20 de junho de 2018

Capítulo 17

Vários dias depois, Blue acordou bem antes do amanhecer. Sombras irregulares se amontoavam em seu quarto, vindas da luz noturna do corredor. Como todas as noites desde a leitura, pensamentos sobre os traços elegantes de Adam e a memória da cabeça inclinada de Gansey lhe enchiam a mente tão logo o sono a soltava de seu domínio. Blue não conseguia deixar de reproduzir repetidas vezes aquele episódio caótico em sua mente. A resposta volátil de Calla para Ronan, a linguagem íntima de Adam e Gansey, o fato de Gansey não ser apenas um espírito no caminho dos corpos. Mas não era apenas com os garotos que ela estava preocupada, embora, tristemente, não parecesse provável que Adam ligaria para ela um dia. Não, a coisa que mais a incomodava era a ideia de que sua mãe a havia proibido de fazer algo. Isso a atormentava como uma coleira.
Blue empurrou as cobertas para se levantar.
Ela tinha certo carinho pela arquitetura esquisita do número 300 da Rua Fox; era um tipo de afeição meio a contragosto, nascida mais da nostalgia que de qualquer afeto de verdade. Mas, sobre o que sentia pelo pátio nos fundos da casa, ela não tinha nenhuma dúvida. Uma faia enorme e frondosa abrigava todo o quintal. Sua bela copa, perfeitamente simétrica, estendia-se de uma linha da cerca até a outra, tão densa que tingia de um verde exuberante mesmo o dia mais quente de verão. Apenas a chuva mais pesada podia penetrar as folhas. Blue tinha um punhado de memórias de quando parava junto ao tronco imponente e liso em dias chuvosos, ouvindo as gotas sibilarem, baterem e se dispersarem ao longo da copa, sem jamais alcançar o chão. Parada embaixo da faia, ela se sentia como se fosse a árvore, como se a chuva escorresse por suas folhas e por sua casca, macia como outra pele roçando contra a dela.
Com um breve suspiro, Blue foi até a cozinha. Empurrou a porta dos fundos para abri-la, usando as duas mãos para fechá-la silenciosamente atrás de si. Após o anoitecer, o quintal era seu mundo particular, privado e obscurecido. A cerca alta de madeira, coberta por uma madressilva bagunçada, bloqueava as luzes das varandas da vizinhança, e a copa inescrutável da faia impedia a passagem da luz do luar. Normalmente, ela teria de esperar vários longos minutos para seus olhos se ajustarem à escuridão relativa, mas não naquela noite.
Naquela noite, uma luz estranha, incerta, bruxuleava no tronco da árvore. Blue hesitou junto à porta, tentando entender a luz crepitante à medida que ela se deslocava sobre a casca pálida e cinza. Colocando uma mão contra a parede lateral da casa — ainda quente do calor do dia —, ela se inclinou para frente. Dali, viu uma vela do outro lado da árvore, aninhada nas raízes enroladas e expostas da faia. Uma chama trêmula sumia, aumentava e sumia de novo.
Blue deu um passo no pátio de tijolos rachados, então outro, olhando atrás de si de relance, para ver se alguém a observava da casa. De quem era aquele projeto? A alguns metros da vela havia outro emaranhado de raízes lisas, e uma poça de água escura havia se juntado nelas. A água refletia a luz bruxuleante, como outra vela por baixo da superfície escura.
Blue segurou a respiração tensa dentro de si enquanto dava outro passo.
De blusão solto e saia longa e rodada, Neeve estava ajoelhada próxima da vela e da pequena poça nas raízes. Com as belas mãos entrelaçadas no colo, estava tão imóvel quanto a própria árvore e tão escura quanto o céu acima de sua cabeça.
Blue perdeu o fôlego de repente ao ver Neeve pela primeira vez, e então, ao erguer os olhos para seu rosto indistinto, o fôlego faltou-lhe novamente, como se a surpresa se renovasse.
— Oh — ela sussurrou. — Desculpe. Eu não sabia que você estava aqui.
Mas Neeve não respondeu. Quando Blue olhou mais de perto, viu que os olhos da tia estavam fora de foco. Mas o que Blue não suportou ver foram as sobrancelhas; de um modo estranho, elas não tinham nenhuma expressão. Ainda mais vazias que os olhos de Neeve eram aquelas sobrancelhas sem forma, esperando por informações, duas linhas neutras e retas.
O primeiro pensamento de Blue foi de certa maneira clínico — não havia convulsões em que o sintoma era simplesmente ficar sentado, imóvel? Como elas eram chamadas? Mas então ela pensou na tigela cheia de suco de uva e cranberry na mesa da cozinha. Era muito mais provável que ela tivesse interrompido algum tipo de meditação.
Mas não parecia uma meditação. Parecia... um ritual. Sua mãe não fazia rituais. Maura certa vez dissera irritada para um cliente: “Eu não sou uma bruxa”. E certa vez dissera triste para Persephone: “Eu não sou uma bruxa”. Mas talvez Neeve fosse. Blue não estava certa de quais eram as regras nessa situação.
— Quem está aí? — perguntou Neeve.
Mas não era a voz dela. Era algo mais profundo e distante.
Um pequeno calafrio desagradável subiu pelos braços de Blue. Em algum lugar na árvore, um pássaro silvou. Pelo menos ela achou que era um pássaro.
— Venha para a luz — disse Neeve.
A água se moveu nas raízes, ou talvez tenha sido meramente o reflexo em movimento da vela solitária. Quando Blue abriu seu campo de visão, viu uma estrela de cinco pontas marcada em torno da faia. Uma ponta era a vela, e outra, a poça de água escura. Uma vela apagada marcava a terceira ponta, e uma tigela vazia, a quarta. Por um momento, Blue achou que estava equivocada, que não se tratava de uma estrela de cinco pontas. Mas então ela se deu conta: Neeve era a última ponta.
— Eu sei que você está aí — disse a não Neeve na voz que soava como lugares sombrios, distantes do sol. — Eu posso sentir o seu cheiro.
Algo subiu rastejando muito lentamente pela nuca de Blue, por dentro de sua pele. Era um rastejar tão horrivelmente real que ela sentiu uma vontade enorme de lhe dar um tapa ou arranhá-lo.
Blue queria entrar e fingir que não tinha saído da casa, mas não queria deixar Neeve para trás se algo...
Blue não queria pensar sobre isso, mas pensou.
Ela não queria deixar Neeve para trás se algo a tivesse possuído.
— Estou aqui — disse Blue.
A chama da vela se estendeu longa, muito longa.
A não Neeve perguntou:
— Qual é o seu nome?
Ocorreu a Blue que ela não tinha exatamente certeza se a boca de Neeve havia se movido quando ela falou. Era difícil olhar para seu rosto.
— Neeve — mentiu Blue.
— Venha onde eu possa vê-la.
Havia definitivamente algo se movendo na pequena poça escura. A água refletia cores que não estavam na vela. Elas se deslocavam e se moviam em um padrão completamente diferente do movimento da chama.
Blue sentiu um arrepio.
— Eu sou invisível.
— Ahhhhhhh — suspirou a não Neeve.
— Quem é você? — perguntou Blue.
A chama da vela ficou muito alta e fina, a ponto de se romper. Ela não se estendia para o céu, mas para Blue.
— Neeve — disse a não Neeve.
Havia um tom matreiro na voz sombria agora. Algo sagaz e malicioso, algo que fazia Blue querer olhar para trás. Mas ela não desviou o olhar da vela, pois temia que a chama a tocasse se ela lhe desse as costas.
— Onde você está? — perguntou Blue.
— No caminho dos corpos — rosnou a não Neeve.
Blue percebeu que sua respiração formava uma nuvem à sua frente. Arrepios lhe alfinetavam os braços, rápidos e dolorosos. Na meia-luz da vela, Blue notou que a respiração de Neeve também era visível.
A nuvem da respiração de Neeve se partia sobre a poça, como se algo físico estivesse subindo da água para romper seu caminho.
Avançando com ímpeto, Blue deu um pontapé na tigela vazia, derrubou a vela apagada e chutou terra na direção da poça escura.
A vela se apagou.
Houve um minuto de completa escuridão. Não havia nenhum ruído, como se a árvore e o jardim à sua volta não estivessem mais em Henrietta. Apesar do silêncio, Blue não se sentia sozinha, e era um sentimento terrível.
Eu estou dentro de uma bolha, ela pensou furiosamente. Sou uma fortaleza. Há um vidro em toda minha volta. Posso olhar para fora, mas nada consegue entrar. Sou intocável. Todos os exercícios visuais que Maura havia passado a ela para se proteger de um ataque paranormal não pareciam nada em comparação à voz que saíra de Neeve.
Mas então não havia mais nada. Seus arrepios desapareceram tão rapidamente quanto tinham aparecido. Lentamente, seus olhos se ajustaram à escuridão — embora parecesse que a luz havia escorrido de volta para o mundo —, e ela encontrou Neeve, ainda ajoelhada ao lado da poça de água.
— Neeve — sussurrou Blue.
Por um momento, nada aconteceu, então Neeve ergueu o queixo e as mãos.
Por favor, seja Neeve. Por favor, seja Neeve.
O corpo inteiro de Blue estava pronto para correr.
Foi quando ela viu que as sobrancelhas de Neeve estavam alinhadas e firmes sobre os olhos, apesar de as mãos tremerem. Blue soltou um suspiro de alívio.
— Blue? — perguntou Neeve, com a voz soando normal. E, em seguida, com uma súbita compreensão: — Ah. Você não vai contar para a sua mãe sobre isso, vai?
Blue a encarou.
— É claro que vou! O que era isso? O que você estava fazendo?
Seu coração ainda batia rápido, e ela percebeu que estava aterrorizada, agora que podia pensar no que havia acontecido.
Neeve contemplou o pentagrama interrompido, a vela e a tigela derrubadas.
— Eu estava fazendo uma leitura.
A voz meiga apenas enfureceu Blue.
— Leitura é o que você fez antes. Isso não era a mesma coisa!
— Eu estava buscando aquele espaço que vi da outra vez. Eu esperava fazer contato com alguém que estivesse nele para descobrir o que era.
A voz de Blue não soou nem de perto tão firme quanto ela gostaria.
— Alguém falou. Não era você quando eu cheguei aqui.
— Bem — disse Neeve, parecendo um pouco aborrecida —, isso foi culpa sua. Você deixa tudo mais intenso. Eu não estava esperando que você aparecesse aqui, ou teria...
Ela deixou a frase inacabada, olhando para o toco da vela e inclinando a cabeça para o lado. Não era um gesto particularmente humano, e fez Blue se lembrar do calafrio desagradável que sentira antes.
— Teria o quê? — demandou Blue. Ela também estava um pouco contrariada, por a tia lhe atribuir, de algum modo, a culpa pelo que quer que acontecera há pouco. — O que foi aquilo? A coisa disse que estava no caminho dos corpos. Isso é o mesmo que uma linha ley?
— É claro — disse Neeve. — Henrietta está sobre uma linha ley.
Isso significava que Gansey estava certo. Também significava que Blue sabia exatamente onde corria a linha ley, pois vira o espírito de Gansey caminhar ao longo dela alguns dias antes.
— É por isso que é fácil ser médium aqui — disse Neeve. — A energia é forte.
— Energia, como a minha energia? — perguntou Blue.
Neeve fez um gesto complicado com a mão antes de pegar a vela. Ela a segurou de cabeça para baixo à sua frente e apertou o pavio para ter certeza de que ele estava inteiramente apagado.
— Energia como a sua. Ela alimenta coisas. Como vocês colocaram a questão? Torna a conversa mais alta. A lâmpada mais brilhante. Tudo que precisa de energia para viver anseia por ela, da mesma maneira que anseiam por sua energia.
— O que você viu? — perguntou Blue. — Quando você estava...
— Fazendo a leitura — Neeve terminou por ela, embora Blue não tivesse certeza de que seria assim que ela terminaria a frase. — Existe uma pessoa lá que sabe o seu nome. E existe outra pessoa que está procurando por essa coisa que você está procurando.
— Que eu estou procurando?! — ecoou Blue, assombrada.
Não havia nada que ela estivesse procurando. A não ser que Neeve estivesse falando do misterioso Glendower. Ela se lembrou daquele sentimento de conexão, de se sentir envolvida naquela rede de garotos corvos, reis adormecidos e linhas ley. De sua mãe lhe dizendo para ficar longe deles.
— Sim, você sabe o que é — respondeu Neeve. — Ah! Tudo parece tão mais claro agora...
Blue pensou na chama da vela, estendida e faminta, nas luzes inconstantes dentro da poça de água. Sentiu frio em algum lugar muito profundo dentro de si.
— Você ainda não disse o que era aquilo. Na água.
Então Neeve olhou para ela, com todas as provisões reunidas nos braços. Seu olhar era inquebrantável e poderia durar uma eternidade.
— Porque eu não faço ideia — disse ela.

5 comentários:

  1. "— O que você viu? — perguntou Blue. — Quando você estava..."
    Pode deixar que eu completo: sendo possuída por um espírito maligno
    Que q foi isso minha gente. Eu q já li isso um monte de vezes até hoje n sei do que se trata (ou n lembro, hmmm). Assustador

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  2. Eu não entendi, mas tô compreendendo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!