9 de junho de 2018

Capítulo 17

KITTY ESTÁ MISTURANDO diferentes esmaltes em um prato de papel enquanto eu pesquiso “penteados de celebridades” para o cabelo de Trina no casamento. Estou deitada no sofá, com as costas apoiadas em almofadas, e Kitty está no chão, com vidros de esmalte ao redor. De repente, ela pergunta:
— Você já pensou se papai e Trina tiverem um bebê e ele for parecido com o papai?
Kitty pensa em coisas que jamais teriam passado pela minha cabeça. Eu nunca tinha pensado nisso, que eles podiam ter um bebê e que esse suposto bebê não se pareceria conosco. O bebê seria uma mistura do papai e Trina. Ninguém teria que imaginar de quem ele é filho ou quem puxou o quê de quem. As pessoas saberiam, naturalmente.
— Mas os dois são tão velhos — respondo.
— Trina tem quarenta e três. Dá para ficar grávida aos quarenta e três. A mãe de Maddie acabou de ter um bebê, e ela tem quarenta e três anos.
— Verdade…
— E se for menino?
Papai com um filho. É um pensamento surpreendente. Ele não é muito esportivo, não como seria de se esperar tradicionalmente de um homem. Quer dizer, ele gosta de andar de bicicleta e joga tênis em dupla na primavera. Mas tenho certeza de que há coisas que ia querer fazer com um filho que não faz conosco porque nenhuma de nós está interessada. Pescar, talvez? Ele não liga para futebol americano. Trina gosta mais do que ele.
Quando minha mãe estava grávida de Kitty, Margot queria outra irmã, mas eu queria um irmão. As garotas Song e seu irmãozinho. Acho que, no final das contas, seria legal ter um irmão. Ainda mais porque eu não vou estar morando aqui e não vou ter que ouvir o choro no meio da noite. Minha parte vai ser só comprar botinhas de bebê e suéteres com raposas ou coelhos.
— Se escolherem o nome Tate, nós podemos chamá-lo de Tater Tot — reflito.
Duas bolotas vermelhas aparecem nas bochechas de Kitty, e de repente ela parece ser tão pequena quanto a imagino na minha cabeça: uma garotinha.
— Eu não quero que eles tenham um bebê. Se eles tiverem um bebê, eu vou ser a filha do meio. Eu não vou ser nada.
— Ei! Eu sou a do meio agora!
— Margot é a mais velha e a mais inteligente, e você é a mais bonita. — Eu sou a mais bonita? Kitty acha que eu sou a mais bonita? Eu tento não parecer feliz demais, porque ela ainda está falando. — Eu sou só a caçula. Se eles tiverem um bebê, não vou ser nem isso.
Coloco o computador de lado.
— Kitty, você é muito mais do que a garota Song mais nova. Você é a garota Song rebelde. A cruel. A levada. — Kitty está repuxando os lábios, tentando não sorrir ao ouvir isso. Acrescento: — E, aconteça o que acontecer, Trina ama você; ela sempre vai amar, mesmo que tenha um bebê, coisa que não acho que vá acontecer. — Eu paro. — Espere, você estava falando sério quando falou que eu era a mais bonita?
— Não, retiro isso. Acho que eu vou ser a mais bonita quando chegar ao ensino médio. Você pode ser a boazinha. — Eu pulo do sofá e a pego pelos ombros, como se fosse sacudi-la, e ela ri.
— Eu não quero ser a boazinha.
— Mas você é. — Ela não fala como um insulto, mas não exatamente como um elogio. — O que você queria ter que eu tenho?
— Sua cara de pau.
— O que mais?
— Seu nariz. Você tem um narizinho bolotinha. — Eu bato no nariz dela. — E você de mim?
Kitty dá de ombros.
— Sei lá. — Ela cai na gargalhada e eu a sacudo pelos ombros.
Ainda estou pensando em tudo isso mais tarde. Eu não tinha pensado em papai e Trina tendo um bebê. Mas Trina não tem filhos, só o “bebê peludo”, a golden retriever Simone. Talvez queira ter um bebê. E papai nunca disse, mas pode ser que queira tentar mais uma vez para ver se tem um menino. O bebê seria dezoito anos mais novo do que eu. Que pensamento estranho. E mais estranho ainda: eu já tenho idade para ter um bebê também.
O que Peter e eu faríamos se eu engravidasse? Não consigo nem imaginar o que aconteceria. Só consigo ver a expressão na cara de papai quando eu lhe contasse a notícia, e é nesse ponto que eu paro de pensar no assunto.

* * *

Na manhã seguinte, a caminho da escola, no carro de Peter, dou uma olhada no perfil dele.
— Gosto de como sua pele é tão lisinha — comento. — Que nem a de um bebê.
— Eu conseguiria ter uma barba, se quisesse — diz ele, tocando no queixo. — Uma bem densa.
— Não conseguiria, não — digo com carinho. — Mas, quem sabe um dia, quando você for um homem crescido.
Ele franze a testa.
— Eu sou um homem crescido. Tenho dezoito anos!
Dou uma risada debochada.
— Você nem prepara seu próprio almoço. Sabe lavar roupa?
— Eu sou um homem nos quesitos que importam — gaba-se ele, e eu reviro os olhos.
— O que você faria se fosse convocado para a guerra? — pergunto.
— Hã… estudantes universitários não são dispensados? Ainda existe convocação?
Não sei a resposta para nenhuma das duas perguntas, então sigo em frente.
— O que você faria se eu ficasse grávida agora?
— Lara Jean, a gente nem está transando. Seria a imaculada conceição.
— E se nós estivéssemos?
Ele grunhe.
— Você e suas perguntas! Não sei. Como eu posso saber o que eu faria?
— O que você acha que faria?
Peter não hesita.
— O que você quisesse fazer.
— Você não ia querer decidir junto? — Eu o estou testando, mas não sei em relação a quê.
— Não seria eu quem teria que carregar um bebê por nove meses. O corpo é seu, não meu.
A resposta dele me agrada, mas continuo em frente.
— E se eu dissesse… vamos ter o bebê e nos casar?
Mais uma vez, Peter não hesita.
— Eu diria claro. Vamos lá!
Agora, sou eu quem está franzindo a testa.
— Sério? Assim, de repente? A maior decisão da sua vida e você só diz claro?
— É. Porque eu tenho certeza.
Eu me inclino até ele e coloco as mãos nas bochechas lisinhas.
— É assim que eu sei que você ainda é um garoto. Porque você tem tanta certeza.
Ele franze a testa para mim.
— Por que você está falando isso como se fosse uma coisa ruim?
Eu o solto.
— Você está sempre tão certo de si mesmo. Você nunca fica em dúvida.
— Bom, eu tenho certeza de uma coisa — diz ele, olhando diretamente à frente. — Tenho certeza de que eu nunca seria igual ao meu pai, independentemente da idade que eu tenha.
Fico em silêncio, sentindo culpa por ter implicado com ele e trazido à tona sentimentos ruins. Quero perguntar se o pai ainda está tentando se aproximar dele para fazer as pazes, mas a expressão no rosto de Peter me impede de seguir em frente. Eu só queria que o pai dele pudesse consertar as coisas entre os dois antes de o filho ir para a faculdade. Porque agora Peter ainda é um garoto, e, no fundo, acho que todos os garotos querem conhecer seus pais, independentemente de que tipo de homem eles sejam.

* * *

Depois da aula, nós vamos ao drive-thru, e Peter já está devorando o sanduíche antes de sairmos do estacionamento. Entre mordidas de sanduíche de frango frito, ele diz:
— Você estava falando sério quando disse mais cedo que não conseguia se ver casando comigo?
— Eu não disse isso!
— Você disse mais ou menos. Disse que eu ainda sou um garoto e que não podia se casar com um garoto.
Pronto, eu o magoei.
— Não foi isso que quis dizer. Eu quis dizer que não consigo me imaginar casando agora. Nós ainda somos bebês. Como poderíamos ter um bebê? — Sem pensar, acrescento depressa: — De qualquer modo, meu pai me deu um kit contraceptivo para levar para a faculdade, então nós não vamos ter que nos preocupar com uma gravidez.
Peter quase engasga no sanduíche.
— Kit contraceptivo?
— Isso. Camisinhas e… — Barreiras dentais. — Peter, você sabe o que é uma barreira dental?
— Uma o quê? É alguma coisa usada por dentistas?
Eu dou uma risada.
— Não. Essa é para sexo oral. E eu achando que você era um grande especialista e que você seria quem me ensinaria tudo na faculdade!
Meu coração acelera enquanto espero que ele faça uma piada sobre nós dois finalmente transarmos na faculdade, mas ele não faz. Ele só franze a testa e diz:
— Não gosto que seu pai ache que estamos transando quando isso não é verdade.
— Ele só quer que a gente tome cuidado. Ele trabalha com isso, lembra? — Dou um tapinha no joelho dele. — Seja como for, eu não vou engravidar, então tudo bem.
Ele amassa o guardanapo e joga no saco de papel, os olhos ainda na rua.
— Seus pais se conheceram na faculdade, não foi?
Fico surpresa por ele se lembrar disso. Eu não me lembro de ter contado essa história para ele.
— Foi.
— Quantos anos eles tinham? Dezoito? Dezenove?
Sei que tem algum motivo para Peter ficar perguntando sobre isso.
— Vinte, eu acho.
O rosto dele perde um pouco da vivacidade, mas só um pouco.
— Certo, vinte. Eu tenho dezoito e você vai fazer dezoito no mês que vem. Vinte é só dois anos a mais. Quando a gente para pra pensar, dois anos não fazem muita diferença, não é? — Ele sorri para mim. — Seus pais se conheceram com vinte anos. Nós nos conhecemos com…
— Doze — falo.
Peter franze a testa, irritado por eu ter estragado a argumentação dele.
— Tá, nós nos conhecemos quando éramos crianças, mas só ficamos juntos com dezessete…
— Eu tinha dezesseis.
— Só ficamos juntos de verdade quando nós dois tínhamos dezessete. Que é praticamente a mesma coisa que dezoito, que é praticamente a mesma coisa que vinte. — Ele está com uma expressão satisfeita, como se fosse um advogado prestes a vencer um caso.
— É uma linha de raciocínio muito forçada e deturpada. Você já pensou em ser advogado?
— Não, mas agora eu estou pensando. Quem sabe?
— A UVA tem uma ótima faculdade de direito — comento.
De repente sinto uma angústia, porque o começo da faculdade é uma coisa, mas escolher cursar direito? Isso é tão distante, e quem sabe o que vai acontecer até lá? Quando esse momento chegar, vamos ser pessoas muito diferentes. Ao pensar em Peter com vinte, vinte e poucos anos, sinto uma espécie de saudade do homem que posso nunca chegar a conhecer.
Agora, hoje, ele ainda é um garoto, e eu o conheço melhor do que ninguém, mas e se não for sempre assim? Nossos caminhos já estão se afastando, um pouco mais a cada dia, quanto mais nos aproximamos de agosto.

2 comentários:

  1. A Trina ficar gravida seria muito estranho.. maixx...

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  2. Deus a Lara viaja muito sono irmas gegême😱😱😱

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Boa leitura, E SEM SPOILER!