9 de junho de 2018

Capítulo 19

TEM UM JOGO de lacrosse hoje, mas Pammy não pode ir porque precisa trabalhar, e é claro que Chris nunca se dignaria a ir a um jogo de lacrosse, então levo Kitty comigo. Ela se faz de difícil, refletindo em voz alta que pode ser chato, mas quando eu digo “Deixa pra lá, então”, ela logo topa.
Nas arquibancadas, encontramos a mãe de Peter e o irmão mais novo dele, Owen, então nos sentamos com eles. Ele e Kitty fingem que o outro não existe; o garoto joga no celular dele, e ela, no dela. Owen é alto, mas se senta curvado, o cabelo caindo nos olhos. Nós conversamos um pouco sobre o noivado do meu pai com Trina e conto algumas das minhas ideias para o casamento. Ela assente o tempo todo e diz de repente:
— Pelo que sei, você também merece parabéns.
— Por quê? — pergunto, confusa.
— William and Mary!
— Ah! Obrigada.
— Sei que você queria estudar na UVA, mas talvez seja melhor assim. — Ela me dá um sorriso solidário.
Eu também sorrio para ela, em dúvida. Não sei o que “melhor assim” quer dizer exatamente. Ela ficou feliz por eu não estar indo para a UVA com Peter? Acha que isso quer dizer que vamos terminar?
— Williamsburg nem é tão longe de Charlottesville mesmo.
— Hum, é verdade — responde ela.
Peter marca um ponto, e nós duas nos levantamos e comemoramos.
Quando me sento novamente, Kitty pergunta:
— A gente pode comprar pipoca?
— Claro — respondo, feliz de ter uma desculpa para me levantar. Para a mãe e o irmão de Peter, ofereço: — Vocês querem alguma coisa?
— Pipoca — diz Owen, sem tirar os olhos da tela do celular.
— Vocês podem dividir — diz a mãe de Peter.
Desço a arquibancada e estou indo para a lanchonete quando reparo em um homem meio de lado, os braços cruzados, vendo o jogo. Ele é alto e tem cabelo castanho. É bonito. Quando vira a cabeça e o vejo de perfil, sei quem é, porque conheço aquele rosto. Conheço aquele queixo, aqueles olhos. Ele é o pai de Peter. É como ver uma versão mais velha de Peter, e fico paralisada, hipnotizada.
Ele me vê olhando e dá um sorriso simpático. Sinto que não tenho escolha a não ser dar um passo à frente e perguntar:
— Com licença… mas você é o pai do Peter?
— Você é amiga dele?
— Sou Lara Jean Covey. Hum, a namorada dele. — Ele parece levar um susto, mas se recupera e estica a mão. Eu a aperto com firmeza, querendo causar uma boa impressão. — Nossa, você é igualzinho a ele.
Ele ri, e fico surpresa com quanto Peter puxou dele.
— Ele é igualzinho a mim, você quer dizer.
Eu também dou uma risada.
— Certo. Você nasceu primeiro.
Há um silêncio constrangedor, e ele pigarreia e pergunta:
— Como ele está?
— Ah, está bem. Está ótimo. Você soube que ele vai estudar na UVA com uma bolsa de lacrosse?
Ele assente, sorrindo.
— A mãe dele me contou. Estou orgulhoso. Sei que não posso levar nenhum crédito por isso, mas mesmo assim. Estou muito orgulhoso do garoto. — Os olhos dele se desviam para o campo, para Peter. — Eu só queria vê-lo jogar. Senti falta disso. — Ele hesita antes de dizer: — Por favor, não conte a Peter que eu estive aqui.
Fico tão surpresa que só consigo dizer:
— Ah… tudo bem.
— Obrigado, eu agradeço. Foi um prazer conhecê-la, Lara Jean.
— O prazer foi meu, sr. Kavinsky.
Sigo de volta à arquibancada, e só quando estou na metade do caminho é que percebo que esqueci a pipoca, então tenho que descer de novo. Quando chego na lanchonete, o pai de Peter foi embora.
Nosso time acaba perdendo, mas Peter marca três pontos, e é um bom jogo para ele. Fico feliz de o pai tê-lo visto jogar, mas queria não ter concordado em guardar segredo. Sinto dor no estômago só de pensar que não posso falar nada.
No carro, ainda estou pensando no pai dele, mas Kitty diz:
— Foi esquisito o que a mãe de Peter disse sobre ser bom você não estudar na UVA.
— Você também achou isso?
— Não tinha como achar outra coisa — diz ela.
Olho meus retrovisores laterais antes de virar à esquerda para sair do estacionamento da escola.
— Acho que ela não quis ser cruel. Ela só não quer ver Peter se magoar, só isso. — Nem eu, então talvez seja melhor eu não dizer nada para ele sobre ter visto seu pai. E se ele ficar empolgado com a presença do pai e acabar se magoando de novo? De repente, eu digo: — Quer parar e tomar um sorvete de iogurte?
É claro que Kitty concorda.

* * *

Peter vai para a minha casa depois de tomar banho, e, assim que vejo como ele está feliz, decido não dizer nada.
Estamos deitados no chão da sala usando máscaras faciais. Se o pessoal da escola o visse agora! Ele pergunta, com os dentes trincados:
— O que essa máscara faz?
— Deixa a pele iluminada.
— Oi, Clarice — grunhe ele, virando-se para mim.
— Do que você está falando?
— É de O Silêncio dos Inocentes!
— Ah, eu não vi esse filme. Parecia assustador.
Peter se senta ereto. Ele sempre tem dificuldades para ficar parado.
— Nós temos que ver agora. Isso é ridículo. Não posso namorar uma pessoa que não viu O Silêncio dos Inocentes.
— Hã, tenho certeza de que é minha vez de escolher o filme.
— Covey, pare com isso! É um clássico — exclama Peter, na mesma hora que o celular dele vibra. Ele atende, e ouço a voz da mãe dele na linha. — Oi, mãe… estou na casa da Lara Jean. Vou para casa daqui a pouco… Também amo você.
Quando ele desliga o telefone, eu digo:
— Ei, esqueci de contar antes, mas, no jogo de hoje, sua mãe disse que talvez fosse melhor eu não ter entrado na UVA.
— O quê? — Ele se senta e tira a máscara do rosto.
— Bom, ela não disse bem assim, mas acho que foi isso que quis dizer.
— Quais foram as palavras exatas dela?
Eu também tiro a máscara.
— Ela me deu parabéns por ter entrado na William and Mary e acho que disse “Sei que você queria estudar na UVA, mas talvez seja melhor assim”.
Peter relaxa.
— Ah, ela sempre fala assim. Ela olha o lado bom das coisas. É bem parecida com você.
Não foi o que pareceu para mim, mas não insisto, porque Peter é muito protetor em relação à mãe. Acho que teve que ser, porque sempre foram só eles três. Mas e se ele não precisasse ser? E se Peter tiver uma chance real de ter um relacionamento com o pai? E se esta noite tiver sido prova disso? Casualmente, eu pergunto:
— Ei, quantos convites de formatura você pediu?
— Dez. Minha família é pequena. Por quê?
— Eu só estava pensando. Eu pedi cinquenta, para a minha avó poder mandar uns para a nossa família na Coreia. — Hesito antes de continuar: — Você acha que vai mandar um para o seu pai?
Ele franze a testa.
— Não. Por que eu mandaria? — Ele pega o celular. — Vamos ver que filmes faltam. Se não dá para ver O Silêncio dos Inocentes, poderíamos assistir a Trainspotting ou Duro de Matar.
Não digo nada por um momento, mas aí pego o celular da mão dele.
— É minha vez de escolher! E escolho… O Fabuloso Destino de Amélie Poulain!

* * *

Para uma pessoa que já fez questão de alardear que não via comédias românticas nem filmes estrangeiros, Peter ama O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. É sobre uma garota francesa que tem medo de viver no mundo, então tem fantasias estapafúrdias, com abajures que falam, pinturas que se mexem e crepes que parecem discos. Este filme me deixa com vontade de morar em Paris.
— Como será que você ficaria de franja? — reflete Peter. — Lindinha, aposto. — No final do filme, quando ela faz uma torta de ameixa, ele se vira para mim e diz: — Você sabe fazer torta de ameixa? Parece deliciosa.
— Sabe de uma coisa? Pequenas tortinhas de ameixa podem ser uma boa ideia para a mesa de sobremesas. — Eu começo a pesquisar receitas no celular.
— Não se esqueça de me chamar quando for testar a receita — diz Peter, bocejando.

4 comentários:

  1. Eu achei injusto ela não ter contado à Peter que viu seu pai. Mesmo prometendo à ele. Ela deve lealdade à Peter, não à seu pai. Além do mais isso pode dar ruim depois

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  2. Acho q não ela só tá poupando ele do desgosto. É proteção não traição... Acho q tvz eu contasse mas tipo eu compreendo ela super bem

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  3. Lara Jean assim como uma coreana raiz deveria cortar a franja heheh

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Boa leitura, E SEM SPOILER!