3 de junho de 2018

Capítulo 19

Só de cueca e coberto de
Graxa. Mas nada é tão
Divertido quanto acha

NÃO SEI BEM como saímos do Labirinto.
Como ninguém sabia de nada nem estava prestando atenção, vou dizer aqui que foi tudo obra da minha coragem homérica e resistência hercúlea. Sim, deve ter sido isso. Como consegui escapar do pior do calor do titã, usei toda a minha bravura para amparar Piper e Meg, sempre incentivando as duas a continuarem andando. Cambaleamos pelos corredores, os três fumegando e semiconscientes, mas ainda vivos, e fomos refazendo nossos passos até o elevador de carga. Com um último esforço heroico, acionei a alavanca para subirmos.
Chegamos à luz do sol — uma luz normal, não o sol zumbi e cruel de um titã quase morto — e desabamos na calçada. O rosto chocado de Grover pairou logo acima de mim.
— Muito quente — choraminguei.
Grover pegou a flauta e começou a tocar. Eu apaguei.
Nos meus sonhos, eu estava em uma festa na Roma Antiga. Calígula tinha acabado de inaugurar o novo palácio na base do monte Palatino — uma ousadia arquitetônica que derrubou a parede dos fundos do Templo de Castor e Pólux para usá-lo como entrada principal. Calígula se considerava um deus, então não via problema nisso, mas as elites romanas ficaram horrorizadas. O sacrilégio era tanto que só seria comparável a alguém que instalasse uma enorme televisão de LED no altar de uma igreja e chamasse a galera para assistir ao campeonato de futebol e beber o vinho da comunhão.
Claro que isso não impediu ninguém de comparecer à festança. Alguns apareceram (disfarçados, óbvio). Mas também, como resistir à tentação de uma festa audaciosa e blasfema com comida de graça?
Multidões de fantasiados circulavam pelos enormes salões iluminados por tochas. Em cada canto, músicos tocavam melodias típicas de todo o império; da Gália a Hispânia, da Grécia ao Egito. Eu estava fantasiado de gladiador. (Com o meu físico divino daquela época, claro que eu podia usar uma roupa ousada dessas. E ficava lindo até demais.) Fui me misturando à multidão de senadores fantasiados de escravos, escravos fantasiados de senadores, pessoas sem criatividade vestidas de fantasmas de toga e dois patrícios empreendedores que elaboraram a melhor fantasia dupla de burro que o mundo já vira. Eu até que não me importava muito com a questão do sacrilégio do templo/palácio. Não era o meu templo, afinal. E, naqueles primeiros anos de Império Romano, eu achava a malícia dos Césares muito revigorante. Além do mais, por que puniríamos nossos maiores benfeitores?
Quando os imperadores expandiram seu poder e influência, também expandiram o nosso poder e influência. Roma espalhou os costumes gregos por uma parte enorme do mundo, e nós, olimpianos, viramos os deuses do império! Hórus que saísse do caminho; Marduque teria que se resignar ao cantinho do esquecimento: a hora era dos olimpianos!
E não queríamos botar esse sucesso em risco só porque os imperadores ficaram meio arrogantes. Ainda mais porque eles baseavam sua arrogância na nossa.
Eu andava pela festa incógnito, me divertindo com toda aquela gente linda, quando o imperador finalmente apareceu. Veio numa carruagem dourada puxada por seu cavalo branco favorito, Incitatus. Na escolta a seu lado, os dois guardas pretorianos eram as únicas pessoas que não estavam fantasiadas. E Caio Júlio César Germânico estava nu em pelo, pintado de dourado da cabeça aos pés, com uma coroa de raios de sol na testa.
Ele estava fingindo ser eu, é claro. Mas, quando o vi, não foi raiva que senti primeiro — foi admiração. Aquele lindo mortal sem-vergonha tinha encarnado o papel com perfeição.
— Eu sou o Novo Sol! — anunciou ele, sorrindo para a multidão, como se seu sorriso emanasse todo o calor do mundo. — Eu sou Hélio. Eu sou Apolo. Eu sou César. Podem se banhar na minha luz!
A multidão aplaudiu, meio nervosa. Era para se curvar? Era para rir? Era sempre difícil saber com Calígula, e a punição para quem errasse em geral era a morte.
O imperador desceu da carruagem. O cavalo foi levado até a mesa de hors d’oeuvres enquanto Calígula e seus guardas circulavam pelo salão.
Calígula parou e apertou a mão de um senador vestido de escravo.
— Mas você está ótimo, Cássio Agripa! Então, quer ser meu escravo?
O senador se curvou.
— Eu sou seu leal servo, César.
— Excelente! — Calígula se virou para os guardas. — Vocês ouviram! Ele agora é meu escravo. Podem levar o homem até meu mestre de escravos, confisquem todas as propriedades e o dinheiro dele. Mas deixem a família livre. Hoje estou me sentindo bem generoso.
O senador gaguejou, mas não conseguiu concatenar as palavras para protestar. Dois guardas o levaram, e Calígula gritou:
— Obrigado pela lealdade!
As pessoas se afastaram depressa, correndo como gado em uma tempestade. Os que antes estavam se adiantando, ansiosos para chamar a atenção do imperador e talvez cair nas graças dele, começaram a recuar e a tentar se misturar à multidão.
— É uma noite ruim — sussurraram alguns, em aviso aos colegas. — Ele está tendo uma noite ruim.
— Fílon! — gritou o imperador, encurralando um pobre jovem que tentava se esconder atrás daquela dupla fantasiada de burro. — Venha aqui, seu canalha!
— Pr-Princeps — gaguejou o homem.
— Eu a-mei a sátira que você escreveu sobre mim! Meus guardas encontraram uma cópia no Fórum e me mostraram.
— S-senhor... Foi só uma brincadeirinha, uma coisinha sem graça. Eu não pretendia…
— Mas que besteira! — Calígula sorriu para a multidão. — Fílon não é ótimo, pessoal? Vocês não amam o trabalho dele? Não foi ótimo quando ele me comparou a um cão raivoso?
A multidão estava à beira do pânico. O ar estava tão carregado que quase achei que meu pai também estivesse escondido entre os convidados.
— Eu prometi que os poetas seriam livres para se expressarem! Nada daquela paranoia do velho reinado de Tibério. Eu admiro essa sua língua ferina, Fílon. Acho que todo mundo deveria ter a chance de admirá-la. Quero recompensá-lo!
Fílon engoliu em seco.
— Obrigado, senhor.
— Guardas, levem o homem daqui. Arranquem a língua dele, mergulhem em prata derretida e deixem em exibição no Fórum, onde todos poderão admirá-la. Sério mesmo, Fílon. Excelente trabalho!
Dois pretorianos levaram o poeta, que gritava e se debatia, histérico.
— Você aí! — gritou Calígula.
Só então percebi que a multidão tinha se afastado, me deixando exposto.
Calígula de repente surgiu na minha frente, o rosto coladinho ao meu, estreitando os lindos olhos enquanto analisava minha fantasia e meu físico divino.
— Não sei quem você é.
Eu queria responder. Sabia que aquele César não poderia fazer nada comigo. Na pior das hipóteses, eu só precisaria dizer um tchau! e desaparecer em uma nuvem de purpurina. Mas preciso admitir que fiquei paralisado na presença de Calígula. Era um jovem louco, poderoso e imprevisível. Sua audácia me deixava sem fôlego.
Até que finalmente consegui fazer uma reverência.
— Sou um mero ator, César.
— Ah, de fato! — Calígula abriu um sorriso. — E interpreta um gladiador. Então lutaria até a morte em minha honra?
Lembrei a mim mesmo de que eu era imortal, mas levei um tempo para me convencer disso. Puxei a espada de gladiador, que não passava de uma imitação feita de metal leve.
— Pode escolher o oponente, César! — Observei a plateia e gritei: — Vou destruir qualquer um que ofereça ameaça ao meu senhor!
Para demonstrar, me lancei para a frente e cutuquei o peitoral másculo do guarda pretoriano mais próximo. A espada se curvou contra seus músculos. Ergui aquela arma ridícula no ar, o metal amassado num formato que lembrava a letra Z.
Um silêncio perigoso se abateu sobre o salão. Todos os olhos estavam fixos no César.
Depois de um tempo, Calígula riu.
— Muito bem!
Ele me deu tapinhas no ombro e estalou os dedos. Um de seus servos se aproximou e me entregou uma bolsa pesada cheia de moedas de ouro.
Calígula sussurrou em meu ouvido:
— Já me sinto mais seguro.
O imperador seguiu adiante, e as pessoas em volta riram de alívio, algumas até lançando olhares de inveja em minha direção, como se perguntassem: Qual é o segredo dele?
Depois disso, fiquei décadas longe de Roma. Era raro ver um homem capaz de perturbar um deus, mas Calígula tinha mesmo me deixado meio inseguro. Ele quase era um Apolo melhor do que eu. O sonho mudou. Vi Herófila, a Sibila Eritreia, mais uma vez. Ela estendia os braços algemados, o rosto vermelho com o calor e os reflexos da lava ardente aos seus pés.
— Apolo, a empreitada talvez não pareça valer a pena. E não tenho certeza de que valha. Mas você precisa vir. Precisa manter todos unidos, mesmo sob a dor do luto.
Afundei na lava, sumindo enquanto Herófila chamava meu nome, meu corpo se desfazendo até virar cinzas.
Acordei gritando, deitado em um saco de dormir na Cisterna.
Aloe Vera estava parada ao meu lado. Quase todas as folhas triangulares e espetadas de seu cabelo estavam cortadas, deixando-a quase careca.
— Você está bem — garantiu ela, pousando a mão fria na minha testa febril. — Mas passou por muita coisa.
Percebi que estava só de cueca. Meu corpo todo estava marrom-escuro e coberto de seiva de aloe. Não dava para respirar pelo nariz. Levei a mão às narinas e percebi que estavam tampadas com pequenos plugues nasais verdes de aloe.
Desentupi o nariz.
— E minhas amigas?
Aloe chegou para o lado, e então as vi, mais atrás, deitadas em sacos de dormir. Grover Underwood estava sentado de pernas cruzadas entre as duas adormecidas, também cobertas de gosma. Uma oportunidade perfeita de tirar uma foto de Meg com plugues verdes espetados no nariz, só para poder chantageá-la no futuro, mas eu estava tão aliviado por vê-la viva que não consegui pensar muito nisso. E sem falar que eu também não tinha celular.
— Elas vão ficar bem?
— A situação das meninas era pior que a sua — explicou Grover. — Ficaram em um estado bem delicado por um tempo, mas vão superar. Estou dando néctar e ambrosia para as duas.
Aloe sorriu.
— Além do mais, minhas propriedades de cura são lendárias. Espere só para ver. As duas já vão estar acordadas e saracoteando por aí antes mesmo do jantar.
Jantar… Olhei para o círculo laranja-escuro do céu acima da cisterna. Ou era fim de tarde, ou os incêndios florestais estavam muito próximos. Ou ambos.
— E Medeia?
Grover franziu a testa.
— Meg me contou sobre a batalha antes de desmaiar, mas não sei o que aconteceu com a feiticeira. Nem cheguei a ver a mulher.
Meu corpo estremeceu. Queria acreditar que Medeia tinha morrido na explosão, mas duvidava de que nossa sorte pudesse ser tão grande. Ela não parecera se incomodar com o fogo de Hélio, então talvez fosse naturalmente imune. Ou talvez usasse alguma magia protetora.
— E suas amigas dríades? Agave e Jade?
Aloe e o sátiro trocaram um olhar tristonho.
— Agave talvez fique bem — respondeu Grover. — Ela caiu no sono assim que a levamos de volta para sua planta. Mas Jade… — Ele balançou a cabeça.
Eu mal conhecia aquela dríade, só a vira por alguns minutos, mas, ainda assim, a notícia da morte dela me deixou muito abalado. Senti como se eu estivesse perdendo as folhas do corpo, perdendo pedaços essenciais de mim mesmo.
Lembrei-me do que Herófila falou, no sonho: A empreitada talvez não pareça valer a pena. E não tenho certeza de que valha. Mas você precisa vir. Precisa manter todos unidos, mesmo sob a dor do luto.
Tive medo de que a morte de Jade fosse só uma pequena parte da dor que nos aguardava.
— Sinto muito — falei.
Aloe deu tapinhas no meu ombro coberto de gosma.
— Não é culpa sua, Apolo. Quando vocês a encontraram, ela já estava muito mal. Só teria adiantado se você…
A dríade ficou quieta, mas eu sabia o que ela queria dizer: se você tivesse seus poderes de cura divinos.
Muita coisa teria sido diferente se eu fosse um deus, não uma farsa, metido num disfarce ridículo de Lester Papadopoulos.
Grover pegou a zarabatana ao lado de Piper. O tubo de bambu estava todo chamuscado, e o fogo abrira vários buracos que provavelmente inutilizariam a arma.
— Tem mais uma coisa que você devia saber. Quando Agave e eu carregamos Jade para fora do labirinto… Sabe aquele guarda de orelhas grandes, o cara de pelo branco? Ele tinha sumido.
Tive que refletir um pouco sobre aquilo.
— Então ele morreu e se desintegrou? Ou só se levantou e saiu andando?
— Não sei. Acha que alguma dessas coisas parece provável?
Nenhuma opção parecia, mas decidi que, no momento, tinha problemas maiores a considerar.
— Hoje à noite, quando Piper e Meg acordarem, vamos ter que fazer outra reunião com suas amigas dríades. Vamos acabar com esse Labirinto de Fogo de uma vez por todas.

4 comentários:

  1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 22:39

    "... precisa manter todos unidos, mesmo sob a dor do luto." Só eu que tô rezando pra que a Herófila tenha se referido apenas a perda da Jade? tomara que isso pare por aí.(embora eu sinta que não vai ser bem assim!)

    ARGH! ESSES ORÁCULOS SÃO INSUPORTÁVEIS!! não curto mistérios, sabe?! sou impaciente.

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    1. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 05:11

      Fazer o q
      Assim são os oráculos: chatos e necessários

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    2. Laíres de Deus câmara campos15 de junho de 2018 17:12

      Eu não descreveria melhor.

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  2. Será que Baço aprovaria aquela festa?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!