3 de junho de 2018

Capítulo 16

A batalha é o charme
Você é ridícula
Já ganhei? Vamos embora?

DRAGÕES DO SOL… Odeio. E olha que eu era um deus do Sol.
Eles nem são muito grandes (para dragões). Com jeitinho, dá até para enfiar um deles num trailer. (O que, inclusive, já fiz. Vocês tinham que ter visto a cara de Hefesto quando pedi que ele entrasse no veículo para verificar o pedal do freio.) Mas os dragões do Sol compensam a falta de tamanho com perversidade.
Os gêmeos esquentadinhos de Medeia rosnaram e morderam, as presas parecendo porcelana nas fornalhas ardentes de suas bocas. Calor emanava das escamas douradas. As asas, dobradas nas costas, brilhavam como painéis solares. Mas a pior parte eram os olhos laranja reluzentes…
Piper me cutucou.
— Para de olhar — avisou ela. — Eles vão deixar você paralisado.
— Eu sei — murmurei, embora minhas pernas já estivessem quase se transformando em pedra.
Eu havia esquecido que não era mais deus e que, portanto, não era mais imune a coisinhas insignificantes como olhares petrificadores de dragões do Sol e, sei lá, a morte.
Piper repreendeu Meg:
— Ei! Você também.
Meg piscou, saindo do estupor.
— Que foi? Eles são bonitos.
— Obrigada, querida! — A voz de Medeia era gentil e calma. — Nós ainda não fomos apresentadas. Medeia, prazer. Você é Meg McCaffrey, obviamente. Ouvi tanto sobre você. — Ela deu um tapinha no banco da carruagem ao seu lado. — Venha, querida. Não precisa ter medo. Sou amiga do seu padrasto. Vou levar você até ele.
Meg franziu a testa, confusa. As pontas das espadas baixaram.
— O quê?
— Ela está jogando charme, tentando manipular você. — A voz de Piper me acertou como um copo de água gelada na cara. — Meg, não preste atenção nela. Apolo, você também não.
Medeia suspirou.
— É sério, Piper McLean? Vamos mesmo ter outra batalha de charme?
— Não vai ser necessário — disse Piper. — Eu venceria mais uma vez.
Os lábios de Medeia se crisparam de desgosto em uma ótima imitação do rosnado dos dragões do Sol.
— O lugar de Meg é com o padrasto. — Ela gesticulou em minha direção como se estivesse afastando lixo. — Não com esse reles pretenso deus.
— Ei! — protestei. — Se eu tivesse meus poderes…
— Mas não tem — disse Medeia. — Olhe só para você, Apolo. Pense bem no que seu pai fez com você! Mas não se preocupe, que sua infelicidade está no fim. Vou espremer qualquer poder que ainda reste nesse seu corpo mortal e usá-lo muito bem!
Meg segurou as espadas com mais força.
— Como assim? — murmurou ela. — Ei, moça da magia, que história é essa?
A feiticeira sorriu. Não usava mais a coroa de princesa da Cólquida, que era sua por direito, mas um pingente dourado ainda brilhava em seu pescoço, as tochas cruzadas de Hécate.
— Devo contar a ela, Apolo? Ou você conta? Você deve saber por que eu o trouxe até aqui.
Por que eu o trouxe até aqui.
Como se cada passo que dei desde que saí daquela caçamba de lixo em Manhattan tivesse sido engendrado, orquestrado por ela… Eis o problema: eu achava isso totalmente plausível. Aquela feiticeira tinha destruído reinos. Tinha traído o pai e ajudado Jasão a roubar o Velocino de Ouro. Matou o irmão e o cortou em pedacinhos. Assassinou os próprios filhos. Ela era a seguidora de Hécate mais brutal e sedenta por poder, e também a mais formidável. Não só isso: era também uma semideusa de sangue antigo, neta de Hélio, antigo titã do Sol.
O que significava que…
Tudo me ocorreu de uma vez, uma percepção tão horrível que meus joelhos se dobraram.
— Apolo! — gritou Piper. — Levanta!
Eu tentei, tentei de verdade, mas minhas pernas não cooperaram. Caí de quatro e soltei um gemido humilhante de dor e pavor. Ouvi um clap-clap-clap e me perguntei se as amarras que prendiam minha mente àquele crânio mortal tinham finalmente se rompido.
Foi quando percebi que Medeia me encarava, dando uma educada salva de palmas.
— Aí está. — Ela riu. — Demorou um pouco, mas até o seu cérebro lerdo acabou chegando lá.
Meg segurou meu braço.
— Você não vai desistir, Apolo — ordenou ela. — Agora me explica o que está acontecendo.
Ela me botou de pé.
Tentei formar palavras, obedecer à ordem dela, dar uma explicação. Cometi o erro de encarar Medeia, cujos olhos eram tão hipnotizantes quanto os dos dragões. No rosto dela, vi o olhar cruel e a violência latente do avô, Hélio, em seus dias de glória, antes de cair no esquecimento, antes de eu assumir o lugar dele como guia da carruagem do Sol.
Lembrei como o imperador Calígula tinha morrido. Ele estava prestes a ir embora de Roma; planejava velejar até o Egito e erguer uma nova capital lá, em uma terra onde as pessoas entendiam de deuses vivos. Ele pretendia se tornar um deus vivo: Neos Helios, o Novo Sol, não só no nome, mas literalmente. Foi por isso que os pretores não viam a hora de matá-lo, o que fizeram na noite anterior à sua partida.
Mas o que ele quer?, perguntara Grover.
Meu conselheiro espiritual sátiro estava no caminho certo.
— O objetivo de Calígula sempre foi o mesmo — gemi. — Ele quer ser o centro da criação, o novo deus o Sol. Ele quer me suplantar, assim como eu suplantei Hélio.
Medeia sorriu.
— Você era o deus certo, no lugar certo.
— O que você quer dizer com… suplantar? — perguntou Piper, inquieta.
— Substituir! — respondeu Medeia, e começou a contar nos dedos como se estivesse ensinando uma receita em um programa matinal. — Primeiro, eu extraio toda a essência imortal de Apolo, que não é muita no momento, então vai ser rápido. Depois, acrescento a essência dele ao que já tenho no caldeirão, o resto de poder do meu querido e falecido avô.
— Hélio — falei. — As chamas no Labirinto. Eu… eu reconheci a raiva dele.
— É, o vovô é meio mal-humorado mesmo. — Medeia deu de ombros. — É isso o que acontece quando sua força vital diminui até não restar praticamente nada, aí sua neta conjura você de volta um pouco de cada vez, até você ser uma tempestade de fogo linda e furiosa. Eu queria que você pudesse sofrer como Hélio, uivando por milênios em um estado de semiconsciência, acordado o suficiente para ter noção de tudo que perdeu e para sentir dor e ressentimento. Mas, ora, não temos tanto tempo. Calígula está nervoso. Vou pegar o que sobrou de você e Hélio, investir esse poder no meu amigo imperador, e voilà! Um novo deus do Sol!
Meg grunhiu.
— Que burrice — reclamou, como se Medeia tivesse sugerido uma regra nova para o pique-esconde. — Você não pode fazer isso. Não pode destruir um deus e criar um novo!
Medeia nem se deu ao trabalho de responder.
Eu sabia que o ritual que ela descrevera era completamente possível. Os imperadores de Roma tinham se tornado semidivinos só instituindo adoração entre a população. Ao longo dos séculos, vários mortais se fizeram deuses, ou foram promovidos a divindades pelos olimpianos. Meu pai, Zeus, tornou Ganimedes imortal simplesmente porque ele era fofo e sabia servir vinho!
Quanto a destruir deuses… A maioria dos titãs havia sido morta ou banida milhares de anos atrás. E ali estava eu, um mero mortal, desprovido de toda divindade pela terceira vez, simplesmente porque papai queria me dar uma lição.
Para uma feiticeira com o poder de Medeia, tal magia era possível, desde que suas vítimas estivessem fracas o bastante para serem destruídas, como os restos de um titã há muito esmaecido ou um idiota de dezesseis anos chamado Lester que caiu como um patinho na armadilha dela.
— Você destruiria seu próprio avô? — perguntei.
Medeia me olhou com desdém.
— Por que não? Vocês, deuses, são todos parentes, mas vivem tentando matar uns aos outros.
Odeio quando feiticeiras malignas têm razão.
Medeia esticou a mão para Meg.
— Agora, minha querida, suba aqui comigo. Seu lugar é com Nero. Tudo será perdoado, eu prometo.
O charme envolvia as palavras dela como o gel de Aloe Vera, gosmento e frio, mas também tranquilizador. Meg não conseguiria resistir. O passado dela, o padrasto, principalmente o Besta... ela nunca deixou de pensar neles.
— Meg — argumentou Piper —, não deixe que ninguém lhe diga o que fazer. Tome suas próprias decisões.
Bendita intuição de Piper, apelando para a teimosia de Meg. E bendito coraçãozinho determinado e coberto de mato de Meg. Ela se colocou entre mim e Medeia.
— Apolo é o meu servo burro. Você não pode ficar com ele.
A feiticeira suspirou.
— Admiro sua coragem, querida. Nero me disse que você era especial. Mas minha paciência tem limite. Devo dar a você uma amostra do que está enfrentando?
Medeia estalou as rédeas, e os dragões atacaram.

5 comentários:

  1. Damon Herondale, filho de Zeus6 de junho de 2018 04:25

    Eu achava q os Titãs, diferentes dos deuses, não estavam ligados à civilização e, por isso, não eram influenciados pelos mortais
    Por isso me pergunto como puderam forçar Hélios e Selene a se aposentarem

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    1. Alguns talvez não sofreram tanto quanto outros, mas acho que todos de certa forma ainda eram atingidos. Hélio já foi adorado e depois foi esquecido, provavelmente foi isso que o levou a decadencia, tipo pã

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  2. Piper é tão mais legal quando está longe do Jason... Demonstra muito mais personalidade. Espero que eles não voltem.
    Aaaaaaaaaaaaa já é a segunda vez que Apolo menciona Ganimedes, acho. Será que ele vai aparecer? Deveria, se eu não me engano ele é deus das chuvas, tá tendo um monte de incêndios... E eu quero shippar ele e Zeus u.u

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    1. Ganimedes não irá aparecer, provavelmente não, afinal ele se tornou a constelação de Aquário

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  3. A Meg é mais teimosa e tem o coração mais peludo que se pode imaginar, a Piper nem precisa jogar charme, só apelar a teimosia absurda dessa menina...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!