26 de junho de 2018

Capítulo 18

Gansey havia acordado antes do amanhecer. Fazia já um tempo que ele não precisava acordar cedo para o treino de remo, mas, às vezes, ainda acordava às quinze para as cinco da manhã, pronto para cair na água. Normalmente, passava aquelas horas insones de manhã cedo estudando tranquilamente seus livros ou navegando na internet em busca de referências sobre Glendower, mas, após o desaparecimento de Cabeswater, Gansey não conseguia produzir nada. Em vez disso, saiu para a rua, passando pela chuva fina até o Pig em sua versão matinal. Imediatamente se sentiu confortado. Gansey passara tantas horas sentado ali daquele jeito — fazendo a lição de casa antes de ir para a aula, ou parado sem poder sair do acostamento da estrada, ou se perguntando o que faria se nunca encontrasse Glendower —, que ele se sentia em casa no carro. Mesmo quando não estava andando, o carro cheirava intimamente a vinil velho e gasolina. E, enquanto ele estava sentado ali, um único mosquito encontrou caminho para dentro do carro e ficou incomodando-o perto do ouvido, um trêmulo agudo contra o baixo contínuo da chuva e das trovoadas.
Cabeswater desapareceu. Glendower está lá — tem que estar —, e ela desapareceu.
As gotas batiam e se dispersavam no para-brisa. Ele pensou no dia em que fora picado até a morte por marimbondos e sobrevivera mesmo assim. Gansey repassou a memória até não sentir mais a emoção de ouvir o nome de Glendower sussurrado em seu ouvido, e então, em vez disso, se entregou ao sentimento de pena de si mesmo, que ele tivesse tantos amigos e mesmo assim se sentisse tão sozinho. Ele sentia que era sua obrigação confortá-los, mas nunca o inverso.
Como deve ser, pensou Gansey, abruptamente bravo consigo mesmo. Você teve a vida mais fácil. Para que tanto privilégio, seu mimado frouxo, se você não consegue se manter de pé sozinho?
A porta para Monmouth se abriu. Noah imediatamente viu Gansey e fez um gesto indefinido e agitado. Ele parecia querer dizer que precisava de Gansey e, além disso, que se sentia claramente ansioso a respeito disso.
Baixando a cabeça sob a chuva, Gansey se juntou a Noah.
— O que foi?
Dentro, os pequenos cheiros do prédio — os acessórios enferrujados, a madeira comida pelos cupins, os vasos de hortelã — haviam sido sobrepujados por um odor estranho. Algo úmido, estranhamente fértil e desagradável. Talvez tivesse sido trazido pela chuva e pela umidade. Talvez um animal tivesse morrido em um canto. Instado por Noah, Gansey entrou cuidadosamente na sala principal em vez de continuar para o apartamento no segundo andar. Diferentemente do segundo andar, o térreo era pouco claro, iluminado apenas por janelas pequenas no alto das paredes. Colunas de metal enferrujado seguravam o teto no lugar, com espaço suficiente entre elas para desenvolver quaisquer atividades para as quais o espaço fora projetado. Algo substancial, tanto em altura quanto em largura. Tudo era poeira naquela fábrica esquecida — o chão, as paredes, a forma em deslocamento do ar. Ela era inutilizada, espaçosa, atemporal. Sinistra.
Ronan estava parado no centro da sala, de costas para eles. Esse Ronan Lynch não era o Ronan que Gansey encontrara pela primeira vez. Não. Aquele Ronan, ele pensou, ficaria intrigado, mas não se aproximaria do jovem parado em meio às partículas de poeira. A cabeça raspada de Ronan estava baixada, mas tudo mais a respeito de sua postura sugeria vigilância e desconfiança. Sua tatuagem agressiva saía em gancho para fora da camiseta regata preta. Esse Ronan Lynch era uma criatura perigosa e oca. Era uma armadilha para você colocar o pé dentro.
Não pense nesse Ronan. Lembre-se do outro.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Gansey, vagamente nervoso.
A postura de Ronan não se alterou com o som da voz do amigo, e Gansey viu nesse instante que isso ocorria por ele já estar ferido demais. Um músculo saltou em seu pescoço. Ele era um animal pronto para voar.
Motosserra rolou na poeira entre seus pés. Ela parecia estar em meio a um êxtase ou a um ataque epilético. Quando viu Gansey, parou e o estudou com um olho e então com o outro.
Na rua, os trovões trovejavam. A chuva rufava através das vidraças quebradas acima do vão da escada. Uma aragem daquela fragrância úmida tomou conta do ambiente de novo.
A voz de Ronan não tinha entonação.
— Quemadmodum gladius neminem occidit; occidentis telum est.
Gansey tinha uma política rigorosa de evitar a declinação de substantivos antes do café da manhã.
— Se está tentando ser esperto, você venceu. Quemadmodum é “que nem”?
Quando Ronan se virou, seus olhos estavam fechados e com hematomas. Suas mãos também estavam cobertas de sangue.
Gansey teve um momento puro e destituído de lógica em que sentiu um aperto no estômago e pensou: Eu não reconheço realmente nenhum dos meus amigos.
Então a razão retomou a ele.
— Meu Deus. Isso é seu?
— Do Adam.
— O Adam de sonho — corrigiu Noah rapidamente. — Na maior parte.
Na chuva, na luz difusa, as sombras se moviam nos cantos. Isso lembrou Gansey das primeiras noites que ele passara ali, quando a única maneira que ele conseguia dormir era fingir que aquele vasto espaço não existia abaixo de sua cama. Ele podia ouvir Ronan respirando.
— Você se lembra do ano passado? — perguntou Ronan. — Quando eu disse... que não ia acontecer de novo?
Era uma pergunta boba. Gansey jamais esqueceu. Noah descobrindo Ronan em uma poça de seu próprio sangue, as veias arrebentadas. Horas no hospital. Terapia e promessas.
Não fazia sentido se esquivar.
— Quando você tentou se matar.
Ronan balançou a cabeça uma vez.
— Foi um pesadelo. Eles me arrebentaram no meu sonho, e quando acordei... — Ele gesticulou com as mãos sangrentas. — Eu trouxe isso comigo. Eu não podia te contar. Meu pai disse para nunca contar a ninguém.
— Então você me deixou pensar que você tinha tentado se matar?
Ronan deixou a carga de seus olhos azuis recair pesadamente sobre Gansey, fazendo-o perceber que ele não teria outra resposta. Seu pai lhe havia dito para jamais contar aquilo. E então ele jamais havia contado.
Gansey sentiu o ano inteiro assumindo uma nova forma em sua cabeça. Todas as noites ele se sentira aterrorizado pelo bem-estar de Ronan. E todas as vezes Ronan havia dito: “Não é bem assim”. Imediatamente ele ficou irado pelo fato de que Ronan o tivesse deixado passar por aquele temor contínuo, mas aliviado que o amigo não fosse uma criatura tão esquisita assim no fim das contas. Era mais fácil para Gansey compreender um Ronan que tornava os sonhos reais do que um que quisesse morrer.
— Então por que... por que você está aqui embaixo? — disse Gansey por fim.
Houve um ruído de batida no andar de cima. Ronan e Motosserra viraram o queixo bruscamente para cima.
— Noah? — perguntou Gansey.
— Ainda estou aqui — respondeu Noah atrás dele. — Mas não por muito tempo.
Através do sibilar constante da chuva, Gansey ouviu o barulho de algo raspando o chão do andar de cima e mais uma batida quando algo caiu.
— Não é só o sangue — disse Ronan. Seu peito subia e descia com a respiração. — Outra coisa se soltou também.


A porta do quarto de Ronan estava fechada. Uma prateleira de livros havia sido esvaziada, virada de lado e empurrada na frente dela. Os livros haviam sido empilhados apressadamente ao lado do telescópio derrubado. Tudo estava em silêncio e cinza enquanto a chuva corria em gotas nas janelas. O cheiro que Gansey havia notado no andar de baixo era mais proeminente ali: mofado, doce.
— Cráá? — grasnou Motosserra do braço de Ronan. Ele fez um ruído manso para ela antes de baixá-la sobre a mesa de Gansey; ela desapareceu na sombra escura debaixo.
Passando um pé de cabra para a mão direita, Ronan apontou para o estilete sobre a mesa até que Gansey percebeu que o amigo queria que ele o pegasse. Ele estendeu e retraiu a lâmina hesitantemente algumas vezes antes de olhar de relance para Noah.
Este parecia pronto para desaparecer, por falta de energia ou de coragem.
— Você está pronto? — perguntou Ronan.
— Para que estou me preparando?
Atrás da porta, algo arranhava o chão. Tck-tck-tck. Como uma marreta arrastada sobre uma tábua de lavar roupa. Algo no coração de Gansey arrepiou de medo.
Ronan disse:
— Para o que está na minha cabeça.
Gansey não acreditava que houvesse uma maneira de se preparar para isso. Mas ajudou Ronan a tirar a prateleira de livros do caminho.
— Gansey — disse Ronan. A maçaneta estava virando sozinha. Ele estendeu a mão e a segurou firme. — Cuidado... cuidado com os olhos.
— Qual é o plano? — O olhar de Gansey estava voltado para o aperto de Ronan na maçaneta. Os nós dos dedos dele estavam brancos com o esforço para evitar que ela virasse.
— Matar essa coisa — disse Ronan.
E escancarou a porta.
A primeira coisa que Gansey viu foi o desastre: a gaiola de Motosserra destruída, o poleiro quebrado. A tela de cobertura de uma caixa de som estava entortada como um marisco junto à soleira. Um teclado de computador enfiado debaixo de um banco virado.
Uma camisa rasgada e uma calça jeans largadas no chão, parecendo um corpo, num primeiro olhar de relance.
Então ele viu o pesadelo.
Saiu do canto no fundo. Como se fosse uma sombra, e então era uma coisa.
Rápida. Negra. Maior do que ele esperava. Mais real do que ele esperava.
Tão alta quanto ele. Duas pernas. Usando uma roupa rasgada, preta, oleosa. Gansey não conseguia parar de olhar para o bico.
— Gansey! — Ronan rosnou e então a golpeou com o pé de cabra.
A criatura se atirou no chão. Ela se contorceu para longe do alcance de Ronan quando ele tentou atingi-la de novo. Gansey percebeu uma garra. Não, garras, dúzias delas.
Enormes, reluzentes, curvas até as pontas, como agulhas. Elas agarraram Ronan. Gansey se lançou para frente, cortando um membro. A roupa da criatura se partiu debaixo da lâmina. Ela deu um salto, direto para Ronan, que a bloqueou com o pé de cabra. Com um bater de asas extraordinário, a criatura se lançou no ar e pousou sobre o batente da porta, as mãos entre as pernas, segurando-se como uma aranha. Não havia nada de humano nela. Ela sibilou para os garotos. Olhos com pupilas vermelhas piscavam repentinamente. Um pássaro. Um dinossauro. Um demônio.
Não é de espantar que Ronan nunca durma.
— Feche a porta! — disparou Ronan. — Não queremos brincar de esconde-esconde aqui!
O quarto parecia pequeno demais para eles se trancarem com um monstro, mas Gansey sabia que Ronan estava certo. Ele bateu a porta bem quando a criatura voou para cima dele. Garras e bico, negros e retorcidos. No mesmo instante, Ronan se atirou, jogando Gansey para o chão.
Em um instante cristalino, preso debaixo de Ronan e da criatura bicuda, Gansey viu as presas da coisa agarrando o braço de Ronan e, hiperconsciente, percebeu cascas de feridas condizentes entrecruzadas debaixo das feridas recentes. O bico se lançou sobre o rosto de Ronan.
Gansey enfiou a lâmina do estilete na carne negra cerosa entre as garras.
A coisa não fez ruído algum enquanto recuava. Ronan tentou atingi-la de novo com o pé de cabra e, quando o golpe errou a criatura, buscou atingi-la com o punho. Os dois tropeçaram no canto da cama. O pesadelo estava sobre Ronan. Eles lutavam em silêncio; Ronan poderia morrer, e Gansey só perceberia depois de consumado o fato.
Passando uma mão sobre a mesa de Ronan, Gansey pegou uma garrafa de cerveja e a quebrou contra o crânio da criatura. Instantaneamente, o cheiro de álcool tomou conta do ambiente. Ronan disse um palavrão debaixo do monstro. Gansey agarrou um dos membros da coisa — seria um braço? Uma asa? A repulsa obstruiu a garganta de Gansey, e ele atingiu o corpo da criatura com o estilete. Ele sentiu a lâmina fazer contato, perfurando a carne oleosa.
Subitamente, havia uma garra em torno de seu pescoço, uma presa enfiada na pele fina abaixo do queixo. Fisgado como um peixe.
Gansey tinha consciência de como era minúscula a lâmina do estilete. Quão insubstancial em comparação às presas rijas da coisa. Ele sentiu um gotejar quente no colarinho da camisa. Seus pulmões se encheram do cheiro fecundo de putrefação.
Ronan acertou o pé de cabra na cabeça da criatura. E então a acertou de novo. E mais uma vez. Gansey e a criatura desabaram juntos no chão; o peso dela era uma âncora sobre a pele de Gansey. Ele estava preso, empalado, enredado no aperto dela.
O estilete foi tomado de Gansey. Vendo o que Ronan pretendia fazer, Gansey estendeu o braço para aquele bico que o imobilizava. Então era a criatura segurando Gansey segurando a criatura. E depois Ronan cortando a garganta da coisa. Não era algo rápido nem destituído de sangue. Era tortuoso e lento, como cortar papelão molhado.
Em seguida tudo terminou, e Ronan soltou a garra cuidadosamente da pele de Gansey.
Livre, Gansey saiu com dificuldade de debaixo da criatura. Ele pressionou o dorso da mão sobre o ferimento no queixo. Não podia dizer o que era seu sangue e o que era sangue da criatura e o que era sangue de Ronan. Os dois estavam ofegantes.
— Ela pegou você pra valer? — perguntou Ronan para Gansey. Um arranhão lhe descia pela têmpora e seguia pela sobrancelha até a face. Cuidado com os olhos.
Um exame cuidadoso com a ponta dos dedos de Gansey revelou que o ferimento debaixo do queixo era pequeno. A memória de ser pego pela garra não o deixaria tão cedo, no entanto. Ele se sentia perigosamente acabado, como se precisasse se segurar em algo ou seria levado pelas ondas. Gansey manteve a voz equilibrada:
— Acho que sim. Ela está morta?
— Se não estiver — disse Ronan —, é um pesadelo pior do que eu pensava.
Então Gansey se sentou, muito lentamente, na beira dos lençóis rasgados. Porque aquela coisa era impossível. O avião e a caixa quebra-cabeça, dois objetos inanimados, tinham sido muito mais fáceis de aceitar. Mesmo Motosserra, em todos os sentidos um corvo comum, a não ser pela origem, era mais fácil de aceitar.
Ronan observou Gansey sobre o corpo da criatura — ela parecia maior ainda na morte —, e sua expressão era a mais indefesa que Gansey já vira. Ele estava começando a compreender que aquilo, tudo aquilo, era uma confissão. Um olhar para quem Ronan realmente fora o tempo inteiro em que ele o conhecera.
Que mundo de maravilhas e horrores, e Glendower era apenas um deles.
— Sêneca. Foi ele quem disse aquilo, certo? — disse Gansey finalmente.
Enquanto seu corpo estava lutando contra um pesadelo, seu subconsciente estava combatendo contra o latim com o qual Ronan o tinha recepcionado.
Quemadmodum gladius neminem occidit; occidentis telum est.
O sorriso de Ronan era aguçado e em forma de gancho, como uma das garras da criatura.
— “Uma espada nunca mata ninguém; ela é uma ferramenta na mão do assassino.”
— Não posso acreditar que o Noah não ficou para nos ajudar.
— Claro que pode. Nunca confie nos mortos.
Balançando a cabeça, Gansey apontou para as cascas de ferida que vira no braço de Ronan durante a briga.
— Seu braço. Isso foi por lutar com ela enquanto eu estava no Pig? Ronan balançou a cabeça lentamente. Na outra sala, Motosserra estava fazendo ruídos ansiosos, preocupada com o destino dele.
— Cráá?
— Tinha outra — ele disse. — Ela escapou.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!