3 de junho de 2018

Capítulo 17

Que beleza de dragões
Mas é uma pena
Ele vão me matar já

ATROPELAR PESSOAS COM uma carruagem é muito bom. Eu, como qualquer outra deidade, gosto muito de fazer isso. Mas não gostei nem um pouco de ser atropelado.
Meg ficou firme quando os dragões vieram para cima da gente, o que não sei se foi admirável ou suicida. Eu estava tentando decidir se me escondia atrás dela ou pulava para longe, ambas opções bem menos admiráveis, mas também menos suicidas. Até que as escolhas se tornaram irrelevantes: Piper lançou a adaga, acertando em cheio o olho do dragão da esquerda.
O monstro berrou de dor e se jogou para o lado, empurrando o dragão da direita, mudando a rota da carruagem. Medeia passou direto por nós, quase se tornando a próxima vítima das espadas de Meg, e sumiu na escuridão, brigando com os bichinhos numa torrente de insultos em cólquido antigo, uma língua que ninguém mais falava, mas que continha vinte e sete palavras diferentes para matar e nenhum jeito de dizer Apolo arrasa. Como eu odiava aquela gente.
— Tudo bem com vocês? — perguntou Piper.
Ela estava com a ponta do nariz vermelha como se a pele estivesse queimada pelo sol, e a pena de harpia em seu cabelo soltava fumaça, típico resultado de um encontro muito íntimo com lagartos superaquecidos.
— Tudo — resmungou Meg. — Nem consegui bater em nada.
Indiquei a bainha vazia da faca de Piper.
— Belo arremesso.
— Pois é. Só queria ter mais adagas. Acho que vou precisar usar os dardos da zarabatana.
Meg balançou a cabeça.
— Contra aqueles dragões? Você viu o couro daqueles bichos? Pode deixar que eu cuido deles com minhas espadas.
Medeia continuava gritando ao longe, tentando controlar as feras. Um rangido alto de rodas anunciou que a carruagem estava voltando para o segundo ataque.
— Meg, Medeia só precisa botar charme em uma palavra para derrotar você. Basta ela mandar um tropece na hora certa...
Meg fez cara feia para mim, como se fosse culpa minha a feiticeira poder usar charme contra ela.
— Será que temos como deixar essa mulher mágica muda?
— Acho mais fácil tapar os ouvidos — sugeri.
Meg recolheu as espadas e remexeu nos bolsos de sementes. O ribombar das rodas da carruagem ficava cada vez mais rápido e mais próximo.
— Vamos logo! — apressei-a.
Meg abriu um pacote de sementes, enfiou algumas no ouvido, apertou o nariz e expirou com força. Tufos de tremoços azuis brotaram em suas orelhas.
— Mas que coisa! — comentou Piper.
— O QUÊ? — gritou Meg.
A filha de Afrodite balançou a cabeça. Deixa pra lá.
Meg nos ofereceu as sementes de tremoço, mas recusamos. Piper devia ter resistência natural ao charme dos outros, e eu não pretendia chegar perto o bastante da feiticeira para ser seu alvo principal. Também não sofria com a fraqueza de Meg, o desejo conflitante e bem equivocado, mas mesmo assim muito poderoso, de agradar o padrasto e recuperar pelo menos algum traço daquela memória que tinha de lar e de família — desejo esse que Medeia poderia (e com certeza iria) explorar. Sem falar que eu ficava meio enjoado só de pensar em andar por aí com campânulas saindo das orelhas.
— Se preparem — avisei.
— O QUÊ?
Apontei para a carruagem de Medeia, que surgia do escuro, disparando na nossa direção. Passei o dedo no pescoço, o sinal universal de mate a feiticeira e elimine seus dragões.
Meg conjurou as espadas.
Então atacou os dragões do Sol como se não fossem criaturas com dez vezes o seu tamanho.
Medeia gritou, parecendo preocupada de verdade:
— Saia daí, garota!
Meg continuou atacando, a proteção de ouvido colorida balançando para fora das orelhas, lembrando enormes asas azuis de uma libélula gigantesca. Pouco antes de Meg e as bestas baterem de frente, Piper gritou:
— DRAGÕES, PAREM!
Medeia reagiu:
— DRAGÕES, AVANCEM!
O resultado foi o maior caos que já se viu desde o Plano Termópilas.
As bestas deram um solavanco, puxando as rédeas. O dragão da direita se lançou para a frente, e o dragão da esquerda estacou de vez. O da direita tropeçou, puxando o da esquerda para a frente, e acabou que um bateu no outro. A parelha girou, e a carruagem capotou, lançando Medeia para longe, até ela se estatelar no chão.
Antes que os dragões pudessem se recuperar, Meg atacou com suas lâminas gêmeas, decapitando primeiro o da esquerda, depois o da direita. Os golpes fizeram seus corpos reptilianos liberarem uma onda de calor tão intensa que senti o rosto arder.
Piper saiu correndo e arrancou a adaga do olho do dragão morto.
— Bom trabalho — comentou para Meg.
— O QUÊ?
Saí de trás de uma coluna de cimento, onde tinha me escondido muito corajosamente, só esperando caso meus amigos precisassem de apoio.
Poças de sangue de dragão fumegavam aos pés de Meg. Os novos brincos leguminosos fumegaram, e suas bochechas estavam vermelhas, mas ela parecia ilesa. O calor que irradiava dos corpos dos dragões do Sol já tinha começado a dissipar.
A alguns metros dali, numa vaga exclusiva para carros compactos, Medeia se levantava com dificuldade. A trança tinha se desfeito, e o cabelo escuro cobria um dos lados do rosto, escorrendo como petróleo vazando de um tanque furado. Ela cambaleou para a frente e arreganhou os dentes.
Tirei o arco do ombro e disparei uma flecha. Minha mira foi razoável, mas a força foi ridícula, mesmo para um mortal. Medeia estendeu uma das mãos, e uma lufada de vento arremessou minha flecha para longe.
— Você matou Phil e Don! — rosnou a feiticeira. — Eles estão comigo há milênios!
— O QUÊ? — perguntou Meg.
Com um gesto mais intenso, Medeia conjurou uma rajada de vento. Meg saiu voando pelo estacionamento, bateu num pilar e desabou, as espadas tilintando no asfalto.
— Meg!
Tentei correr até ela, mas senti mais uma rajada de vento rodopiar ao meu redor, me prendendo em um pequeno tufão.
Medeia riu alto.
— Fique paradinho aí, Apolo. Já, já eu falo com você. Não precisa se preocupar com a Meg. Os descendentes de Plemneu são bem resistentes. E só vou matá-la se for mesmo necessário. Nero quer a garota viva.
Os descendentes de Plemneu? Eu não sabia muito bem o que isso queria dizer, nem como se aplicava a Meg, mas pensar em ver minha amiga ao lado de Nero novamente me fez lutar com ainda mais afinco.
Eu me debati contra a miniatura de ciclone, e o vento me empurrou para trás. Foi como colocar a mão para fora da janela do Maserati do Sol indo a toda pelo céu, sentindo a força do vento de mil quilômetros por hora ameaçar quase arrancar seus dedos imortais — bem, tenho certeza de que vocês já passaram por isso também.
— E quanto a você, Piper… — Os olhos de Medeia reluziram, brilhando como gelo negro. — Você ainda se lembra dos meus servos aéreos, os venti? Eu posso simplesmente mandar um deles jogar você na parede, fazendo todos os ossos do seu corpo se quebrarem com o choque. Mas que graça isso teria? — Ela hesitou e pareceu pensar um pouco. — Na verdade, teria muita graça!
— Está com medo, é? — retrucou Piper. — Não tem coragem de me encarar, mano a mano?
Medeia soltou um muxoxo de desprezo.
— Ai, por que os heróis sempre fazem isso? Ficam tentando me provocar e me levar a fazer alguma besteira?
— Porque em geral dá certo — retrucou Piper, com doçura. Ela agachou, empunhando a zarabatana em uma das mãos e a adaga na outra, pronta para pular ou desviar, o que fosse necessário. — Você só fica dizendo que vai me matar, não para de repetir que é muito poderosa e coisa e tal, mas acaba que eu sempre venço. Não estou vendo nenhuma feiticeira poderosa, e sim uma mulher com dois dragões mortos e um penteado malfeito.
Claro que eu entendia o que Piper estava fazendo; ela estava nos dando tempo. Tempo para Meg recuperar a consciência e eu encontrar uma forma de sair daquela prisão de vento. Só que nenhuma dessas coisas parecia provável: Meg continuava imóvel onde tinha caído; por mais que tentasse, eu não conseguia abrir caminho à força naquele ventus rodopiante.
Medeia ergueu a mão para o penteado desmoronado, mas se conteve antes de tocar no cabelo.
— Você nunca me venceu, Piper McLean. A verdade é que destruir minha casa de Chicago, ano passado, foi um favor que você me fez. Se não fosse por isso, eu nunca teria conhecido meu novo amigo aqui em Los Angeles. Ah, e nossos objetivos se complementam muito bem.
— Ah, aposto que se complementam mesmo — retrucou Piper. — Você e Calígula, o imperador romano mais perverso da história! O que o Tártaro uniu ninguém pode separar. Aliás, é para lá que eu vou mandar você.
Atrás da carruagem destruída, vi os dedos de Meg McCaffrey tremerem. As leguminosas tapando suas orelhas mexeram com sua respiração. Eu nunca tinha ficado tão feliz em ver plantas se balançando na orelha de alguém!
Forcei o ombro contra o vento. Não consegui passar, mas a barreira parecia estar ficando mais fraca, como se Medeia estivesse perdendo o foco. Os venti eram espíritos muito erráticos, e, sem Medeia para mantê-los concentrados na tarefa, o servo do ar tinha grandes chances de perder o interesse e sair voando em busca de um belo pombo ou piloto de avião para incomodar.
— Mas que palavras corajosas, Piper — disse a feiticeira. — Sabe, Calígula queria matar você e Jason Grace. Teria sido mais simples. Mas eu o convenci de que seria melhor deixar você sofrer no exílio. Gostei da ideia de você e seu pai, que já foi tão famoso, presos em uma fazenda imunda em Oklahoma, os dois enlouquecendo aos poucos com o tédio e a impotência.
Piper cerrou os dentes. Ela de repente me lembrou muito a mãe, Afrodite, que fazia a mesma cara sempre que alguém na Terra comparava a própria beleza com a dela.
— Você vai lamentar ter me deixado viver.
— É bem provável. — Medeia deu de ombros. — Mas foi divertido ver seu mundo desmoronar. E o Jason, aquele rapazote adorável que tem quase o mesmo nome que meu ex-marido…
— O que tem ele? — perguntou Piper. — Se você tiver feito alguma coisa de ruim…
— Ruim? De forma alguma! Ele deve estar na escola agora, em alguma aula chata, escrevendo uma redação ou qualquer outro trabalho horrendo que adolescentes mortais são obrigados a fazer. Na última vez em que vocês dois vieram aqui no Labirinto… — Ela sorriu. — Ah, sim, claro que eu sei sobre isso. Nós deixamos que ele encontrasse a Sibila. É o único jeito de encontrá-la, sabe. Eu tenho que permitir que a pessoa chegue ao centro do Labirinto, a não ser que ela esteja usando os sapatos do imperador, claro. — Medeia riu, como se a ideia fosse engraçada. — Nossa, as botas de Calígula não combinariam nada com a sua roupa.
Meg tentou se sentar. Os óculos tinham escorregado do rosto e estavam pendurados na ponta do nariz.
Dei uma cotovelada na jaula de ciclone. O vento girava cada vez mais devagar.
Piper pegou a faca.
— O que você fez com o Jason? O que a Sibila disse?
— Ela só falou a verdade — retrucou Medeia, toda satisfeita. — Ele queria saber como encontrar o imperador, e a Sibila contou. Mas ela também contou um pouco mais do que ele perguntou, como os Oráculos sempre fazem. E a verdade foi o suficiente para destruir o pobre Jason Grace. Ele não vai mais ser nenhuma ameaça. Nem você.
— Você vai pagar por isso — rosnou Piper.
— Que maravilha! — Medeia esfregou as mãos. — Estou me sentindo muito generosa, então vou lhe conceder seu pedido: um duelo só entre nós. Escolha sua arma, menina. Eu vou escolher a minha.
Piper hesitou, sem dúvida se lembrando de como o vento tinha jogado minha flecha para longe, então pendurou a zarabatana no ombro e ficou só com a adaga.
— Uma bela arma — disse Medeia. — Bonita como Helena de Troia. Bonita como você, aliás. Mas quero lhe dar um conselho, aqui entre nós. A beleza pode ser útil, mas o poder é muito melhor. Como arma eu escolho Hélio, o titã do Sol!
Medeia ergueu os braços, e chamas explodiram ao redor dela.

4 comentários:

  1. Pelo visto alguem andou assistindo Game of Thrones

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  2. Laíres de Deus câmara campos4 de junho de 2018 19:05

    nossa... que capítulo show ! e eu ainda tô curiosa para saber a verdade... TODA a verdade.

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  3. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 04:55

    Lutar com o Titã do Sol, o cara que é quase um "Rá grego" e identificado como um equivalente grego do Frey nórdico.
    A coisa ta ruim

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  4. Que lindo... porque eu tenho certeza que existe motivos muito mais fofos e egoístas no sentido o Jason foi superprotetor em relação a Piper, por trás disso? Saber o futuro pode ser uma espécie de maldição, e acho que o Jason não encarou a situação muito bem...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!