26 de junho de 2018

Capítulo 19

— Jane, o que você acha de fazer algo ligeiramente ilegal e definitivamente repugnante? — perguntou Gansey.
As costas de Ronan já estavam grudentas com o calor. O corpo do homem-pássaro estava no porta-malas do BMW, e sem dúvida estava acontecendo um processo científico medonho com ele. Ronan estava certo de que era um processo que ficaria mais malcheiroso à medida que o dia ficasse mais quente.
— Depende se envolve um helicóptero — respondeu Blue, parada na porta da Rua Fox, 300. Ela coçou a panturrilha com o pé descalço, usando um vestido que lembrava a Ronan um abajur. Qualquer que fosse esse abajur, Gansey claramente gostaria de ter um.
Ronan não era fã de abajures.
Além disso, ele tinha outras coisas na cabeça. Os nervos formigavam em seus dedos.
Gansey deu de ombros.
— Nenhum helicóptero. Dessa vez.
— Tem a ver com Cabeswater?
— Não — disse Gansey tristemente.
Ela olhou adiante deles para o BMW.
— Por que tem uma corda de bungee jump em volta do porta-malas?
Embora Ronan reconhecesse que o Pig merecia aquilo, Gansey havia se recusado a colocar o corpo no Camaro.
— É uma longa história. Por que você está me olhando desse jeito?
— Acho que eu nunca tinha visto você de camiseta antes. Nem de jeans.
Porque Blue estivera olhando para Gansey de um jeito que era mais visível pelo fato de ela tentar passar despercebida ao fazê-lo. Era um olhar ao mesmo tempo sobressaltado e impressionado. Era verdade que Gansey raramente usava jeans e camiseta, preferindo camisa social e calça cáqui, se não estivesse usando gravata. E era verdade que essas roupas lhe caíam bem; a camiseta se moldava aos ombros dele de uma maneira que revelava toda sorte de ângulos e cantos que uma camisa social normalmente esconde. Mas Ronan suspeitava que Blue estivesse mais chocada com o fato de que as roupas faziam Gansey parecer um garoto, por um dia que fosse, como qualquer um deles.
— É para a coisa repugnante — disse Gansey. E puxou a camiseta com dedos desaprovadores. — Estou bastante desalinhado no momento, eu sei.
Blue concordou.
— Sim, desalinhado, é exatamente isso que eu estava pensando. Ronan, estou vendo que você também está desalinhado.
Aquilo era brincadeira, uma vez que Ronan estava usando a combinação típica de Ronan: jeans e camiseta regata preta.
— Será que eu devia usar algo mais desalinhado também? — ela perguntou.
— Pelo menos ponha sapatos — respondeu Gansey melancolicamente. — E um chapéu, se precisar. Parece que vai chover.
— Ah, vai — disse Blue, olhando para cima para verificar. Mas o céu estava escondido pelas árvores folheadas da vizinhança. — Cadê o Adam?
— Vamos pegá-lo em seguida.
— Cadê o Noah?
— No mesmo lugar que Cabeswater — disse Ronan.
Gansey se encolheu.
— Muito bem, Ronan — disse Blue, incomodada, deixando a porta aberta enquanto entrava em casa gritando: — Mãe! Estou indo com os meninos fazer... alguma coisa.
Enquanto eles esperavam, Gansey se virou para Ronan.
— Vamos esclarecer uma coisa: se tivesse qualquer outro lugar onde a gente pudesse enterrar essa coisa sem medo de nos descobrirem, a gente escolheria esse lugar. Não acho que seja uma boa ideia ir à Barns, e eu gostaria que você não viesse com a gente. Gostaria que isso ficasse registrado.
— Que tipo de alguma coisa? — Era Maura, de dentro da casa.
— Muito bem, cara — respondeu Ronan. Mesmo a censura era eletrizante. Prova de que aquilo estava realmente acontecendo. — Que bom que você conseguiu pôr isso pra fora.
Ronan não desperdiçava uma chance.
— Algo repugnante! — gritou Blue de volta. Ela reapareceu na porta, com as roupas basicamente do mesmo jeito, a não ser pela adição de leggings de crochê e botas de borracha verdes. — Falando nisso, o que a gente vai fazer?
Casa, pensou Ronan. Estou indo para casa.
— Bem — disse Gansey lentamente, enquanto um trovão ribombava mais uma vez —, a parte ilegal é que vamos entrar na propriedade da família do Ronan, o que ele não tem permissão para fazer.
Ronan exibiu os dentes de relance para ela.
— E a parte repugnante é que vamos enterrar um corpo.


Ronan não estivera na Barns durante mais de um ano, mesmo em sonhos.
Ela estava como ele se lembrava de incontáveis tardes de verão: os dois pilares de pedra meio escondidos pela hera, ribanceiras tomadas pela mata como uma parede em torno da propriedade, os carvalhos posicionados proximamente, de cada lado do acesso de cascalho aberto. O céu cinzento acima tornava tudo verde e negro, floresta e sombra, em crescimento e misterioso. O efeito era dar à entrada da Barns uma espécie de privacidade. Um isolamento.
Enquanto eles subiam o acesso, a chuva batia no para-brisa do BMW. Trovões ribombavam. Ronan navegou o carro sobre uma ravina, passando pelos carvalhos, então uma curva fechada, e lá estavam — uma grande área aberta em declive, de puro verde, protegida por árvores de todos os lados. Em outros tempos, o gado pastava naquele capim, na parte da frente da propriedade, gado de todas as cores. Aquele rebanho, adorável como animais encantados, ainda povoava os sonhos de Ronan, embora em campos mais estranhos. Ele se perguntava o que havia acontecido com o gado de verdade.
No banco de trás, Blue e Adam esticavam o pescoço, olhando para a casa que se aproximava. Era tosca, simples, uma casa de fazenda ampliada de tempos em tempos.
Eram as construções que davam nome à fazenda, espalhadas pelas colinas encharcadas, que eram memoráveis, a maioria branca como giz e com telhado de estanho, algumas ainda de pé, outras caindo. Algumas eram estábulos compridos e esguios para o gado, outras celeiros de feno, largos e com a cúpula pontuda. Havia anexos de pedra antigos e abrigos para equipamentos novos com tetos planos, currais de bodes e canis há muito desocupados. Eles pontilhavam os campos como se tivessem crescido deles: os menores agrupados como cogumelos, os maiores se destacando.
Sobre todos eles havia o céu agitado, imenso e roxo com a chuva. Todas as cores eram mais profundas, verdadeiras, melhores. Aquilo era a realidade; ano passado havia sido o sonho.
Havia uma luz na casa da fazenda, a luz da sala de estar. Ela estava sempre acesa.
Será que estou mesmo aqui?, Ronan se perguntou.
Certamente ele acordaria logo e se veria novamente exilado na Indústria Monmouth, no banco de trás de seu carro ou deitado no chão, ao lado da cama de Adam na Santa Inês. Na luz opressiva, a Barns era tão verde e bela que ele sentia náuseas.
No espelho retrovisor, ele viu Adam de relance, sua expressão sonhadora e doente, e então Blue, a ponta dos dedos pressionada no vidro, como se ela quisesse tocar a relva úmida.
A área de estacionamento de cascalho estava vazia, a enfermeira da casa em outro lugar, pelo visto. Ronan estacionou ao lado de uma ameixeira carregada de frutas prontas para ser colhidas. Uma vez ele sonhara que havia mordido uma delas, e o suco e as sementes haviam explodido de dentro para fora. Outra vez, a fruta sangrara e criaturas apareceram para beber o sangue sofregamente antes de se esconderem debaixo de sua pele, parasitas com uma fragrância doce.
Quando Ronan abriu a porta, o carro se encheu imediatamente do cheiro de casa, a terra úmida, o verde ao redor, a pedra com limo.
— Parece outro país — disse Blue.
Era outro país. Era um país para os jovens, um país onde você morria antes de ficar velho. Saindo do carro, seus pés afundaram na grama fofa do verão, ao lado do cascalho.
Uma chuva fina pegava nos seus cabelos. As gotas murmuravam sobre as folhas das árvores que os cercavam, um zunido ascendente.
O encanto do lugar não conseguia ser estragado nem com o conhecimento de que fora ali que Ronan encontrara o corpo do pai, e de que aquele era o carro ao lado do qual Ronan o havia encontrado caído. Assim como a Indústria Monmouth, a Barns se transformava totalmente com a mudança da luz. O corpo havia sido encontrado em uma manhã fria e escura, e aquela era uma tarde cinzenta e tempestuosa. Então a memória se tornou apenas um pensamento brevemente observado, analítico em vez de emocional.
A única realidade era esta: ele estava em casa.
Que vontade ele tinha de ficar.
Alguns minutos mais tarde, parados junto ao porta-malas aberto, todos se deram conta de que nem Gansey nem Ronan haviam refletido o suficiente sobre o plano para arranjar uma pá.
— Einstein? — Ronan se dirigiu a Adam.
— Estábulo? — sugeriu Adam, despertando. — Ferramentas?
— Ah, sim. Por aqui.
Escalando uma cerca preta de quatro tábuas, eles partiram através dos campos na direção de um dos principais estábulos. A atmosfera encorajava o silêncio.
Adam deu alguns passos apressados para caminhar ao lado de Blue, mas nenhum dos dois disse uma palavra. No ombro de Ronan, Motosserra batia as asas para manter o equilíbrio. Ela estava ficando pesada, esse sonho dele. Ao lado de Ronan, a cabeça de Gansey estava baixada contra a chuva, seu rosto pensativo.
Ele havia feito essa caminhada muitas vezes antes.
Quantas vezes Ronan havia feito essa caminhada? Podia ter sido um ano atrás, cinco anos atrás.
Ronan sentia como se fosse arrebentar de fúria por Declan, executor do testamento de seu pai. Ele não podia ter o pai de volta, provavelmente jamais teria a mãe de volta.
Mas, se lhe permitissem voltar ali... Não seria a mesma coisa, mas seria suportável.
Motosserra viu a coisa estranha primeiro. Ela observou:
— Cráá.
Ronan parou.
— O que é isso? — ele perguntou. A uns doze metros de distância, um objeto marrom e liso estava parado no meio de todo o verde. Batia na cintura dele em altura, e a textura era montanhosa.
Cheia de dúvidas, Blue perguntou:
— Isso é... uma vaca?
Era óbvio, uma vez que ela o dissera. Era certamente uma vaca, deitada como o gado faz na chuva. E era certamente uma das vacas que haviam ocupado aquele pasto antes de Niall Lynch ter morrido. Ronan não conseguia entender bem como ela ainda estava ali.
— Ela está morta? — Adam fez uma careta.
Ronan apontou para a paleta que se movia lentamente da vaca enquanto ele dava a volta nela. Agora ele podia ver seu rosto delicadamente esculpido e a umidade em torno das narinas. Seus olhos negros e grandes estavam entreabertos. Tanto ele quanto Motosserra se inclinaram do mesmo jeito para vê-la. Quando Ronan acenou uma mão na frente dos olhos da vaca, ela não se moveu.
— Non mortem — ele sussurrou, estreitando os olhos —, somni fratrem.
— O quê? — sussurrou Blue.
— Não a morte, mas seu irmão, o sono — traduziu Adam.
Gansey, com um pouco de maldade na voz, aconselhou:
— Cutuque o olho dela.
— Gansey! — disse Blue.
Ronan não cutucou o olho da vaca, mas passou um dedo sobre seus cílios suaves, que não piscavam. Gansey abriu a palma na frente das narinas da vaca.
— Ela está respirando.
Agachada, Blue acariciou o focinho da vaca, deixando marcas escuras sobre o pelo molhado.
— Pobrezinha. O que você acha que tem de errado com ela?
Ronan não sabia direito se tinha alguma coisa de errado com ela. A vaca não parecia doente, fora a falta de movimento. E Motosserra não parecia incomodada de um jeito fora do normal, embora tivesse pressionado o corpo contra a lateral da cabeça de Ronan, como um aviso para que ele não a colocasse no chão em lugar algum próximo do animal.
— Existe uma metáfora para o povo americano aqui — murmurou Gansey sombriamente —, mas me escapa no momento.
— Vamos seguir em frente antes que o Gansey tenha tempo de dizer algo que me faça odiá-lo — disse Blue.
Eles deixaram a vaca para trás e continuaram na direção de um dos maiores estábulos. A porta grande de correr estava comida pelos cupins e apodrecida perto da parte de baixo. As bordas de metal estavam enferrujadas.
Ronan colocou a mão sobre a superfície áspera da maçaneta da porta. Como de costume, sua palma memorizou a sensação. Não a ideia, mas a sensação real, a textura, a forma e a temperatura do metal, tudo de que precisava para trazê-la de volta de um sonho.
— Espere — disse Adam, cauteloso. — Que cheiro é esse?
O ar estava tomado por um odor quente, claustrofóbico — não desagradável, mas inegavelmente agrícola. Não era o cheiro de um estábulo que havia sido usado no passado; era o cheiro de um estábulo que estava sendo usado no presente.
Franzindo o cenho, Ronan abriu a enorme porta, que rangeu. Levou um momento para que seus olhos se ajustassem.
— Ah — disse Gansey.
Ali estava o restante do rebanho. Dúzias de cabeças de gado eram silhuetas escuras na luz pálida que passava pela porta. Não houve o menor movimento com o tinido da porta se abrindo. Apenas o som de várias dúzias de animais muito grandes respirando, e, acima deste, o ruído da chuva leve caindo sobre o telhado de metal.
— Modo de sono — afirmou Gansey, ao mesmo tempo em que Blue disse: — Hipnose.
O coração de Ronan batia descompassadamente. O rebanho dormindo tinha um potencial que poderia ser despertado. Como alguém com a palavra correta poderia provocar o estouro da boiada.
— É culpa nossa também? — sussurrou Blue. — Como as quedas de luz?
Adam desviou o olhar.
— Não — respondeu Ronan, certo de que aquele rebanho dormindo não estava acontecendo por causa da linha ley. — Isso é algo mais.
— Sem querer soar como o Noah, mas isso está me deixando nervoso. Vamos encontrar uma pá e cair fora daqui — disse Gansey.
Arrastando os pés pela serragem, eles caminharam através dos animais imóveis até uma pequena sala de equipamentos tornada cinza pela chuva. Ronan encontrou uma pá de corte. Adam pegou uma pá de neve. Gansey testou o peso de um escavador de buracos para estacas, como se estivesse conferindo o equilíbrio de uma espada.
Após um momento, Blue perguntou:
— Você realmente cresceu aqui, Ronan?
— Nesse estábulo?
— Você sabe exatamente o que eu quero dizer.
Ronan começou a responder, mas a dor cresceu dentro dele, súbita e chocante. A única maneira de colocar o sentimento para fora era afogando as palavras com ácido. Elas saíram como se ele odiasse o lugar. Como se não pudesse esperar para ir embora dali. Irônico e cruel, ele disse:
— Sim. Este era o meu castelo.
— Uau — ela respondeu, como se ele não tivesse sido sarcástico. Então sussurrou: — Olhe!
Ronan seguiu o olhar dela. Onde o telhado corrugado encontrava a quina da parede, um pássaro marrom empoeirado estava enfiado em um ninho. Seu peito parecia negro, ensanguentado, mas um olhar mais próximo revelou que era um truque da luz difusa. A plumagem em seu peito tinha o tom esmeralda metálico de uma pomba. Como o gado, seus olhos estavam abertos, sua cabeça imóvel. O pulso de Ronan se acelerou de novo.
Sobre o seu ombro, Motosserra se encolheu, pressionando-se contra o pescoço dele, uma reação à reação dele, em vez de ao outro pássaro.
— Toque ele — sussurrou Blue. — Veja se ele está vivo também.
— Um de vocês, Gêmeos Pobreza, devia fazer isso — disse Ronan. — Eu toquei o último.
Os olhos de Blue lançaram faíscas.
— Do que você me chamou?
— Você me ouviu.
— Gansey — ela disse.
Ele largou a cavadeira.
— Você me disse que queria lutar suas batalhas com o Ronan sozinha.
Com um revirar de olhos, Adam arrastou uma cadeira e investigou.
— Está respirando também. Como as vacas.
— Agora confira os ovos — disse Ronan.
— Vá se ferrar.
Eles estavam todos um pouco apreensivos. Era impossível dizer se aquela sonolência era natural ou sobrenatural, e, sem esse conhecimento, não parecia impossível que aquilo pudesse acontecer a eles também.
— Nós somos os únicos acordados?
Isso inspirou Ronan. Deixando Motosserra sobre uma mesa feita de blocos de concreto, ele abriu o velho silo ao lado dela. Embora estivesse vazio, Ronan suspeitava que estaria ocupado. Como esperado, quando ele enfiou a cabeça lá dentro, percebeu um cheiro distinto, vivo, por trás do cheiro quente dos grãos.
— Luz — ordenou Ronan.
Ligando a função de lanterna do celular, Gansey iluminou o interior do silo.
— Rápido — ele disse. — Isso cozinha o meu telefone.
Estendendo o braço até o velho saco de ração no fundo, Ronan encontrou o ninho dos camundongos. Tirou cuidadosamente um deles com a mão. Ele era fofo e não pesava quase nada, tão pequeno que mal se percebia o calor de seu corpo.
Embora o camundongo fosse adulto o suficiente para ser completamente móvel, permanecia calmo em sua mão em concha. Ronan correu um dedo carinhosamente sobre a espinha do animal.
— Por que ele está tão calmo? — perguntou Blue. — Está dormindo também?
Ele virou a mão apenas o suficiente para que ela visse seus olhos alertas, confiantes, mas não o bastante para que Motosserra percebesse — ela acharia que era comida. Ele e Matthew costumavam encontrar ninhos de camundongos nos currais e nos campos próximos das gamelas. Eles sentavam de pernas cruzadas por horas na relva, deixando os camundongos correrem para cima e para baixo por suas mãos. Os novos nunca tinham medo.
— Ele está desperto — ele disse. Erguendo a mão, pressionou o corpo minúsculo contra o rosto de maneira que pudesse sentir a palpitação dos batimentos cardíacos rápidos contra sua pele. Blue o estava encarando, então ele o ofereceu a ela. — Você pode sentir o coração dele desse jeito.
Ela pareceu desconfiada.
— É sério? Ou está de brincadeira comigo?
— Como você vai saber?
— Você é um sacana, e isso não parece uma atividade que sacanas gostem.
Ele sorriu ligeiramente.
— Não vá se acostumar.
Com relutância, ela aceitou o camundongo minúsculo e o segurou perto do rosto. Um sorriso surpreso surgiu em sua boca. Com um breve suspiro feliz, ela o ofereceu a Adam.
Ele não parecia ansioso, mas, com a insistência de Blue, pressionou o corpinho contra o rosto e fez uma careta com a boca. Após um segundo, passou o camundongo para Gansey. Gansey foi o único que sorriu para o bicho antes de levá-lo ao rosto. E foi o sorriso dele que acabou com Ronan; ele se lembrou da expressão solta de Matthew quando eles descobriram os camundongos pela primeira vez, lá atrás, quando eles haviam sido a família Lynch.
— Incrivelmente encantador — relatou Gansey. E o largou nas mãos de Ronan.
Ronan segurou o camundongo sobre o topo da caixa.
— Alguém quer segurar mais um pouco antes que eu devolva? Porque ele vai estar morto em um ano. O tempo de vida de um camundongo do campo é uma merda.
— Muito bem, Ronan — disse Adam, virando-se para ir embora.
O rosto de Blue perdera a animação.
— Não durou muito.
Gansey não acrescentou nada. Seus olhos simplesmente se demoraram sobre Ronan, a boca pesarosa; ele o conhecia bem demais para se sentir ofendido.
Ronan sentiu que estava sendo analisado, e talvez ele quisesse ser.
— Vamos enterrar aquela coisa — disse ele.
De volta ao BMW, Gansey foi suficientemente decente para não parecer presunçoso quando Blue tapou a boca com a mão e Adam prendeu a respiração ao verem o homem-pássaro pela primeira vez. Ronan e Gansey o haviam enfiado em uma caixa da melhor maneira possível, mas boa parte do corpo saía para fora dos dois lados para abusar da imaginação. Várias horas de morte não haviam melhorado sua aparência de maneira alguma.
— O que é isso? — perguntou Adam.
Ronan tocou uma das garras afiadas enganchadas na borda da caixa. Era terrível, aterrorizante. Ele temia aquela criatura de maneira permanente, primitiva, obtusa, que ocorria por ser constantemente morto por ela em sua cabeça.
— Elas aparecem quando estou tendo um pesadelo. Tipo, os pesadelos atraem essas coisas. Elas me odeiam. Nos sonhos, elas são chamadas de horrores noturnos. Ou... niri viclis.
Adam franziu o cenho.
— Isso é latim?
Perplexo, Ronan considerou a questão.
— Eu... acho que não.
Blue olhou bruscamente para ele, e imediatamente Ronan se lembrou de quando ela o havia acusado de conhecer a outra língua na caixa quebra-cabeça. Era possível que ela estivesse certa.
Entre os quatro, eles carregaram a caixa para a linha de árvores. Enquanto a chuva caía fina, eles se revezavam cavando o solo umedecido pela tempestade.
Ronan olhava de relance para cima de tempos em tempos para observar Motosserra. Ela não se interessava por nada grande e negro, incluindo a si mesma, preferindo manter distância do corpo, mesmo depois que ele já estava dentro do buraco. Mas ela adorava Ronan acima de tudo, então se deixava ficar a meio caminho, bicando o chão em busca de insetos invisíveis.
Quando jogaram a última pilha de terra no buraco, estavam encharcados de chuva e suor. Havia algo afetuoso, pensou Ronan, a respeito de eles todos enterrarem um corpo por sua causa. Ele teria preferido que a criatura tivesse ficado em seus sonhos, mas, se tinha de escapar, isso era melhor que o último pesadelo fora de controle.
Com uma blasfêmia suave, Gansey cravou a ponta da pá no chão e secou a testa com o dorso da mão. Então enfiou uma folha de hortelã na boca.
— Estou com bolhas. Nino’s?
Blue protestou sem dizer uma palavra.
Gansey olhou para Adam.
— Por mim qualquer coisa serve — respondeu Adam, o sotaque de Henrietta se revelando inadvertidamente e traindo sua fadiga. Não era o cansaço rotineiro. Era algo mais profundo. Não era difícil para Ronan imaginar a barganha se aninhando nos ossos de Adam.
Gansey olhou para Ronan.
Ronan passou um polegar cuidadoso por baixo de uma de suas tiras de couro, limpando a sujeira e o suor. Então pensou em quando voltaria à Barns. Em voz baixa, apenas para Gansey, ele perguntou:
— Posso ir ver a minha mãe?

2 comentários:

  1. "Ela coçou a panturrilha com o pé descalço, usando um vestido que lembrava a Ronan um abajur. Qualquer que fosse esse abajur, Gansey claramente gostaria de ter um.
    Ronan não era fã de abajures."

    PISTAS!

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  2. hmmm, acho que peguei a mensagem entre as linhas ;) (entenderam o trocadilho? kk, desculpa foi bem ruim mesmo)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!