26 de junho de 2018

Capítulo 16

E o Camaro quebrou.
Seu timing era impecável. Em circunstâncias normais, o carro estaria tomado pelo barulho: o rádio no volume máximo, a conversa animada. Não haveria público para os primeiros ruídos sutis de fluido enchendo os pulmões do Camaro.
Mas agora, silenciados pelo impossível, todos ouviram o motor estremecer por um instante. Ouviram o rádio com o volume baixo gaguejar, como se tivesse esquecido o que estava dizendo. Ouviram a ventoinha do ar-condicionado tossir educadamente.
Eles tiveram tempo suficiente para erguer a cabeça e olhar um para o outro.
Então o motor expirou.
Subitamente roubado da direção hidráulica, Gansey levou com dificuldade o carro rodando no embalo para o acostamento. Ele assobiou entre dentes, o som idêntico ao ruído dos pneus no cascalho sujo.
Então houve silêncio absoluto.
No mesmo instante, o calor começou a se fazer presente. O motor palpitou como os espasmos do pé de um moribundo. Adam repousou a testa nos joelhos e dobrou os braços atrás da cabeça.
De uma hora para outra, Ronan disparou:
— Esse carro. Essa merda de carro, cara. Se fosse um Plymouth Voyager, ele já teria sido esmagado por crimes de guerra há muito tempo.
Adam sentia que a condição do Pig resumia perfeitamente como ele se sentia. Não realmente morto, apenas quebrado. Ele era prisioneiro da questão de o que significaria para ele Cabeswater não existir mais. Por que as coisas não podem ser apenas simples?
— Adam? — perguntou Gansey.
Adam levantou a cabeça.
— Alternador. Talvez.
— Não sei o que isso quer dizer. — Gansey parecia quase aliviado que o Pig tivesse morrido. Agora ele finalmente tinha algo concreto para fazer. Se ele não podia explorar Cabeswater, podia, no mínimo, tirá-los do acostamento. — Diga em uma língua que eu compreenda.
— In indiget homo bateria — sussurrou Ronan.
— Ele está certo — disse Adam. — Se tivéssemos uma bateria nova, poderíamos voltar para casa e ver qual é o problema.
Uma bateria nova custaria uns cem dólares, mas Gansey nem sentiria a mordida.
— Guincho?
— Dia de inspeção estadual hoje — respondeu Adam. O Boyd’s era a única empresa que prestava serviço de guincho, e ele buscava carros com problemas mecânicos apenas quando não estava trabalhando na garagem. — Vai levar uma eternidade.
Ronan saltou para fora do carro e bateu a porta. A questão a respeito de Ronan
Lynch, Adam havia descoberto, era que ele não gostava de — ou não conseguia — se expressar com palavras. Então cada emoção tinha de ser soletrada de alguma outra maneira. Um punho, um fogo, uma garrafa. Agora Cabeswater estava perdida e o Pig estava danificado, e ele precisava extravasar sozinho com seu corpo. Pela janela traseira, Adam viu Ronan pegar uma pedra no acostamento e jogá-la no mato.
— Bom, isso é muito útil — disse Blue sobriamente. Ela escorregou do banco de trás para o assento do passageiro agora vazio e gritou para fora: — Isso é muito útil!
Adam não entendeu toda a resposta rosnada de Ronan, mas ouviu ao menos dois dos palavrões.
Sem se deixar impressionar, Blue pegou o telefone de Gansey.
— Tem algum lugar aonde a gente possa chegar caminhando?
Ela e Gansey baixaram a cabeça juntos para examinar a tela e murmurar sobre as opções no mapa. A imagem do cabelo escuro dela e o cabelo empoeirado dele se tocando foi como ferro quente marcando algo por dentro de Adam, mas era apenas mais uma picada em um mar de águas-vivas.
Ronan voltou, apoiando-se na janela do passageiro. Blue virou o telefone para ele.
— Talvez a gente possa ir caminhando até esse lugar.
— O Mercado Deering? — disse Ronan, a voz sumindo. — Escuta. Esse não é o lugar para conseguir uma bateria. Parece o lugar perfeito para perder a carteira. Ou a virgindade.
— Você tem uma ideia melhor? — ela demandou. — Talvez a gente possa jogar coisas no mato! Ou bater em algo! Isso resolve tudo! Talvez a gente possa ser bem machão e quebrar o que aparecer na frente!
Embora ela estivesse virada para Ronan, Adam sabia que aquelas palavras eram dirigidas para ele. Ele apoiou a testa na parte de trás do encosto de cabeça do motorista e fervilhou de vergonha e indignação. Ele pensou em como o carro estremecera antes de morrer. Usando os últimos recursos da bateria antes de não poder mais seguir em frente.
Então pensou em como Noah havia desaparecido na Dollar City enquanto ele falava com Gansey ao telefone. E agora Cabeswater tinha sumido. Utilizando-se da última carga de energia.
Mas isso não fazia sentido. Ele havia ativado a linha ley. Ela continuava explodindo transformadores na cidade de tão forte. Não deveria haver falta de energia.
— Vou ligar para o Declan — disse Gansey. — E dizer para ele trazer uma bateria.
Ronan disse para Gansey o que achava daquele plano, de maneira muito precisa, com uma série de palavras compostas que nem Adam tinha ouvido antes.
Gansey anuiu, mas também discou o número de Declan.
Depois, ele se virou para Ronan, que encostava o rosto com tanta força no topo da janela que deixou uma marca na pele.
— Desculpe. Todas as outras pessoas que eu conheço estão fora da cidade. Você não precisa falar com ele. Eu faço isso.
Ronan deu um soco no teto do Camaro e se virou de costas para ele.
Gansey se virou para Adam, agarrando-se ao próprio encosto de cabeça e olhando para trás.
— Por que ela se foi?
Adam piscou com a súbita proximidade.
— Eu não sei.
Soltando o encosto de cabeça, Gansey se virou para Blue.
— Por quê? Isso é ciência ou magia?
Adam fez um ruído, desconsiderando a questão.
— Não — disse Blue. — Eu sei o que você quer dizer. Ela desapareceu ou foi tomada?
— Talvez ela esteja invisível — sugeriu Gansey.
Adam não tinha certeza se acreditava na verdadeira invisibilidade. Ele a havia tentado e ela nunca parecia protegê-lo. Ele perguntou a Noah:
— Você ainda está por aí quando não podemos te ver?
Noah apenas piscou para ele da obscuridade do banco de trás, seus olhos líquidos e distantes. Ele estava, notou Adam, praticamente desaparecido já. Era mais o sentimento de Noah do que realmente Noah.
Ronan estava ouvindo, porque se virou com um giro e se apoiou na janela.
— Na loja, quando ele desapareceu, ele não ficou simplesmente invisível. Ele foi para outro lugar. Se você está dizendo que Cabeswater é que nem o Noah, ela não está invisível. Ela foi para algum lugar.
Houve um breve silêncio. Esse era o momento em que Gansey, se fosse Ronan, diria um palavrão. Se fosse Adam, fecharia os olhos. Se fosse Blue, perderia o controle, exasperado.
Mas Gansey simplesmente passou o polegar sobre o lábio e então se recolheu. Ele parecia instantaneamente frio e elegante, todas as emoções verdadeiras guardadas em um local não revelado. Ele abriu seu diário, fez uma anotação na margem e a colocou entre parênteses concisos. Quando fechou as páginas, qualquer que tenha sido a ansiedade que ele sentia a respeito de Cabeswater estava fechada com o restante de seus pensamentos sobre Glendower.
Algum tempo mais tarde, após Noah ter desaparecido discretamente, o Volvo de Declan planou até eles, tão silencioso quanto o Pig era barulhento.
— Me deixe passar, me deixe passar — disse Ronan para Blue enquanto ela trazia o assento do passageiro suficientemente para frente para ele entrar no carro e se acomodar no banco de trás. Ele se largou apressadamente no banco, jogando uma perna coberta pelo jeans sobre a perna de Adam e soltando a cabeça em uma postura de abandono descuidado. Quando Declan chegou perto da janela do motorista, parecia que Ronan estava dormindo há dias.
— Por sorte pude parar o que estava fazendo — disse Declan. Ele espiou dentro do carro, os olhos passando por Blue e se prendendo em Ronan no banco de trás. Seu olhar seguiu a perna do irmão para onde ela repousava sobre a de Adam, e sua expressão se endureceu.
— Obrigado, D — disse Gansey naturalmente. Sem fazer esforço, ele empurrou a porta aberta, forçando Declan para trás sem parecer fazê-lo. Ele levou a conversa para a região do para-lama dianteiro, daí surgindo uma batalha de sorrisos cordiais e gestos deliberados.
Blue observou desdenhosamente do assento do passageiro enquanto Adam observava com seriedade do banco de trás. Ao fazer isso, ele notou os ombros e o olhar de Declan e então percebeu algo surpreendente.
Declan estava com medo.
Provavelmente não era evidente para Gansey, que era completamente distraído, nem para Blue, que não sabia como Declan parecia geralmente. E os sentimentos de Ronan a respeito do irmão mais velho eram como sangue na água; ele não seria capaz de ver através das nuvens biliosas.
Mas, para Adam, que passara um bom tempo de sua vida com medo — não apenas com medo, mas tentando escondê-lo —, isso era óbvio.
A questão era do que Declan Lynch tinha medo.
— Quem deixou o seu irmão com aquele olho roxo, Ronan? — ele perguntou.
Sem abrir os olhos, Ronan respondeu:
— A mesma pessoa que detonou o nariz dele.
— E quem foi?
Ronan riu só uma vez, ha!
— Assaltantes.
O problema de conseguir de Ronan os fatos a respeito de Declan era que Ronan sempre presumia que o irmão estivesse mentindo.
É claro, normalmente ele estava.
Subitamente, a porta do motorista foi escancarada. O som e o choque foram tão violentos que Ronan esqueceu de fingir estar dormindo e Adam e Blue ficaram olhando.
Declan enfiou o corpo para dentro do carro.
— Eu sei que você quer fazer o contrário de tudo que eu digo — ele disparou — mas você precisa manter a cabeça baixa. Lembra que eu disse para você manter a cabeça baixa meses atrás? Ou esqueceu?
A voz de Ronan era lenta, petulante. Seus olhos, no entanto, meio escondidos na luz baixa e quente do interior do Camaro — eles eram terríveis.
— Eu não esqueci.
— Bom, parece que sim — disse Declan. — As pessoas estão observando. E, se fizer uma bobagem, você vai estragar as coisas para todos nós. Então não faça nenhuma bobagem. E eu sei que você esteve nas ruas de novo. Quando você perder a sua carteira de motorista, eu...
— Declan. — A voz de Gansey o interrompeu, profunda e responsável. Ele colocou uma mão sobre o ombro de Declan, puxando-o para trás delicadamente. — Está tudo bem. — Ao ver que aquilo não teve o efeito desejado, Gansey acrescentou: — Eu sei que você não quer fazer uma cena na frente da...
Os dois garotos olharam para Blue.
Os lábios dela se abriram indignados, mas as palavras de Gansey funcionaram como magia. Declan recuou no mesmo instante.
Um momento mais tarde, Gansey retornou ao Pig.
— Sinto muito, Jane — ele disse. Agora sua voz soava cansada, nem de longe lembrando o tom de persuasão tolerante que usara há pouco com Declan. Ele levantou a bateria para que eles pudessem vê-la. — Adam, você quer fazer isso?
Ele disse isso como se fosse um dia comum, como se eles estivessem voltando de uma viagem comum, como se nada estivesse errado. Os irmãos Lynch tinham brigado, mas isso era só uma prova de que ambos ainda estavam respirando. O Pig morrera, mas ele estava sempre morrendo ou se reerguendo de novo.
Mas, em tudo que Gansey não disse, em todo sentimento que ele não pintou em seu rosto, ele estava gritando: Ela se foi.

Um comentário:

  1. Sem mancada, como eu odeio o Adam. Ele é muito orgulhoso e sente ciúmes de uma menina que nem sequer o beijou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!