20 de junho de 2018

Capítulo 18

Whelk tomou a liberdade de mexer no armário de Gansey antes das aulas no dia seguinte.
O armário de Gansey, um dos poucos em uso, estava apenas algumas portas de distância do velho armário de Whelk, e o sentimento de abri-lo trouxe de volta uma torrente de memórias e nostalgia. Em outra época, ele havia sido isto: um dos garotos mais ricos de Aglionby, andando com os amigos que quisesse, com as garotas de Henrietta que lhe chamassem atenção, comparecendo às aulas que tivesse vontade. Seu pai não sentia arrependimento algum em fazer uma doação extra para ajudar Whelk a passar em uma disciplina que ele havia deixado de frequentar por algumas semanas. Whelk ansiava por seu velho carro. Os policiais dali conheciam bem o seu pai, eles nem se davam ao trabalho de parar Whelk.
E agora Gansey era o rei ali, e não sabia nem como usar sua condição.
Graças ao código de honra de Aglionby, não havia trancas em nenhum dos armários, o que permitia que Whelk abrisse o de Gansey sem problemas. Dentro, encontrou vários cadernos de espiral empoeirados com apenas algumas páginas usadas. Whelk deixou uma nota no armário (“Pertences removidos para aplicação de inseticida contra baratas”), caso Gansey decidisse ir para a escola duas horas mais cedo, e então se retirou para um dos banheiros desativados dos funcionários para examinar seu achado.
Sentou de pernas cruzadas no azulejo intacto, mas empoeirado, ao lado da pia, e descobriu que Richard Gansey III era mais obcecado com a linha ley do que ele havia sido um dia. Algo a respeito de todo o processo de pesquisa parecia... frenético.
O que há de errado com esse garoto?, perguntou-se Whelk, e então imediatamente se sentiu estranho por ter ficado tão velho a ponto de pensar em Gansey como um garoto.
Ouviu saltos de sapato no corredor do lado de fora do banheiro. O aroma de café veio por baixo do vão da porta; Aglionby estava começando a acordar. Whelk passou para o caderno seguinte.
Aquele não era sobre a linha ley. Só trazia questões históricas sobre o rei galês Owen Glendower, e Whelk não se interessou. Ele folheou, folheou, folheou, pensando que o assunto não estava relacionado, até perceber a tese que Gansey estava defendendo para vincular os dois elementos: Glendower e a linha ley. Comparsa ou não, Gansey sabia como vender uma história.
Whelk se concentrou em uma anotação.
“Quem quer que venha a acordar Glendower receberá um favor (ilimitado?) (sobrenatural?) (algumas fontes dizem recíproco, o que isso quer dizer?).”
Czerny nunca havia se preocupado com o resultado final da busca da linha ley. A princípio, Whelk também não se preocupara. O apelo havia sido meramente o enigma dela. Então, uma tarde, Czerny e Whelk estavam parados no meio do que parecia ser um círculo naturalmente formado de pedras magneticamente carregadas, empurrando experimentalmente uma das pedras fora de lugar. A onda de energia resultante havia lançado os dois ao chão e criado uma tênue aparição do que parecia ser uma mulher.
A linha ley era uma energia inexplicável, incontrolável, bruta. Algo lendário. Quem quer que viesse a controlar as linhas ley seria mais do que rico. Quem quer que viesse a controlar as linhas ley seria algo que os outros garotos de Aglionby só poderiam começar a aspirar.
Mesmo assim Czerny não havia se importado, não de verdade. Ele fora a criatura mais sem ambição e doce que Whelk já vira na vida, razão pela qual provavelmente Whelk gostasse tanto de andar com ele. Czerny não se importava em não ser melhor que os outros estudantes de Aglionby. Ele estava contente em acompanhar Whelk. Ultimamente, quando Whelk tentava se confortar, dizia para si mesmo que Czerny era um cordeirinho, mas às vezes ele se distraía e se lembrava dele como um sujeito leal.
As duas coisas não precisavam ser diferentes, não é?
— Glendower — disse Whelk em voz alta, testando a palavra, que ecoou pelas paredes do banheiro, vazia e metálica. Ele se perguntou o que Gansey, o estranho e desesperado Gansey, estava pensando em pedir como favor.
Whelk se levantou do chão do banheiro e recolheu todos os cadernos. Levaria apenas alguns minutos para copiá-los na sala dos professores, e, se alguém perguntasse, ele diria que Gansey havia pedido para ele fazê-lo. Glendower.
Se Whelk o encontrasse, pediria o que sempre desejara: controlar as linhas ley.

3 comentários:

  1. O bom dos capítulos do Whelk é que eles acabam. PRÓXIMO!

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  2. "Ultimamente, quando Whelk tentava se confortar, dizia para si mesmo que Czerny era um cordeirinho, mas às vezes ele se distraía e se lembrava dele como um sujeito leal." Acho que só isso demonstra o quanto ele é escroto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!