26 de junho de 2018

Capítulo 17

A máscara era do seu pai.
Mesmo em sonhos, Ronan não conseguia voltar para a Barns, mas havia algo da Barns vindo até ele. Na realidade, a máscara estava pendurada na sala de jantar de seus pais, bem distante de mãos curiosas. Mas, no sonho, ela ficava pendurada na altura dos olhos, na parede do modesto apartamento de Adam. Era entalhada em madeira escura e lisa, e parecia um suvenir barato para turistas. As órbitas dos olhos eram redondas e surpresas, a boca aberta em um sorriso franco, grande o suficiente para montes de dentes.
— Isso é trapaça — disse a Garota Órfã em latim.
Ela não estivera ali antes, mas estava agora. Sua presença lembrou a Ronan de uma hora para outra que ele estava sonhando. Esse momento, o momento quando ele percebia que criara tudo ali com a própria mente, era quando ele podia levar algo de volta com ele. Era seu. Ele poderia fazer o que quisesse com aquilo.
— Trapaça — ela insistiu. — Sonhar com um objeto de sonho.
Ela se referia à máscara, é claro. Era algo certamente da mente de seu pai.
— É o meu sonho — Ronan disse a ela. — Tome. Eu lhe trouxe um pouco de frango.
Ronan lhe passou uma caixa de frango frito, sobre a qual ela caiu vorazmente.
— Acho que sou um psicopompo — ela disse com a boca cheia.
— Não faço a menor ideia do que seja isso.
A garota maltrapilha enfiou uma asa de frango inteira na boca, com ossos e tudo.
— Acho que significa que eu sou um corvo. Isso torna você um garoto corvo.
Aquilo irritou Ronan por alguma razão, então ele pegou o resto do frango e o colocou sobre um móvel, que desapareceu tão logo ele se virou.
— Cabeswater desapareceu — ele disse para ela.
— Distante não é a mesma coisa que desaparecida. — Isso foi Adam quem disse. Ele parou ao lado de Ronan. Usava o uniforme da Aglionby, mas seus dedos estavam pretos de óleo. Ele encostou as mãos com graxa na máscara. Não pediu permissão, mas Ronan não o impediu. Após uma brevíssima pausa, Adam tirou a máscara da parede e a segurou na altura dos olhos.
Guinchando um aviso aterrorizado, a Garota Órfã se enfiou atrás de Ronan.
Mas Adam já estava se tornando algo mais. A máscara tinha desaparecido, ou havia se tornado o rosto de Adam, ou Adam estava entalhado na madeira. Todos os dentes atrás de seu sorriso eram famintos; o queixo elegante de Adam morria de fome. Seus olhos eram desesperados e enfurecidos. Uma veia longa e grossa se destacava em seu pescoço.
— Occidet eum! — implorou a Garota Órfã, agarrando-se à perna de Ronan.
O sonho estava se tomando um pesadelo. Ronan podia ouvir os horrores noturnos chegando, apaixonados por seu sangue e sua tristeza, as asas batendo em sincronia com os batimentos cardíacos dele. Ele não tinha controle para mandá-los embora.
Porque Adam era o horror agora. Os dentes eram algo mais, Adam era algo mais, ele era uma criatura, tão próxima que podia tocá-la. Pensar nisso era ficar imobilizado pelo horror de observar Adam ser consumido de dentro para fora.
Ronan não sabia nem dizer onde estava a máscara agora; havia apenas Adam, o monstro, um rei cheio de dentes.
A garota soluçou:
— Ronan, imploro te!
Ronan pegou o braço de Adam e disse seu nome.
Mas Adam investiu. Dente sobre dente sobre dente. Mesmo enquanto avançava para cima de Ronan, uma de suas mãos ainda puxava a agora invisível máscara, tentando se livrar. Não sobrara nada do rosto dele.
Adam tomou o pescoço de Ronan, os dedos cravados em sua pele.
Ronan não conseguia matá-lo, por mais que a Garota Órfã implorasse. Era Adam.
A boca se abriu, entrada para a maldita ruína.
Niall Lynch havia ensinado Ronan a boxear, e havia dito para o filho um dia: “Limpe sua mente da fantasia”.
Ronan limpou sua mente da fantasia.
Ele tomou a máscara. A única maneira de encontrar a borda era arrancando a mão de Adam onde ela ainda se agarrava obstinadamente à máscara.
Preparando-se para o esforço, Ronan a arrancou. Mas a máscara saiu tão facilmente quanto uma pétala de flor.
Apenas para Adam ela havia sido uma prisão.
Adam cambaleou para trás.
Na mão de Ronan, a máscara era fina como uma folha de papel, ainda quente da respiração ofegante de Adam. A Garota Órfã escondeu o rosto ao lado dele, seu corpo tremendo com os soluços. Sua voz fina saía abafada:
— Tollerere me a hic, tollerere me a hic...
Me leve daqui, me leve daqui.
Ao fundo, os horrores noturnos de Ronan haviam se aproximado. Próximos o suficiente para que se pudesse sentir o seu cheiro.
Adam estava fazendo ruídos esquisitos e terríveis. Quando Ronan levantou os olhos, viu que a máscara havia sido tudo que sobrara do rosto de Adam. Quando ele a arrancara de Adam, revelara músculos e ossos, dentes e globos oculares. O pulso de Adam bombeava um glóbulo de sangue de todo lugar em que um músculo encontrava outro músculo.
Adam se encolheu contra a parede, a vida se esvaindo dele.
Ronan agarrou a máscara, seus membros tomados pela adrenalina.
— Vou colocar a máscara de volta.
Por favor, funcione.
— Ronan!
Ele estava encolhido na cama, meio apoiado contra a parede, os fones de ouvido ainda em volta do pescoço. Seu corpo estava paralisado, como ele sempre ficava após sonhar, mas dessa vez ele podia sentir cada nervo queimando. O pesadelo ainda bombeava adrenalina através dele, embora ele não pudesse se mover para usá-la. Sua respiração vinha em grandes baforadas intermitentes. Ele não conseguia se esticar ou parar de ver o rosto arruinado de Adam.
Era de manhã. De manhã cedo, um dia cinzento, a chuva batendo na janela ao lado de sua cabeça. Ele flutuava acima de si mesmo. O garoto abaixo dele estava preso em uma batalha invisível, cada veia do corpo saltada nos braços e no pescoço.
— Ronan — sussurrou Noah. Ele se agachou a centímetros de distância, sem cor alguma naquela luz. Ele era sólido o bastante para seus joelhos deixarem uma marca na colcha, mas não para projetar qualquer tipo de sombra. — Você está acordado, você está acordado.
Por um longo minuto, Noah o fitou enquanto Ronan olhava de volta, tenso. Gradualmente, seu coração se desacelerou. Com um toque gelado, Noah desprendeu os dedos de Ronan dos espólios do sonho. A máscara. Ronan não tivera a intenção de trazê-la consigo. Ele teria de destruí-la. Talvez pudesse queimá-la.
Noah a levantou para a luz difusa da janela e teve um calafrio. A superfície da máscara estava salpicada de gotas vermelho-escuras. O DNA de quem, perguntou-se Ronan, um laboratório encontraria naquele sangue?
— O seu? — perguntou Noah, quase sem ser ouvido.
Ronan balançou a cabeça e cerrou os olhos de novo. Atrás das pálpebras fechadas, era o rosto pavoroso de Adam que ele via, não o de Noah.
No canto do quarto, um ruído se fez ouvir. Não o canto onde a gaiola de Motosserra estava. E não soava como um corvo jovem. Era um arranhar longo e lento no assoalho de madeira. Então um ruído rápido como um canudo nos raios de uma roda de bicicleta. Tck-tck-tck-tck-tck.
Era um ruído que Ronan tinha ouvido antes.
Ele engoliu.
Então abriu os olhos. Os olhos de Noah já estavam arregalados.
— Com o que você estava sonhando? — Noah perguntou.

2 comentários:

  1. Garota Órfã </3
    Deve ser difícil morar num lugar como a mente do Ronan, ou seja lá o lugar que a mente dele o leva quando ele sonha

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  2. Mano to aqui imaginando se a garota órfã não é a corvi de estimação sabe????

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Boa leitura, E SEM SPOILER!