maçãs do rosto proeminentes e os olhos fundos típicos de Henrietta, mas numa versão mais delicada.
Isso o tornava um pouco esquisito. Um pouco impenetrável.
Eu escolho esse aí, Destino, ela pensou ferozmente. Não Richard Gansey III. Você não pode me dizer o que fazer.
A mão de Adam deslizou sobre o cotovelo nu de Blue. O toque foi um sussurro em uma língua que ela não falava muito bem.
— Abra — ele ordenou a Ronan, com a voz indecisa.
— É ver pra crer. — Ronan sorriu com escárnio, mas sem muita virulência. O modelo de avião pequeno em sua mão tinha a envergadura dos seus dedos. Era feito de um plástico puro branco, desinteressante, quase ridiculamente destituído de detalhes: uma coisa na forma de um avião. Ele abriu o compartimento da bateria na parte de baixo.
Estava vazio.
— Bem, é impossível, então — disse Adam, pegando um gafanhoto que havia se prendido no colarinho. Todos no grupo o observaram fazer aquilo. Desde que ele realizara um estranho pacto ritual no mês passado, eles vinham acompanhando de perto todos os seus movimentos. Se Adam notou essa atenção extra, não deixou transparecer.
— Ele não vai voar se não tiver uma bateria e um motor.
Agora Blue sabia o que era aquilo. Ronan Lynch, guardião de segredos, lutador de homens, diabo de garoto, havia contado a todos que conseguia tirar objetos dos seus sonhos. Exemplo A: Motosserra. Gansey estava empolgado; ele era o tipo de garoto que não acreditava necessariamente em tudo, mas queria acreditar. Mas Adam, que só chegara até esse ponto na vida questionando toda verdade apresentada a ele, queria uma prova.
— Ele não vai voar se não tiver uma bateria e um motor — imitou Ronan, em uma versão mais aguda da fala ligeiramente arrastada de Henrietta de Adam. — Noah, o controle.
Noah vasculhou pela relva fechada em busca do controle remoto. Assim como o avião, ele era branco e lustroso, com todas as bordas arredondadas. Suas mãos pareciam sólidas em torno dele. Embora ele estivesse morto há um bom tempo e isso certamente o fizesse parecer mais fantasmagórico, ele sempre assumia uma aparência relativamente viva quando parado sobre a linha ley.
— O que mais deveria ir dentro de um avião, se não uma bateria? — perguntou Gansey.
Ronan disse:
— Eu não sei. No sonho eram pequenos mísseis, mas acho que eles não vieram junto.
Blue arrancou algumas sementes da relva.
— Aqui.
— Bem pensado, verme. — Ronan as enfiou no compartimento da bateria.
Quando foi pegar o controle, Adam o interceptou e o sacudiu perto do ouvido.
— Isso não chega nem a pesar alguma coisa — disse, largando o controle na palma de Blue.
Ele era muito leve, pensou Blue. Tinha cinco botões minúsculos: quatro arranjados no formato de cruz e um isolado do resto. Para Blue, aquele quinto botão era como Adam.
Ainda funcionando para o mesmo propósito que os outros quatro. Mas não mais tão próximo quanto os outros.
— Vai funcionar — disse Ronan, tomando o controle e passando o avião para Noah. — Funcionou no sonho, então vai funcionar agora. Segura.
Ainda se arrastando, Noah levantou o aviãozinho entre o polegar e o dedo indicador, como se estivesse se aprontando para lançar um lápis. Algo no peito de Blue vibrava de expectativa. Era impossível que Ronan tivesse sonhado aquele aviãozinho. Mas tantas coisas impossíveis já tinham acontecido...
— Cráá — berrou Motosserra. Esse era o seu nome para Ronan.
— É — concordou Ronan. Então, para os outros, disse imperiosamente: — Façam uma contagem regressiva.
Adam fez uma careta, mas Gansey, Noah e Blue obsequiosamente cantaram:
— Cinco, quatro, três...
Sem fazer ruído algum, o aviãozinho partiu da mão de Noah para o ar.
Ele funcionava. Ele realmente funcionava.
Gansey riu alto enquanto todos inclinavam a cabeça para trás para observar sua subida. Blue protegeu os olhos para não perder de vista a figurinha branca minúscula na névoa. Ele era tão pequeno e ágil que parecia um avião de verdade, milhares de pés acima da colina. Com um guincho empolgado, Motosserra levantou voo do ombro de Ronan para persegui-lo. Ronan jogava o avião para a direita e para a esquerda, dando voltas em torno do cimo da colina, com Motosserra colada nele. Quando o avião passou de volta por cima da cabeça deles, ele apertou o quinto botão. Sementes caíram em cascata do compartimento aberto, deslizando sobre seus ombros. Blue bateu palmas e estendeu a mão aberta para pegar uma.
— Que criatura incrível você é — disse Gansey. Seu prazer era contagiante e incondicional, grande como seu sorriso. Adam inclinou a cabeça para trás para observar, algo parado e distante em torno dos seus olhos. Noah suspirou uau, a palma da mão ainda erguida, como se estivesse esperando pelo avião voltar para ela. E Ronan ficou ali parado com as mãos no controle e o olhar no céu, sem sorrir, mas sem franzir o cenho também. Os olhos estavam assustadoramente vivos, a curva da boca, feroz e satisfeita.
Subitamente não pareceu nem um pouco surpreendente que ele pudesse tirar coisas dos seus sonhos.
Naquele momento, Blue estava um pouco apaixonada por todos eles. Pela magia deles. Pela busca deles. Pela voracidade e pela estranheza deles. Seus garotos corvos.
Gansey socou o ombro de Ronan.
— Glendower viajava com magos, sabia? Mágicos, quero dizer. Feiticeiros. Eles o ajudavam a controlar o tempo. Talvez você pudesse sonhar para nós uma onda de frio.
— Ãhã.
— Eles também adivinhavam o futuro — acrescentou Gansey, virando-se para Blue.
— Não olhe para mim — ela disse bruscamente. Sua falta de talento mediúnico era lendária.
— Ou ajudavam ele a adivinhar o futuro — prosseguiu Gansey, o que particularmente não fazia sentido, mas indicava que ele estava tentando desirritá-la. O pavio curto de Blue e sua capacidade de tornar os talentos mediúnicos de outras pessoas mais fortes também eram lendários. — Vamos?
Blue se apressou para pegar o telescópio antes que Gansey pudesse pegá-lo. Ele lhe lançou um olhar irritado, e os outros garotos pegaram os mapas, as câmeras e os leitores de frequência eletromagnética. Então partiram seguindo a linha ley perfeitamente reta, o olhar de Ronan ainda direcionado para o seu avião e para Motosserra, um pássaro branco e um pássaro preto contra a abóbada celeste do mundo. Enquanto caminhavam, uma rajada súbita de vento soprou baixa pela relva, trazendo consigo o cheiro da água em movimento e das pedras escondidas nas sombras. Blue se emocionou novamente, com a certeza de que a magia era real, a magia era real, a magia era real.

Um comentário:

  1. Incrível o poder de Ronan de conseguir tirar coisas dos sonhos e trazer junto consigo para sua realidade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!