3 de junho de 2018

Capítulo 18


Caramba, bruxa maligna
Não chega pertinho
Com o seu avô quentinho

TAÍ UMA BOA regra de etiqueta em duelos: na dúvida entre quais armas usar no combate, não se deve, de jeito nenhum, escolher seu avô.
Eu e o fogo já somos velhos conhecidos.
Já alimentei os cavalos do Sol com nacos de ouro derretido que peguei com as mãos nuas. Já nadei em caldeiras de vulcões ativos (Hefesto dá ótimas festas na piscina). Já aguentei o bafo ardente de gigantes, dragões e até da minha irmã, antes de ela escovar os dentes de manhã. Mas nenhum desses horrores se comparava à pura essência de Hélio, o antigo titã do Sol.
Ele nem sempre foi hostil. Ah, ele era ótimo em seus dias de glória! Eu ainda me lembrava do rosto imberbe, eternamente jovem e bonito, dos cachos escuros coroados com um diadema de fogo dourado, que o deixava iluminado demais para ser encarado por muito tempo. Hélio, com a veste dourada esvoaçante, brandindo o cetro em chamas, andando pelos corredores do Olimpo, conversando, fazendo piadas e flertando sem o menor pudor.
Sim, Hélio era um titã, mas ele apoiou os deuses durante a primeira guerra contra Cronos e lutou ao nosso lado, enfrentando os gigantes. Era um titã gentil e generoso… bem caloroso, como era de se esperar do Sol.
Mas, aos poucos, conforme os olimpianos ganharam poder e fama entre os adoradores humanos, a memória dos titãs foi se apagando. Hélio passou a aparecer cada vez menos nos corredores do Monte Olimpo, foi virando um velho distante, irritado, feroz, fulminante… todas as características solares menos desejáveis.
Os humanos começaram a olhar para mim, brilhante, dourado e reluzente, e me associar ao Sol. E, francamente, quem poderia culpá-los?
Eu nunca pedi por essa honra. Certa manhã, simplesmente acordei e me descobri dono da carruagem do Sol e responsável por todos os outros deveres que o cargo exigia. Hélio tinha virado apenas um eco, um sussurro nas profundezas do Tártaro.
E, graças à neta feiticeira do mal, ele agora estava de volta. Mais ou menos.
Um turbilhão incandescente rugiu em volta de Medeia. Senti a raiva de Hélio, seu temperamento chamejante, que acendia meu pavor. (Nossa, que trocadilho horrível. Foi mal aí, galera.) Hélio nunca foi deus para toda obra. Ele não era assim como eu, cheio de talentos e interesses. Hélio fazia uma única coisa com muita dedicação e foco: dirigia o Sol. Dava para sentir como ele estava amargurado, sabendo que eu tinha assumido seu papel eu, um mero curioso das questões solares, condutor de fim de semana da carruagem do Sol. Tanto que tirar o poder dele do Tártaro não devia ter sido difícil para Medeia: bastou apelar para o ressentimento, para o desejo de vingança. Hélio queria me destruir com todo o seu ardor, queria acabar com o deus que o eclipsara. (Ai, não consigo parar com os trocadilhos!)
Piper McLean saiu correndo. Não era questão de coragem ou de covardia, e sim de biologia: o corpo de um semideus não aguentaria aquele calor. Ela teria entrado em combustão espontânea se tivesse ficado perto de Medeia.
A única consequência positiva: meu encarcerador ventus sumiu, muito provavelmente porque Medeia não conseguia se concentrar nele e em Hélio ao mesmo tempo. Fui cambaleando até Meg e a ajudei a se levantar, arrastando-a para longe da tempestade de fogo.
— Ah, não, Apolo! — gritou Medeia. — Nada de fugir!
Puxei Meg para trás da coluna de cimento mais próxima e a protegi com o corpo quando uma cortina de fogo irrompeu pela garagem, penetrante, rápida e mortal, sugando o ar de meus pulmões e ateando fogo às minhas roupas. Rolei para o lado por instinto, desesperado, e fui para trás da coluna mais próxima, tonto e fumegante.
Meg cambaleou até mim. Ela estava vermelha e também soltava fumaça, mas continuava viva. Até os tremoços azuis tostados continuavam teimosamente presos nas orelhas. Eu tinha conseguido protegê-la do pior do fogo.
A voz de Piper ecoou de algum lugar no estacionamento.
— Ei, Medeia! Sua mira é uma droga!
Espiei pela lateral da coluna quando Medeia se virou na direção do som. A feiticeira estava parada, envolta em fogo, soltando feixes de chamas brancas e incandescentes em todas as direções, como os raios de uma roda. Uma onda de fogo explodiu na direção da voz de Piper.
Um momento depois, Piper gritou:
— Erro-ou! Tá frio, hein!
Meg sacudiu meu braço.
— O QUE A GENTE FAZ?
Minha pele parecia uma salsicha cozida. O sangue fervia nas veias, correndo ao som de PODE VIR QUENTE QUE EU ESTOU FERVENDO!
Eu sabia que ia morrer se fosse alvo de mais um daqueles ataques, mesmo que pegasse de raspão. Mas Meg estava certa: tínhamos que fazer alguma coisa. Não podíamos deixar Piper sozinha naquele fogo cruzado (literalmente).
— Cadê você, Apolo? — provocou Medeia. — Venha dar um oi para seu velho amigo! Vocês, juntos, vão alimentar o Novo Sol!
Outra onda de calor cruzou a garagem a algumas colunas de distância. A essência de Hélio não rugiu nem atordoou a todos com um fogo multicolorido; era uma chama branca fantasmagórica, quase transparente, mas mataria tão rápido quanto se estivéssemos expostos a um reator nuclear. (Aqui vai um anúncio de segurança pública: leitores, aconteça o que acontecer, não vão até a usina nuclear do seu bairro e entrem na câmara do reator.) Eu não tinha nenhuma estratégia para derrotar Medeia. Não tinha poderes divinos, nem sabedoria divina, nem nada além do pavor de saber que, se sobrevivesse àquilo, precisaria de uma nova calça rosa camuflada.
Meg deve ter visto a desesperança em meu rosto.
— PERGUNTA PARA A FLECHA! — gritou. — VOU DISTRAIR A MULHER MÁGICA!
Odiei a ideia. Fiquei tentado a gritar O QUÊ?
Mas, antes que eu pudesse fazer isso, Meg saiu correndo.
Remexi na aljava e tirei a Flecha de Dodona.
— Ó Sábio Projétil, precisamos de ajuda!
ORA, NÃO ESTÁ QUENTE DEMAIS NESTE AMBIENTE, MEU CARO? , perguntou a flecha. OU SÓ EU QUE SINTO ESTE CALOR?
— Temos uma feiticeira jogando fogo de um titã por aí! — gritei. — Olha!
Eu não sabia se a flecha tinha olhos mágicos, algum radar ou outra forma qualquer de perceber o ambiente, mas estiquei a ponta dela até o canto do pilar, onde Piper e Meg se arriscavam em um jogo de queimado escaldante e mortal com as explosões de Medeia, carregando o fogo de seu avô.
AQUELA JOVEM ACASO CARREGA UMA ZARABATANA? , perguntou a flecha.
— Carrega.
RÁ! FLECHAS SÃO DEVERAS SUPERIORES!
— Ela tem ascendência Cherokee — expliquei. — É uma arma tradicional da família dela. Agora pode por favor de me dizer como fazemos para derrotar Medeia?
HUM, refletiu a flecha. DEVES USAR A ZARABATANA.
— Mas você acabou de falar…
NÃO QUEIRAS ME LEMBRAR! É ÁRDUO DIZER ISSO! TU JÁ TENS A RESPOSTA!
A flecha ficou quieta. É claro que, na única vez em que eu quis que ela elaborasse a resposta, a safada calou a boca. Mas é claro.
Enfiei a flecha na aljava e corri até a coluna seguinte, me escondendo embaixo de uma placa de BUZINE!
— Piper! — gritei.
Ela olhou para mim cinco pilares à frente. O rosto estava repuxado em uma careta, e os braços pareciam carapaças de lagosta cozida. Minha mente médica percebeu que a garota tinha no máximo algumas horas até a insolação atacar: náusea, tontura, inconsciência, talvez até a morte. Mas optei por me concentrar na parte do algumas horas. Precisava acreditar que viveríamos tempo suficiente para morrer de causas mais naturais.
Fiz a mímica de um disparo de zarabatana e apontei na direção de Medeia. Piper me encarou como se eu fosse louco. Eu não podia culpá-la: mesmo que Medeia não conseguisse desviar o dardo com um sopro de vento, o disparo nunca seria capaz de atravessar aquela parede de calor. Só dei de ombros e expliquei, com movimentos labiais: Confie em mim. Eu perguntei à flecha.
Não sei o que Piper entendeu, mas ela pegou a zarabatana.
Enquanto isso, do outro lado do estacionamento, Meg provocava Medeia, daquele seu jeitinho adorável.
— BURRA!
Medeia enviou uma lâmina vertical de calor — embora, a julgar pela mira, ela estivesse tentando assustar Meg, não matá-la.
— Venha aqui logo e acabe com essa idiotice, querida! — chamou ela, enchendo as palavras de preocupação. — Eu não quero machucar você, mas o titã é difícil de controlar!
Cerrei os dentes. Aquelas palavras eram parecidas demais com os jogos mentais de Nero, controlando Meg com a ameaça de seu alter ego, o Besta. Eu só esperava que as plantas fumegantes em seus ouvidos impedissem que ela ouvisse aquelas barbaridades.
Enquanto Medeia estava de costas, procurando Meg, Piper saiu de trás da coluna. E disparou.
O dardo atravessou a parede de fogo e acertou em cheio as costas de Medeia.
Como? Também não sei. Talvez, por ser uma arma Cherokee, o dardo não estivesse sujeito às regras da magia grega. Talvez, assim como bronze celestial passa direto por mortais comuns, sem reconhecê-los como alvos legítimos, as chamas de Hélio não se incomodassem com um mero dardo de zarabatana.
Não importa o motivo, o caso é que a feiticeira foi atingida e gritou. Ela se virou, fazendo cara feia, levou a mão às costas e arrancou o dardo. Então o examinou, incrédula.
Um dardo de zarabatana? Você só pode estar de brincadeira!
Os pilares de fogo continuaram girando ao redor dela, mas nenhum foi disparado na direção de Piper. Medeia cambaleou, os olhos aos poucos se fechando.
— E estava envenenado? — A feiticeira riu, histérica. — Você ia tentar me envenenar? Logo eu, a maior especialista em venenos do mundo? Não existe veneno que eu não saiba curar! Você não pode…
Ela caiu de joelhos. Uma saliva verde começou a escorrer de sua boca.
— Q-que mistura é essa?
— Meu avô manda lembranças. É uma antiga receita da família — disse Piper.
Medeia ficou pálida como o fogo incandescente. Ela forçou algumas palavras em meio à ânsia de vômito.
— Você acha que… que isso muda alguma coisa? Meu poder… Eu não conjuro Hélio… Eu o contenho!
Ela caiu de lado. Em vez de se dissipar, o cone de fogo girou ainda mais intensamente ao redor dela.
— Corram — gemi. Então gritei, com toda a força: — CORRAM! AGORA!
Estávamos já na metade do corredor quando o estacionamento atrás de nós explodiu, querendo se passar por uma supernova.

3 comentários:

  1. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 21:49

    Agora eu achei estranho... flechas sentem calor?! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk melhor flecha do universo. acho que o Apolo não ligaria se eu pegasse ela emprestado só um pouquinho para irritar minha mãe. kkkkkkkkkkkkkk

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  2. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 21:53

    "FLECHAS SÃO DEVERAS SUPERIORES!" concordo com você. kkkkkkkkkkkkkkk e principalmente quando é uma flechafalante que EU AMO!!!!

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  3. Quem diria... Amei isso, amei essa Piper, pq ela não apareceu antes?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!