9 de junho de 2018

Capítulo 16

FOMOS LIBERADOS MAIS cedo, e ando apressada pelo corredor para encontrar Peter no armário dele quando a sra. Duvall me para.
— Lara Jean! Você vem ao encontro esta noite?
— Hum… — Eu não me lembro de nada sobre um encontro.
Ela me repreende.
— Eu mandei um e-mail lembrando na semana passada! É uma reuniãozinha para estudantes das redondezas que passaram para a William and Mary. Alguns alunos daqui vão, mas pessoas de outras escolas também estarão lá. É uma oportunidade de conhecer gente antes de ir para lá.
— Ah… — Eu vi o e-mail, mas tinha esquecido. — Eu adoraria ir, mas não posso, tenho um… compromisso de família.
Tecnicamente, é verdade. Peter e eu vamos a uma venda de móveis usados em Richmond porque ele precisa comprar umas mesas de canto para o antiquário da mãe, e eu estou procurando uma mesa onde colocar o bolo no casamento de papai e de Trina.
A sra. Duvall me lança um olhar demorado e diz:
— Bom, tenho certeza de que vai haver outra. Muita gente faria qualquer coisa para estar no seu lugar, Lara Jean, mas certamente você já sabe disso.
— Eu sei — garanto a ela, e vou escapulindo para me encontrar com Peter.
A venda acaba sendo uma droga, ao menos para mim. Peter consegue as mesinhas, mas não vejo nada que combine com um casamento de atmosfera etérea a céu aberto. Vejo uma cômoda que talvez servisse, se eu a pintasse, ou se usasse estêncil para enchê-la de desenhos de botões de rosas, mas custa trezentos dólares, e tenho a impressão de que papai e Trina não aceitariam o preço. Tiro uma foto só por garantia.
Peter e eu vamos a um lugar sobre o qual li na internet, chamado Croaker’s Spot, onde comemos peixe frito e pão de milho amanteigado pingando de molho adocicado.
— Richmond é legal — diz ele, limpando molho do queixo. — Pena que a William and Mary não fica em Richmond. Fica mais perto da UVA.
— Só é trinta minutos mais perto. De qualquer modo, eu estava pensando e não vai demorar nem um ano inteiro até eu pedir transferência para a UVA. — Começo a contar os meses nos dedos. — São nove meses, na verdade. E vou passar as férias de inverno em casa, depois temos o recesso de primavera.
— Exatamente.

* * *

Quando chego em casa, está escuro lá fora, e papai, Trina e Kitty estão à mesa da cozinha terminando de jantar. Papai começa a se levantar quando eu entro.
— Sente-se, vou preparar um prato para você — diz ele. Com uma piscadela, comenta: — Trina fez frango com limão.
O frango com limão de Trina é só peito de frango temperado com limão e cozido com óleo Pam, mas é a especialidade dela e é bem gostoso. Eu me sento e digo:
— Não, obrigada, eu estou empanturrada.
— Serviram jantar no encontro da William and Mary? — quer saber papai, se sentando. — Como foi?
— Como você soube do encontro? — pergunto, me inclinando para fazer carinho em Simone, a cadela de Trina, que me seguiu até a cozinha e agora está sentada aos meus pés na esperança de pegar algum resto de comida.
— Mandaram um convite pelo correio. Eu coloquei na porta da geladeira!
— Ah, ops. Eu não fui. Fui a Richmond com Peter procurar uma mesa de bolo para o casamento.
Papai franze a testa.
— Você foi até Richmond no meio da semana? Atrás de uma mesa de bolo?
Oh-oh. Eu me apresso a pegar o celular para mostrar a eles.
— É meio cara, mas podemos deixar as gavetas entreabertas, cheias de rosas. Mesmo que a gente não compre exatamente essa cômoda, se vocês gostarem, tenho certeza de que conseguiria encontrar algo parecido.
Papai se inclina para olhar.
— Gavetas cheias de rosas? Me parece caro, além de nada ecologicamente correto.
— Bom, acho que dá para usar margaridas, mas o efeito não é o mesmo. — Olho para Kitty antes de continuar. — Quero voltar a falar dos vestidos das madrinhas.
— Espere um minuto, eu quero voltar a falar de você ter faltado ao encontro da sua faculdade para ir a Richmond — interrompe papai.
— Não se preocupe, pai, tenho certeza de que vai haver um monte de outros encontros até o início do ano letivo. Kitty, em relação aos vestidos das madrinhas…
Sem nem se virar para mim, Kitty diz:
— Use você a tal camisola.
Escolho ignorar o fato de que ela chamou o vestido de camisola e digo:
— Não vai ficar bom se for só eu. A beleza está no conjunto. Todas nós combinando, muito etéreas, como anjos. Assim, se torna um visual, uma coisa só. Se só eu usar, não vai dar certo. Tem que ser nós três. — Não sei quantas vezes mais eu preciso dizer a palavra “etérea” para fazer as pessoas entenderem qual é o clima desse casamento.
— Se você quer que a gente fique combinando — diz Kitty —, pode usar smoking também. Eu não me incomodaria com isso.
Respiro fundo para não acabar gritando com ela.
— Bom, vamos ver o que Margot tem a dizer sobre tudo isso.
— Margot não vai se importar com nada.
Kitty fica de pé para botar o prato na pia e, quando está de costas, eu levanto as mãos em um gesto de que vou estrangulá-la.
— Eu vi — diz ela. Eu juro, ela tem olhos na parte de trás da cabeça.
— Trina, o que você acha? — pergunto.
— Sinceramente, para mim faz a menor diferença o que vocês vão usar, mas você vai ter que chegar a um acordo com Margot e Kristen. Elas podem querer outras coisas.
— Só para você saber — comento com delicadeza —, é “não faz a menor diferença” em vez de “faz a menor diferença”. Porque, se você usar a afirmativa, quer dizer que faz diferença.
Trina revira os olhos, e Kitty se senta na cadeira e diz:
— Por que você é assim, Lara Jean?
Eu a empurro e me dirijo a Trina:
— Kristen já é uma mulher madura, então tenho certeza de que vai aceitar o que nós quisermos. Ela é adulta.
Trina não parece ter tanta certeza.
— Ela não vai querer nada com os braços de fora. Vai tentar convencer você a colocar um cardigã combinando por cima.
— Hum, não.
Trina levanta as mãos.
— Você tem que resolver isso com Kristen. Como eu falei, faz a menor diferença para mim. — Ela fica vesga olhando para mim, e eu e Kitty caímos na gargalhada.
— Espere um minuto, podemos voltar a falar desse encontro ao qual você não foi? — pergunta papai, a testa franzida. — Me pareceu um evento legal.
— Eu vou ao próximo — prometo. Claro que não estou falando sério.
Não faz sentido eu ir aos encontros e me apegar a pessoas se só vou ficar lá nove meses.

* * *

Depois de servir uma tigelinha de sorvete, subo e mando uma mensagem para Margot, para ver se ela está acordada. Ela está, então ligo na mesma hora para buscar apoio na questão do vestido, e Kitty está certa: não faz diferença para Margot.
— Eu faço o que vocês quiserem fazer.
— Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que não se manifestam em tempos de crise — comento, lambendo a colher.
Ela ri.
— Achei que os lugares mais quentes do inferno estivessem reservados para as mulheres que não ajudam outras mulheres.
— Bom, acho que o inferno tem muitos lugares bem quentes. Mas, sinceramente, você não acha que Kitty vai ficar meio boba de smoking? É um casamento pequeno, no nosso quintal. É para ser etéreo!
— Acho que ela não vai ficar mais boba que você usando uma coroa de flores. Deixe que ela use o smoking, e você pode usar sua coroa de flores, e eu vou ficar neutra. Na verdade, eu e a sra. Rothschild mal nos conhecemos, então não vejo muito sentido de eu ser madrinha. Sei que ela está fazendo isso para ser legal, mas não é necessário. É um pouco de exagero.
Agora, estou arrependida de ter tocado no assunto e forçado a questão do smoking contra a coroa de flores. A última coisa que quero é Margot pensando em não vir ao casamento. Ela, no máximo, aceita Trina. Na mesma hora, eu digo:
— Bom, nós não temos que usar coroas de flores. Você e eu poderíamos usar vestidos lisos, e Kitty, o smoking. Ficaria bem bonito.
— Como foi o encontro da William and Mary hoje? Você conheceu alguém legal?
— Como é que eu era a única que não estava sabendo desse encontro?
— Estava na porta da geladeira.
— Ah. Eu não fui.
Há uma pausa.
— Lara Jean, você já pagou a taxa de matrícula da William and Mary?
— Eu vou pagar! É até o dia primeiro de maio.
— Você está pensando em mudar de ideia?
— Não! Só não cuidei disso ainda. As coisas andam loucas aqui, com o casamento para organizar e tudo o mais.
— Parece que está virando uma grande festa. Achei que eles quisessem fazer uma coisa simples.
— Nós estamos vendo as opções. Vai ser simples. Só acho que devia ser um dia muito especial, para ficar nas nossas memórias.
Depois que desligamos o telefone, eu desço e coloco a tigela de sorvete na pia. Na volta, paro na sala, onde tem um retrato de casamento da mamãe e do papai acima da lareira. O vestido dela é de renda com mangas curtas e uma saia esvoaçante. O cabelo está preso em um coque lateral, com algumas mechas soltas. Ela usa brincos de diamante que nunca a vi usar no dia a dia. Ela quase nunca usava joias, nem maquiagem. Papai está de terno cinza, mas ainda não tem nenhum fio de cabelo grisalho; as bochechas estão lisas como um pêssego, sem barba por fazer. Ela está como me lembro dela, mas papai está bem mais jovem.
Percebo que vamos ter que tirar a foto dali. Seria desagradável para Trina ter que olhar para o retrato todos os dias. Ela não parece se incomodar com isso agora, mas, depois que estiver morando aqui, depois que eles estiverem casados, é bem provável que ela mude de opinião. Eu poderia pendurar no meu quarto, mas Margot talvez queira também. Vou perguntar isso quando ela voltar.

* * *

Kristen, a amiga de Trina, vem jantar na nossa casa esta semana, armada com uma garrafa de vinho rosé e uma pilha de revistas de noiva. Pelo jeito como Trina tinha falado de Kristen, eu estava imaginando uma pessoa intimidante e alta, mas Kristen tem a minha altura. Ela tem cabelo castanho cortado acima dos ombros e pele bronzeada. Fico impressionada com sua coleção da revista Martha Stewart Weddings, com edições de anos e anos.
— Só não amasse os cantos — diz ela, o que me faz franzir a testa. Como se eu fosse fazer uma coisa dessas. — Acho que devíamos discutir o chá de panela primeiro. — Ela está fazendo carinho em Jamie Fox-Pickle; a cabeça clara dele repousada no colo dela. Eu nunca o vi gostar de um desconhecido tão rápido, o que interpreto como bom sinal.
— Pensei que um chá poderia ser divertido — digo. — Eu faria sanduichinhos de pão sem casca e scones pequenininhos e nata…
— Eu estava pensando em uma festa no SoulCycle — diz Kristen. — Eu encomendaria tops de cores néon dizendo “Time Trina”. Nós podemos fechar uma aula!
Tento não parecer decepcionada ao fazer que sim e murmurar “Hum...”
— Pessoal, as duas ideias parecem ótimas, mas não quero chá de panela — diz Trina. Eu e Kristen ofegamos. Com um sorriso de quem pede desculpas, ela explica: — Nós já temos muita coisa. O objetivo de um chá de panela é dar à noiva tudo que ela precisa para montar a nova casa, e não consigo pensar em nada de que precisaríamos.
— Nós não temos sorveteira — comento. Ando querendo experimentar fazer sorvetes há um tempo, mas a sorveteira que quero custa mais de quatrocentos dólares. — E papai sempre fala de uma máquina de massas.
— Nós podemos comprar essas coisas. Afinal, somos adultos. — Kristen abre a boca para se opor, mas Trina diz: — Kris, estou determinada. Nada de chá de panela. Já tenho mais de quarenta anos, caramba. Já passei por isso antes.
— Não sei o que isso tem a ver — retruca Kristen, com rigidez. — O objetivo do chá de panela é fazer a noiva se sentir especial e amada. Mas tudo bem. Se for tão importante para você, não vamos fazer.
— Obrigada — diz Trina. Ela se inclina e passa o braço em volta da amiga, que faz uma expressão inflexível.
— Mas a despedida de solteira não é negociável. Você tem que ter uma. Ponto final.
— Não me oponho a isso — diz Trina, sorrindo. — Talvez nós possamos aproveitar a sua ideia da aula de SoulCycle para a despedida de solteira.
— De jeito nenhum. Nós temos que ser ambiciosas. Que tal Las Vegas? Você ama Las Vegas. Vou mandar e-mails para as meninas hoje, assim dá para o marido de Sarah arrumar uma suíte no Bellagio…
— Não sei se Las Vegas é uma boa ideia. A despedida de solteira tem que ser aqui e tem que ser liberada para menores, para as meninas poderem ir.
— Que meninas? — pergunta Kristen.
Trina aponta para mim.
— As minhas meninas. — Ela sorri para mim timidamente, e eu retribuo o sorriso, sentindo as bochechas esquentarem.
— E se nós fôssemos a um karaokê? — sugiro, e Trina bate palmas de alegria.
Kristen fica de queixo caído.
— Sem querer ofender, Lara Jean, mas o que está acontecendo aqui, Trina? Você não pode levar suas futuras enteadas para sua despedida de solteira. Isso não está certo. Não vamos poder comemorar como se deve. Como antigamente, enchendo a cara até cair, para você aproveitar seus últimos momentos de solteira.
Trina olha para mim e balança a cabeça.
— Só para deixar registrado, eu nunca “enchi a cara até cair”. — Para Kristen, ela diz: — Kris, eu não penso nelas como minhas futuras enteadas. Elas são só… as garotas. Mas não se preocupe. Nós vamos nos divertir. Margot está na faculdade e Lara Jean está praticamente lá. Elas podem ficar perto de um pouco de sangria e chardonnay.
— Você adora mesmo vinho branco — comento, e Trina dá um tapa no meu ombro.
Kristen suspira alto.
— Bom, e a caçula?
— Kitty é madura para a idade — diz Trina.
Kristen cruza os braços.
— Eu vou bater o pé nisso. Você não pode levar uma criança para uma despedida de solteira. Não é apropriado.
— Kris!
Nesse momento, sinto que tenho que me manifestar.
— Concordo com Kristen. Nós não vamos poder levar Kitty ao karaokê. Ela é muito nova. Não vão deixar uma garota de onze anos entrar.
— Mas ela vai ficar tão decepcionada.
— Ela vai superar — falo.
Kristen toma um gole de vinho rosé e diz:
— Decepção é bom para as crianças, as prepara para o mundo real, onde nem tudo gira em torno delas e do que estão sentindo.
Trina revira os olhos.
— Se você insistir em não levarmos Kitty para a despedida de solteira, eu vou insistir em não ter nada em formato de pênis. Estou falando sério, Kris. Nada de bolo de pênis, nada de canudos de pênis, nem de macarrão de pênis. Sem pênis, ponto final.
Eu fico vermelha. Existe macarrão em formato de pênis?
— Tudo bem. — Kristen faz um beicinho.
— Tudo bem. Podemos falar do casamento de verdade, por favor?
Eu corro para pegar o laptop e abro o mood board, e é nessa hora que Kitty decide nos agraciar com sua presença. Ela estava na sala vendo tevê.
— Em que ponto do planejamento estamos? — quer saber ela.
Kristen olha para ela antes de dizer:
— Vamos falar de comida.
— Que tal food trucks? — sugiro. — Tipo, um de waffle?
Kristen franze os lábios.
— Eu estava pensando em churrasco. Trina adora churrasco.
— Hum... — falo. — Mas muita gente faz churrasco, não faz? É meio…
— Batido? — sugere Kitty.
— Eu ia dizer comum. — Mas, é.
— Mas Trina adora churrasco!
— Vocês podem parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui? — diz Trina. — Eu amo churrasco. E que tal potes de vidro?
Estou esperando Kitty falar mal dos potes de conserva de novo, mas ela não comenta nada do tipo. Só diz:
— O que acham de flores comestíveis nas bebidas?
Tenho certeza de que ela roubou essa ideia de mim.
Trina faz uma dancinha na cadeira.
— Isso! Adorei!
— Podemos arrumar uma poncheira e botar umas flores flutuando — acrescento.
Kristen me olha com aprovação.
Animada, eu digo com pompa:
— Quanto aos bolos, precisamos fazer um bolo de casamento e um bolo do noivo.
— Nós precisamos mesmo de dois bolos? — pergunta Trina, roendo a unha. — Não vai ter tanta gente assim.
— Estamos no sul dos Estados Unidos. Temos que fazer um bolo do noivo. Para o bolo da cerimônia, eu estava pensando em um simples com cobertura de glacê de baunilha. — Trina sorri para mim. É o bolo favorito dela, nada complicado. Não é muito empolgante de fazer, mas é seu preferido. — Para o do papai, eu estava pensando… em um bolo de Thin Mint! Bolo de chocolate com cobertura de menta, mas com Thin Mints esmigalhados em cima.
Tenho grandes planos para esse bolo.
Desta vez, é Kitty que acena com aprovação. Pela primeira vez em semanas, sinto-me mais à vontade comigo mesma.

6 comentários:

  1. "existe macarrão em formato de pênis" 😂😂😂😂😂

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  2. Hello my twenties sendo representado no livro

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    1. Ah que Lindoooo, vc assistiu Hello my twenties? Pq eu tbm pensei na cena da festa HAHAHA

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    2. Ai alguém reparou também

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    3. OLÁ, DORAMEIRAS!!! Que bom saber que vocês gostam tmb. ❤

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Boa leitura, E SEM SPOILER!