20 de junho de 2018

Capítulo 19

Na tarde seguinte, Blue saiu descalça na frente do número 300 da Rua Fox e se sentou no meio-fio para esperar por Calla debaixo das árvores azul-esverdeadas.
Durante a tarde inteira, Neeve ficara trancada em seu quarto e Maura estivera fazendo leituras de tarô dos anjos para um grupo de pessoas de fora que participava de um retiro de escritores. Então Blue havia tirado a tarde inteira para pensar no que fazer a respeito de ter encontrado Neeve no quintal. E o que fazer envolvia Calla.
Ela estava começando a ficar agitada quando a carona de Calla a deixou na calçada.
— Você está se colocando na rua com o lixo? — Calla perguntou enquanto descia do veículo, azul-esverdeado como todo o resto no dia. Ela usava um vestido estranhamente respeitável com sandálias de strass duvidosamente chiques. Com um aceno lânguido para o motorista, ela se virou para Blue quando o carro se afastou.
— Eu preciso te fazer uma pergunta — disse Blue.
— E é uma pergunta que fica melhor ao lado de uma lata de lixo? Segure isso — disse Calla, passando com esforço uma das sacolas que tinha no braço para o de Blue. Ela cheirava a jasmim e pimentão, o que queria dizer que tivera um dia ruim no trabalho. Blue não estava inteiramente certa a respeito do que Calla fazia para ganhar a vida, mas sabia que tinha algo a ver com Aglionby, com lidar com papeladas e praguejar com estudantes, muitas vezes nos fins de semana. Qualquer que fosse sua descrição de trabalho, envolvia recompensar a si mesma com burritos em dias ruins.
Calla começou a subir a passos largos o acesso até a porta da frente.
Blue a seguiu desamparada, arrastando a sacola, que parecia conter livros ou corpos.
— A casa está cheia.
Apenas uma das sobrancelhas de Calla estava prestando atenção.
— Sempre está cheia.
Elas estavam quase na porta da frente. Dentro, todos os quartos estavam ocupados com tias, primos e mães. O som raivoso da música de doutorado de Persephone já era audível. A única chance de ter privacidade era na rua.
Blue disse:
— Eu quero saber por que a Neeve está aqui.
Calla parou e olhou para ela por sobre o ombro.
— Ah, que graça — respondeu de maneira pouco agradável. — Eu também gostaria de saber a causa da mudança climática, mas ninguém vai me contar.
Agarrando a sacola de Calla como refém, Blue insistiu:
— Eu não tenho mais seis anos. Talvez todo mundo possa ver o que quiser em um baralho de cartas, mas estou cansada de me esconderem as coisas.
Agora ela tinha o interesse de ambas as sobrancelhas de Calla.
— Você está certa — concordou Calla. — Eu me perguntava quando você se rebelaria contra nós. Por que não pergunta isso à sua mãe?
— Porque estou brava com ela por me dizer o que fazer.
Calla trocou o peso de lado.
— Pegue outra sacola. Qual é a sua ideia?
Blue aceitou a sacola marrom-escura e com cantos. Parecia haver uma caixa dentro.
— Que você simplesmente me conte.
Com uma das mãos recém-liberadas, Calla tocou o lábio de leve com um dedo. A boca e as unhas tinham um tom profundamente índigo, a cor da tinta de um polvo, a cor das sombras mais profundas no jardim rochoso da frente.
— A única coisa é que não tenho certeza se o que nos foi dito é verdade.
Blue cambaleou um pouco. A ideia de mentir para Calla, Maura ou Persephone parecia ridícula. Mesmo se elas não soubessem a verdade, perceberiam a mentira.
Mas parecia haver algo dissimulado a respeito de Neeve, sobre o fato de ela fazer uma leitura tarde da noite, onde achava provável que ninguém a veria.
Calla disse:
— Ela deveria estar aqui procurando por alguém.
— Meu pai — tentou adivinhar Blue.
Calla não disse sim, mas também não disse não. Em vez disso, respondeu:
— Mas acho que a visita se tornou algo mais para ela, agora que ela está aqui em Henrietta já faz um tempo.
Elas olharam fixamente uma para outra por um momento, como se conspirassem um plano.
— Minha ideia é diferente, então — disse Blue, finalmente. Tentou arquear a sobrancelha para combinar com a de Calla, mas faltou um pouco. — Nós procuramos nas coisas da Neeve. Você segura algum objeto e eu fico ao seu lado.
A boca de Calla ficou muito pequena. Suas meditações psicométricas eram muitas vezes vagas, mas, com Blue ao seu lado, seu dom ficava mais agudo.
Certamente fora um momento dramático quando ela tocara a tatuagem de Ronan. Se ela segurasse as coisas de Neeve, elas poderiam ter algumas respostas concretas.
— Pegue esta sacola — disse Calla, passando a Blue a última delas. Era a menor de todas, feita de couro vermelho-sangue e incrivelmente pesada. Enquanto Blue dava um jeito de segurá-la com as outras, Calla cruzou os braços e tamborilou os dedos de unhas índigo um pouco abaixo dos ombros.
— Ela teria que ficar fora do quarto por pelo menos uma hora — disse. — E a Maura também teria que estar ocupada.
Calla havia observado certa vez que Maura não tinha animais de estimação porque cuidar de seus princípios já consumia tempo demais. Maura se dedicava a muitas coisas, e uma delas dizia respeito à sua privacidade.
— Mas você faria isso?
— Vou ficar sabendo de mais coisas hoje — disse Calla. — Sobre a agenda dela. O que é isso? — perguntou, com a atenção se desviando para um carro estacionado no fim da calçada. Tanto Calla quanto Blue se viraram para ler o adesivo na porta do passageiro: FLORES DA ANDI! A motorista remexeu no banco de trás do carro por dois minutos antes de subir a calçada com o menor arranjo de flores do mundo. Sua franja fofa era maior do que as flores.
— É difícil encontrar este lugar! — exclamou a mulher.
Calla apertou os lábios. Ela nutria um ódio puro e irascível por qualquer coisa que pudesse ser classificada como conversa fiada.
— O que é tudo isso? — perguntou, fazendo a pergunta soar como se as flores fossem filhotinhos indesejados.
— Isto é para... — respondeu a mulher, atrapalhada, à procura do cartão.
— Orla? — tentou adivinhar Blue.
Orla sempre recebia flores de homens apaixonados, de Henrietta e de outros lugares. Não eram só flores que eles mandavam. Alguns mandavam pacotes de spas. Outros, cestas de frutas. Um, memoravelmente, mandou um retrato a óleo de Orla. Ele a havia pintado de perfil, de maneira que o observador só conseguia ver completamente seu pescoço longo e elegante, as maçãs do rosto clássicas, os olhos românticos, de pálpebras pesadas, e o nariz enorme — o traço de que ela menos gostava. Orla rompera com ele imediatamente.
— Blue? — a mulher perguntou. — Blue Sargent?
Em um primeiro momento, Blue não compreendeu que ela queria dizer que as flores eram para ela. A mulher teve de empurrá-las em sua direção, e então Calla teve de pegar de volta uma das sacolas para que a garota fosse capaz de aceitá-las.
Quando a mulher voltou para o carro, Blue virou o arranjo na mão. Era apenas um pequeno ramo de cravos-de-amor em torno de um cravo branco; as flores eram mais cheirosas que bonitas.
Calla comentou:
— A entrega deve ter custado mais do que as flores.
Tateando em torno dos caules rijos, Blue encontrou um pequeno cartão.
Dentro, um garrancho feminino havia transcrito a mensagem:

Espero que você ainda queira que eu ligue.
- Adam

Agora o pequeno ramo de flores fazia sentido. Elas combinavam com o blusão puído de Adam.
— E você está corando — disse Calla desaprovadoramente. Ela estendeu uma mão para as flores, a qual Blue afastou com uma palmada. Com sarcasmo, Calla acrescentou: — Quem quer que tenha sido, ele realmente se esforçou, não é?
Blue tocou a ponta do cravo branco no queixo. Era tão leve que não parecia mesmo que ela estivesse tocando algo. Não era um retrato ou uma cesta de frutas, mas ela não conseguia imaginar Adam enviando nada mais dramático. Aquelas pequenas flores eram tranquilas e frugais, assim como ele.
— Acho que são bonitas.
Blue teve de morder o lábio para evitar um sorriso bobo. O que ela queria fazer era abraçar as flores e dançar, mas ambas as coisas pareciam insensatas.
— Quem é ele? — perguntou Calla.
— Prefiro não dizer. Tome suas sacolas — Blue estendeu um braço de maneira que a sacola marrom e a outra, de lona, escorregaram para as mãos abertas de Calla.
Esta balançou a cabeça, sem parecer incomodada. No fundo, Blue suspeitava que ela era uma romântica.
— Calla? — perguntou Blue. — Você acha que eu devia contar para os garotos onde fica o caminho dos corpos?
Ela fitou Blue por tanto tempo quanto um olhar de Neeve. Então disse:
— O que faz você pensar que eu posso responder a essa pergunta?
— Porque você é adulta — respondeu Blue. — E imagino que tenha aprendido coisas até chegar à idade adulta.
— O que eu acho — disse Calla — é que você já se decidiu.
Blue baixou os olhos. Era verdade que ela ficava acordada à noite por causa do diário de Gansey e pela sugestão de algo a mais quanto ao mundo. Também era verdade que era assediada pela ideia de que talvez, apenas talvez, houvesse um rei adormecido e que ela seria capaz de colocar a mão sobre seu rosto e sentir um coração secular dentro do peito dele.
Mas, mais importante que qualquer uma dessas coisas, era o rosto dela naquela carta do pajem de copas, os ombros de um garoto salpicados pela chuva no adro da igreja e uma voz dizendo: “Gansey. É só isso”.
Assim que ela vira a morte diante dele, e vira que ele era real e que ela estava destinada a ter uma parte nisso, não havia a menor possibilidade de que ficasse simplesmente parada e deixasse tudo acontecer.
— Não conte para a minha mãe — disse Blue.
Com um resmungo evasivo, Calla abriu a porta subitamente, deixando Blue com o buquê no degrau. As flores não pesavam nada, mas, para Blue, tinham a sensação de mudança.
Hoje, pensou Blue, é o dia em que eu paro de ouvir o futuro e passo a vivê-lo.
— Blue, se você conhecê-lo... — começou Calla, parada a meio passo da entrada. — É melhor proteger seu coração. Não esqueça que ele vai morrer.

4 comentários:

  1. Achei lindo Adam ter mandado as flores.

    ResponderExcluir
  2. Essa frase no final, até arrepiei

    ResponderExcluir
  3. minha vó sempre diz que cravos são flores de velório...

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!