20 de junho de 2018

Capítulo 16

Na noite após a leitura, Gansey acordou com um ruído nada familiar e tateou em busca dos óculos. Soava um pouco como se um de seus companheiros de apartamento estivesse sendo morto por um gambá, ou possivelmente como os momentos finais de uma briga fatal entre gatos. Ele não estava certo quanto aos detalhes, mas tinha certeza de que havia morte envolvida.
Noah estava parado na porta do quarto, com uma expressão patética e muito sofrida.
— Faça parar — disse ele.
O quarto de Ronan era sagrado e, no entanto, ali estava Gansey, duas vezes na mesma semana, abrindo a porta com um empurrão. Ele encontrou a luz acesa e Ronan curvado sobre a cama, usando apenas uma cueca samba-canção. Seis meses antes, Ronan havia feito a tatuagem negra intricada que cobria a maior parte de suas costas e subia serpenteando o pescoço, e agora as linhas monocromáticas se sobressaíam na luz claustrofóbica da lâmpada, mais reais que qualquer outra coisa no quarto. Era uma tatuagem peculiar, ao mesmo tempo violenta e adorável, e toda vez que Gansey a via, descobria algo diferente no desenho. Naquela noite, aninhado em uma ravina de flores belas e perversas, havia um bico onde antes ele vira uma foice.
O som áspero ressoou pelo apartamento novamente.
— Mas que diabos é isso? — perguntou Gansey de maneira bem-humorada.
Como sempre, Ronan estava com fones de ouvido, então Gansey teve de se estender para puxá-los para baixo. A música subiu fracamente como um lamento no ar.
Ronan levantou a cabeça. Quando o fez, as flores perversas nas costas se deslocaram e se esconderam atrás das omoplatas bem definidas. Em seu colo estava o corvo ainda em formação, com a cabeça inclinada para trás e o bico aberto.
— Achei que tínhamos deixado claro o que significa uma porta fechada — disse Ronan. Ele segurava uma pinça.
— Achei que tínhamos deixado claro que a noite é para dormir.
Ronan deu de ombros.
— Talvez para você.
— Não hoje à noite. O seu pterodátilo me acordou. Por que ele está fazendo esse barulho?
Em resposta, Ronan enfiou a pinça em um saco plástico sobre o cobertor na frente dele. Gansey não tinha certeza se queria saber qual era a substância cinza na ponta da pinça. Tão logo o corvo ouviu o ruído do saco, fez aquele som sinistro novamente — um guincho irritante que se tornava um gorgolejar enquanto ele devorava a oferta. A cena inspirou ao mesmo tempo compaixão e o reflexo de vômito em Gansey.
— Assim não dá — disse ele. — Você precisa fazer ele parar.
— Ela precisa comer — respondeu Ronan. O corvo devorou mais uma porção. Dessa vez soou bastante como um aspirador de pó sobre uma salada de batata. — É só a cada duas horas nas primeiras seis semanas.
— Não dá para você deixar o pássaro no andar de baixo?
Em resposta, Ronan levantou um pouco o pequeno pássaro na direção dele.
— Você me diz.
Gansey não gostava que apelassem para sua bondade, especialmente quando ela tinha de enfrentar seu desejo de dormir. De jeito nenhum, é claro, ele forçaria o corvo escada abaixo. O bichinho era pequeno e improvável. Gansey não tinha certeza se ele era extremamente fofo ou terrivelmente feio, e se sentia incomodado que o pássaro conseguisse ser as duas coisas.
Por detrás dele, Noah disse, soando lamurioso:
— Eu não gosto dessa coisa aqui. Ela me faz lembrar...
Noah deixou a frase inacabada, como frequentemente fazia, e Ronan apontou a pinça para ele.
— Ei, cara, fique longe do meu quarto.
— Cala a boca — Gansey disse para os dois. — Isso inclui você, pássaro.
— Motosserra.
Noah se retirou, mas Gansey ficou. Por vários minutos observou o corvo engolir um lodo cinza enquanto Ronan arrulhava para o pássaro. Ele não era o Ronan com quem Gansey havia se acostumado a conviver, tampouco era o Ronan que Gansey havia encontrado pela primeira vez. Estava claro agora que os lamúrios que vinham dos fones de ouvido eram gaitas de fole irlandesas. Gansey não conseguia lembrar quando fora a última vez que Ronan havia escutado música celta. A música de Niall Lynch. De uma hora para outra, ele também sentiu saudades do pai carismático de Ronan. Mas, mais do que isso, sentiu saudades do Ronan que existia quando Niall Lynch ainda estava vivo. Aquele garoto à sua frente, com um pássaro frágil nas mãos, parecia um meio-termo.
Após um tempo, Gansey perguntou:
— O que a médium quis dizer, Ronan? Sobre o seu pai.
Ronan não levantou a cabeça, mas Gansey observou os músculos das suas costas se enrijecerem, tensionados, como se subitamente estivessem carregando peso.
— Essa é uma pergunta muito Declan.
Gansey considerou a questão.
— Não. Não creio que seja.
— Ela estava falando merda.
Gansey considerou isso, também.
— Não. Não acho que ela estava.
Ronan encontrou o aparelho de som ao lado dele na cama e apertou o botão de pausa. Quando respondeu, sua voz soou fria e desarmada.
— Ela é uma daquelas pessoas que entram na sua cabeça e saem bagunçando tudo. Ela disse aquilo porque sabia que ia causar problemas.
— De que tipo?
— Tipo você me fazendo perguntas como o Declan faria — disse Ronan, oferecendo ao corvo outra massa cinzenta, mas o pássaro apenas olhou para ele, paralisado. — Fazendo com que eu pense em coisas que não quero pensar. Esse tipo de problema. Entre outros. Aliás, o que houve com seu rosto?
Gansey coçou o queixo, pesaroso. Ele sentia a pele mal barbeada e irritada. Sabia que estava sendo distraído, mas não protestou.
— Está crescendo?
— Cara, você não vai entrar nessa de barba, vai? Achei que você estivesse brincando. Você sabe que isso deixou de ser bacana no século XIV ou sei lá quando Paul Bunyan viveu. — Ronan olhou para ele sobre o ombro. Gansey exibia aquela barba de fim de tarde que lhe crescia a qualquer hora do dia. — Pare com isso. Você parece sujo.
— Não tem importância. Ela não está crescendo. Estou fadado a ser um homem-criança.
— Se você for continuar dizendo coisas como “homem-criança”, pode ir embora — disse Ronan. — Cara, não deixe isso te desanimar. Assim que você entrar na puberdade, essa barba vai crescer lindamente. Como um maldito tapete. Quando você comer sopa, ela vai filtrar as batatas. Que nem um terrier. Você tem pelo nas pernas? Nunca notei.
Gansey não dignificou nada disso com uma resposta. Com um suspiro, ele se afastou da parede e apontou para o corvo.
— Vou voltar para a cama. Mantenha essa coisa em silêncio. Você me deve essa, Lynch.
— Como quiser — disse Ronan.
Gansey voltou para a cama, mas não se deitou. Estendeu o braço para pegar o diário, mas ele não estava ali; ele o havia deixado no Nino’s na noite da briga. Pensou em ligar para Malory, mas não sabia o que perguntar. Algo dentro dele parecia a noite, faminta, carente e negra. Ele pensou nas órbitas escuras dos olhos do cavaleiro esquelético na carta da Morte.
Um inseto zuniu na janela, o tipo de zunido que vinha de um inseto com algum tamanho. Gansey pensou em seu autoinjetor de adrenalina, longe dali, no porta-luvas do carro, distante demais para ser um antídoto útil se necessário. O inseto era provavelmente uma mosca ou uma maria-fedida ou ainda outra típula, mas, quanto mais ela ficava ali, mais Gansey considerava a ideia de que poderia ser uma vespa ou uma abelha.
Provavelmente não era.
Gansey abriu os olhos e desceu suavemente da cama, inclinando-se para pegar um sapato ao seu lado. Caminhou cuidadosamente até a janela e procurou pelo ruído do inseto. A sombra do telescópio era um monstro elegante no chão.
Apesar de o zunido ter desaparecido, ele precisou de apenas um momento para encontrar o inseto na janela: uma vespa subia rastejando pela esquadria de madeira, girando para frente e para trás. Gansey não se mexeu. Ele a observou escalar e parar, escalar e parar. As luzes da rua formavam a sombra ligeira de suas pernas, de seu corpo curvo, o ponto fino e frágil do ferrão.
Duas narrativas coexistiam na cabeça de Gansey. Uma era a imagem real: a vespa subindo a madeira, alheia à sua presença. A outra era uma imagem falsa, uma possibilidade: a vespa zunindo no ar, encontrando sua pele, inserindo-lhe o ferrão, e sua alergia tornando-o uma arma mortal.
Muito tempo atrás, sua pele fora tomada por marimbondos, as asas batendo mesmo quando seu coração não batia mais. Agora, ele sentia a garganta apertada e obstruída.
— Gansey?
A voz de Ronan soou logo atrás dele, com um timbre estranho e inicialmente irreconhecível. Gansey não se virou. A vespa acabara de mover as asas, quase levantando voo.
— Cara, que merda! — disse Ronan. Ouviram-se três passos bem próximos, o chão estalando como um tiro, e então o sapato foi arrancado da mão de Gansey.
Ronan o empurrou para o lado e bateu com o sapato tão forte na janela que o vidro quase quebrou. Após o corpo seco da vespa cair sobre a madeira do chão, Ronan o procurou na escuridão e o esmagou mais uma vez.
— Merda — disse ele de novo. — Você é idiota?
Gansey não sabia dizer como se sentia, vendo a morte rastejando a centímetros dele, sabendo que em poucos segundos ele poderia ter passado de “um estudante promissor” para “além da salvação”. Ele se virou para Ronan, que pegara cuidadosamente a vespa por uma asa quebrada, para que Gansey não pisasse nela.
— O que você queria? — ele perguntou.
— O quê? — demandou Ronan.
— Você veio aqui por algum motivo.
Com um piparote, Ronan lançou o corpo pequeno da vespa no cesto de lixo ao lado da escrivaninha. O lixo estava transbordando de papéis amassados, então o corpo repicou para fora e o forçou a encontrar uma fenda melhor para ele.
— Não consigo nem lembrar.
Gansey ficou ali parado e esperou que Ronan dissesse mais alguma coisa.
Ronan mexeu um pouco mais na vespa antes de dizer algo, e, quando finalmente disse, não olhou para Gansey.
— Que papo é esse de você e o Parrish caírem fora?
Não era o que Gansey esperara. Ele não tinha certeza de como falar sem machucar Ronan. Ele não podia mentir para ele.
— Você me conta o que ouviu, e eu te conto o que é verdade.
— O Noah me contou — disse Ronan — que, se você fosse embora, o Parrish iria com você.
Ele havia deixado que o ciúme se infiltrasse em sua voz, e isso tornou a resposta de Gansey mais fria do que poderia ter sido. Gansey tentava não favorecer ninguém.
— E o que mais o Noah te disse?
Com um esforço visível, Ronan deu um passo atrás e se recompôs. Nenhum dos irmãos Lynch gostava de parecer qualquer outra coisa que não deliberado, mesmo que fosse deliberadamente cruel.
Em vez de responder, ele perguntou:
— Você quer que eu vá junto?
Algo atingiu o peito de Gansey.
— Eu levaria todos vocês a qualquer lugar comigo.
A luz do luar fez uma estranha escultura no rosto de Ronan, um retrato duro moldado de forma incompleta por um escultor que se esquecera de trabalhar com compaixão. Ele inspirou pesadamente e soltou o ar de leve, sua respiração de fumante.
Após uma pausa, Ronan disse:
— Aquela noite. Tem alguma coisa...
Mas então parou e não disse mais nada. Era uma parada completa, do tipo que Gansey associava com segredos e culpa. Era uma parada que acontecia quando uma pessoa se decidia a confessar, mas a boca a traía no fim.
— Tem o quê?
Ronan murmurou algo e sacudiu o cesto de lixo.
— Tem o quê, Ronan?
Ele disse:
— Uma coisa com a Motosserra e a médium, e também com o Noah. Eu acho que tem algo estranho acontecendo.
Gansey não conseguia esconder a exasperação da voz.
— Estranho não me ajuda. Eu não sei o que você quer dizer com isso.
— Eu não sei, cara, é maluco. Eu não sei o que te dizer. Estranho como a sua voz no gravador — respondeu Ronan. — Estranho como a filha da médium. As coisas parecem maiores. Eu não sei bem o que estou dizendo. Achei que, de todas as pessoas, você acreditaria em mim.
— Eu não faço nem ideia do que você está me pedindo para acreditar.
Ronan disse:
— Está começando, cara.
Gansey cruzou os braços. Ele podia ver a asa negra da vespa morta, esmagada contra a trama do cesto de lixo. Então esperou que Ronan elaborasse a questão, mas tudo que o garoto disse foi:
— Se eu pegar você encarando uma vespa de novo, vou deixar que ela te mate. Que se dane.
Sem esperar por uma resposta, ele se virou e voltou para o quarto.
Lentamente, Gansey pegou o sapato de onde Ronan o havia deixado. Quando se endireitou, percebeu que Noah tinha saído de seu quarto e estava ali, ao lado dele. Seu olhar ansioso adejava de Gansey para o cesto de lixo. O corpo da vespa havia escorregado vários centímetros para baixo, mas ainda era visível.
— Que foi? — perguntou Gansey.
Alguma coisa no rosto apreensivo de Noah o fez lembrar dos rostos assustados que o cercavam, marimbondos em sua pele, o céu azul como a morte acima dele. Há muito, muito tempo, ele havia recebido outra chance, e, ultimamente, o fardo de corresponder a ela parecia mais pesado.
Ele desviou o olhar de Noah, na direção da parede de vidraças. Mesmo agora, parecia que Gansey podia sentir a presença dolorosa das montanhas próximas, como se o espaço entre ele e os picos fosse algo tangível. Era tão penoso quanto o semblante adormecido de Glendower.
Ronan estava certo. As coisas pareciam maiores. Talvez ele não tivesse encontrado a linha, ou o centro da linha, mas algo estava acontecendo, algo estava começando.
Noah disse:
— Não jogue fora.

3 comentários:

  1. O RONAN É MUITO FOFO, NÃO CONSIGO <3 <3 <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ele não devia esconder a fofura porque ele é mesmo um amoreco

      Excluir
  2. Esses meninos realmente se gostam, é bem bonitinho. Ainda não saquei o Noah

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!